quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sombra e Malícia

Era impressionante a velocidade que Hitan conseguia alcançar em campo aberto, nenhum outro animal de Gaia o alcançaria. Talvez um dragão, ou um grifo, mas estes já não eram vistos há muito tempo.

- Onde raios Balash conseguiu essa montaria?

Anúbis jamais viria a saber que não foi Balash o primeiro a se utilizar da montaria da própria deusa das trevas, Esaelphen.

O próprio Balash nunca entendeu o porque de Esaelphen lhe entregar a montaria. Como um presente, apenas o aceitou.

- Realmente, essa montaria é muito especial. Disse Tengu.

- Com certeza... Respondeu Anúbis. - Nunca vi outro animal mais rápido que este.

- Não é um animal normal. Este animal deve ter uma história própria. É ele próprio um ser de imenso poder.

- Como pode saber disso, Tengu?

- O mundo dos mortos é diferente do mundo dos vivos, meu amigo. Eu vejo Gaia de uma maneira diferente do que você vê. Tudo pulsa vida, tudo é luz, energia. Este animal, este animal não. É como um ponto negro a frente dos meus olhos.

- Está dizendo que o animal é perverso?

- De forma alguma. Apenas que não é natural.


"A Lenda do Desafio.

No início dos tempos como conhecemos, pouco depois da separação dos Deuses por Gaia, um deles, o mais sagaz e arrogante dentre todos, desafiou todos os demais para duelos em suas áreas de maior capacidade. Ele não tinha nome, era chamado apenas como, Aquele.

Organizou um evento de diversos dias onde desafiaria um Deus por dia em uma área de sua excelência. Milhares de humanos participaram do evento, oferecendo alimento e presentes aos seus Deuses. Também apreciavam os desafios, torcendo para que seus Deuses humilhassem aquele que os desafiou.

No primeiro dia dos jogos, o desafiado foi Horodar, Deus da caça e da honra.

O desafio era caçar um animal criado por Aquele. Devia matar o animal e trazer sua pele ou seus restos a frente de todos. Caso se encontrasse em situação de perigo, o desafio seria ganho por Aquele.

Como era o mais forte em força física dentre os Deuses, Horodar aceitou de bom grado o desafio e se dirigiu ao campo onde deveria encontrar e destruir a besta criada por Aquele.

Por diversas horas Horodar buscou rastros de um animal desconhecido. O rastro deixado era diferente de tudo o que Horodar já havia visto, parecia deixar um rastro contínuo no chão, como um pequeno córrego d'água. Depois de mais algumas horas de busca encontrou no meio da selva, uma linda humana humana, de grandes olhos castanhos e corpo escultural.

Horodar foi seduzido de imediato pela voz suave da bela mulher que clamou por ajuda e com os olhos inchados se jogou aos seus braços. Dizia que a criatura havia lhe atacado quando adentrara aquela parte da floresta por engano.

Horodar, repleto de desejo, levou a mulher para uma caverna onde a desposou e passou todo o dia dormindo.

Mal abriu os olhos na escuridão da noite e se deparou Aquele, de pé sobre ele com uma lança apontada para o seu pescoço.

- Ganhei. Disse o sagaz deus para loucura de Horodar, que desde então odeia a humanidade com todas suas forças.

Esaelphen foi desafiada para uma amigável corrida com a montaria favorita que cada um tivesse.

Esaelphen, deusa da noite, da mágoa e do rancor, escolheu um dragão negro, para ser sua montaria. Os dragões, animais poderosos e orgulhosos, jamais aceitariam ser montaria, mas a vontade deles nada era próxima a de um Deus, assim, lá estava Esaelphen, sobre as costas do dragão negro, pronta para sobrepujar seu irmão.

Aquele, quando apareceu sobre um cavalo negro, foi motivo de risada, pelos demais deuses e humanos que aguardavam o início da corrida.

- Esta é sua montaria favorita, irmão? Perguntou Esaelphen em tom de desdém.

- Sim, irmã. Respondeu Aquele.

Sentindo que o duelo não seria justo com o irmão, Esaelphen então propôs.

- Então escolha o percurso, irmão. A distância que quiser.

- Obrigado. Respondeu o sagaz Deus levando a mão ao queixo.

Em pouco tempo o Deus então aponto a frente dos olhos de todos e disse.

- Aquele rochedo.

Esaelphen viu o rochedo a não mais de duzentos metros de onde estavam e perguntou.

- Tens pressa em perder então?

Aquele respondeu apenas com um sorriso.

Quando foi dada a largada, por Inejh, que acompanhava atentamente a preparação dos dois Deuses, mal havia a montaria de Esaelphen saído do chão, o cavalo negro já havia coberto boa parte do percurso.  Quando finalmente conseguiu tomar velocidade, Aquele já voltava, galopando tranquilamente, vencedor.

Enquanto os Deuses gargalhavam, Esaelphen descia dos céus enfurecida.

- A sua montaria talvez, lhe dessa a vitória em um percurso mais longo, irmã. Mas até que esta sua pesada criatura tome velocidade, já cobri um curto espaço de terra há tempos. Disse o Deus, arrogante, enquanto descia da montaria.

Então soltou as rédeas e disse.

- Aceite irmã. Um presente meu, e uma lição para o futuro.

Subba foi desafiado para um duelo de criação, a criação mais impressionante venceria.

Subba então apresentou o projeto de suas três cidades vivas, que se locomoveriam livremente por Gaia, enquanto sustentando dezenas de vidas humanas. Andorah, Deus da criação, interrompeu dizendo.

- Irmão, sabes que tens de ser um trabalho realizado em tempo real, nada do passado. Antes que Subba pudesse se defender, Aquele saltou a frente dizendo.

- Deixe que Subba apresente sua criação, irmão. Se aceitar, podemos utilizar criações anteriores. Subba aceitou, naturalmente, então ouviu.

- De qualquer forma irmão. Sua criação falhou, já que nenhuma das cidades resistiu ao tempo, ou seus inquilinos. Era o Deus da Angústia, Tandaji, que não havia aceitado o desafio, mas fora acompanhar as provas de qualquer forma.

Subba não pôde argumentar, suas três cidades, de fato, haviam sido fracassos imensos. Então Aquele, apresentou a humana que seduziu Horodar no primeiro desafio.

Todos os demais Deuses puseram em cheque a fêmea humana, dizendo que tal criatura não era criação dele, que os humanos já viviam sobre a Gaia muito antes deles próprios ascenderem ao panteão.

Aquele, com sorriso e olhar maliciosos pediu.

- Querida, apresente sua real forma.

A humana então agachou e começou a perder as formas humanas se transformando em uma esfera de cristalina de não mais de meio metro de circunferência.

- Ela toma forma do que a pessoa que lhe vê mais deseja, pode apenas tomar a forma de um ser humano por vez, mas isso é mais que suficiente, dada a circunstância. Como provei com Horodar.

Todos os Deuses aplaudiram, mesmo Subba que, aplaudiu de pé engenhosidade do irmão.

Inejh foi convidada para um duelo musical. Onde ela escolheria o instrumento e Aquele escolheria a canção a ser interpretada. Quem tocasse a música com perfeição, seria o vencedor.

Inejh, criadora do violino, naturalmente escolheu este instrumento para desafiar o irmão. Tinha certeza de que o irmão sequer sabia da existência de sua criação.

Aquele, para surpresa de todos, escolheu então uma música composta por Andorah, anos antes. A linda canção que, ninguém além de Andorah, Inejh e Aquele conheciam, fora composta como uma homenagem a Inejh, em uma prova de amor do deus a ela.

Quando subiu ao palco, abalada pela escolha da canção, Inejh titubeou por diversas vezes durante a execução da música, errando uma que outra nota. Era evidente o temor que Aquele entregasse seu segredo aos demais Deuses ali presentes.

Mas Inejh tinha confiança de que o irmão não conhecia o instrumento a ser utilizado. Mesmo temendo pelo seu segredo, Inejh tinha certeza que venceria o desafio imposto pelo irmão quando o mesmo sentou no banco que ela mesma ocupara minutos antes.

Para sua surpresa, Aquele executou a canção com a mesma perfeição que Andorah o fizera, séculos atrás quando seu amor ainda era aberto aos olhos de Gaia. 

Com lágrimas nos olhos, Inejh bateu palmas para a execução perfeita da sua música e se rendeu aos talentos do irmão.

Sabia que se, Aquele conhecia seu instrumento, conhecia seu segredo. Sabia que ela vivia com Andorah em Batang, como marido e mulher. Algo proibido pelos demais Deuses.

Com olhar tenro, Aquele desceu do palco em meio aos aplausos e deu um forte abraço em Inejh enquanto lhe disse ao pé do ouvido.

