Rotina

Sabe quando você está tão entediado que come algo, apenas para passar o tempo? Pode ser algo que goste, e deixará seu cérebro feliz da vida... Ou uma porcaria que você já sabe que vai fazer mal, talvez até para gastar um tempo no banheiro mesmo...

Claudio estava assim, mão esquerda segurando o queixo, coluna arqueada pra planilha sem fim a sua frente... Volta e meia enrugava a testa pra ver o decote voluptuoso da secretária a uns 30 metros.

As mãos engorduradas pelos biscoitos que comia cadenciadamente à cada 12 minutos, repousavam sob o teclado ergométrico... Em uma delas, aquelas manoplas para evitar problemas por esforço repetitivo.

Neste dia específico, o ar condicionado do escritório havia estragado, devia fazer uns 37ºC na ilha onde Claudio ficava, seu computador, o mais antigo do setor, além de fazer um barulho infernal, esquentava muito e dava choques quando se encostasse no gabinete. Uma máquina do inferno, como ele mesmo chamava.

Claudio olhou para o relógio, 12 minutos, pegou um biscoito na caixa.

Seu colega de ilha lhe jogou uma buxinha de papel na cara.

- Claudio, acorda homem. Claudio inclinou o pescoço na direção do colega como se estivesse abrindo os portões de Minas Môrgul, e soltou um gutural...
- Hum?
- Aquele relatório que tu me pediu. Podia-se ver um ponto de esperança no rosto de Claudio.
- Então, não consegui fazer. A face de Claudio permaneceu imóvel, por um instante o universo parou de se mover, Claudio levantou calmamente, desengatou os cabos de seu monitor de LCD, bateu com força com o mesmo na mesa deixando-o, com um pedaço de plástico pontiagudo e foi à direção do colega de trabalho.
- Claudio? Claudio?
- Hum?
- Você realmente não está por aqui hoje né? Desculpa, cara, mas não consegui fazer o relatório.
- Ok Pedro, sem problemas. Disse Claudio enquanto uma gota de suor lhe corria pelo lado esquerdo da face.

Olhou para o relógio, 12 minutos, pegou mais um biscoito.

Esticou o olho na direção da secretária, viu que ela estava olhando direto para ele, pensou que ela havia descoberto a única coisa que ainda o agradava nesse emprego, e que ela o achava doente, ou nojento, o que para os planos dele, era basicamente a mesma coisa.

Claudio ficou tão envergonhado que acabou pegando mais um biscoito, isso quebraria todo seu cronograma de bebida de água, ida ao banheiro e sentar no vaso sanitário sem as calças, não por alguma necessidade fisiológica, apenas para esfriar a cabeça e as pernas.

Frustrado, Claudio limpou as mãos engorduradas nas calças, com a mesma eficácia de alguém que limpa as mãos sujas de óleo diesel em uma xícara de porcelana. Olhou para o lado, viu seu encarregado, suspirou.

O encarregado do seu setor sentava em uma faraônica mesa, à não mais de 10 metros de distância a sua direita, sujeito estranho, falava alto, e tinha um tom de voz tão agradável quanto a descarga de um vaso sanitário. Também tinha o hábito de passar desodorante em apenas uma das axilas, como Claudio sabia?

Era o mesmo desodorante que ele utilizava, anti-transpirante com efeito de 24 horas, e no calor do escritório, deixava um lado da camisa limpo, e com aroma agradável, enquanto o outro, uma visão do inferno, uma cachoeira de suor e um cheiro característico de enxofre. Ou seja, não bastava parecer o inferno, tinha que feder tal qual.

Olhou no relógio, haviam se passado 17 minutos desde o último biscoito, e 24 desde o penúltimo, pegou um biscoito da caixa, apenas para balancear o cronograma.

Enquanto apreciava o biscoito, pensava se o hábito do seu encarregado era relacionado a um TOC, ou apenas superstição mesmo.

Sem chegar a conclusão nenhuma, deu de ombros e voltou os olhos pra planilha.

O efeito impiedoso do açúcar começara a trabalhar forte no organismo de Claudio, levantou (com a dificuldade de um Monstro de Frankenstein) e caminhou morosamente até o bebedouro. Havia percorrido cerca de 70% do caminho, quando ouviu.

- Claudio. E o relatório das franquias? Era a adorável voz de Harvey Dent, (um apelido que Claudio dera ao seu encarregado do setor, devido a dupla personalidade de suas axilas). A rotação da terra lentamente começou a diminuir, a bolha de ar que subia pelo bebedouro parou no meio do caminho.

