quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sombra e Malícia

No dia em que partiram de Unbata, Ulf e Torres estavam lado a lado no convés da veloz embarcação. Olhavam para o pier, onde Morgana, com braços cruzados lhes observava com olhar tenro.

Morgana levantou o braço em um aceno carinhoso, Torres retribuiu, Ulf quase fez o mesmo, mas sentiu que o cumprimento não fora para ele. Deu as costas e foi até o leme.

Torres era um homem do mar, fora criado em Unbata e passara toda a sua vida correndo entre embarcações. Serviu sob o comando de três outros regentes do reino, e até mesmo na época em que Unbata não passava de uma enorme frota pirata.


Tinha a pele queimada do sol, e os cabelos castanho claros, quase loiros pelo efeito da água do mar. Sempre vangloriava que dava o seu melhor em alto mar, sua verdadeira casa.

Então por que sentia aquele aperto no peito quando deixou a costa? Aquela angustia.

Cabisbaixo decidiu acompanhar Ulf ao leme e ajudá-lo com o que quer que precisasse. Tinha certeza que o Anão precisaria de ajuda. Sorriu ao lembrar disso.

Ulf não era um marinheiro. Ulf era um Anão.

Anões não navegam, Anões cavam, Anões mineram, Anões forjam e Anões bebem.

Ulf não cavava, ou minerava, ou forjava. Até bebia, mas não contava com a resistência alcoólica típica dos da sua raça, logo, não bebia tanto. Então podia navegar.

Ao menos gostou dessa linha de raciocínio.

Teve pouco tempo para elaborá-la, mais especificamente o tempo do percurso do entre a nau capitã, embarcação de Morgana e a Porca D'Água, a sua embarcação.

Agora que lembrou do nome da sua embarcação, riu e pensou.

- Aquela diaba deve ter colocado esse nome só para me humilhar quando chegarmos a Oshkiik. Não conseguiu disfarçar o sorriso triste quando lembrou de Morgana.

- Algo lhe aflige, Anão? Perguntou Torres.

- Ótimo, justo com quem eu queria passar a próxima estação. Pensou. - O mar, Torres. O Mar me aflige. Sempre me afligiu, sempre vai afligir. Torres riu.

- Não sei, amigo. Disse Torres levando o olhar ao mar que se estendia a frente.

- Amigo é a bunda de um porco. Pensou Ulf antes que Torres pudesse continuar.

- Mas acho que você ainda vai se sair um excelente marinheiro, heim. Ulf cruzou os braços, olhou sério para as velas que dançavam ao vento e disse.

- Espero que sim, Torres. Afinal de contas, já estamos em alto mar e precisaremos de todas as mãos no convés.

Como Ulf já havia descoberto, a Porca D'Água tinha ótimas acomodações para uma embarcação, a primeira vista, simples.

O capitão e seu imediato tinham acomodações próprias, nada luxuoso, mas mais que suficiente em alto mar. E mesmo as acomodações da tripulação, menor que a esperada para uma embarcação como essa eram bastante confortáveis.

Quando atravessou a porta das acomodações do Capitão, com Torres ao seu lado, viu o homem contratado por Torres para assegurar o seu retorno a Unbata.

Um senhor de feições rijas como um saco de rochas, magro e alto estava à ponta de uma mesa pequena repleta de comida. Tinha a pele marcada pelo sol e mãos calejadas. Ulf gostou do que viu, sentiu segurança que aquele homem podia levá-lo de volta para Unbata.

- Boa noite Capitão. Disse o Anão, polido, como de costume.

- Boa noite mestre Anão. Replicou o Capitão. - Boa noite, senhor Torres. Por favor, sentem-se.

Torres sentou em um lado da mesa, Ulf do outro.

Enquanto o Capitão, de pé, cortava o peixe recheado e servia, pessoalmente, aos convidados, perguntou.

- O senhor Torres já sabe, mas pode me chamar de Shinto.

- Muito prazer, senhor Shinto. Respondeu Ulf, educadamente.

- O senhor Torres já me disse que a carga que temos é um segredo, que nem mesmo o senhor sabe.

- Sim. Não entendo a razão do mistério, mas se Morgana julga necessário, quem sou eu para contestar?

- Sim, todos sabemos como a Rainha dos Mares reage quando contestada. Disse Torres rindo.

Ulf queria degolar Torres e por um momento teve que soltar a faca de súbito sobre a mesa, para que não o fizesse. Emendou uma sonora risada para "anular" o som da faca batendo no prato.

- Maldito. Pensou.

- Vamos até Oshkiik e depois seguimos o Rio dos Deuses até Obukan, certo?

- Certo. Respondeu Ulf.

- Os senhores entendem que houveram complicações nos mares ao sul de Gaia nas últimas estações, certo?

Ulf lembrou do que Morgana havia dito sobre uma espécie de divindade levantar do mar então respondeu.

- Sim, Morgana me contou algo sobre uma divindade, ou algo do tipo.

- Sim, mas não era a isso que me refiria.

Mesmo Torres foi pego de surpresa.

- Não? Perguntou ele.

- Não. Tenho ouvido relatos de embarcações fantasmas que destroem cidades inteiras, fazendo com que a população das mesmas desapareça mar adentro.

- Diabos.

- Mas o que é isso, Shinto?

- Não se sabe. A única coisa que sei é que o último alvo foi Phobos, a capital do reino, mais especificamente.

- Atacaram Phobos? Quem seria louco de atacar a Armada Invencível?

"Armada Invencível, como ficou conhecida a frota de Phobos é composta por diversas caravelas, galeões, fragatas e tantas outras embarcações quanto se pode imaginar.

Tendo sido o único reino a fazer frente com Unbata em combate direto, dezenas de anos atrás, Phobos é uma grande ameaça a qualquer frota de Gaia, e uma força a ser respeitada em termos militares."

O Mar de Gaia - André Borgia

- Não se sabe. Mas o que quer que tenha sido, destruiu a costa.

A ideia de que havia algo suficientemente poderoso para atacar em súbito uma das maiores forças marítimas de Gaia, e vencer, povou os sonhos de Torres, naquela noite, fazendo com que dormisse pior que Ulf. Algo que julgava impossível.

Ulf, por outro lado, já havia desistido da ideia de dormir. Sabia que não dormiria em alto mar ao menos que estivesse completamente exausto, então ficou na proa da embarcação, observando o mar.

Pensou na imensidão que o cercava, no meio do vazio. Por mais que não fosse um Anão convencional, Ulf ainda ficava espantado com a imensidão do céu, ou teto, como os outros de sua Raça chamavam. Mas aquilo era todo um outro nível.

Um infinito acima, abaixo, e em todas as direções, apenas a escuridão.

Estranho. Ulf se sentiu bem com aquilo.

Talvez fosse destinado a se tornar um bom marinheiro mesmo. Sorriu.

Virou na direção do mastro, o analisou por um tempo, as amarras, as velas. Analisou profunda e calmamente os outros mastros, a âncora, o leme e, parecendo chegar a uma conclusão, sussurrou.