- Fique tranquila irmã.

Os demais deuses não aceitaram o desafio, já que conheciam seu irmão e sabiam que daria um jeito de trapaceá-los. E foi assim que Aquele reuniu seus irmãos por uma última vez na mesma região, provando que era, de fato o Deus mais astuto de todos."

Folclore Popular de Gaia

Anúbis continuou fitando a montaria que cruzava as trilhas no meio da mata em alta velocidade.

Hitan sabia o caminho que devia seguir. Balash lhe contou, quando saíram de Fergus.

Aoshi ainda há pouco cruzara a entrada da floresta e agora seguia o rastro claro de Hitan na mata. Galhos quebrados, marcas de cascos, e o aroma da energia negra deixada pela montaria de Balash.

- O rastro é fácil de seguir. Concluiu o guerreiro.

Não muito tempo antes, Aoshi se perguntava qual seria o destino do mensageiro. Seria o centro de Shamrock, onde diversas estações antes, Aoshi havia encontrado seu grupo de "amigos"? E com eles, destruído a ameaça da Horda.

O que agora julgava como um erro, já que poderia usar aquela força na manutenção do seu poder.

Parte da Horda, um exército de mortos vivos, como o que mantinha em Janen, seriam uma força a ser temida por toda Gaia.

Mas Aoshi não tinha o conhecimento na época, que tem hoje. Tampouco tinha a força para trair tudo e todos pelo poder, não, naquela época não poderia fazer isso.

Trouxe a mente de volta ao presente e riu. A ironia de assassinar o homem que lhe criou, que lhe transformou em um monstro, no mesmo lugar onde conheceu Balash e os demais, tanto tempo atrás.

Mas Aoshi não alcançaria Hitan dentro de Shamrock. Percebeu isto enquanto o sol se punha e cruzava o portão da fortaleza onde anos antes lutou ao lado de Balash, Belerofon e na época, Vlad.

Como Belerofon dissera, no início do dia, Aoshi precisaria de muita sorte para alcançar Hitan, e o mensageiro.

"O relógio de Doranthar, uma das construções mais antigas de Gaia.

Historiadores de todo o Reinado já visitaram a construção e não conseguiram chegar a conclusão de qual civilização foi a construtora da instalação.

Por toda a extensão do complexo, existem escritas em um idioma muito particular, que, segundo Aandak Eorlas, Mestre Linguístico do Instituto Real de Pesquisas de Canópus, contém fragmentos da escrita dos Deuses, da civilização Élfica que viveu em Shamrock, e das runas dos povos selvagens do Branco Infinito.

A estimativa mais acurada de Eorlas data no mínimo seis mil anos, desta construção, ou ao menos, da escrita.

Com o topo, que é o relógio propriamente dito, erguido diversos andares acima do solo, e uma complexa rede de túneis abaixo da estrutura, ninguém soube mesurar a necessidade de criação de tal construção.

Seria o centro de uma civilização há muito perdida? Muito provável.

A construção fica no centro do Deserto das Torres, que por si só tem sido um mistério para estudiosos de todo o Reinado.

O lugar também é um dos mais perigosos de Gaia. Diversos grupos de pesquisa já desapareceram na região desértica e dos poucos sobreviventes, enlouquecidos, contam histórias aterrorizantes sobre as torres.

Qual será o segredo dessas torres? Sabemos que existem mais de quinhentas delas, e que cobrem toda a região do deserto. Todas as torres estão distribuídas de forma que você sempre verá cinco ou mais delas no horizonte.

Qual foi o propósito da construção dessas torres? Qual foi a civilização que as construiu?

Essas, são as perguntas a serem respondidas."

Lendas e mitos dos principais locais de Gaia - Capitulo 9 - O Deserto das Torres - Onitaelkas Beruth

Sentados ao redor da fogueira, estavam duas mulheres e dois homens.

- E então, o que acham? Perguntava a mulher, com ar de superioridade.

Um homem de idade avançada, sentado do outro lado da fogueira, com a mão passando pela barba parecia refletir sobre a pergunta.

Darudzia sabia o que aquilo significava, era ótima na leitura dos seus adversários, e considerava todos naquele lugar, adversários.

Undor-Gahl, uma espécie de Rei auto-proclamado do oriente, lutava pela união dos reinos de jade.

Fukyo, Yoshikawa e Obukan já estavam nas suas mãos, Taoken tinha como rei um fantoche, lá colocando pelo próprio Undor, e Tsukaba teimava em entregar o poder, com seus poderosos clãs militares. Mas Tsukaba cairia, e era apenas uma questão de tempo.

Undor-Gahl resolveu manter a identidade dos reinos que já controlava para manter a população controlada, bem como a ameaça de separação. É sabido que os povos do oriente não suportam a existência uns dos outros.

Por isso, Darudzia o admirava. Sabendo de tudo isso, já sabia também o que esperar.

- Darudzia, posso fazer isso dar certo. É uma excelente ideia. Disse, Undor.

Anya, também pensativa, já era mais complicada de se ler. Isso se dava a natureza sobrevivente, e altamente adaptável, da jovem Rainha.

Casada com o Rei de Rothengar, Benethor Lerr, o último da linhagem dos Lerr, que reinaram sobre Rothengar desde a criação do Reino, Anya era a verdadeira fonte de poder de Rothengar, não seu marido.

Sem qualquer dom para estratégia ou administração de um reino, Benethor é mantido constantemente embriagado e cercado de belas prostitutas. Por ordem de Anya.

Uma mulher tão fria, não pode ser subestimada.

Desde sua ascensão ao poder, a capacidade militar do reino foi ampliada em diversas vezes, bem como sua projeção no Reinado.

- Concordo com Undor, foi uma ótima ideia mesmo Darudzia. Com a capacidade de mobilização de Undor na região, acho que este plano tem grandes chances de dar certo.

Andrius então levantou e se pronunciou.

- Então está decidido, vou mobilizar as tropas para o dia depois de amanhã. Pelo que chegou aos meus ouvidos, meu agente já está próximo a Fergus.

- Andrius, me corrija se estiver errado, mas de Fergus a Tsukaba, são no mínimo quatro semanas de viagem. Por que a pressa? Perguntou Darudzia.

- Ao que tudo indica, Balash, regente de Fergusson provavelmente entregará sua montaria pessoal ao meu agente, para que tenha uma chance contra Aoshi. E essa montaria não é um cavalo comum.

Ulf, caminhava pela floresta da ilha, já havia aceitado seu destino. Já havia aceitado que passaria seus dias ali, então decidiu que precisaria de um abrigo, e de comida.

Como já havia lido diversos livros e relatos de sobreviventes em ambientes hostis, sabia como criar ferramentas de pedras e galhos de árvores. Sabia como fazer fogo e como caçar sua comida.

Em teoria.

Não demorou até que encontrou uma área coberta de cascalho em uma clareira em meio as árvores, ali encontrou pedras que podiam se transformar em lâminas de machados ou facas improvisadas.

Por diversas horas trabalhou em uma rocha que julgou perfeita para a lâmina de um machado, com um machado em mãos, poderia derrubar pequenas árvores e construir um abrigo improvisado, apenas para não dormir ao relento.

Ao fim da tarde, se viu com pouco mais de quinze toras, fruto do trabalho de um dia inteiro. Então começou a cavar um buraco, até que o mesmo tivesse a sua altura. Se jogou para dentro e cobriu o buraco com galhos e folhas.

Estava tão cansado que mal a lua apareceu no horizonte, já estava dormindo.

Sonhou com Morgana.

A belíssima guerreira tinha as bochechas rubras em ódio. Praguejava com ele por ter falhado na missão, e ter perdido a caixa que devia entregar em Obukan.

- A caixa. Lembrou Ulf acordando, de súbito.

O sol já levantava no horizonte quando Ulf bocejou preguiçosamente e passou a mão no canto da boca tirando a baba que correra durante o sono.

Saiu de um pulo da "toca", alongou os braços e pernas ruidosamente, caminhou até a entrada da mata e deu uma longa urinada.

Sentia-se estranhamente bem, para quem provavelmente jamais veria outro ser humano na vida. Talvez fosse o teto improvisado, talvez fosse o sonho com Morgana. Não importava, sentiu que aquele seria um dia bom.

Antes de retomar o trabalho na construção de um abrigo apropriado, decidiu que procuraria a famigerada caixa. Era sua missão, uma missão dada por Morgana. Uma missão que, já que não cumpriria, trataria de nunca a perder de vista, como a Rainha dos Mares pediu.

