The tale of a random coffee...

Tudo começou, centenas de anos atrás, na torre dos sábios na capital do Reinado. Um dos estudiosos da torre, Cirilo o Sagaz, ousou fazer experiências negras, com mágica de sangue, magia proibida já naquela época, dado risco constante da possessão por entidades demoníacas.

Em sua mente juvenil, Cirilo via os sábios da torre como velhos retrógrados que não se utilizavam de tudo o que a magia podia lhes fornecer, então Cirilo, resolveu tomar as rédeas da situação.

O corpo ainda quente da jovem prostituta, atraída para uma entrada secundária da torre sob fala mansa e promessa de tanta prata quanto pudesse carregar, tinha as entranhas espalhadas sobre a mesa, os intestinos, cuidadosamente retirados para evitar qualquer sujeira nas demais partes.

Cirilo a frente da mesa, os olhos fechados, sangue até os cotovelos erguidos, cantava em uma língua tão antiga quantos os deuses, quando a porta subitamente explode em farpas pelo ar, a espessa tranca de metal, dobrada como um graveto, atravessou o aposento e uma janela antes de desaparecer pela noite.

Era o grande conselho dos magos...

- Tolos, não há nada que possam fazer agora, nada que sua estúpida magia verde, fraca, possa lhes ajudar. Rosnou Cirilo por entre os dentes. Mas aquele não era Cirilo, não o mesmo Cirilo que frequentou as classes de poções e encantamentos de cura e regeneração do alquimista Ally Duckorios.

Dos doze membros do conselho dos magos, apenas Undorak Kanatá, Ally Duckorios e a representante da Carta Élfica do Mar do Leste, Liriliane Dalariel sobreviveram, e não sem cicatrizes, pois o demônio que passou a dividir espaço com a alma de Cirilo em seu corpo tinha poderes e ambições próximas ao infinito.

No extremo sul do reino, nos dias de hoje, um taverneiro secava canecas recém lavadas, enquanto um bardo dedilhava pela viola tirando uma música alegre para fazer com que todos que ali estivessem, esquecessem da neve que tudo matava, fora dali.

O inverno estava sendo rigoroso, inatural até, já havia um ano de inverno com nevascas constantes, o que não era inédito, mas não havia acontecido nos últimos duzentos anos.

Duas meninas trabalhavam com o taverneiro, uma delas ficava na cozinha, providenciando comida, com o pouco de suprimentos e a outra levava as bebidas até as mesas, era uma forma do taverneiro manter ao menos algumas das suas técnicas de antigamente, espancando algum encrenqueiro que quisesse abusar de uma das meninas.

O bardo magro, alto, claros traços dos nascidos no extremo sul, que apalpava as coxas da menina não chegou a ouvir os passos do gigante que se aproximava às suas costas, o chute nas costas da cadeira foi tão forte que arremessou ambos pelo ar... A cadeira e o bêbado.

Mal o homem se pôs de pé, sentiu um polegar fechando na sua orelha esquerda, enquanto um dedo mínimo pressionava sua orelha direita... A próxima coisa que sentiu foi frio, quando se acordou, alguns minutos depois, do lado de fora da taverna, enquanto um homem de trajes negros lhe fitava.

- Posso ajudá-lo. Sussurrou o bardo em meio a um gemido, a dor veio das costelas, na certa havia levado um carinho do taverneiro gigante por aquela região.

O homem com uma cicatriz que descia do couro cabeludo, atravessava a testa, o nariz e parava no maxilar, esboçou um sorriso enquanto perguntava.

- Isso depende, recebeu um abraço do velho Gadro?

- Gadro? O taverneiro?

- Excelente, então é essa a taverna. Disse o homem passando olho pela porta. - Venha comigo, vai congelar se ficar aqui fora.

O bardo pesou por algum tempo, o calor do ambiente, contra a gigante mão do taverneiro. Vendo isso, o misterioso homem disse.

- Deixe que com Gadro eu me entendo.

O bardo riu e levantou em meio a gemidos.

O clima alegre sessou, tal como a música, e as bebidas que eram servidas. Todos fitavam o único homem em anos que tornou a voltar a taverna depois de um abraço apertado do velho Gadro. Então a voz saiu, como um trovão.

- O que essa fuinha está fazendo na minha taverna. Rosnou o taverneiro de trás do balcão enquanto erguia o braço sobre a cabeça e pegava a enorme marreta de combate.

Deu a volta no balcão e já se aproximava do bardo, quando o homem de negro saltou a sua frente tirando o capuz. De imediato o gigante parou.

- Quanto mais velho fica, mais difícil fica de te encontrar. Disse então o homem, percebendo que o taverneiro ainda estava em choque.

- Ilan, Ilan, é você mesmo?

- Mas que pergunta, homem. É claro que sou eu. Agora baixa essa marreta, me ofereça uma cumbuca de algo quente e ache um lugar para conversarmos.

Ninguém entendia, Gadro não ria, Gadro não abraçava pessoas, Gadro esmurrava pessoas, a maior parte dos clientes estava perplexo, o Bardo? O Bardo apenas dava graças por ter sido esquecido.

- Por que você me rastreou Renan? Sabe que aposentado. Não tenho mais idade pra correr com os jovens.

Debruçado sobre uma cumbuca de ensopado de carne de panela com batatas, Renan, ou Ilan, como Gadro havia chamado ainda há pouco fez sinal que esperasse pois ainda mastigava a primeira colherada. Depois de algum tempo, respondeu.

- Tenho uma oferta pra te fazer.

- E o que seria? Dinheiro eu ainda tenho da nossa última empreitada.

- Se trata de um pouco mais que apenas ouro, velho amigo. E também envolve muito ouro.

- Começo a acreditar que foi um mal presságio essa tua chegada aqui na minha taverna.

- Que tal se pudesse construir um feudo pra você? Gadro franziu o cenho. - É essa quantidade de ouro que estou falando.

- Qual é o trabalho?

- Rastrear e coletar a cabeça de um mago.

- Onde está a armação?

- O mago está desaparecido já há alguns séculos.

- Ah, ótim...

- Matou diversos magos muito poderosos durante a sua escapada, séculos atrás.

- Excele...

- E está possuído por um demônio das piores castas de Karathûr.

- Terminou? Perguntou Gadro, levantando a voz.

- Sim.

- Você está louco? Que diabos quer com uma missão como essa, homem? De que adiantará ouro infinito para um homem morto.

- Calma, calma, aliás, você já foi mais bravo, essa galhada branca sobre a sua testa está levando a tua coragem? Não estou saltando às cegas aqui.

Gadro suspirou e pareceu até diminuir a estatura. Havia se acalmado, ao menos um pouco.

- Já temos o último paradeiro do mago, e uma espécie de equipe, pré-formada, para essa jornada.

- Conte-me mais sobre esses suicidas que reuniu.

- Não. Se quiser saber mais, junte-se a mim.

Gadro rosnou algo ininteligível.

- Quanto menos gente souber sobre a nossa jornada e os envolvidos, melhor, pois o mago também conta com forças das trevas. Os gigantes do noroeste, os goblins das cavernas, orcs, ogros. Ele está reunindo forças, e a última vez que alguém reuniu as forças das trevas, não foi para defesa.




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