- Nah, não faço a menor ideia do que aquelas coisas fazem. Riu sozinho, então decidiu caminhar até seus aposentos.

Sabendo que o habitat natural de Ulf não era o oceano, Morgana tratou de rechear seu aposento de livros.

Caminhando em frente às duas malas de viagem repletas de livros, Ulf passava a mão nos títulos e dizia.

- Já li, já li, já li, já li, já li, opa. Retirou um livro e trouxe para perto dos olhos. - Minha aventura entre Oshkiik e Obukan, um relato de viagem de Sandro Darthos. Interessante.

Abriu o livro e viu que se tratava de um livro em branco, no centro deste, uma folha cuidadosamente dobrada. Na folha havia o selo de Unbata, o selo real dos piratas.

- Mas que... Disse Ulf enquanto deixava o livro sob sua cama e caminhava até o lampião que iluminava o lugar.

Quebrou o selo e então viu.

- Essa é a caligrafia de Morgana. Começou a ler.

"Ulf, sinto muito ter que lhe repassar as informações desta forma, mas não sei em quem posso confiar. Você carrega uma carga muito valiosa, não a perca de vista nunca. Não deixe que qualquer estranho entre no navio, e durante o transporte dela até o barco que contratei em Oshkiik, não tire a mão da caixa."

A carta ainda continuava com diversas recomendações, a revelação do objetivo desta entrega e um pedido especial.

"Se você encontrou o selo violado, dê um jeito de jogar a caixa ao mar. Melhor no fundo do oceano que nas mãos erradas. E tão logo termine de ler a carta, queime-a."

Ulf se pegou pensando, ao invés do conteúdo da caixa, ou da sombria missão, em como Morgana pode encerrar a sua carta apenas com a assinatura, sem sequer um "atenciosamente", ou "boa sorte".

A primeira coisa que Nathan pediu, no momento em que conseguiu gesticular com uma das mãos foi um papel, pena e tinta. Assim que lhe foi trazido, ele escreveu "pó de ferro". Balash e Belerofon ordenaram que fosse trazido o material até eles naquele instante.

Tão logo uma dos servos chegou com um pote de vidro contendo pó de ferro, Nathan escreveu.

- Me alimente disso.

Balash virou para Belerofon, Belerofon levou as mãos aos cabelos e disparou.

- Diabos, ficou louco.

Naturalmente que negaram o pedido e pediram para que as criadas lhe trouxessem comida, imaginado que estava com fome, mas não muito lúcido.

Tentando manter a calma, e escrevendo com ainda mais paciência, Nathan escreveu.

- É sério, me alimentem disso. Coloquem seis colheres de pó de ferro em um copo d'água.

Heinz que chegava ao local esbaforido, disse.

- Acabei de ouvir. Como ele está? Balash suspirou, olhou para Belerofon e respondeu.

- Louco.

- Como assim?

- Quer beber um copo de água com pó de ferro. Heinz ouviu aquilo e fez um careta.

- E então? Já lhe deram? Belerofon bateu nas próprias pernas e perguntou.

- É alguma espécie de epidemia? Estão todos ficando loucos agora? Heinz riu.

- Senhor Belerofon, o senhor sabe o que o senhor Nathan passou nos meses em que esteve fora daqui? Sabe como ele sobreviveu a enorme explosão, durante o ataque das forças infernais?

- Não, você sabe?

- Também não, então como sabe se isso não vai fazer bem ao seu amigo? Heinz estava certo, como sempre.

Mais uma razão para Belerofon não gostar de Heinz, mas teve que dar o braço a torcer.

- É verdade, Heinz.

Deram a estranha mistura à Nathan e ficaram observando, esperando uma reação.

- No único lugar que sequer Aoshi se atreveria a voltar. Essas palavras de Nathaniel não saíam da cabeça de Anúbis enquanto cavalgava em direção ao Rio Negro, que cruzava Drunkirsh do sul ao norte.

Quando Aoshi surgiu de súbito em Gaia, muitos anos antes, todos os principais reinos de Gaia queriam saber quem era aquele que se portava como um predador desconhecido no mar de poder.

Canópus foi o reino que obteve maior sucesso na busca por informações, rastreando até mesmo a chegada de Aoshi em Janen através de livros e outras informações sobre ele.

Mas mesmo o reino berço da espionagem falhou em descobrir o ponto chave para entender Aoshi, o seu lugar de criação. Os agentes de Canópus descobriram o que foi feito com a mãe de Aoshi, o que causou tamanho dano a ponto de transformá-lo em um monstro.

Sabiam que Aoshi havia nascido no oriente, devido ao sotaque, tinham quase certeza de que havia nascido ou em Tsukaba ou em Fukyo. Por isso Anúbis precisava chegar ao Rio Negro o quanto antes, para que pudesse, sem ser rastreado, seguir até o lugar de encontro com o Rio de Léia então seguir ao norte, até Fergus.

Se alguém podia sanar aquela dúvida apenas em uma conversa, seriam os Ursos do Norte, como ficaram conhecidos Balash, Belerofon e Vlad (na época) em Canópus. Anúbis sabia da passagem de Nathaniel por Fergus, e de sua conversa à portas fechadas com Balash.

Todos estes pensamentos deixaram a cabeça de Anúbis e desapareceram quando viu o cenário de desolação a sua frente.

Contrastando com o sol de meio dia, ao topo da sua cabeça, o horizonte tinha o tempo cerrado de pesadas nuvens negras, superfície coberta de cinza e o ar alaranjado.

- O inferno.

Anúbis sabia da passagem do inferno, tinha plena consciência dos estragos, mas ainda não os havia visto com os próprios olhos.

Conforme se aproximava, podia ver o cenário de desolação em toda sua magnitude. A pouca luz que se atrevia a penetrar as nuvens negras dava um tom levemente alaranjado ao horizonte. Contraste com o chão, coberto de uma pesada camada de cinzas que caíam intermitentemente.

No horizonte, podia ver um tornado, em meio a uma tempestade. Uma visão assustadora.

Anúbis precisaria de algumas horas de cavalgada por aquele cenário antes de alcançar o rio.


Anos antes, Anúbis estivera no pampa verdejante de Drunkirsh, onde humanos criavam gado e outros rebanhos para vender aos Anões que viviam logo abaixo.

Conforme galopava, sentia as cinzas lhe tocando o rosto. Aquela cobertura de morte jamais deixaria a superfície de Drunkirsh. Como os Anões puderam negar o apoio aos seus aliados, como puderam fechar as portas e se esconderem como vermes em suas cavernas?

- Os deuses não podem ser enganados, e sua justiça prevalecerá aqui, quando os mestres Anões precisarem da superficie, do reinado Humano, terão o mesmo tratamento que nos deram. Pensou Anúbis.

Por diversas horas ele cavalgou, temendo ter se perdido na imensidão morta, até encontrar o Rio de Léia.