Lembrou que ao dar a volta na ilha, dois dias atrás, não havia encontrado a caixa na areia, apenas alguns destroços menores, decidiu que daria a volta na ilha novamente, desta vez ao contrário.

Caminhou por algumas horas até que, surpreso, parou com expressão pensativa.

- Essa área não existia na ultima vez que passei aqui.

Quando Ulf passou por ali, dois dias antes, aquela enorme área rochosa estava coberta de água do mar.

- Maré! Pensou o Anão enquando correu pela areia encharcada até as rochas.

Sygil, com total apoio do conselho do reino, preparava os últimos detalhes para a partida da Orca, embarcação de seu tio, em direção ao Desconhecido, a área mais ao Leste de Gaia. 

Todos os recursos necessários já estavam no barco, faltava apenas a última inspeção de Sygil e a decisão de quem seria seu homem de confiança na expedição. 

O jovem monarca caminhava apressado pelos corredores do castelo. Com Ayros ao lado esquerdo e Obudaga ao lado direito, conselheiros inseparáveis de Sygil depois do incidente na costa do Reino. 

Não deixara de pensar nem por um minuto nos últimos dias em quem deixaria no trono de Phobos quando saísse pelo mar para descobrir o que causou a maior desgraça que o reino já sofrera.

- Se deixar Obudaga... Pensou enquanto olhava para o xamã que trouxe a solução para o pior problema que já enfrentara. - Não posso contar com ele na viagem. 

- Se deixar Ayros... Continuou pensando enquanto virava a cabeça e fitava o amigo. - Acontece o mesmo. Diabos, como vou resolver isso.

Cruzaram o hall de entrada do castelo e então as enormes portas de aço. Quando sentiu o sol  lhe tocar o rosto, tomou sua decisão.

- Deixarei Ayros, além de honrado e exímio estrategista, ainda é bom o suficiente com os comandantes do exército e marinha para evitar qualquer golpe, que o idiota do meu primo pudesse tramar.

Sygil e seus homens de confiança agora cavalgavam pela cidade, em direção ao cais. Precisavam da confirmação de Rasghul, o temperamental capitão da Orca, de que podiam partir naquela noite.

Quando chegaram ao topo da colina, de onde se podia ver boa parte da costa da capital, não encontraram sequer vestígios da embarcação.

- Deve estar em um dos cais de pescadores. Sugeriu Obudaga.

Vasculharam todas as áreas ocupadas por pescadores, não encontraram a embarcação. 

Passaram ainda pelas áreas comerciais e militares, sem qualquer vestígio de Rasghul ou sua embarcação.

Então, enquanto fitavam o oceano, parecendo esperar uma explicação, ouviram.

- Milordes. Tenho um recado de Rasghul.

Ayros sabia que não era coisa boa, ainda mais quando o jovem que lhes chamara estendeu o braço a Sygil com um papiro selado.

Sygil agradeceu e abriu o documento, lendo-o calmamente.

- Caro sobrinho. Não podia arriscar a levar você ou aqueles poucos em quem confia para o mar, ainda mais para o mar desconhecido. Phobos precisa de você e você ainda é muito jovem para se tornar mártir, como seu pai, então te peço perdão pelo que fiz. Decidi partir hoje pela manhã, ao raiar do sol. Se realmente encontrar algo sobre o ataque que sofremos virei até você, nem que seja em espírito. Mantenha o reino sob controle que nos encontraremos em breve.

Sygil sorriu, então arremessou a carta a Ayros.

Ayros se pôs a ler enquanto Sygil parecia rosnar. Obudaga também leu o documento e saiu em defesa de Rasghul.

- Ele não está de todo errado, Majestade. 

- Eu sei. Respondeu o jovem monarca enquanto puxava as rédeas do seu cavalo e seguia na direção do castelo.

Rasghul, já longe da costa, ria enquanto o vento, favorável, empurrava a Orca mar adentro. Já podia ver as carregadas nuvens no horizonte.

Suspirou.

Já havia passado por elas, uma vez. Não fora nada bom.

Lembrou do Kraken, e como o resto da sua tripulação não teve a mesma sorte que ele. Não fosse a enorme carga de peixes Inferno, estaria no fundo do mar, como seus companheiros.

Haviam pescado uma rede repleta de Infernos na manhã do fatídico dia, enquanto procuravam por comida, após certificarem de que estavam mortos, trouxeram trinta ou quarenta deles para dentro do barco. Caso fossem necessários.

O peixe Inferno, é uma espécie de alta profundidade cujo veneno é capaz de matar um ser humano antes que o mesmo perceba que foi picado.

Quando o Kraken surgiu ao lado do barco, a algumas centenas de metros do barco, todos ficaram aterrorizados, menos Rasghul que gritou.

- Rápido, joguem o pescado de hoje misturado aos nossos mantimentos, ao mar. 

Antes que pudessem fazer isso, um dos homens foi arremessado para fora do barco e logo desapareceu no azul infinito.

No transporte dos peixes um dos homens foi picado pelo Inferno que carregava entre os braços, caiu morto. Rasghul correu até o homem e o jogou no mar, junto dos mantimentos que os dois companheiros ainda vivos traziam.

Quando a bocarra do Kraken surgiu, à poucos metros do barco, o próprio Rasghul caiu para trás espantado.

Então viu a monstruosa criatura convulsionar e se debater. Um dos tentáculos passando sobre convés do pequeno barco arrancando o mastro principal como se fosse feito de batatas, e arremessando os dois últimos companheiros de Rasghul mar adentro.

A embarcação resistira ao golpe, mas como já não tinha mais mastro, flutuava, aleijada, pelo mar, sem rumo.

Não demorou até que os primeiros tubarões começassem a aparecer, para aproveitar a enorme carcaça do Kraken.

Por dois meses, Rasghul ficou a deriva, sobrevivendo do pouco que conseguia pescar, e da água das chuvas.

Desta vez não arriscaria a sorte. Já deixou a costa de Phobos com um estoque de arpões besuntados em veneno do peixe Inferno e uma balista de triplo disparo, instalada no convés reformado da embarcação.

Aoshi sabia que sua presa cavalgava em direção ao lugar onde crescera. Um ótima ideia, teria sido uma ideia do próprio Balash, ou do falecido monge?

Balash era um dos poucos que conhecia a história de Aoshi, com todos os detalhes. - Um momento de fraqueza do antigo Aoshi. Pensou o homem sem alma de agora.

Se este homem recebeu Hitan de Balash, é por que precisaria chegar ao destino antes de Aoshi. Balash de forma alguma subestimou seu antigo aliado.

- Estúpido. Sussurrou Aoshi quando atravessou a fronteira entre o território selvagem de Shamrock e adentrou os campos verdejantes de Tsukaba.


A alegria era palpável na Taverna do Porco Voador, ao norte de Mintaka.

Bebidas, música e prostitutas davam cor ao ambiente onde dois homens conversavam sem se importar com ambiente.

Um deles, trajando roupas simples e com corte de cabelo militar tirou os olhos do fundo da jarra de cerveja e disse. - Nossa agente conseguiu a informação.

- Nunca tive dúvidas disso. Respondeu o outro, com olhos fixos em uma prostituta ruiva com os seios mais perfeitos que já havia visto.

- A carga será transportada pelo mar até Oshkiik.

- Oshkiik? Perguntou o homem, voltando a atenção ao companheiro do outro lado da mesa.

- Sim. Respondeu, levantando olhar.

- Não sabia de uma aliança entre Canópus e Oshkiik.

- Não existe nada oficial entre os dois reinos. Talvez seja uma aliança de ocasião, mas essa informação o guarda não tinha. Assim que o barco atracar em Oshkiik, perderemos a carga para sempre.

- Essa carga jamais chegará ao litoral de Tsukaba, quem dirá Oshkiik. Disse o homem voltando a olhar para a prostituta.

Ulf jamais conseguiria mover a enorme caixa pela areia da praia até seu "acampamento", por isso decidiu abrí-la ali mesmo.

- Diabos, de que me adianta ficar com essa caixa fechada pelo resto dos meus dias.

A decepção no olhar de Ulf era evidente, quando deu de cara com uma rocha em formato retangular que ocupava cada canto da caixa.

- Uma pedra? Se perguntou o Anão.

Tirou os outros lados da caixa de madeira e sentado na areia molhada, com os braços em torno das pernas observou a rocha.

Era perfeitamente retangular, com quinas pontiagudas e tão polida que podia se ver o reflexo em sua superficie. Tinha cor semelhante ao bege.

- Que diabos há de tão impressionante em uma rocha? Por que levar uma pedra a Obukan? Será que eles não tem rochas lá?

Depois de uma hora sentado, fitando a rocha, uma pergunta sobrepujou as demais.

