O último Pedro...

Tive a ideia abaixo enquanto conversava com o amigo @fskolaude no msn ontem sobre Walking Dead, então perdoem se parece plágio...

Pedro repentinamente sentiu frio, levou a mão a cabeça, e sentiu os cabelos molhados, abriu os olhos com dificuldade... Estava deitado na diagonal e espremido, olhou para os lados e viu que estava dentro do seu carro, nada anormal, se o mesmo não estivesse de cabeça para baixo em uma vala, na beira do asfalto.

Se arrastou para fora do carro com muita dificuldade, e subiu a encosta até o asfalto. Olhou no relógio, eram 3 horas da tarde, mas de qual dia?

Ainda de pé no acostamento, tentou lembrar o que aconteceu... Lembrava de estar em uma festa na cidade vizinha a sua, estava com 2 amigos, não havia bebido muito, quando no meio do nada, faltando apenas uns dois quilômetros da sua cidade, viu um andarilho no meio da estrada. Como vinha muito rápido, não conseguiu desviar a tempo, arremessou o homem vários metros pelo ar e capotou o carro diversas vezes, indo parar na vala, de cabeça para baixo, onde provavelmente ficou desmaiado pela noite.

Seu próximo impulso foi caminhar pelo asfalto em busca do corpo do andarilho. Não encontrou nada além de marcas de sangue e um sapato. Teria o homem sobrevivido? Será que alguém havia passado no local e o levou à um hospital?

A ressaca já dava sinais que ia passar aquela adorável tarde de verão com Pedro, a sede e dor de cabeça eram insuportáveis. Pedro tinha várias latas de energético dentro do carro, mas nenhuma garrafa d'água. Então esses cinco quilômetros até a cidade seriam, definitivamente, muito cansativos...

Nuvens se formavam no horizonte, se moviam em  velocidade passando pela cidade que cada vez ficava mais próxima, e passavam por Pedro. "O tempo estava fechando", como costumavam dizer nessas paragens.

Uma brisa adorável já movia as pastagens de ambos os lados do asfalto, a chuva estava cada vez mais próxima, embora soubesse que aquela região era conhecida pelas ferozes tempestades de verão, Pedro estava cansado demais para se importar com isso, decidiu que não apressaria o passo por nada, nem por um chuvisco qualquer.

Só que a chuva que veio não era exatamente um chuvisco.

Pedro não conseguia ver mais de 5 metros a frente dos olhos quando a tempestade começou, pingos pesados, ao mesmo tempo que refrescavam, matavam a sede, e diminuíam a dor de cabeça, encharcavam a roupa e pareciam cansar o jovem que sentia cada vez mais os efeitos da noitada e provavelmente do acidente de transito.

Depois de não mais de 10 minutos sem trégua da tempestade, Pedro viu o galpão do velho Tiago, o primeiro morador da cidadezinha com não mais de 15 mil habitantes e aquele que morava mais longe da cidade, apressou o passo, desceu do asfalto já correndo, quase caiu na entrada de pedras, destrancou a enorme porta e entrou.

Já estava no galpão por cerca de meia hora, quando ouviu o tempo entre uma gota e outra no telhado de zinco, gradualmente aumentar até simplesmente parar.

Abriu a porta do galpão com calma, sentiu aquela brisa gostosa depois da chuva, a temperatura era amena e o céu nublado, espiou três ou quatro vezes pelas frestas da porta do galpão antes de reunir a coragem necessária para sair... Todos na cidade sabiam que o velho Tiago tinha uma espingarda de dois canos, e apesar de seus 70 anos, tinha a mira de um atirador de elite.

Caminhou a distância entre o galpão e a casa, não mais de cinquenta metros em cerca de 4 minutos, andava abaixado, com os olhos arregalados. Nisso sente o metal frio encostando na têmpora direita.

- Explique-se.

- Eu, eu...
- Eu? Eu o que moleque? O que você está fazendo na minha propriedade?
- Eu, eu...
- Se você disser "eu, eu" mais uma vez juro que atiro. Pedro parou, respirou fundo, recuperou o fôlego e iniciou.