Claudio voltou para frente do seu terminal em silêncio, sentou, abriu a página do google e digitou "confeccionando explosivos caseiros"...

- Claudio?
- Pois não, Sérgio.
- O relatório das franquias? Está pronto? Qualquer resposta que não, "sim" traria os mesmo resultados, resolveu ser franco.
- Não, ainda não. Respondeu Claudio levando os olhos lentamente na direção do seu colega que baixou a cabeça envergonhado.
- Claudio, preciso daquele relatório pra amanhã, espero que finalize hoje.

Claudio era uma pessoa extremamente organizada, tinha todo um cronograma diário, que era estipulado no inicio de cada bimestre com o intuito de reduzir a carga de estresse.

18.30 à 19.00 - Caminhada até sua casa.
19.00 à 19.30 - Banho.
19.30 à 20.00 - "Confeccionar" um jantar.
20.00 à 20.30 - Jantar assistindo o jornal.
20.30 à 21.30 - Vadiar em frente ao seu PC.
21.30 à 22.00 - Tentar dormir.

A maior parte das pessoas não entenderia qual o problema de, em um dia apenas, fazer serão de 3 ou 4 horas. Claudio, no entanto, sendo metódico como era, perderia o horário de seu banho relaxante, que o prepararia para meia hora de culinária terapêutica (importante ressaltar que havia uma brecha de 20 minutos extra direcionados a culinária, algo que tanto bem fazia a Claudio).

A vadiagem em frente ao televisor também tinha seu efeito terapêutico, assistiria o jornal que falava todos os dias sobre as mesmas coisas (uma guerra em algum lugar onde tantas pessoas voaram pelos ares, aumento dos impostos, criminalidade, e queda na qualidade da educação e saúde), "assistiria" entre aspas mesmo, era só uma desculpa para jantar ouvindo qualquer coisa e cochilar por uns 20 minutos.

Esse tempo seria gasto com algo estressante, e não desestressante, como planejado inicialmente, isso causaria um sub-aproveitamento do período pós-estresse do próximo dia, algo que aumentaria como uma bola de neve até o final de semana.

Claudio, com a garganta seca se limitou a responder.

- Pode deixar Sérgio, encaminho o relatório hoje a noite.

Voltou para mesa, pegou dois biscoitos e foi em direção ao banheiro.


Já faziam uns dez minutos que Claudio estava sentado no vaso... As calças arriadas, a cueca pendurada num gancho de roupas, o corpo pesado e suado tão ajustado quanto poderia ficar na privada.

Claudio lembrou da sua infância, um menino mirrado que se escondia no banheiro durante o recreio para não apanhar dos moleques maiores... Perfeitamente aceitável... Involuntariamente pegou analisando os próprios braços e antebraços, percebeu pela primeira vez em anos, no quanto havia crescido, na força que tinha agora.

Em tudo que havia conquistado, seu apartamento, sua coleção de filmes, livros, hqs, card games e manuais de RPG. Bem como jogos eletrônicos e action figures.

Pensou no conhecimento que havia obtido, falava três idiomas com fluência, cozinhava muito bem, e tocava trompete.

Pensou pela primeira vez em anos... Eu não preciso baixar a cabeça toda vez...

Pegou um pouco de papel higiênico, secou as virilhas, levantou as calças e saiu do banheiro com ar de um guerreiro viking, atravessou o corredor com passos largos, punhos cerrados, e sobrancelhas que pareciam rochedos... Quando o ápice da sua concentração foi quebrado por duas pessoas que passaram correndo ao seu lado.

Claudio parou... Pensou por um momento, e voltou a caminhar naquela morosidade habitual...

Quando chegou a sua área de trabalho, viu um aglomerado de pessoas próximas as janelas que ficavam bem a frente da mesa do seu supervisor... Ignorou como só ele podia (Claudio era conhecido pela habilidade sobre humana de sequer fingir prestar atenção naquilo que não o interessasse). Caminhou até sua mesa, abriu a planilha dos relatórios, e continuou trabalhando.

Demorou cerca de vinte minutos até que ele ouviu.

- Claudio. Era o duas axilas.
- Pois não chefe?
- Você não vai embora?
- Ué, por que chefe?
- É sério que você não viu o que aconteceu aqui?
- Como assim?
- O Pedro saltou por aquela janela. O supervisor até apontou para janela, mas Claudio só viu a axila encharcada de suor.
- Nossa, quando isso?
- Meia hora atrás.
- Veja só...