- Será que se trata de um sarcófago, ou baú?

Ulf levantou em um salto e começou a tatear pela rocha nua que, lisa como vidro não aparentava ter qualquer saliência.

Depois de algum tempo, enquanto tateava um dos lados menores, sentiu uma parte mais macia que o restante, como se não fosse feita de rocha. Ulf então empurrou sua mão por essa superfície diferente e ouviu o que parecia ser um relógio de mecânico trabalhando.

Os relógios mecânicos ainda eram raros, e exclusividade da realeza. Embora não tivesse qualquer utilidade aos abastados, era nada mais que uma consequência do estilo de vida dos abestados, que pareciam viver para causar inveja nos vizinhos.

Ulf se afastou, pois já vira um relógio destes trabalhando, com todas suas engrenagens. Não queria arriscar perder um dedo ou mesmo uma mão em uma destas.

Mas então algo ainda mais estranho chamou a atenção do Anão. Pedaços de rocha do lado esquerdo e direito saíram do formato retangular e logo tomaram forma longitudinais, ainda maiores que o tamanho inicial. 

Como sendo lapidada de dentro para fora, ao fim destas formas mais longas, a rocha tomou forma, com três dedos e o que parecia ser um polegar opositor.

O Anão, paralisado, apenas observava a rocha que, agora ficava de pé, com estatura normal a de um ogro.

Não demorou até que o bloco de rocha nua que ainda há pouco repousava em uma caixa, estivesse agora de pé, inerte, olhando para o Anão a sua frente.

Ulf nem percebeu que a água da maré já batia na sua cintura quando a criatura lhe passou ignorando a sua existência.

Seguindo em direção a mata, o ser de enormes proporções deixava pegadas tão profundas na areia, que Ulf poderia se esconder, fosse necessário.

Tão logo chegou a fronteira da mata, agarrou com as duas mãos um coqueiro e o arrancou do chão deixando a raiz exposta.

Então sentou na areia, como uma criança que brinca na praia, e começou comer a árvore, arrancando enormes pedaços de cada vez.

Ulf, ainda observando a distância, se perguntava.

- Mas... Mas que diabos é isso?

Já a criatura, tão logo terminou com o coqueiro, repetiu o processo. Levantou, caminhou até as árvores, arrancou mais uma e sentou para comer como um jovem chupa cana de açúcar em meio a canavial.

Depois de cinco árvores derrubadas, a criatura pareceu suspirar e então caminhou até Ulf. O Anão sabia que o que quer que fosse aquilo, podia matá-lo mesmo sem querer, em um gesto mal calculado, no entanto sequer tentou fugir enquanto a criatura se aproximava.

- Coragem. Gosto disso. Disse a criatura com perfeição, no idioma dos Anões.

A voz, grave, porém perfeitamente audível, era profunda e penetrante. A própria terra pareceu tremer quando a criatura falou. Em meio a gaguejos, Ulf conseguiu responder.

- Coragem? Mesmo que quisesse fugir, você me alcançaria.

- Inteligência, melhor ainda. Qual é o seu nome pequenino?

- Ul-Ulfric. Respondeu o Anão. - Mas pode me chamar de Ulf.

- Perfeitamente, Ulf. Eu sou Delta 448, mas acredito que Delta seja uma nomenclatura adequada. Onde estamos, Ulf?

- Sinto em lhe dizer que somos náufragos em uma ilha ao sul de Gaia.

- Hum. Respondeu a criatura olhando ao redor. - Isso não é ilha.

Ulf tramou os olhos e perguntou.

- Oi?

- Olá, tudo bem? Perguntou o construto.


"Criados de forma semelhante aos Golens, os Construtos são obra de magos poderosíssimos que viveram em Gaia séculos atrás.

Na atualidade, nenhum mago parece ser poderoso o suficiente para criar seu próprio construto, ou apenas não conhece o feitiço necessário, sendo algo que se perdeu no passar das eras.

Ao contrário do Golen que, normalmente é construído a partir de seres já mortos, e é trazido de volta a vida por mágica de sangue. Os Construtos são seres criados a partir de rochas, metais, ou outros elementos da natureza pelo uso de magia etérea, algo que os magos também pareceram perder no tempo.

Na atualidade, os magos são dividos entre os que se utilizam da mágica de sangue, e os que usam de magia pura, nunca alternando entre uma forma e outra. No passado, contam as lendas, os magos 

eram capazes de flutuar entre ambos os poderes, desta forma sendo mais poderosos que ambos e de moral mais flexível.

Talvez, devido a imprevisibilidade dos mesmos, essa forma de magia foi enterrada no passado, para evitar que seres tão poderosos caminhassem por Gaia utilizando a magia ao seu bel prazer.

Seres muito raros, os Construtos ainda habitam Gaia, raramente causando problemas, já que podem assumir a forma do material que lhes deu origem. Uma árvore, por exemplo, que tenha sido 

transformada em um Construto, pode simplesmente adotar a forma de uma árvore, normalmente com algumas pequenas diferenças entre as outras e permanecer camuflada aos olhos de todos por toda 

sua existência, algo que também é um mistério, o tempo de "vida" de um Construto.

Normalmente, quando um Construto é descoberto, tende a se tornar agressivo, só parando o combate quando completamente destruído, o que dificulta muito no estudo destas criaturas do passado. 

Mas já foram encontradas evidências, em corpos de Construtos que datam dos primeiros anos da primeira era. Mais de seis mil anos atrás.

O maior exemplo de Construto encontrado é o Onialtekas, como se apresentou a criatura de formas dracônicas que surgiu e Fukyo, seis décadas atrás.

Apesar do nome, a criatura representa tudo onde a cultura oriental baseou seu folclore. É um dragão, das formas de uma serpente com mais de cem metros de comprimento que vivia camuflado nas montanhas rochosas da fronteira de Fukyo com Yoshikawa, a criatura após ser conjurada por uma mulher misteriosa, desceu das montanhas e causou destruição por ambos os reinos, deixando a maior parte dos dois em cinzas apenas para, depois de algum tempo, desaparecer nas trevas.

Logo depois surgiu o Reino de Zhang-Turaah, o Reino do Dragão Negro.

Um Reino criado na escuridão, e não reconhecido pelos demais integrantes do Reinado, Zhang-Turaah, em mapas encontrados junto aos corpos de seus asseclas, engloba parte do território de Fukyo, Yoshikawa e Tsukaba. Ninguém sabe qual a razão dessa apropriação e quais os objetivos do "culto", mas todos temem a próxima aparição do monstruoso Construto."

A Engenharia Mágica - Capítulo 8 - Construtos - Jorgen Zahn


- Não, não. Quis dizer, como assim? O que quis dizer com, isso não é uma ilha?

- Não é uma ilha, é um Esporo.

- Esporo?

- Sim. Deixe-me explicar. Milhões de anos atrás, quando a criatura vinda dos céus conhecida como Mestre, caiu no oceano, diversas rachaduras se criaram no fundo dos mares e em diversos pontos de Gaia, Esporos da Deusa mãe se desprenderam do fundo do mar e subiram a superfície...

Ulf sentou na areia pois sentiu as pernas cambalearem. Seres vindos dos céus, provas vivas da existência de Gaia, o lugar onde estivera já há dois dias não era uma ilha. Aquilo era muito para o Anão processar.

- Estes Esporos, são seres vivos de grandes dimensões que tem poderes próprios e vagam sem uma mente que os controle. Como um traje, que flutua pelo mar, esperando para ser vestido. Em diversas das pesquisas de meu mestre, essas criaturas, se é que podemos chamá-las assim, realizam desejos de seus simbiontes...

Ulf então lembrou que, cada vez que sentiu fome ou sede, se encontrou, pouco tempo depois, próximo a uma fonte de água potável. Quando pediu por um resgate, o mesmo surgiu na costa, quando pediu que Torres não estivesse na costa, viu o barco se afastando no horizonte.

Na certa estaria Torres nele.

- Pare, por favor. Pediu o Anão, com uma das mãos tapando os olhos.

A criatura então pareceu entender.

- Ah sim, imagino que seja muita informação em apenas uma vez. Vamos então trabalhar nossa troca de informação de outra forma. Em que ano estamos?

Parecendo sair do transe causado pelas bombásticas informações, Ulf respondeu.

- Quarto ano... Disse o Anão, parando para engolir saliva que, talvez lhe ajudasse na digestão de todas aquelas informações.

- Interessante, pareceu que não dormi por muito tempo. Respondeu Delta.

- Da sétima era. Completou o Anão.

- Sétima? Perguntou a criatura.

- Sim.

- A última vez que estive ativo foi no décimo ano da segunda era.