O, antes, imponente rio que cortava Gaia do norte ao sul, responsável por diversas áreas de plantio e terras férteis em toda sua extensão, agora estava coberto por cinzas. Parecia sequer haver um rio ali.

Desceu da montaria, ainda perplexo, caminhou até a costa do rio e fitou o cenário de destruição. Centenas de carcaças de peixes e espécies variadas de animais boiavam nas águas antes límpidas e cristalinas.

Não eram apenas animais do rio que estavam mortos ali, os poucos animais que sobreviveram aos incêndios, em desespero pela falta de água, acabaram por beber a água negra do rio. O resultado foi óbvio.

Anúbis não tinha como navegar por aquelas águas, seus rastros naquela região logo seriam encobertos pela neve de cinzas que caía sem parar. Mas se Aoshi conseguisse alcançar seu rastro a tempo, só havia um jeito de despistá-lo.

As pontes que cruzavam aquele rio foram destruídas, para evitar a mobilidade de eventuais exércitos de Drunkirsh que pudessem ir ao socorro de seus aliados da superfície, socorro este que nunca existiu.

Aoshi jamais imaginaria que Anúbis cruzaria aquele rio envenenado a nado, ao menos era isso o que Anúbis esperava. E de fato, foi o que aconteceu.

Aoshi, quando chegou a divisa entre Drunkirsh e Unbata, tinha certeza que Anúbis seguiria o mesmo caminho até o Rio de Léia. Seguiu em linha reta, chegando ao exato lugar onde Anúbis estivera, apenas poucas horas antes. 

Na costa do rio, abandonado, deitado em meio as cinzas, estava o cavalo utilizado por Anúbis na fuga.

Teria Anúbis atravessado o Rio? - Não. Pensou Aoshi. - Todavia, não custa verificar.

Saltando de carcaça em carcaça, Aoshi chegou a outra margem sem sequer molhar os pés.

Calmamente ficou de cócoras e viu a distância, um pano sujo, correu até ele.

O pano, usado para limpar a água do rio, podia ter sido usado por Anúbis, ainda estava úmido.

Aoshi olhou para o leste, direção onde o pano havia sido deixado e pensou.

- Terá o espião criado uma trilha falsa. Será que se embrenhou ainda mais nesse inferno morto para me despistar? Disse Aoshi pensando em voz alta. - Não seria uma má ideia.

Olhou para os lados, e então disparou em alta velocidade seguindo a margem oeste do Rio.

Anúbis, cuidadoso, levantou em meio as cinzas. Estivera ao alcance de uma das mãos de Aoshi.

- Diabos, ele me alcançou a pé, em poucas horas. Foi bom ter esperado para ver o rumo que ele seguiu.

Anúbis, voltou para a margem sul do rio e seguiu a cavalo ao leste. Por três dias e três noites ele cavalgou, até que no amanhecer do quarto dia, viu a luz do sol, iluminando os campos à distância.

- Graças aos deuses. Clamou com a voz rouca.

Sentia efeitos semelhantes aos que sentiam aqueles que cruzaram a passagem para Krak-Aanatoa, tossia muito, tinha dificuldade em respirar e seus olhos, repletos de secreção, quase não conseguia mantê-los abertos.

Também ficara tantos dias sem água que já tinha fortes dores de cabeça e até mesmo alucinações.

Quando sentiu os primeiros raios de sol batendo em seu rosto, sentiu a vida lhe abraçar.

Anúbis cavalgou por mais algum tempo, buscando ampliar a distância daquele inferno onde passara os últimos dias. Então, em um lugar que julgava seguro, Anúbis desceu da montaria.

Ali, o Rio de Léia ainda era puro, peixes ainda nadavam tranquilamente nas águas cristalinas, e o bosque, alimentado por essas águas, era uma visão realmente impressionante.

Arrastando os pés, percorreu a curta distância até a água, caiu de joelhos na areia e então caiu para frente, como que desmaiado. Por algum tempo ficou ali, cabeça encoberta pela água pura.

Quando levantou, pesadamente, já se sentia melhor. Aquela água parecia ter propriedades curativas, uma vez que até mesmo conseguia abrir os olhos.

Ainda sentia o aperto no peito, resultado da exposição extensiva as cinzas. Sentia também fortes dores nos olhos, na cabeça e articulações. Mas isso tudo melhoraria.

Enquanto melhorava, tomou as rédeas do seu companheiro de viagem e levou-o à água.

O cavalo bebeu muita água antes de entrar na área mais profunda do rio. Até mesmo sua montaria precisava de um banho. Anúbis ia sentar a beira do rio, mas caindo de sono, como estava, achou melhor não.

O homem carregando o maior segredo de Gaia, o único capaz de parar Aoshi, ser pego dormindo, na beira de um rio.

Anúbis riu dessa possibilidade.

Aoshi corria o mais rápido que podia e mesmo assim, diversas horas depois, não encontrara qualquer vestígio de Anúbis. Também pudera, estava cercado de cinzas no centro de Drunkirsh.

Até então pensava que a eterna nevasca de cinzas tivesse encoberto seu rastro, mas então lembrou.

- Diabos, o cavalo. Eu deixei o maldito cavalo vivo. Parou, tirou um punhal de prata pura e fez um corte profundo na própria mão enquanto dizia palavras que não eram ouvidas em Gaia em diversos séculos.

O sangue negro que começou a escorrer pareceu reagir ao deserto de cinzas no chão e como se a própria terra se negasse a sorver aquele líquido, então a enorme poça de sangue começou a pulsar, e tomar forma.

Primeiro as colunas se formaram, cinzas, quase brancas, então a união delas na altura do peito de Aoshi, e logo a forma estava completa. Um enorme cavalo. Branco como nem mesmo as servas da luz podiam imaginar, a montaria era majestosa como nunca nada o foi.

Aoshi montou e saiu em disparada. Surpreendentemente a criatura era ainda mais veloz que Aoshi.

- Nessa velocidade o alcanço antes que chegue aos portões de Fergus. Verme maldito, não sabe o que lhe espera.

Sygil, sentado a frente de Obudaga e Ayros, analisava as cartas náuticas de toda região de Phobos até o Desconhecido.

"O Desconhecido, como ficou conhecida a região a extremo leste de Gaia, é exatamente o que o nome lhe diz.

Pesadas nuvens encobrem o céu da região enquanto uma espessa neblina recobre os navios de proa a popa dificultando a visão de jovens e velhos capitães da mesma forma.

Os mares de Gaia em nada se assemelham a essa região que parece saída de um conto de terror de Yussuf Balabar. Com ondas do tamanho de rochedos, redemoinhos capazes de sugar uma frota inteira e relatos de criaturas inacreditáveis, a região se mantem, século após século, inexplorada.

Sobre essa região de Gaia existe um dito popular que ilustra não apenas o seu mistério, como o respeito pelo poder naval de Phobos que diz. - Se nem mesmo os lobos do mar de Phobos se atrevem lá, não serei eu o desbravador."