Claudio entrou na empresa ao mesmo tempo que Pedro, mais ou menos sete anos atrás, na verdade Claudio entrou um mês depois... Algo que o atormentou enquanto caminhava para casa, será que teria o mesmo destino de Pedro?


Enquanto Claudio voltava para casa em estado semi-catatônico, não pela pessoa mais próxima de um amigo que teve nos últimos sete anos ter se suicidado, mas sim por que este poderia ser o destino dele no próximo mês... E isso... Isso lhe preocupava.

Chegou em casa, foi até a geladeira, pegou uma cerveja, e caminhou até o sofá, tirou os sapatos e sentou na frente da televisão, ligou ela, e bebeu a cerveja calmamente em quando passava uma notícia qualquer sobre uma guerra qualquer, em um fim de mundo qualquer.

Depois disso, deixou a lata sob o braço do sofá, e foi até o banheiro, tomou um banho de cerca de uma hora, pensou na vida, na família, de quem nem lembrava direito, até tinha boa relação com os pais, só não parecia conseguir se aproximar mais, não entendia a razão, e também não se importara, até então.

Saiu do banho, ainda meio molhado, foi até a cozinha, pegou uma maçã, e sentou no sofá com o telefone celular... Demorou cerca de 20 minutos até reunir a disposição para ligar para os pais...

- Alo.
- Sim, pois não.
- Oi mãe.
- Claudio... O que aconteceu? Você está bem? Putz, pensou Claudio, a mulher não ouve falar de mim a tanto tempo que acha que eu só liguei por que algo sério aconteceu.
- Aconteceu nada não mãe, só liguei pra saber como você e o pai estão. Seguiu-se um silêncio desconfortável.
- Você tem certeza de que está bem?
- Estou sim mãe.
- Hum, ok... Seu pai e eu estamos bem. Estamos com saudade, por que não vem jantar com a gente no sábado? Claudio olhou para cima (estranho isso né, por que quando tentamos lembrar de algo, fechamos os olhos e olhamos para cima?) e pensou em voz alta.
- Hoje é quinta né? Pode ser sim. Por incrível que pareça, Claudio ainda conversou mais sete minutos com sua mãe, antes de seu pai pegar o telefone e falar por mais uns dez minutos.

Claudio desligou o telefone, olhou para o relógio de parede na cozinha, já passava das oito da noite, lembrou vagamente do seu cronograma, sacudiu a cabeça, foi até a geladeira, pegou três cervejas e foi para sacada do seu apartamento... E lá ficou pelo resto da noite, refletindo sobre o trabalho, Pedro, seus pais e o local de fabricação daquela cerveja maravilhosa e se o fato da mesma estar a mais de ano na geladeira a deixava melhor de alguma forma.


Claudio também tinha uma rotina de preparação para o trabalho. Todos os dias acordava às seis horas da manhã, tomava um banho de cerca de vinte minutos, depois fazia uma omelete francesa...

Omelete francesa

Por Debora Leite
Ingredientes

  • 2 ovos
  • 2 colheres (sopa) de leite
  • Sal à gosto
  • 1 colher (sopa) de manteiga
  • 1/4 xícara (chá) de queijo ralado

Modo de preparo

Em uma tigela média bata ligeiramente os ovos.
Junte o leite e sal à gosto.
Misture.
Coloque a manteiga ou margarina em uma frigideira anti aderente.
Leve ao fogo brando para derreter.
Despeje a mistura de ovos preparada na frigideira.
Conforme as bordas da omelete começarem a engrossar, empurre, com uma espátula ou garfo, as partes cozidas para o centro (para assim deixar que a parte crua vá para o fundo da frigideira).
Agite e incline a frigideira para ajudar o fluxo dos ovos crus.
Não mexa.
Quando os ovos não escorrerem mais, mas a superficie ainda estiver úmida, aumente o fogo somente para dourar a parte de baixo.
Polvilhe com o queijo ralado.
Solte as bordas cuidadosamente.
Dobre a omelete ao meio.
Deixe escorregar para uma travessa

Rendimento:  1 porção


Fazia também um pão com geléia (segundas, quartas e sextas de uva... nas terças quintas e sábados, de morango... no domingo, comia margarina) e café, em uma cumbuca de sopa, café muito forte e puro, como sempre.

Esse café da manhã reforçado não apenas lhe dava os nutrientes para sobreviver até o almoço, como lhe dava o prazer de passar mais algum tempo na cozinha enquanto separava os restos da janta de o dia anterior em uma "vianda" para o almoço do dia.