- Senhor Tiago, peço desculpas pela invasão, mas me acidentei de carro a noite passada, capotei o carro uns três quilômetros daqui. E só acordei pouco tempo atrás, como não consegui nenhuma carona, tive que caminhar até aqui, agora só ia bater a sua porta pra ver se não me consegue um sanduíche ou algo do tipo... Estou morrendo de fome.
- Você disse que se acidentou na noite passada. De onde vinha?
- De uma festa na cidade vizinha. Ao ouvir isso, o senhor baixou a arma, colocou a mão no ombro de Pedro e disse.
- Sobre aquele sanduíche, acho que tenho um pouco de pão em casa.

Pedro comia como se fosse a primeira vez em meses que colocava comida na boca, para surpresa dele, o velho rabugento que ainda há pouco tinha uma espingarda apontada para sua cabeça, fez seis sanduíches maravilhosos, e ainda lhe deu uma enorme jarra de suco de laranja.
- Como é o seu nome garoto?
- Pedro. Respondeu o jovem com meio sanduíche na boca.
- Pedro, acho que você não esteve naquela vala apenas por uma noite. Pedro parou largou o sanduíche lentamente e começou a mastigar mais devagar.
- Como assim?
- Já fazem três dias que a cidade está em quarentena, ninguém sai, ninguém entra.
- Por que isso?
- Algum tipo de doença, ou acidente com radioatividade, não entendi muito bem. Mas falaram no rádio para não nos alarmarmos, apenas trancarmos as portas e janelas e esperar pelo exército.
- Mas como eu consegui vir até aqui, não deveria haver algum bloqueio na estrada?
- Acredito que o bloqueio seja além de onde você se acidentou.
- Três dias, o senhor disse?
- Sim, Pedro. Agora Pedro entendia o por que da fome e sede absurdas que sentiu, entendeu também o por que das dores de cabeça e cãibras que sentiu até ali. Sentiu também ânsia de vômito pela revelação, ou talvez por ter comido rápido demais.
- Posso usar o seu banheiro, senhor Tiago?
- Claro, siga por aquele corredor, é a terceira porta a direita. Pedro foi até o banheiro, sentou no vaso por alguns instantes, até que sentiu um cheiro estranho, isso aliado ao enjoo anterior, fez com que ele não conseguisse mais segurar o vômito.

Quando levantou a cabeça, viu muitas moscas na janela do banheiro, que ficava atrás do vaso sanitário, ficou de pé e viu, do lado de fora da casa, à uns vinte metros, um corpo estendido no chão.


Pedro abriu a janela, o fedor aumentou, Pedro voltou a se inclinar na direção do vaso sanitário... Depois de usar e lentamente baixar a tampa do vaso, Pedro não puxou a descarga para que o velho não ouvisse que tinha terminado, bebeu um pouco d'água, lavou o rosto e desceu pela janela do banheiro... Deu mais uma olhada no corpo atirado no meio do gramado, e saiu correndo em direção ao milharal.

O velho Tiago tinha uma enorme plantação de grãos, fornecia milho pra três grandes redes de fast food, enfim... Era uma enorme plantação, quase um deserto verde.

Poucos minutos depois Pedro ouviu um grito a distância, imaginou que fosse a voz do velho, tentou apressar o passo, mas seu corpo ainda estava exausto dos últimos dias e eventos: - O que será que deu no velho pra matar alguém? Pensava Pedro, subitamente pensou: - será que ele pôs algo naqueles sanduíches?!

Lá pelas tantas, completamente exausto, Pedro sentou, no meio do milharal mesmo... Aproveitou esse tempo pra pensar em como voltar pra estrada.

- Beleza, então eu saí pela janela da esquerda da casa do velho... Corri sempre em linha reta... Basta seguir a esquerda aqui que volto pra estrada...

Mas Pedro não voltou pra estrada, mesmo depois de uma hora e meia de caminhada... Então a dúvida veio a tona: - Será que o banheiro ficava na parede esquerda da casa? Será que eu volto, ou continuo adiante? Sigo pra esquerda, direita... MERDA!!! Gritou Pedro no meio do milharal... 