Mar Adentro - Capítulo 3 - O Desconhecido - Yandorghall Hull

- Bem, ao que tudo indica, temos um destino. Disse Obudaga, com a voz abafada de trás da tradicional máscara xamânica.

Após diversas horas de discussão sobre o enorme mapa, os três haviam chego a uma conclusão sobre a origem da embarcação que espalhou a epidemia na capital de Phobos. 
Epidemia que dizimou boa parte da população da capital.

Tudo indicava que a epidemia viera do extremo leste, além do Desconhecido.

- Diabos, era o que eu não queria ouvir. Resmungou Ayros.

- Mas infelizmente parece ser a realidade, velho amigo. Disse o jovem monarca. - Então lhes pergunto. E agora?

- Não podemos enviar toda a frota de Phobos, abriríamos nossa principal linha de defesa para os inimigos do império.

- Está certo, senhor Ayros. Além do que seria improdutivo. De nada adianta enviar todas as forças de Phobos em uma jornada que não se sabe se vai dar em algo.

- Concordo com vocês, mas acham que devemos encaminhar apenas uma embarcação?

- Não sabemos o tamanho da força que encontraremos além das nuvens carregadas e neblina sobrenatural do Desconhecido, Alteza. Como podemos montar uma força de ataque sem saber o poder do inimigo? Perguntou Ayros, esperando que o jovem desse a resposta que ele tinha.

- Enviando apenas uma embarcação rastreadora. Mais veloz, que possa retornar com informações.

- Exatamente. Disse Ayros em tom de aprovação. - Enviamos apenas a Orca e oramos pelo retorno.

- A Orca? Perguntou Obudaga.

Sygil sorriu, levantou e disse.

- Venha, lhe mostro.

Caminharam por algum tempo até a costa de Phobos e então Sygil apontou.

- Aquela.

A embarcação não era particularmente grande, ou parecia resistente, na realidade, parecia que iria quebrar ao meio em qualquer instante. Por toda sua dimensão haviam arranhões na madeira, e um dos mastros parecia ter madeira diferente dos demais.

Era uma embarcação antiga.

- Me perdoe majestade... Iniciou Obudaga antes de ser interrompido por Sygil.

- Com certeza, amigo. Antes de ver a Orca, com seu mestre, também tive a sua reação. Mas espere até vê-la trabalhando. É a única embarcação de Gaia que derrotou um Kraken.

Sygil não pode ver, mas essa informação foi o suficiente para arregalar os olhos de Obudaga por trás da máscara.

- Já tem minha admiração.

Então ambos ouviram.

- Boa tarde senhores, espero que não estejam pensando em levar minha sereia. O homem tinha feições rudes, pele queimada do sol e mãos calejadas, até demais.

- Sereia? Achei que se chamasse Orca. Disse o jovem Rei com um sorriso estampado.

- Sereia, Orca, Atum, o barco é meu e chamo-o como quiser, garoto petulante. Disse o homem com a voz alterada e as bochechas rubras.

Sygil ficou sério e nem mesmo Obudaga ousou defendê-lo.

- Ora moleque sem vergonha, não vai dar um abraço no seu tio favorito? Disse o homem após uma sonora gargalhada.

Obudaga, baixando a guarda, já ria de trás da máscara.

Sygil, rindo e percebendo que mais uma vez fora enganado pelo velho tio, se jogou aos seus braços e disse.

- Que saudades do senhor, tio. Por que diabos não me visita no castelo.

- Quem estava com saudades? Você ou eu?

- Ah vá. Vai me dizer que também não queria ver seu sobrinho favorito? Eu.

O velho soltou mais uma gargalhada, com a mesma empolgação da primeira.

- Vamos combinar, moleque, com aquele porcaria do Syeth, não é difícil você ser meu sobrinho favorito. Ambos riram.

Obudaga estava estupefato. Sempre tomou o jovem monarca como uma criança séria, responsável e formal, em seus relacionamentos. Quando o viu rindo, gargalhando com aquele outro homem, sentiu que havia esperança para o jovem não se tornar um adulto amargo e sério demais.

- Tio, este é um grande amigo meu, Obudaga, feiticeiro que ajudou a encontrar a cura para nosso pescado.

O homem interrompeu bruscamente.

- E que achou uma boa ideia atear fogo em metade da capital, estou certo? Obudaga perdeu o chão. Não esperava sofrer aquele golpe o homem que ainda há pouco gargalhava com seu sobrinho falando em trivialidades.

- Sim, sou eu. Limitou-se a responder.

Não seria ele a iniciar o conflito.

- Muito prazer, rapaz. Poucos teriam a sua coragem.

Aquilo fora um elogio?

Sygil ainda gaguejando pela primeira aproximação de seu tio, explanou.

- Esse é meu tio, Rasghul Tasu. Ele veio do extremo norte, da região do Branco Infinito. Por isso é um pouco, bruto, digamos assim.

- Seu tio? Mas seu pai não tinha apenas uma irmã? Perguntou, Obudaga.

- Não, duas. Disse Rasghul, tramando o semblante. Deu as costas e saiu.

- Alteza, pode me explicar por que estou sentindo como se tivesse pisado em algum calo?

- Por que pisou. Pisou no maior calo de Rasghul, a mulher que o abandonou, irmã mais velha de meu pai o deixou, há mais de dez anos.

- Diabos. Por que ela o deixou?

- Algo sobre um caso com o imperador de Obukan. Não sei muito bem, tinha menos de cinco anos na época, não tinha consciência do que estava acontecendo. Apenas lembro que um dia ela estava lá e no outro, não estava mais.

- Entendo. Apenas para fins de curiosidade, como era o nome dessa mulher?

- Não comente com ninguém pois a vergonha foi tanta em nossa família que a simples menção deste nome era considerada afronta ao Rei e passível de prisão, uma mínima forma de reparação que meu pai encontrou para o mal que Darudzia causou ao pobre Doriniak.

- Darudzia. É um belo nome.

De braços dados, um casal caminhava aproveitando o dia ensolarado e clima ameno em Canópus. Caminhavam tranquilamente pelo enorme jardim de tulipas.

Belíssimo em sua simplicidade, o jardim real de Canópus é uma verdadeira plantação de tulipas dentro da área do castelo. Ali eram enterrados os Imperadores de Canópus desde tempos imemoriáveis.

- É um jogo perigoso este que está jogando Andrius. Talvez devesse tomar mais cuidado, remover seu agente da batalha enquanto a guerra não começa.

- Tenho consciência disso, Darudzia. Respondeu Andrius. - Mas que outra escolha temos?

Darudzia não tinha uma resposta para aquela pergunta. Aoshi, mesmo com a intervenção de Anúbis, provavelmente já havia descoberto o paradeiro do terceiro alvo e tão logo destruísse esse último empecilho, se jogaria nas sombras para arquitetar a morte de Gaia.