Mas hoje não, ainda meio de ressaca, Claudio acordou eram precisamente, 6:10 da manhã, quando olhou para o relógio ao lado da cama iniciou uma sinfonia de preguejos, o suficiente para uma criança começar a chorar no apartamento ao lado.

Sentou na cama, sentiu o tempo parar por alguns instantes quando um homem de terno invadiu seu quarto com uma equipe de cinegrafistas, todos sorriam e falavam alto.
- Parabéns senhor Claudio, o senhor ganhou na loteria... Dizia o cara de terno. Claudio riu, deu um tapa na própria cara, caminhou até o banheiro enquanto coçava a bunda...

Exatos 40 minutos depois de coçar a bunda, Claudio saía de casa em direção ao trabalho... Dado o atraso de 10 minutos, ou tomava café, ou preparava o almoço... Decidiu pelo café, substituiria o almoço pelas rosquinhas que repousavam na terceira gaveta de seu "gaveteiro".

Chegando ao escritório, se deparou com Harvey Dent...
- Claudio? O que você está fazendo aqui. Claudio não entendeu.
- Não entendi.
- Não te falei ontem pra tirar o resto da semana de folga?
- Eh... Não...
- Hum, desculpe fazer com que levantasse cedo então. Quero que tire o resto da semana de folga.
- Mas por que chefe?
- Você e Pedro começaram juntos nessa empresa a mais de 5 anos, lembro quando vocês entraram, desde então trabalharam a não mais de 5 metros de distância um do outro quarenta horas por semana. Imagino que essa experiência, não tenha lhe feito bem, então, aproveite e descanse. Claudio sentiu, pela primeira vez em anos, a vontade de abraçar alguém, se descabelar chorando... Limitou-se a dizer...
- Obrigado chefe, nos vemos na segunda então.
- Até segunda Claudio.


Claudio se sentia estranho naquela manhã de terça feira, a coisa que mais se aproximava de um amigo havia se suicidado no dia anterior... Não havia qualquer sentimentalismo pelo homem que mal conhecia, apesar de sentar a frente dele por mais ou menos seis anos... Não, o problema todo estava em que este homem entrara na empresa um mês antes de Claudio, e isso preocupava muito nosso anti-herói.

Seria aquilo um tipo de função final a ser cumprida pelo funcionário da empresa, algo que estivesse no contrato de trabalho de Claudio, em letras miúdas, mas que o desespero por uma renda que pudesse sustentar seus vícios mais absurdos (games e culinária) impediu de ler?

Não, ainda ontem Claudio decidiu que aquele não seria seu futuro, desrespeitou todos seus cronogramas, encheu a cara com três cervejas (fazia anos que não bebia mais que uma lata por vez), e ligou para seus pais sem motivo algum, apenas para conversar... E o que fazia com que ele se sentia estranho nesta manhã de terça feira? Ele se sentia bem com essa mudança do dia anterior... Exceto pela morte do... Eh... Ele não conseguia nem lembrar do nome dele... Decidiu que esse seria sua primeira mudança... Se importaria com as pessoas...

Sua primeira missão seria descobrir tudo sobre o homem que trabalhou durante seis anos a sua frente... Claudio decidiu que se importaria tanto com ele, que queria sentir falta dele, como se fossem grandes amigos.

Para maioria de nós, o que Claudio estava prestes a fazer era uma grande burrada... Que tipo de pessoa doente procura se aproximar de alguém que está morto? Seria o mesmo que infringir um ferimento em você mesmo, e continuar impedindo-o de cicatrizar... Estupidez pura, não?

Para Claudio não... Claudio nunca sentiu falta de ninguém, com exceção da secretária voluptuosa do seu trabalho... O que nós levava a segunda missão... Se aproximar daquela secretária... Claudio decidiu que sua vida não seria mais a de um apreciador da obra de Van Gogh... Ele próprio cortaria sua orelha se fosse necessário... Mas ELE SERIA VAN GOGH...

Mas nosso pseudo-Van Gogh não tinha nenhum pincel na mão... E sim uma caneta hidrocor vermelha que usava para traçar suas missões... Sim, ele tinha escrito missões mesmo, por alguma razão, detestava a palavra "meta"... Quando ouvia a palavra meta, sempre lembrava de um professor de administração que falava em metas, e mais metas... Só que em seu caso, virara professor não por vocação, mas por ter falido todas as empresas que abriu ou gerenciou... Chegando a conclusão de que o mercado de trabalho não era para si próprio... Resolveu ensinar... Para desespero da classe educadora...