O céu estava nublado, Pedro não tinha notado isso, uma brisa, daquelas que antecede a chuva forte começou a soprar... Olhou para seus antebraços, vermelhos, por correr pelo milharal, algumas feridas abertas com um pouco de sangue escorrendo... O vento não facilitava em nada, inclusive dificultava, pois se antes, Pedro podia simplesmente ficar parado, agora, cada pé de milho parecia um chicote na sua pele...

E o vento começou a aumentar, exponencialmente, até que, de tão forte, começou a deitar o milharal. Essa região do estado era conhecida por tornados, mas já havia um ou dois anos sem sequer uma tempestade tão forte, Pedro pensava que não podia ter tanto azar em apenas um dia...

Os pés de milho pareciam dançar com Pedro, ora deitando para esquerda, ora levantando, ora deitando, ora levantando... Pedro, enquanto isso, mal conseguia deixar os olhos abertos, pois ainda começava a chover... Subitamente, Pedro ficou alerta... Seus olhos mantinham-se predominantemente abertos e mesmo as chicotadas do milharal pararam de lhe roubar a atenção...

Pedro, teve aquela sensação de urgência, que todos temos quando o perigo está muito próximo... Deu três passos para trás: - Maldito vento que não baixa o milho agora... Pensou consigo... Cerrou os punhos e pensou, seja o que deus quiser... Começou a caminhar lentamente na direção da figura que viu 30 ou 40 metros a frente, no topo de uma grande rocha...

Pedro diminuiu cada vez mais a passada de perna, começou a se abaixar até quase rastejar, procurou pelo chão por algo que pudesse usar como arma, achou absolutamente nada... Cada vez mais tenso, Pedro atravessou os poucos metros que o separavam da enorme rocha no meio do milharal e então sentiu o estrondo, como se uma bomba atômica explodisse logo na sua frente... Pedro sentiu o calor, mas sequer sentiu as dores nas costas quando caiu feito um boneco de pano alguns metros pra trás.

A chuva gorda que caía acordou Pedro, dores pelo corpo todo, usou toda sua força para levantar os braços e viu que estavam pretos como que sujos de carvão, então levantou e viu a sua frente um grande círculo onde nenhum pé de milho estava de pé, mais próximo ao centro do círculo, os pés de milho estavam completamente tostados, e ao centro de tudo, a rocha... Acima desta, um corpo humano...

- Hum, podia jurar que esse cara estava de pé quando o raio o acertou...

Pedro, de cócoras, analisava o corpo carbonizado, a face estava completamente desfigurada, parecia estar em putrefação já há vários dias, o que era estranho, já que Pedro podia jurar ter visto essa pessoa de pé alguns minutos atrás.

Pedro se esticou, e viu a distância, postes da rede elétrica, provavelmente eram os postes que seguiam pela estrada.

Caminhou por não mais de dez minutos até que voltou a estrada.

A chuva já havia parado e começava a anoitecer, Pedro imaginou que, se havia alguma chance de ser encontrado, era na beira do asfalto.

Já fazia duas horas que Pedro caminhava sem parar pela beira do asfalto e ainda não viu uma luz sequer que não as dos postes, ao menos a chuva havia parado, pensava ele... Realmente, a chuva parou, mas a brisa refrescante que veio depois foi a melhor parte, depois de se escaldar no sol, apanhar de um milharal e (quase) ser atingido por um raio... Pedro merecia aquela brisa maravilhosa.

Pedro sentou debaixo do poste, recostou a cabeça, sentiu a luz começar a piscar, acendia por seis ou sete segundos, ficava apagada por pouco mais de dez, até gostou da luz apagada, tão logo recuperasse suas forças ia quebrar a lâmpada e tentar dormir ali mesmo, sentado...

- Dane-se, vou é ficar por aqui mesmo, se me acharem, acharam.

Nisso ouviu um ruído vindo do outro lado da estrada, a silhueta humana levantando, lentamente, sem falar absolutamente nada... Por incrível que pareça, a luz sob a cabeça de Pedro parecia não se atrever a iluminar por completo o ser poucos metros a sua frente. Pedro sentiu o cheiro de podridão no ar...

- O que você quer? Perguntou Pedro, ou ao menos pensou ter perguntado, não tinha muita certeza se a voz havia saído ou não, estava completamente apavorado, fazia três ou quatro dias que não via ninguém, exceto por um velho louco armado, um corpo no meio do pátio deste, e a última pessoa que viu era um corpo carbonizado no meio de um milharal...