- Ouvi dizer que o regente de Fergus sabe do paradeiro do terceiro homem, e tem a clara intenção de intervir, talvez fosse uma boa ideia forjarmos uma aliança aí. Eliminamos a ameaça e cravamos a nossa bandeira no reino mais poderoso do norte, como Anya recomendou, já há algum tempo. Darudzia não parecia convencida da ideia, Andrius percebeu. - O que foi, tem uma ideia melhor?

- Talvez. Convoque o conselho, precisamos discutir isso em grupo.

Ulf havia queimado a carta na mesma noite em que a descobriu, conforme as instruções de Morgana, mas não antes de decorar cada traço da caligrafia da Rainha pirata.

- Se ela não podia confiar em ninguém, em quem posso eu confiar? Pensava o Anão.

- Ulf. Era a voz de Torres, nas últimas semanas havia aprendido a detestar aquela voz. Sabia que não era nada contra o marinheiro, mas sim em razão da sua nova parceira sexual.

- Aqui. Disse o Anão, com a voz propositalmente baixa, rezando para não ser encontrado. Mas aquela embarcação não era particularmente grande, e havia todo um mar ao redor dos dois.

- Aí está. Ulf, se o vento continuar a favor, na próxima semana cruzamos o Estreito da Garra Fria...

"Nos pólos de Gaia temos as áreas geladas, ao norte temos todo um reino gelado, ao sul uma faixa de oceano que nos separa da região mais fria do mundo, Eisa-Aanatoa.

Como o leitor deve ter percebido, temos o segundo nome (Aanatoa) idêntico ao da região de fogo ao extremo oeste de Gaia, Krak-Aanatoa, este nome não foi escolhido ao acaso.


Aanatoa era o termo atribuido a regiões amaldiçoadas, desprovidas de vida, em um antigo idioma do povo que ocupava a região do Deserto das Torres, um dos primeiros povos avançados de Gaia. Krak significa, neste mesmo idioma, fogo.


Historiadores das mais diversas regiões de Gaia parecem ter sua própria teoria sobre o significado da palavra.


O cavaleiro da ordem de Tar Odellas, senhor Hadros Mandurah, pesquisador real de linguística para o reino de Alnilam, tem sua própria teoria.


- Aanatoa não significa apenas a atual conjectura de uma região, é muito mais que isso. Trata-se de um local tão amaldiçoado que a própria vida acaba, quando se está próximo. Inferno, seria a melhor tradução do termo.


Particularmente, concordo com o senhor Hadros.


Se analisarmos desta forma, a nomenclatura das duas regiões, realmente temos mais sentido. Krak-Aanatoa, Inferno de Fogo, e Eisa-Aanatoa, Inferno de Gelo.


Eisa-Aanatoa fica ao extremo sul de Gaia. Sua região mais próxima da região do Reinado fica no Estreito da Garra Fria, um arquipélago de ilhas congeladas que está a distância de um dia de viagem, com o vento a favor, saindo da vila pesqueira de Karak."


O Mar ao Sul do Mundo - Tulak Hord

- Hum. Respondeu um monossilábico Ulf.

- O que houve?

Ulf foi pego de surpresa pela pergunta de Torres.

- Como assim?

- De início achei que fosse enjoo do mar, ou mesmo birra por Morgana te mandar nessa empreitada, mas já fazem semanas que está assim. Que diabos aconteceu?

- Um pouco de tudo isso. Respondeu Ulf.

- Hum. Não sei por que, mas não acredito nisso. Disse Torres, desconfiado.

- Não acredita por que é uma mentira deslavada. Pensou Ulf. - Mas é verdade. Disse.

Então ambos ouviram um estranho ruído, agudo, como vindo do fundo do mar e então o estrondo.

O impacto fora tão forte que arremessou ambos para frente.

Antes que pudesse levantar, Ulf ouviu o grito do Capitão.

- Diabos Nunes, como não nos avisa que estávamos próximos da terra?

Nunes, no brigue, tentava se levantar ainda quando gritou de volta.

- Não batemos em terra alguma, Capitão. Estamos no meio do mar.

- Em que diabos batemos então? Pensou Ulf.

A resposta veio da explosão no mar, onde um enorme tentáculo subiu à altura do mastro principal da embarcação.

- Kraken! Gritou um homem, que saiu do torpor inicial antes dos outros.

De imediato se iniciou a correria pelo convés, então todos ouviram outro barulho, como um sino. E então, silêncio.

Ulf acordou com o cheiro de sal e a areia lhe marcando o rosto. Apertou os olhos, e forçou ambos os braços contra o chão. Sentou sobre as próprias pernas e abrindo aos poucos os olhos disse.

- Espera. Isso não é o Porca D'Água.

Ulf viu uma praia ao seu redor. Diversas formações rochosas contrastando com a areia branca, à distância, palmeiras, mais além, uma enorme montanha rochosa.

Sentiu a boca seca, e a garganta arranhando. Então percebeu, a distância, um córrego que despejava água vinda de dentro da ilha.

Enquanto se aproximava do córrego, forçava a memória para tentar lembrar como foi parar ali, sentiu uma forte pontada na têmpora esquerda e o ruído como se uma faca tentasse cortar vidro.

Caiu de joelhos e com as duas mãos na cabeça soltou um urro de dor.

Se arrastou o restante do caminho até a corrente de água e mergulhou a cabeça nela. A água gelada e pura aliviou a dor o suficiente para que Ulf pudesse voltar a raciocinar.

Tirou a cabeça da água, já com a sede saciada, e iniciou a caminhada pela costa. Acreditava que era o melhor meio de encontrar sobreviventes do naufrágio, caso tenha sido desta forma que chegou até aquela praia.

Anúbis cavalgava o mais rápido que podia, tentando tirar o máximo do cavalo negro que Nathaniel lhe deixara.

- Diabos, só estou vivo por causa daquele homem. Homem que eu deveria ter salvo. Anúbis então ouviu a voz em sua mente.

- Não se culpe, amigo. Era a voz do Tengu.

- Por que não estou surpreso daquela nossa conversa não ter sido um sonho? Ouviu a risada de Tengu do fundo da sua mente e então a resposta.

- Por que não foi.

Anúbis tornou a pensar na morte de Nathaniel.

- Anúbis, pare de pensar no Monge.

- Ele morreu, Tengu, por minha causa. Eu falhei na missão.

- Longe disso rapaz, você descobriu o segredo que precisava descobrir e Aoshi não. A missão até aqui está correndo bem até demais. E tem mais, Aoshi está no seu encalço.

Anúbis não conseguiu evitar e olhou para trás. Então ouviu a risada de Tengu.

- Não, não, ainda não está no raio de visão, mas já está bem próximo.

- Entendo. Infelizmente nossa montaria não vai mais rápido que isso. Temo que nessa velocidade, o pobre cavalo vá morrer antes de chegarmos aos portões de Fergus. E aí já sabe, nunca conseguirei correr a pé mais que Aoshi.