Ambos ficaram estarrecidos por aquela informação.

- Quer dizer que você dormiu pelos últimos quatro mil novecentos e noventa e quatro anos, Delta?

A criatura olhou para a areia branca, então para o mar e de volta para Ulf.

- Sim, Ulf. Dormi pelas últimas quatro eras. Desta vez foi a criatura que pareceu não suportar a informação, então caiu sentada sobre as próprias pernas.

- Mas o que te colocou para dormir, Delta? Você, pelo que vejo não é um ser natural, parece ter sido criado por mágica. Foi seu mestre que o colocou para dormir?

O construto então lembrou das circunstâncias que o levaram a ser desativado.

Já havia quatro anos desde que Amandolak-Taho havia criado as torres para cobrir a floresta onde vivia.

Sendo um mago de poder incomparável, alquimista e engenheiro de capacidades apenas comparadas pelos deuses, teve que se cercar de defesas para evitar que suas descobertas e experimentações caíssem nas mãos erradas.

Buscava o retorno da humanidade a mãe Gaia, fazer as pazes com ela pelo que as duas criaturas que a feriram, tantos milênios antes, fizeram a sua superfície.

A criatura que se autointitulava, o Mestre, contaminou os oceanos de vida bruta e violenta, criada apenas para tirar ele próprio do estado comatoso onde se encontrava. Mas o oceano não foi a última vitima da briga estúpida de milênios antes.

A terra também foi contaminada, por Mahdoton e suas criaturas estupidas e bestiais.

Amandolak se culpava por isso, mesmo que não tivesse nascido na era onde os dois grandes seres celestiais se enfrentaram a margem de Gaia e causaram todo o dano, aparentemente irreversível.

Por isso, buscava maneiras de inutilizar ambos, criando uma forma de vida superior, que não pudesse ser corrompida pelo poder como os asseclas de Mahdoton, que não pudesse ser persuadida a fazer mal a deusa mãe, como os asseclas do Mestre.

Seres puros, e mais poderosos que aqueles criados por ambos os inimigos de Gaia.

Seria a vingança da Deusa mãe para com aqueles vermes que a feriram.

Embora fosse taxado como louco por todos que o cercavam, Amandolak realmente ouvia a Deusa mãe. E o mais importante, ela falava com ele. Não era loucura.

Mas como era de se esperar, logo as nações primitivas, que surgiram em terra firme, e as civilizações anfíbias, que surgiam em alto mar, descobriram o potencial das experimentações de Amandolak.

Por isso ele criou as torres, quinhentas delas que defendiam sua área de pesquisa contra quaisquer seres mal intencionados.

Suas pesquisas avançavam de vento em popa enquanto as torres, ativadas mantinham curiosos a distância. Não demorou até que o primeiro exército marchasse até a região, buscando a força as pesquisas de Amandolak.

Até mesmo o próprio pesquisador foi pego de surpresa pela eficácia de sua plataforma de defesa, quando viu exército após exército ser obliterado em sua enorme linha de defesa.

Em determinado ponto, as forças inimigas simplesmente desistiram. Deixando, para sempre, o pesquisador em paz.

Em seu "laboratório" subterrâneo, Amandolak continuava suas pesquisas para forjar o ser perfeito, aquele que seria o primeiro filho original de Gaia.

Quando, já em idade bem avançada, próximo de obter sucesso em sua empreitada, Amandolak subiu novamente a superficie, se deparou com algo inimaginável.

A bela floresta que cercava toda a enorme região havia desaparecido, dando lugar a um cenário de tristeza e desolação.

Não havia nem mesmo grama onde ele pisava. Apenas terra avermelhada, rachada pela seca e morta.

Amandolak, sabia que as torres se alimentariam da flora ao seu redor, mas como aquela vida não era advinda de Gaia, era descartável.

A constatação de um jovem inconsequente.

O pesquisador já não mais pensava assim quando deixou sua "toca". Como os cabelos brancos que vieram, veio também a sabedoria, e quando viu que toda a vida daquela região, independente do pai ou mãe que tivera, fora destruída por ele, no mesmo momento assumiu toda a culpa e decidiu que ele próprio não merecia continuar vivo.

Mas antes de se suicidar, iniciou a verificação de unidade por unidade para que todas fossem desativadas. Não podia deixar sequer um daqueles seres caminhando por Gaia e se alimentando de vida.

Todas, exceto uma, já estavam desativadas. A unidade mais ao sul, Delta 448 era seu nome, fora uma das últimas unidades construídas por Amandolak e já se utilizava de uma consciência própria que lhe dava características humanas.

Tão humanas que se referia a Amandolak não como mestre, como as demais, mas sim como pai.

Por isso a surpresa de Delta 448 quando seu pai surgiu, velho, cansado e com os olhos marejados, dizendo que precisava desativá-lo.

Se pudesse, o construto também teria chorado enquanto viu a sua visão escurecer e tomar a forma de um grande bloco de rocha.

- Meu pai. Disse o construto após um longo hiato. - Foi meu pai quem me colocou para dormir.

Aoshi já podia ver o vilarejo no horizonte, estava muito próximo agora, mais alguns minutos e chegaria ao lugar de onde saiu, anos antes, apenas um garoto, querendo vingar a monstruosidade cometida por homens.

Tudo aquilo parecia um oceano de ironia.

- Onde o fim do mundo começou. Sussurrou Aoshiu.

Com sua vingança concretizada, Aoshi poderia iniciar seu plano de assassinar Gaia. Criaria um rombo no mundo. Uma ferida capaz de matar a Deusa mãe.

Então, como ser de imenso poder que era, capaz de gerar magia por si só, dominaria o mundo, traria a humanidade e todas as demais raças da terra aos seus pés.


Este seria apenas o primeiro passo da sua vingança contra a humanidade. Então iniciaria sua caçada aos demais Deuses que ainda caminhavam sobre a terra. Já há tempos pesquisava uma forma de rastreá-los. Tão logo encontrasse algo, seria a vez dos prepotentes que se chamavam de Deuses irem para baixo da terra.

Então, quando não houvesse qualquer poder no mundo para desafiá-lo, criaria um terceiro inferno, maior que Krak-Aanatoa e Eisa-Aanatoa juntos. Traria os rios de lava e cinzas para o leste, criando um mar de cinzas por toda a superfície do mundo.

Foi interrompido em seu pensamento sobre o futuro quando atravessou o portão do vilarejo e viu as mesmas pessoas que ali viviam quase duas décadas antes. Imaginou por um momento se elas o reconheceriam hoje.

- Impossível. logo concluiu. - Tão pouco resta deles em mim. Jamais me reconheceriam.

Atravessou o portão ao norte e seguiu pela estrada de terra batida o caminho até a casa onde cresceu.

Não demorou até que estava de pé, a frente da sua casa, ficara paralisado por um instante,  observando a casa. Algo parecia lhe impedir de passar pela porta da frente.

Lembrava com requintes de detalhes da última vez que passou por aquela porta. Lembrava do que viu, do que sentiu, quando abriu aquela porta da última vez.

Tomou coragem e subiu os degraus, sabia que não havia forma de ver aquilo novamente, então quando empurrou a porta corrediça para o lado, ouviu a explosão e tudo se apagou.

A carga de ferro disparada do canhão de cerco arremessou Aoshi para longe, e antes que pudesse acordar, foi arrastado pelos pés até a parte de trás da casa.

Haviam diversos homens armados, pareciam uma espécie de força de elite, e junto deles, estava Anúbis, o agente de Canópus, que com os braços cruzados, apenas observava.

Aoshi estava desacordado, todas suas costelas foram quebradas, bem como a espinha. Os órgãos vitais tinham consistência de mel, mas com as capacidades curativas de Aoshi, logo estaria de pé. E então, aqueles tolos pagariam.

- Rápido, tragam-no aqui. Disse a voz a distância, Aoshi acordou, mas não ouviu isso, seus tímpanos ainda se recuperavam da explosão.

Mas Aoshi logo voltara a ouvir, e estava realmente impressionado com toda aquela operação, tantas pessoas envolvidas. Reconhecera dois agentes de Canópus, e diversos de Tsukaba, Fukyo e Taoken.

- Ao menos os reinos estão levando a ameaça de Aoshi a sério. Disse Tengu.

- Sim, ao menos isso. Mas não sei o que pretendem fazer quanto a imortalidade de Aoshi.

- Ele é imortal? Pelo que vi nas suas memórias, ele apenas se cura muito rápido.

- Basicamente é isso sim, só que as capacidades curativas dele são as mais impressionantes de Gaia. Se sobrar uma gota de sangue de Aoshi, ele toma forma novamente.