O vulto começou a se mover lentamente na direção da luz... Quando mais se aproximava, mais detalhes Pedro conseguia pegar, pegou que a pessoa usava calças jeans, e pelo porte físico, era provavelmente um homem, Pedro se abaixou e catou uma pedra.

- Pode vir. Pensou ele tentando se convencer de que tinha coragem o suficiente para estraçalhar o crânio de outro ser humano com uma pedra.

A luz se apagou.

Curioso é que só assim Pedro conseguiu ver o revólver na mão esquerda da pessoa. Antes que pudesse dar as costas e entrar correndo no milharal ouviu.

- O que você está fazendo aqui, você tem que ir embora. Agora. Pedro não sabia o que fazer, era outro ser vivo, mas era outro ser vivo armado.

A luz acendeu, Pedro pode ver o rosto do homem cheio de feridas, uma gota de sangue corria do seu olho direito e havía marca de vômito ao redor da boca, a pele era pálida, muito pálida.

- Amigo, vamos conversar, eu não quero seu mal. O homem levantou a arma na direção de Pedro e disse.

- Não sou seu amigo, e também não quero seu mal, então siga o seu caminho rapaz. Mas Pedro estava exausto, precisava daquele descanso, precisava daquela brisa e não precisava, definitivamente não precisava de alguém com um revólver nas suas costas.

- Por favor amigo, estou exausto, me dê ao menos uns cinco minutos para descansar.

- Você pode não ter cinco minutos comigo rapaz.

Pedro pensou, viu que o homem não aceitaria mais um não e disse.

- Pois bem, então sigo meu caminho, se o senhor jogar essa arma no meio do milharal. O homem tossiu, se inclinou e cuspiu na pista.

- Faço melhor que isso garoto, te dou a arma, se...

- Se?

- Se você puder atirar em mim...


- Atirar em você? Eu não vou atirar num desconhecido que está obviamente doente. O homem cerrou as sombrancelhas e questionou.

- Olha garoto, eu não quero saber o que você andou fazendo nos últimos quatro dias pra dizer uma merda dessas, só quero saber. Você quer deixar a arma comigo, ou vai me matar, com o meu consenso e seguir o seu caminho, com a sua arma?

Pedro estranhou a declaração do homem, deu as costas e começou a caminhar, que absurdo, não atiraria em um homem desarmado, e pensando por aí, nem em um cara armado. Pensou nisso por mais um tempo, enquanto caminhava apreensivo por ter um cara doente, tanto fisicamente quanto psicológicamente, armado as suas costas.

Depois de quarenta minutos caminhando, Pedro olhou para trás, não podia sequer avista a luz piscando, já havia tirado uns bons quilometros do homem, quando ouviu o estampido. Teria o homem assassinado alguém, ou se suicidado?

Pedro podia ver as luzes da cidade, faltava pouco mais de um quilometro da entrada da pequena cidade, ele já pensava em como comeria quatro peitos de frango com três porções grandes de arroz e um litro de coca cola bem gelada no restaurante da Dona Ana. Pensou também no longo banho que tomaria, na bela noite de sono em sua cama macia e também nas explicações que teria que dar a polícia, sobre o acidente, sobre o corpo na fazenda do velho Tiago e... Ahn, mas tudo isso amanhã... Hoje, Pedro queria relaxar.

Caminhou pelas primeiras duas quadras da cidade tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, estava tão cansado que sequer conseguiu levantar a cabeça, estava sujo, fedia, pensou em ir pra casa, tomar um belo banho e depois ir até a Dona Ana... Dobrou a esquerda, seguiu por mais uma quadra até chegar a frente do seu prédio, pensou em como entraria, sem as chaves.

- Merda.

Para sua sorte, a porta do prédio estava aberta. Subiu lentamente pelas escadas, já se arrastando. Levantou o tapete, pegou a chave extra e entrou.

20 minutos no vaso
30 minutos no banho
15 minutos = três maçãs, seis bananas, dois sanduíches com queijo e peito de frango, dois litros d'água
22 horas na cama

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