- Estamos a quanto tempo de Fergus.

- Meio dia, dos portões, acredito. Antes do anoitecer chegamos lá.

- Diabos, é tempo demais. Aoshi provavelmente vai nos alcançar antes.

E ambos estavam certos, pois quando o sol começou a baixar no horizonte, ambos viram a figura de Aoshi, com cabelos ao vento, sobre o fantasmagórico cavalo branco.

- Irônico uma figura tão negra quanto Aoshi, naquela bela montaria. Deixou escapar Anúbis.

- Não se iluda amigo, se aquele animal tiver a chance, vai se alimentar da sua carne. Eu vejo a maldade nele, daqui. Aquilo foi criado por algo tão impuro quanto Aoshi, se minha intuição estiver certa, do próprio sangue maldito dele.

- Era o que precisávamos, agora até um cavalo demoníaco está no meu rastro. Tengu riu. - Espere, o que é aquilo? Perguntou Anúbis, tirando a atenção de Tengu de Aoshi, que se aproximava cada vez mais.

No horizonte começava a surgir a torre de Fergus, ponto mais alto do reino. Mas não era a torre que Anúbis se referia.

Se aproximando em alta velocidade vinham seis cavaleiros.

Anúbis começou a diminuir a velocidade, então ouviu.

- Continue.

- São seis deles, Tengu.

- Ainda assim, não são piores que o nosso destino com Aoshi. Anúbis levantou a sobrancelha e riu.

Conforme passaram cavalgando pelos soldados, ouviram a voz dizendo.

- Não parem.

Anúbis baixou a cabeça e continuou cavalgando em direção a torre. Aoshi que vinha logo atrás, viu os guerreiros se aproximando e puxou as rédeas da sua montaria que levantou as patas dianteiras jogando barro no ar.

- Balash, que prazer em revê-lo. Disse Aoshi com um sorriso no rosto.

As armaduras estavam vazias, Aoshi sabia disso. Mal colocou os olhos nelas e viu que era ação de Balash.

- Seus conhecimentos aumentaram, assim como o poder. Mas quanto aumentaram? Se perguntava Aoshi.

Os cavaleiros, em silêncio, continuavam parados, obstruindo o caminho de Aoshi até Anúbis.

Como podia aquele monge miserável lhe esconder esse segredo, sabendo o quanto significava, e pior, se o guerreiro a quem Aoshi perseguia agora corria até Fergus, era por que Nathaniel havia contado tudo aos homens que mais o odiavam em Gaia.

- Bastardo. Pensava Aoshi quando investiu na direção dos cavaleiros a toda velocidade, pronto para atacá-los.

Então sentiu o poderoso golpe no peito, nem todas as armaduras estavam vazias e golpe de marreta que o atingiu no peito fora poderoso demais para uma simples armadura animada magicamente.

- Belerofon. Disse Anúbis, sentado no chão, enquanto tossia sangue. Mas o guerreiro bárbaro não parecia ter ouvidos, arrancou o capacete de metal que lhe cobria a face e jogou em Aoshi.

Aoshi tentou levantar, já quase recuperado do golpe que lhe quebrou ao menos seis costelas. Mas não teve qualquer chance de chegar ao seu cavalo, quando sentiu a enorme mão do oponente lhe agarrando pela nuca.

Aoshi, com o braço direito sacou a espada e tentou golpear o inimigo, em uma estocada para trás, Belerofon largou a marreta de combate e agarrou o braço de Aoshi, praticamente ao mesmo tempo.

Usando de toda sua força, apertou o braço de Aoshi, lhe esfacelando os ossos do antebraço, e fazendo com que um grito de dor fosse disparado. Agarrou a mão de Aoshi, a mão que segurava a espada, e usando-a, o atravessou, em um golpe, com a lâmina entrando entre as costelas da esquerda e saindo pela direita.

- Pelos deuses, Aoshi vai passar por maus bocados. Disse Tengu, enquanto Anúbis se aproximava mais e mais dos portões do castelo.

Então ambos viram o cavaleiro de armadura negra que se aproximava velozmente. Não usava capacete, e suas feições marcadas pelo calor do combate podiam ser vistas mesmo à distância. Ostentava uma longa capa vermelha escarlate.

O cavaleiro então parou à distância, como se esperasse que Anúbis fizesse o mesmo.

- Rapaz, chegou aos meus ouvidos que Aoshi está no seu encalço. A voz era poderosa, os traços rígidos. - O que fez para irritá-lo tanto?

- Não o irritei, apenas sei onde está o homem que ele deseja morto.

O cavaleiro ouviu aquilo com surpresa, e então disse.

- Venha comigo, pois eu também conheço esse segredo e precisamos conversar sobre isso. Enquanto isso, deixemos Belerofon repassando uma lição ao guerreiro caído. O cavaleiro deu meia volta e rumou em direção aos portões, já abertos da cidade fortaleza. Anúbis seguiu no seu encalço enquanto pensava.

- Belerofon, o bárbaro? Diabos, queria ter visto essa briga.

- Seu merda! Gritou Belerofon, de joelhos sobre o corpo desmaiado de Aoshi. Esmurrava os pedaços de ossos e cérebro espalhados pelo chão enquanto os pés ainda se debatiam. Impulsos de um corpo que teimava em morrer.

Belerofon então levantou, deu dez passos de distância de Aoshi, e ofegante, cruzou os braços.

- Vão. Deixem-me sozinho com esse verme. Disse o gigante guerreiro às armaduras que ainda em suas montarias, observavam o espetáculo de destruição.

A cabeça de Aoshi já tomava forma novamente, quando os guerreiros saíram em direção ao castelo.

De cócoras, Aoshi cuspia sangue e tentava se levantar. Belerofon apenas observava.

- E agora? Perguntou Aoshi, petulante, como de costume.

Belerofon caminhava lentamente na direção do guerreiro oriental e então disse.

- Agora eu transformo você em purê, de novo. Seu merda.

Aoshi sacou a espada e partiu para cima do gigante que desviou facilmente do seu golpe e novamente o imobilizou entre os poderosos braços, ficando apenas poucos centímetros do seu ouvido esquerdo. Então sussurrou.

- Você confiou demais em seus poderes mágicos, Aoshi. Não sabe mais portar uma espada.

Belerofon então firmou ambos seus pés sobre os tornozelos de Aoshi, e puxando seus braços para cima de súbito, os arrancou.

Aos gritos de dor de Aoshi, Belerofon apenas sorria. Anúbis que seguia de perto o cavaleiro de armadura negra pelos degraus da enorme torre de Fergus, pode ouvir o grito de Aoshi, lembrou de Nathaniel e sorriu.

- Já que não pude te defender amigo, alguém parece estar lhe vingando. Pensou o agente de Canópus.

Então saindo da escadaria junto do homem a sua frente, acabou por entrar em um cômodo, onde outro estava sentado, olhando por uma janela na exata direção onde Aoshi fora atacado por Belerofon.

