quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Noir...

Um único cubo de gelo teimava em se desfazer no copo com uma dose e meia de uísque. 

O homem segurava o copo a frente dos olhos, apreciando a coloração, e a distorção do mundo através daquele que havia sido seu companheiro em noites difíceis já há um bom tempo.

Entre os dedos, um cigarro barato. Começara a fumar, décadas antes, pela estética, como boa parte dos adolescentes, mas ficara pelo sabor. Como um chocolate, aquele cigarro vagabundo que custava meia dúzia de tostões era o seu vício.

Pensava sobre o filme que havia assistido na noite passada. Um detetive, que procurado por uma bela cliente, fora contratado para descobrir o assassino do seu marido. Acabou por descobrir que a chorosa mulher de véu negro e longos cabelos loiros havia disparado duas vezes contra o peito do próprio marido.

O filme Noir, daqueles que apenas um bom diretor consegue trazer ao espectador fora bem produzido, tinha ótima fotografia e atores bastante convincentes. Mas para ele não passava de uma comédia. Riu quando lembrou do final, o detetive sendo baleado pelas costas, pela chorosa mulher de véu negro.

Morto, pelas costas, por uma viúva negra, ridículo.

Com o grito das dezenas de pessoas que ocupavam o bar, foi trazido de volta a realidade.

O bar, normalmente um ambiente agradável, hoje estava coberto de fãs de basquete. Dois enormes televisores dispostos em pontos estratégicos mostravam um mesmo jogo para quarenta ou cinquenta pessoas que se amontoavam em meio as cadeiras.

O calor humano era insuportável, além, é claro, do perfume barato dos conquistadores, que se viam como leões na savana, prontos para a caçada.

Sequer sabiam que era a fêmea do leão, que caça na savana.

Pegou o copo e deu longo gole. Chamou o garçom que logo preencheu o vazio do mesmo.

Deu uma tragada no cigarro e virou-se no banco para ver os fãs de esporte que infestavam seu bar.

- Diabos. Pensou.

Esperava uma noite tranquila, onde pudesse esvaziar uma garrafa de uísque, tragar meia carteira de cigarro no bar mais próximo de seu pequeno apartamento, e depois, meio grogue, cair na cama, apenas para acordar no próximo dia com uma enorme ressaca.

Fora um daqueles dias. Um dos que fazia com que ele pensasse com carinho na aposentadoria, ou em sair da Força e abrir seu próprio escritório. Era um ótimo detetive.

Ao longo dos seus vinte anos de trabalho, colocou mais de setenta criminosos atrás das grades, mais que o restante do seu departamento.

Diziam que era abençoado, que contava com mais sentidos que a maioria das pessoas. Sempre sabia onde encontrar as pistas. 

Era um interrogador como nunca houve outro igual, e ainda confortava as vitimas antes que o apoio psicológico chegasse a cena do crime.

Constantemente ouvia a pergunta.

- Por que nunca virou Tenente?

A resposta era óbvia para ele.

- Por que estou aqui para resolver crimes, não assinar papéis.

Era assim, um homem prático, de meios antigos. Tinha informantes não registrados jundo ao departamento, uma regra dos tempos atuais, onde os contribuintes pagavam pelas informações, não mais os policiais.

Mas não ele. Seus informantes eram apenas seus informantes.

Faltava dinheiro para seu uísque de final de tarde, mas não colocaria os nomes de "seus rapazes" em uma lista na Delegacia onde qualquer tira corrupto podia ver e entregar aos chefões da cidade. 

Por saber disso que seus informantes sempre buscavam saber do que ele precisava, e sempre lhe entregavam tudo o que sabiam.

Deu uma última tragada no cigarro e colocou o toco no cinzeiro.

Bebeu o último gole e fez um gesto ao garçom que logo entendeu e acenou.

Calmamente desceu do banco, com seus sentidos levemente alterados, e caminhou pelo mar de cadeiras espalhadas.

Agora que não estava em seu próprio mundo, acompanhado de seus amigos tabaco e álcool, sentia a realidade tomar o lugar. Sentia ainda mais o barulho, os odores e o calor. Era insuportável.

Quando sentiu o ar frio da rua lhe beijando o rosto, foi como se tivesse encontrado o próprio Deus todo poderoso.

Suspirou com um sorriso nos lábios, colocou o chapéu e seguiu em caminhada enquanto a neve caía.

Já devia ser tarde, a maioria dos estabelecimentos estavam fechados. Talvez fosse a neve, nada como uma noite fria para espantar os consumidores.

Para ele, aquilo era perfeito. A temperatura abaixo de zero tinha efeitos absurdos em seu organismo, sentia-se melhorar a cada passo que dava. Mesmo depois de meia garrafa de uísque e um dia daqueles.

Sentia seus sentidos sobrenaturais voltando a ativa o que aumentou ainda mais a surpresa, quando ouviu, sem aviso.

- Detetive. A voz era serena, conhecida, mas algo estava errado. Não esperava ouvir aquela voz novamente.

A neve faz um barulho peculiar quando uma pessoa passa por ela, semelhante a areia, algo que qualquer pessoa podia ouvir, em uma noite silenciosa como aquela.

Ele não ouviu a pessoa se aproximando e com olhos arregalados, virou lentamente. Quando ouviu o ruído tão conhecido. 

Seu rosto pálido se iluminou por um instante.

Por simples reação, continuou virando apenas para ouvir, mais uma vez, o estampido, e ver, uma última vez, o brilho que tão poucas vezes, em sua carreira bem sucedida, viu.

Mantendo a expressão de espanto, caiu de joelhos e então para o lado esquerdo, na neve.

Vinte anos de trabalho na força policial acabaram em uma poça de sangue quente que começou a cercar seu corpo em meio a neve e um assassino que desaparecia na noite, da mesma forma em que surgiu, sem ser visto por ninguém.

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