- Diabos. Inimigo impressionante.

- Longe de mim. Mas por isso que estou curioso. Que diabos pretendem fazer.

Então dois homens passaram por Anúbis arrastando Aoshi que parecia uma boneca de pano. Sem qualquer rigidez no corpo.

- Rápido, preparem a contenção. Nisso quatro homens tiraram a estrutura de madeira de cima da carroça e puseram cuidadosamente no chão.

Usando de duas chaves, retiraram a estrutura de madeira que protegia um barril cilíndrico de um material que parecia vidro. Dentro deste, um líquido viscoso amarelado.

- Mas que diabos... Sussurrou Anúbis.

Enquanto era carregado pelos dois homens, Aoshi viu de relance, o seu alvo, o homem que causou tudo aquilo. Aquele que estuprou e matou sua mãe e lhe transformou no que é hoje.

Com os braços cruzados, e um largo sorriso no rosto, o homem observava Aoshi sendo carregado. Devia imaginar que estava seguro. Aoshi riu em sua mente.

- Não existe lugar seguro para você. Pensou. - Logo estarei de pé, estes homens mortos e só você e eu vamos nos divertir.

Aoshi então foi arremessado pelo ar, e logo caiu naquele estranho óleo amarelado.

Aos poucos foi descendo, até chegar ao fundo do enorme barril. Um homem correu o mais rápido de pode e selou o mesmo com a tampa de vidro. Outro homem trajando um longo manto púrpura, veio de trás deste e citando algumas palavras em idioma élfico, selou o barril de vez.

Aoshi então sentiu. O formigamento, a dor agonizante e a anulação do seu poder de cura.

- Ácido? Pensou, com os olhos arregalados, pouco antes dos mesmos se liquefazerem dentro do barril.

Se debateu como pode.

Não demorou até que o primeiro pé se separasse do corpo, então o segundo e logo Aoshi estava sem nada abaixo dos joelhos.

Continuava batendo contra as paredes transparentes do vidro.

A pele desapareceu ao mesmo passo dos olhos, deixando os músculos a vista e em alguns pontos, até mesmo os ossos.

Diminuiu o ritmo da luta.

Enquanto uma das mãos já havia se liquefeito no barril, a outra teimava em se separar do corpo maligno.

Então parou de vez.

A boca, sem lábios, as cavidades dos olhos, vazias. Sem pele, nada além de tocos que pareciam mastigados abaixo dos joelhos e na altura de um antebraço. A mão com apenas dois dedos, completamente retorcidos. O tórax, com costelas e um ou outro órgão a vista.

- Ele está morto? Perguntou Anúbis, se aproximando do homem que parecia comandar toda a operação.

- Não. Respondeu o homem. - Aoshi não pode ser morto, ao menos não conhecemos nada que pudesse matá-lo de vez. Anúbis ficou impressionado pela franqueza daquele homem, que logo continuou.

- Não, isso é apenas uma contenção. Esse óleo, essa espécie de ácido foi criada no colegiado mágico de Alnitak, e cedido nesta quantidade apenas para essa operação.

- Então o objetivo da operação era anular Aoshi, prendê-lo?

- Sim.

- Vocês não podem fazer isso. Ninguém pode. Disse Anúbis, lembrando que viu o mesmo ser atacado por dezenas de lobisomens, dias antes e sobreviver como se nada houvesse acontecido.

O homem sorriu. Conhecia a fama de Aoshi, mas ainda não havia presenciado nenhum de seus "milagres". Em seu âmago, achava que tudo não passava de exagero.

- Senhor Anúbis, olhe para isso. Disse apontando para o barril, que guardava o que restava de Aoshi. - Acredita mesmo que este homem poderá escapar dali?

Anúbis não argumentou. Aoshi realmente parecia inofensivo, e desde que aquele liquido mantivesse suas capacidades curativas sob controle, talvez, e este era um enorme talvez, talvez, Gaia estivesse salva.

- Para onde ele será levado?

- Informação confidencial.

Diversos metros acima deles, uma águia voava livremente, um espião para os três homens que, longe dali, assistiam toda a operação.

- O garoto nos traiu.

- O que faremos com ele?

- Não sei se precisamos fazer algo, afinal de contas, a decisão que ele tomou não apenas vai retardar, e muito, o plano de Aoshi, como evitou que o bastardo pudesse fazer mal ao povo de Fergus. Disse Balash.

- Vocês sabem que ele vai escapar, não sabem? Perguntou Nathan.

- Será?

- Concordo com Nathan, Belerofon. Aoshi sempre achou um jeito, dessa vez não será diferente.

- E o que podemos fazer?

- Nos preparar. Respondeu Balash.

- Preparem-se o quanto quiserem. Sei a opinião de vocês, mas vou tentar algo bem diferente. Nathan tinha um estranho sorriso no rosto quando disse isso, Belerofon não resistiu e perguntou.

- Já posso dizer que está certo, mesmo sem saber do que se trata. Que diabos vai fazer Nathan?

- Vou encontrar a alma de Aoshi, e colocar de volta nele.

Rasghul acabara de atravessar a borda da tempestade, e já podia ver no horizonte as ondas de vinte, trinta metros de altura.

Não demoraria, aquelas ondas estariam jogando a Orca de um lado para o outro, como se fossem cães brincando com uma boneca.

- Ela aguenta. Pensou o lobo do mar. - Já aguentou no passado.

Então começaram as tempestades.

A chuva pesada que caía dificultava a visão dentro do barco, quem dirá na navegação. Os homens corriam pelo convés feito loucos, reforçando cada amarra e cerrando cada compartimento do pequeno barco.

- O mar é um ambiente hostil e não perdoa erros. Rasghul lhes disse, quando deixaram a costa. - Confio em vocês e precisarei de sua competência em alto mar se queremos voltar com vida.

Era muito dificil para aqueles homens concentrarem-se em suas tarefas quando um enorme tufão se formava, há poucas dezenas de metros do barco.

Tufões eram muito comuns na área do Desconhecido, bem como ondas gigantescas e o aparecimento de animais que não viviam em nenhuma outra parte de Gaia.

Enquanto as ondas maiores ainda se encontravam no horizonte, algumas de menor porte, com apenas doze ou treze metros de altura jogavam a Orca, de um lado para o outro.

No leme, Rasghul gritava.

- Ah sua vagabunda, eu também senti a sua falta.

Ele falava com Gorgorath, Deusa dos Mares de Gaia. O folclore terrestre de Gaia a via como uma divindade masculina, mas os homens do mar sabiam que era uma Deusa e não um Deus.

Dizia-se que ela vivia na região do desconhecido, a área tempestuosa que Rasghul, um dos poucos homens que já sobreviveu a região, fora encarregado de investigar.

Os marujos agora encerravam suas tarefas e conforme recomendado por Rasghul tão logo viram as primeiras nuvens negras no horizonte, se seguravam como podiam no convés, atentos a qualquer problema.

- Está se esforçando pouco, cadela. Gritava o homem rindo insanamente ao leme.

Ao contrário de Rasghul, aqueles homens eram, como ele gostava de dizer, virgens do mar. Conheciam apenas as águas cristalinas da costa de Phobos, fizeram uma o outra viagem em alto mar, mas não haviam, novamente, nas palavras dele. - Sido fodidos pela vagabunda do mar.

Então Rasghul viu a colossal onda que se formava diante de seus olhos e os raios que podia ver no horizonte desaparecer detrás dela. A onda devia ter dezenas de quilômetros de largura e um ou dois sobre a superfície.

- Segurem-se rapazes. Gritou o velho olhando para os companheiros. - Vai ficar meio turbulento agora. E soltou uma sonora gargalhada enquanto o diminuto barco percorria a onda.

Há pouco havia passado da metade da onda, ainda longe da crista quando sentiu que a embarcação já havia inclinado mais de quarenta graus. Uma pitada de dúvida surgiu em seu coração, se conseguiriam realmente atravessar aquela parede de água.

Um dos homens, próximo a popa do barco, olhou para o mar e viu a sombra negra que parecia os acompanhar. Era algo vivo e de dimensões incompreensíveis. Tomara que seu capitão estivesse certo, se falhassem naquela onda, seriam comida, do que quer que estivesse em seu encalço.

Enquanto se aproximavam das nuvens tempestuosas, o velho continuava gritando obscenidades ao léu. E então, silêncio.

Cruzaram as nuvens negras e surgiram entre as nuvens brancas e o céu azul, no que parecia um mar tranquilo e sereno.

Respiraram o ar puro enquanto o pequeno barco tomava a inclinação contrária a de há pouco e agora atravessava, como um Mergulhão, o ar em altíssima velocidade em direção a água.