- Este é o homem que conseguiu deixar Aoshi para trás, Nathan.

- Nathan! Pensou Anúbis. - Mas este homem, este homem foi morto por Aoshi.

- Entendo. Disse Nathan.

O homem levantou com certa dificuldade da enorme cadeira que ocupava e então virou na direção dos dois. Tinha traços suaves no rosto, lembrava e muito um meio elfo, mas havia algo de estranho, a pele não parecia natural. Parecia uma espécie de tecido.

Aoshi tentava levantar, o sangue negro que corria pelas suas veias ainda traçava um caminho por entre suas costelas, o osso da fratura exposta em sua perna voltara ao lugar e ele já conseguia ficar de pé.

- Até quando Belerofon? Soltou uma cusparada de sangue. - Até quando pretende ficar dançando aqui comigo?

Belerofon sorriu.

- Ora amigo, vai dizer que já está cansado da minha companhia? Aoshi riu e sentiu a fratura entre as costelas reclamar, baixou a cabeça, caiu sobre os próprios joelhos e tossiu.

Quando conseguiu levantar a cabeça viu o gigante vindo correndo em sua direção.

Quando a sola do pé do gigante lhe atingiu o meio do peito, sentiu costela por costela quebrando. O forte impacto o arremessou por diversos metros para trás.

De cócoras, Aoshi se arrastava, tentando alcançar seu cavalo.

- Ah, já quer me deixar? Qual é o problema, não é tão poderoso cara a cara com o inimigo.

Aoshi então viu o gigante lhe passar, indo em direção ao cavalo.

A última coisa que viu antes de "morrer", novamente, foi sua montaria, o belíssimo cavalo branco, voando em sua direção.

- Jovem, como é seu nome? Perguntou o homem de aparência cansada.

- Anúbis. Respondeu o guerreiro.

Até lhe passou pela cabeça que não deveria ter dado seu nome àqueles homens. Mas foram eles quem o salvaram de Aoshi, e se eram tão poderosos ao ponto de apenas um deles anular o guerreiro caído, quem era Anúbis para lhes contrariar.

- Anúbis, bom nome. Disse Nathan.

- Eu sou Balash, Anúbis. Você comentou que sabia do paradeiro do último alvo de Aoshi, é verdade.

- De certa forma, sim. Nathaniel, um dos... Antes que pudesse completar, foi interrompido por Balash.

- Monges de Janen.

- Sim, como sabe?

- Ele passou por aqui, nós que indicamos a capital de Batang como o lugar onde ele poderia ter uma remota chance de sobrevivência. Explicou Nathan.

- Sim, Nathan quem deu o amuleto e o nome ao guerreiro. Como você deve saber, os quase extintos Monges de Janen não tinham nomes. Quando aquele fugitivo chegou a nossa presença, Nathan deu-lhe este nome.

- Entendo. Respondeu Anúbis.

- Mas chega de trivialidades, o que o monge lhe contou? Perguntou Nathan.

- Que havia escondido o terceiro alvo. Longe dos olhos de Aoshi e do mundo, em um lugar onde nem o próprio Aoshi ousaria voltar. Logo imaginei que fosse o lugar onde foi criado por sua mãe, antes do assassinato dela.

- Você está certo, mas que mal lhe pergunte, como sabe de toda a história de Aoshi?

Anúbis suspirou, novamente lembrou que aqueles estavam entre os mais poderosos homens de Gaia, e que se quisessem lhe tirar essa informação, na certa, tirariam.

- Sou um agente de Canópus, meu trabalho é saber das coisas.

Balash sorriu.

- Então você fez um bom trabalho, mas para saber onde Aoshi nasceu, precisaria de um milagre. Aoshi nunca disse para ninguém onde havia sido criado.

Anúbis já começava a buscar outro meio de como podia encontrar essa informação, quando Balash o interrompeu.

- Exceto para mim.

Nathan riu.

- Tanegashi, um pequeno vilarejo de Tsukaba.

Anúbis agradeceu a informação, já estava pronto para sair e reiniciar a corrida até seu objetivo.

- Espere garoto. Disse Nathan. - O que pretende fazer quando chegar lá?

- Pegar o homem, a força se for preciso, e levá-lo até um lugar seguro.

- Que lugar seguro? Perguntou Balash.

- Ainda não sei, mas tenho certeza que o regente de Canópus saberá o que fazer com tal homem.

Nathan e Balash trocaram olhares por um minuto e então Nathan disse.

- Traga-o para nós.

Anúbis foi pego de surpresa.

- Já viu que temos poder de combate o suficiente para parar até mesmo Aoshi, sem falar que salvamos a sua vida. Encare isso como um presente de agradecimento.

- Achei que isso fosse começar a ficar chato depois de um tempo Belerofon, mas você parece ter um dom para violência. O cavalo foi um toque de mestre. Belerofon sorriu e respondeu.

- Obrigado. Mas confesso que isso já está ficando tedioso. Esperava ao menos um desafio, quando vi você se aproximando, com toda aquela pompa, naquele enorme cavalo branco.

O sol já começava a iluminar os campos de Fergusson quando Aoshi conseguiu parar sobre as próprias pernas, pela décima oitava vez.

Belerofon passara a noite inteira espancando o antigo aliado, agora, parecia apenas esperar que ele se recuperasse totalmente.

- O que foi Belerofon? Já cansado? Disse Aoshi levantando ambos os punhos na altura do rosto.

Belerofon sorriu.

- Minha vontade era de continuar te espancando aqui, para sempre. Mas minha missão foi cumprida. Aoshi intrigado, perguntou.

- Missão? Que missão?

- Combinei com Balash e Nathan, sim, Nathan está vivo, antes que você pergunte, que te seguraria aqui até o amanhecer, para dar tempo do jovem guerreiro escapar, pelo outro lado da fortaleza.

Aoshi arregalou os olhos.

- Diabos! Gritou então saltando com a espada em punho na direção do gigante. Sentiu o forte baque no ombro esquerdo, um soco tão poderoso que esfacelou seus ossos do ombro o jogando, ainda, diversos metros pelo ar.

Belerofon caminhou até a sua montaria enquanto dizia.

- Desista, verme. O jovem guerreiro está agora com Hitan, o cavalo de Balash, e você... Belerofon virou na direção do corpo da montaria de Aoshi. - Bem, você não tem um cavalo.

Aoshi riu e batendo palmas, disse.

- Realmente, parece que vocês tinham tudo planejado então. E um belo plano. Agora que já se vingou pela minha traição, vou lhe deixar com a sua paz de espírito e ir atrás do homem que me impede de concretizar a minha vingança.

Aoshi acreditava que era uma vitima naquela situação. Belerofon deu dois passos para a esquerda, abrindo caminho para o inimigo.

- Boa sorte, verme. Vai precisar.

Aoshi, em passos rápidos, chegou ao seu cavalo morto, disse algumas palavras, então logo o animal começou a se recuperar.