Assim que chegou a conclusão de que seria Van Gogh, Claudio (incoerência?) decidiu que aprenderia caligrafia oriental, Ainda não havia decidido de qual país mas pensou que qualquer um valeria, já que ele não entendia absolutamente nada sobre o tema... Divagou um pouco... Googleou outrou pouco... Chegou a conclusão que a japonesa era a que mais o agradaria, algo quanto aos traços mais leves que da maioria dos outros países... Claudio olhou para o monitor... Olhou para o papel no seu colo e escreveu...

Missão 3.1 - Iniciar caderno de caligrafia, escrita natal...


Depois de apontar essas 3.1 missões para sua vida dali em diante, Claudio fixou o papel na geladeira com seus imãs de Dragon Ball Z, e voltou para o computador, acessou quatro ou cinco sites de redes sociais, se cadastrou em todos, e iniciou a busca pelo seu amigo morto, em duas delas o encontrou, numa delas o perfil estava mais atualizados, haviam listas de interesses, livros, filmes, desenhos animados, comidas, personalidades, frases, material mais que suficiente para encerrar a primeira missão de Claudio.

Interesses. Esportes, boa culinária e vinhos.

Livros. Douglas Adams, Eiji Yoshikawa e Stephen King.

Filmes. Steven Spielberg, Ridley Scott e Martin Scorsese basicamente.

Desenhos animados. Dragon Ball, Patlabor, basicamente qualquer anime :)

Comidas. Massas, carnes e comida japonesa.

Personalidades. Stephen Hawking, Solid Snake, Jack Ryan, Myamoto Musashi, Goku, Ellen Ripley.

Frases. "War, war never changes"

Claudio estava com os olhos mareados e a boca escancarada ao terminar de ler o profile de Pedro, deus abençõe as redes sociais, não fossem elas, não lembraríamos dos nomes da metade das pessoas, pensou Claudio.

A pessoa que esteve na sua frente pelos últimos 5, quase 6 anos era basicamente identica a ele, ele conhecia citações de Fallout... Isso não era para qualquer um... Claudio sentiu o erro que havia cometido nos últimos anos, sentiu que uma pessoa extraordinária vivia a sua frente, e por pura alienação, Claudio jamais se aproximou, inclusive fazia o máximo para se afastar.

Eram duas horas da tarde, Claudio caminhava com certa dificuldade, por alguma razão sentia suas pernas bambas, trêmulas... Ele entrou no recinto, caminhou por entre as pessoas, chegou ao pé do caixão, olhou para o caixão fechado, e pediu perdão ao amigo por nunca ter agido como tal, por nunca ter agido com cortesia ou mesmo a empatia intrinscica que a maioria das pessoas tem para com o próximo.

Enquanto cumprimentava os familiares de Pedro, ao redor do caixão, uma lágrima correu pelo rosto de Claudio... A primeira missão fora cumprida.

Enquanto voltava para casa, passou a frente de uma floricultura, olhou pela janela e viu um vaso de tulipas, adorava tulipas, o aroma, a beleza sutil... Entrou, e se dirigiu a bela atendente, pela primeira vez em sua vida, sentia-se seguro ao falar com uma mulher.

- Boa tarde moça, quanto custa esse vaso de tulipas? Por incrível que pareça, a atendente pareceu ficar envergonhada, talvez fosse tímida, Claudio pensou.
- Boa tarde senhor, vou verificar.

Claudio deixou a floricultura com o vaso de tulipas nos braços e uma dúvida na cabeça. No momento em que efetuou a compra, seguiu o diálogo.,,

- Perfeito, vou levar.
- Gostaria de fazer uma cesta, com algo mais de presente?
- Hum, não, são para mim mesmo.
- Hummm... (Sim, com três M's mesmo) respondeu ela com um sorrisinho e continuou... Solteiro?
- Sim, apenas gosto da fragância das tulipas e acho muito bonitas. A atendente perdeu a fala... E manteve aquele sorrisinho bobo que todos conhecemos por alguns décimos de segundos... Tempo o suficiente até mesmo para Claudio notar.

Mas o que significaria aquilo... Por que aquele sorriso, será que era sarcasmo quanto a questão do solteiro? Hum... Por enquanto, Claudio ainda não tinha base de entendimento o suficiente para interpretar aquele gesto...

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