Tocou a costa da onda e suavemente seguiu até a próxima onda, em velocidade surpreendente.

Então viram o primeiro Kraken surgindo ao sudeste, diversos quilômetros da Orca, parecia em batalha com outro ser ainda maior. O marujo da popa do navio, que ainda há pouco estava boquiaberto, reconheceu os traços básicos da criatura que os seguira.

Na certa os abandonara por uma presa com mais carne.

Mas então outra coisa tirou a atenção dos marujos do combate entre os monstros, um turbilhão que se formava não muito a frente do barco.

Com uma bocarra capaz de engolir pequenas ilhas, o gargalo a frente da embarcação os trazia cada vez mais para perto enquanto Rasghul gritava.

- Agora sim, vadia. Agora está ficando bom.

Conforme se aproximavam do que podia ser o fim da expedição, o comandante parecia ainda mais confiante.

Então o vento parou, assim como o barulho da tempestade.

Então os marujos, levantando os olhos, viram o céu azul em um pequeno círculo entre o mar de nuvens negras. Rasghul não viu isso, sabia que não podia tirar o olho da proa, do leme e da maldita garganta de Gorgorath que o desafiava.

Levou o barco a margem externa do turbilhão e jogou o barco para dentro da centrífuga.

Os marujos se desesperaram, tinham certeza de que o capitão ia matar a todos. Mas Rasghul tinha um plano, já havia enfrentado um monstro daqueles. Então usou a força da corrente que girava para pegar velocidade o suficiente para sair do outro lado do turbilhão.

- Não foi desta vez. Vagabunda. Gritou ele olhando para trás, vendo que a garganta se fechava atrás deles.

Pouco depois disso, as nuvens começaram a se dissipar, na mesma velocidade que o mar voltava ao normal. Haviam atravessado a fronteira, como Rasghul chamava a região tempestuosa.

Então viram a costa, estariam de volta a costa de Gaia? Não, o mar era cristalino, diferente das águas escuras da costa de Gaia.

Também não era o extremo sul, ou norte já que golfinhos seguiam o barco e diversas aves costeiras voavam tranquilamente.

Rasghul ainda parecia tenso, mesmo com aquela vista paradisíaca, algo que intrigou o resto dos marinheiros que logo viram a razão, quando puseram os olhos nas partes mais profundas da água cristalina.

Um recife de corais de absurdas proporções. Parecia o topo de uma cadeia de montanhas, onde partes pontiagudas beiravam a superfície, prontas para rasgar o casco de uma embarcação ao menor descuido.

Como que seguindo um mapa mental, Rasghul girava o leme com precisão depois de navegar por certo tempo, então virava novamente o leme. Percorria mais uma distância, girava o leme novamente, então, gritou.

- Segurem-se! E girou o leme com todas suas forças fazendo uma curva próxima aos noventa graus.

A embarcação quase virou. Mas Rasghul não era qualquer capitão, como aqueles homens  descobriram nas últimas horas, Rasghul, ao leme era um verdadeiro monstro dos mares.

Então os homens sentiram o forte baque, dois deles foram arremessados para frente, um deles quebrou boa parte dos dentes, enquanto o barco parecia se acomodar em algo.

Levantaram lentamente, exceto pelo homem que perdeu os dentes, que desmaiado, ficou deitado junto ao mastro. Viram, debaixo de não mais de um metro de água cristalina, a areia branca.

- Senhores, joguem a âncora, carreguem o bote com nossos equipamentos de exploração, lancem o bote ao mar e preparem-se, pois vamos até a terra firme.

- Mas capitão. Perguntou um deles. - Não podemos ir caminhando pela água?

Rasghul riu, e aproximando-se da lugar onde estavam todos jogou um pedaço de corda que se desprendeu do mastro, na água.

De imediato uma Moréia de grandes dimensões saiu debaixo da areia e abocanhou a corda furiosamente.

- Primeira lição meninos, nada é o que parece nessa terra.

Tudo o que os manteve vivos até então, Rasghul aprendera da pior forma possível.

Décadas antes, quando com seu mentor, o Grande Almirante Syleth, atravessou a fronteira da tranquilidade e navegou por entre as nuvens negras pela primeira vez, navegava em um galeão real. Contava com mais de trinta homens e quarenta canhões.

Dada a fama de Phobos na época, era uma embarcação temida por todos os reinos de Gaia.

Mas a Deusa dos mares não tinha qualquer medo dos humanos e seus brinquedos, e fez questão de mostrar isso quando lançou todos seus poderes contra o poderoso Almirante e seu Galeão.

Rasghul aprendeu ali, como comandar sob pressão.

Syleth enfrentava todas as adversidades, turbilhão, ondas de imensas proporções, criaturas das mais variadas formas e dimensões, com tranquilidade invejável. Algo que Rasghul ainda não conseguia.

Mesmo assim, Rasghul viu vinte dos seus companheiros perecerem na viagem. Dois deles vitimas das Moréias da areia, que os espedaçaram, logo atraindo a atenção de dezenas de tubarões, devido ao sangue.

Erros infantis, passava o agora experiência Rasghul, mas que jamais se repetiriam.

Com a Orca firmemente ancorada na areia próxima a praia, o grupo de exploração segui em direção a areia, composto por Rasghul e mais três marujos, dois outros ficaram na Orca, para garantir a segurança e preparar a embarcação em casa de uma fuga rápida.

Mal chegaram a areia, e temerosos, não saltaram para arrastar o pequeno bote até parte mais alta.

- O que estão esperando, bastardos? Aqui já é seguro. Bradou Rasghul saltando do bote.

Com o bote já em um ponto mais alto da areia, Rasghul, que ia a frente, virou e disse aos demais.

- Bem vindos ao leste, meninos. Agora vamos encontrar os bastardos que mataram nossa gente.

Ulf ainda tentava entender a relação de Delta com seu criador. O construto chamava o criador de pai, o que provavelmente era recíproco.

Aí que estava o problema, como podia um pai, matar o próprio filho?

- Ulfric, você já construiu um abrigo? O Anão foi pego de surpresa.

- N-Não, Delta. Tão logo comecei a construir um... Antes que pudesse continuar, lembro das circunstâncias que o levaram aquele Construto.

O ser com quem Ulf agora conversava abertamente, era transportado dentro de uma caixa de madeira, e era para ser entregue em outro reino. Pior, em caso de problemas, Ulf devia se livrar daquilo.

- Sim? Perguntou Delta.

- Perdão, me peguei nos pensamentos de como parei neste lugar, ou melhor, nisto. Enfim, iniciei a construção de um abrigo e enquanto vim pescar algo para comer, lhe encontrei na praia, jogado entre as rochas.

- Quer dizer que me encontrou entre as rochas?

- Sim.

- E antes disso nunca havia me visto?

O Anão sabia que a conversa estava sendo direcionada e que a melhor saída seria contar toda a verdade.

- Não, desculpe Delta, mas essa não é a verdade. Iniciou o Anão. - Fui chamado pela líder do meu Reino para lhe entregar em Obukan, um reino ao nordeste de Gaia. Era uma viagem muito longa e como você era tido como uma carga muito perigosa, contornaríamos a costa, prosseguindo por um rio até um porto do Reino.

- Entendo. Respondeu o Construto.

- Não sabia o que havia dentro da caixa de madeira que levávamos, estava apenas cumprindo uma tarefa. Completou, o Anão.

- Isso é tudo o que sabe sobre a empreitada?

- Sim. Respondeu Ulf. - A governante deste Reino que mencionei é uma mulher que amei muito. Fez uma pausa de poucos segundos, então continuou. - Não vou mentir, amo muito. E que acabei decepcionando, muito, no passado. Por isso, quando ela me deu essa tarefa, vi como uma chance de me redimir, talvez reconquistá-la.

O Construto balançava a cabeça, já que não exibia qualquer expressão na face rochosa.

- Entendo. Embora esteja curioso pela razão de ser transportado entre Reinos, mais ainda por ser algo secreto, agradeço a sua honestidade, Ulf. Mas sobre estar preso aqui, o que pretende fazer?

Ulf respirou fundo, fitou o mar e responde.

- Sabe que não sei. Gosto daqui, bastante, mas tenho assuntos a resolver em Drunkirsh, assuntos do tipo que só podem ser resolvidos com brutalidade.

- Que assunto seria esse?

Ulf então explicou sobre toda a situação de sua irmã. Como ela havia sido apontada como a nova profetiza de um antigo culto Anão. Como ele fora expulso de Drunkirsh como pária, e jamais poderia voltar.

Contou também sobre a sua promessa, de limpar o trono, hoje ocupado pelos vermes do clero, e restaurar o poder aqueles de direito.