- Um problema a menos. Nos vemos outra hora, Belerofon. Disse Aoshi, jogando terra alto no ar enquanto sua montaria disparava em direção ao portão nordeste do castelo, de onde Anúbis provavelmente havia saído.

Anúbis, amarrado na cela de Hitan, cavalgava a altíssima velocidade por entre as árvores de Shamrock.

O único jeito que de se manter firme sobre Hitan, enquanto o incrível animal corriam em altíssima velocidade era amarrando as próprias pernas ao corpo do cavalo. Balash e Nathan conseguiram controlar o animal devido a força sobrenatural de ambos, mas Anúbis era um homem normal, na certa não conseguiria se manter sobre a veloz montaria.

Seguiu por Shamrock por indicação de Balash.

Ulf acreditava que aquilo era uma ilha, no entanto, ainda não havia chego ao ponto de onde partiu, no dia anterior. Caminhara sem parar enquanto o sol descia lentamente no horizonte, até que podia ver a distância apenas pela luz da lua.

Sentindo frio, não teve outra escolha senão dormir na praia, julgando ser mais seguro que se arriscar pela mata.

No outro dia, com o sol no topo do céu, chegou ao ponto onde acordou, no dia anterior.

- Diabos, estava certo, isso é uma ilha.

Calmamente passou o olhar pelos poucos restos da embarcação que jaziam pela praia e encontrou um pequeno caixote, com o selo de Unbata.

A caixa quebrada, continha uma carga de couro de búfalo. Bastante resistente, o couro de búfalo era comercializado entre a maior parte dos reinos de Gaia, devido a sua usabilidade na confecção de malas e bolsas de viagem.

- Bem, ninguém vai sentir falta disso. Disse Ulf, sacando uma grande capa de couro.

Depois de algumas dobras aqui e ali, uns nós e Ulf tinha uma pequena bolsa, para carregar quaisquer itens pudesse encontrar na ilha para ajudá-lo a sobreviver.

Com os braços cruzados, começou a olhar para os lados, e então para a mata. Sabia que teria que se aventurar por ali uma hora ou outra.

Era o único sobrevivente do naufrágio, em uma ilha deserta. Precisava de comida, já que encontrara uma fonte de água límpida. Resolveu seguir a corrente de água doce, talvez desse sorte e encontrasse um animal, ou planta frutífera próxima a água.

Não andou muito mata adentro, já faminto, quando encontrou um pé de manga, a fruta doce e suculenta foi o suficiente para aplacar a fome do Anão. Havia ainda uma bananeira, próxima, tomando cuidado com aranhas, Ulf colheu um cacho de bananas e guardou na bolsa improvisada.

Mas Ulf resolveu seguir mata adentro, até o cume do grande rochedo ao centro da ilha.

Na tarde anterior, e na manhã deste dia, Ulf havia percebido que o cume da montanha parecia se manter a mesma distância da praia, não importando quanto ele caminhasse.

- O centro da ilha, e ponto mais alto. De lá talvez tenha uma vista privilegiada, e uma ideia para me tirar dessa encrenca.

Passando por lamaçais, lembrou de quando, semanas antes, atravessara a faixa de mata que separava o inferno que restara na superfície de Drunkirsh, de Unbata, o reino de Morgana.

- Morgana. Pensou o Anão. - Como ficará Morgana quando souber que falhei? Que todos falhamos.

O território inteiro da ilha tinha clima ameno, bastante agradável até. Com o sol do meio dia, Ulf conseguia caminhar na mata tranquilamente, e então sentiu a brisa fria lhe beijando a face.

Ulf amava o frio, talvez por ser criado nas cavernas quentes e úmidas de Drunkirsh e depois passar boa parte de sua vida nas praias de Unbata, dessa forma, nunca tivera um inverno real.

Então fechou os olhos e aproveitou a brisa contínua, quando abriu os olhos, se deu conta que não estava muito longe da montanha. Estava cansado e o sol já começava a descer no céu, mas estava bem menos cansado que deveria estar, depois de tantas horas de caminhada.

- Talvez seja essa brisa gostosa.

Ulf, ao pé da enorme formação rochosa se deparou com uma agradável surpresa.

Intimidadora à distância, a montanha era muito menos íngreme de perto.

- Agora os Deuses me ouvem, sério?

Caminhando tranquilamente, Ulf se aproximava mais e mais do topo da montanha. A mesma razão em que as temperaturas caíam. 

Por mais que gostasse do frio, Ulf não era imune aos seus efeitos, e conhecendo tão pouco de herbalismo, preferiu não arriscar uma gripe forte. Tratou de improvisar um manto com as capas de couro que havia guardado na bolsa.

Protegido do frio, Ulf chegou ao topo da montanha. Impressionado com a beleza da ilha e seus arredores, acabou por esquecer, ao menos por um momento, que estava preso ali.

Viu ao que parecia ser o sul, as águas escuras e mais a distância, a enorme cadeia montanhosa de Eisa-Aanatoa. Ao norte, não via nada além do oceano.

- Como pudemos nos desviar tanto do trajeto?

Ulf então apertou os olhos em direção a praia do norte. Via pequenos pontos, não muito maiores que formigas se movendo na praia, saindo da mata e caminhando pela areia branca.

- Mas que diabos? Ulf então entendeu, eram sobreviventes. - Ei! Gritou o Anão, feliz. Então lembrou de Torres e baixou os braços.

- Filho da mãe. Será que o bastardo sobreviveu?

Ulf, vendo que seus gritos e nada surtiam, basicamente, o mesmo efeito, iniciou a corrida morro abaixo. 

Tão desesperado estava que sequer percebeu a enorme vela de um trirreme que cortava a neblina ao norte, em direção a ilha.

Ofegante e com as pernas trêmulas, chegou a base do rochedo e seguiu em corrida mata adentro.

Durante todo o tempo em que corria, pensava, quase em oração.

- Tomara que Torres não esteja na praia, tomara que Torres não esteja na praia.

Seu asco por Torres pode ter sido o que lhe deu forças para esquecer que estava correndo a quase duas horas. Então, ofegante, parou e com as mãos nos joelhos disse.

- Diabos. Respirou fundo e levantando a cabeça, viu entre as árvores, um mastro.

- Mas que...

Reiniciou a corrida, sentindo as pernas cada vez mais pesadas, até que subindo em uma rocha, pode ver, uma embarcação no horizonte.

- Não acredito. Disse o Anão se jogando da rocha e correndo na direção da praia.

Quando chegou a praia, olhou para os lados. Nem rastro dos sobreviventes.

Viu então as pegadas na areia, e na direção da água.

- Não, não, não... Não pode ser. Repetia o Anão, caminhando, de um lado para o outro enquanto olhava a enorme embarcação que se distanciava no horizonte.

Era óbvio, um bote veio até a praia e salvou os náufragos que ali estavam. Aqueles homens provavelmente haviam dado a volta na ilha, como Ulf, e não tendo encontrado outros sobreviventes, partiram sem receio.

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