Enquanto esfregava o queixo rochoso, o Construto parecia trabalhar em uma ideia.

- O que está pensando. Perguntou o Anão.

- Agora você tem os meios para realizar sua vingança, Ulf. Tens um ser de gigantescas proporções e poder quase infinito. E pode contar comigo, enquanto não achar outro propósito mais digno. É o mínimo que posso fazer, depois de você ter me acordado, depois de tantos milênios.

Ulf sentiu uma carga de adrenalina lhe correr pelas veias como nunca antes havia sentido.

- Diabos, você está certo. Então disse. - Espere um pouco. Baixou a cabeça e pareceu meditar.

O Construto apenas observava o Anão a sua frente, então, sentiu como se o próprio chão debaixo de seus pés começasse a tremer.

Ulf levantou a cabeça lentamente, olhou nos olhos de Delta, e disse.

- Aqueles bastardos pretensiosos não fazem ideia do que vai lhes acontecer.


Epílogo

A estrada se encontrava abandonada e a grama crescia entre as pedras cuidadosamente ajeitadas no que, décadas antes, fora uma das principais estradas de comércio de Gaia.

Com a redução do uso medicinal da semente da papoula, a região deixou de ser um verdadeiro celeiro de comerciantes. Todavia ainda se podia ver, vez que outra uma enorme casa de fazendeiro, taverna ou estalagem abandonadas.

Há apenas vinte anos, o último residente, do último vilarejo por onde a estrada passava, trocou o lugar pela capital de Tsukaba que, ao contrário do seu vilarejo, pulsava vida.

Como em um corpo envenenado, aquela rota parecia transmitir veneno, matando tudo que havia em seu caminho, até o mar, onde hoje resta apenas as estruturas do porto abandonado. E hoje, um barco ancorado, que aguardava pacientemente pela carga.

Uma carroça cruzava aquela estrada maldita, depois de tantos anos sem qualquer movimentação. 

Dado o grande número de soldados de elite que mantinham um perímetro de segurança em torno da mesma, podia-se imaginar a valiosidade da carga.

O homem que guiava a carroça, um senhor de não mais de cinquenta anos, usava um chapéu da guilda de caçadores de recompensas de Mintaka.

Ninguém ali conhecia a guilda, e isso também não era relevante, exceto que todos os outros caminhavam quase sem poder ver o caminho, pelo sol a sua frente. Enquanto o homem guiava tranquilamente os quatro cavalos pela estrada.

Cerca de cem metros a frente da carroça corria um homem, um batedor, designado para encontrar possíveis emboscadas. Era um dos melhores que o dinheiro podia pagar, se houvesse um problema, ele apenas tinha que voltar e avisar a todos.

Montados em dois cavalos, vinham o que pareciam ser os comandantes da operação. Um deles trajava um longo manto púrpura, o outro, usava roupas normais, talvez para não ser reconhecido como parte de algum exército.

- O Imperador Andrius não vai ficar feliz com tudo o que entregou ao jovem agente. Disse o homem de manto.

- Cale-se Samuel, nosso Imperador não se importa com os boatos espalhados pelas ovelhas, talvez fosse também não devesse.

Samuel riu.

- Sabe que aquele jovem tinha um acordo com os Ursos do Norte, não?

A informação pegou o homem de surpresa.

- Não, não sabia.

- Então. Se ele desertar para o comando de Balash, quem sabe o que entregará de Canópus. Quais segredos do reino permanecerão como segredos? Talvez fosse devesse ter ser preocupado com a opinião das ovelhas, Carlos. Ao menos nessa vez.

- De qualquer forma, o rapaz passara por muita coisa até chegar naquele casebre. Ele merecia saber. Não esqueça que apesar de qualquer acordo que ele tivesse com os ursos, foi conosco que Aoshi saiu. Samuel apenas concordou.

Então a carroça a frente deles parou, de súbito. Carlos galopou até a frente, com esperança que fosse apenas um buraco que pudesse danificar as rodas da carroça, ou uma ferradura que se desprendesse dos cavalos que puxavam a carroça. Não era nada tão simples.

Na verdade, não era nada, não havia qualquer problema. Carlos então se aproximou do homem que guiava a carroça e perguntou.

- Por que parou, homem? Temos pouco tempo até o anoitecer. O homem, em silêncio, levantou o braço, apontando mais adiante na estrada.

Carlos pôs a mão acima dos olhos, buscando ver contra a luz do sol.

Era um corpo. Pelos trajes, provavelmente do batedor.

- Fique atento. Disse Carlos. - Se houver problema, dê meia volta e saia daqui em disparada. Continuou enquanto cavalgava calmamente em direção ao corpo.

- Por que não uma ferradura? Por que não um buraco na estrada. Então, teve seus pensamentos interrompidos pela figura negra que surgia no horizonte.

Aos poucos podia ver que era uma figura masculina, de ombros largos e estrutura bruta. Trajava um longo casaco e um chapéu que lhe cobria o rosto.

- Quem usa um casaco destes, nesse calor? Se perguntou, enquanto sacava a balestra e apontando para a figura, esperava uma reação.

Mas o homem não reagiu de qualquer forma e continuou caminhando na direção de Carlos que ainda não podia ver o rosto do homem misterioso.

- Pare aí mesmo. Gritou Carlos.

Foi ignorado.

- Pare ou vou disparar. Alertou.

Em passos curtos, lentos e cadenciados, o homem continuava caminhando na sua direção.

Carlos pressionou o gatilho com tranquilidade, era um exímio atirador, atingiu o pescoço do homem que caiu para trás, sem esboçar maior reação.

Quando uma seta, com ponteira de caça, atravessa a garganta de algo vivo, o próprio coração que bate firmemente no peito da vitima trata de matá-la. A cada pulsar do coração, mais e mais sangue é jorrado para fora do corpo. 

Poucos segundos são necessários até que a vitima esteja morta.

Carlos deu o tempo que julgou necessário para que o homem estivesse morto, aproveitou para recarregar a arma. Então olhou para trás, assegurando que todos os guardas estavam atentos e a carruagem sob segurança, cobriu o curto espaço que o separava da vitima.

Conforme se aproximava, percebeu que algo estava errado. Aquele que caiu não era um homem.

Os pés, ou melhor, patas, tinham escamas e garras como as de um lagarto. A escamas pareciam espessas, capazes de resistir a um golpe de força bruta sem maior dificuldade.

Chegou ao lado da criatura que deitada permanecia, viu ao lado dela a seta que disparou, quebrada e com a ponteira retorcida. 

Tornou a fitar o corpo da criatura e viu no pescoço um arranhão nas escamas que cobriam o pescoço. A seta não havia perfurado o pescoço da criatura.

Antes que pudesse levantar a balestra novamente sentiu o forte golpe do lado direito do corpo, que o arremessou de cima do cavalo, contra o chão.

Pouco antes de desmaiar, com a visão enevoada, pode ver a criatura que derrubara, segundos antes agora estava de pé, correndo na direção da carruagem. Então ouviu gritos e sentiu o cheiro de sangue no ar.

Demorou diversos minutos até recobrar a consciência, com a visão ainda prejudicada, passou a mão no topo da cabeça e sentiu o corte causado pela queda. Uma das mãos foi instantaneamente às costelas, provavelmente fraturadas pelo golpe que o jogou para longe da montaria.

Sentou sobre as pernas tentando ignorar ambas as dores e olhou ao seu redor.

Sua montaria, partida ao meio, sangue por todos os lados, bem como partes de corpos da guarda de elite que o acompanhava.

Levantou-se, com muita dificuldade e caminhou até o que restara da carruagem que guardavam, passou pelos pedaços dos quatro cavalos, os quais era impossível distinguir qual era qual, tamanha a carnificina.

Viu os pedaços de madeira da carruagem, sem a carga que levavam.

Caminhou por entre os corpos dos soldados, e então constatou.

- Onde estão Samuel e o condutor da carruagem?

Sabendo que não havia mais nada a ser feito ali, providenciou bandagens para seus ferimentos, recolheu suas armas e reiniciou a caminhada em direção ao porto, pensando na explicação que daria ao Imperador por ter perdido o corpo do maior genocida de Gaia.



Bom pessoal, aqui encerro o segundo livro... Agora é revisar a edição completa, adicionar uma ou outra coisa que está faltando e encaminhar para registro.

Fiquem atentos para o terceiro livro, cujo início já irá ao ar nas próximas semanas.

Ah, quaisquer considerações, sugestões e mesmo reclamações serão muito bem vindas. Publique aqui, por meio de comentário ou me mande um E-mail mesmo.

Abraço,

Guilherme

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