terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sombra e Malícia

A região dos alpes em Canópus é conhecida pela beleza sem igual. Retiro das principais fortunas de Gaia, fica repleta de famílias tradicionais durante o verão. Poucos são os que se aventuram durante o rigoroso inverno.

Já nevava a desde o início da manhã, era um dia estranhamente ameno, a temperatura, baixa o suficiente para causar gangrena em um viajante despreparado não importunava os dois homens que conversavam na sacada da mansão.

Com pesadas vestes, os homens bebiam chá e conversavam, tranquilamente.

- Alguma notícia do seu agente?

- Sim, aparentemente, Yusuhara foi realmente o responsável pelo assassinado de Taguichi. Meu agente conseguiu uma confissão de Daisuke, amigo de infância de Yusuhara.


- O que faremos a respeito?

- Não vejo muito o que fazer, Undor. Não julgo Yusuhara de confiança para que integre o conselho, mesmo sendo o novo soberano de Tsukaba.

- Naturalmente.

- Podemos dificultar a regência de Yusuhara financiando o clã Onaga ou qualquer outro que tenha interesse no trono imperial.

- Não acho que devamos dispender tais recursos, vejamos como a situação se desenvolve na região por mais uma ou duas estações. Aproveitando que estou aqui, queria compartilhar algo que aconteceu em Mirach. As nuvens que se formavam no horizonte, já estão sobre nós, Aoshi esteve em Sabha.

- Como assim?

- Um dos nossos cidadãos foi encontrado já morto por inanição, dois dias atrás. E poucos metros a frente dele, pendurada em ganchos de carne, estava sua esposa, decapitada e impalada.

- Nossa, realmente parece o estilo de Aoshi, mas pode ter sido qualquer pessoa deturpada, ou até mesmo um ritual macabro.

- Não, foi confirmada a presença de um homem oriental de capuz negro próximo ao local. Carrgava uma espada curta e tinha longos cabelos negros. Assim como em Canópila.

- Maldição. Um de meus agentes está, já há algum tempo, no rastro de um dos antigos Monges de Janen, os espiões de Aoshi em Gaia. Tem tomado muito cuidado pois diversas vezes estivemos a ponto de capturar um deles apenas para vê-los escapar por entre nossos dedos ou se suicidar para sequer correr o risco de revelar algo. Vou ordenar que ele acelere a busca antes que essa janela se feche.

Sygil caminhava sozinho pelos escombros da cidade baixa, região portuária e do mercado central da capital de Phobos, podia ver ao horizonte, sob a luz da imensa lua, o mar, tão tranquilo, ao mesmo tempo tão imponente. Por que ele, o Rei, não conseguia ser assim?

Sentia vergonha pela maneira como tratou seu amigo, mentor e figura paterna, Ayros. Como podia ser um Monarca, se não tinha capacidade de controlar seus próprios impulsos?

Também sofria ainda em pensar que toda aquela desolação fora causada pelo que antes alimentava seus cidadãos.

Foi confirmado por um grupo de estudiosos formado por alquimistas e magos. O grupo liderado por Obudaga descobriu que as "sementes" encontradas nos peixes eclodiam dentro do estômago da vitima e começavam a se desenvolver, atingindo a maturidade em dois dias.

As criaturas então se alimentavam dos órgãos vitais do hospedeiro e controlavam seu corpo, como um fantoche. Para descobrir isso, diversos testes foram feitos com animais, por isso o grupo de pesquisa acabou conhecido como "Les Monstres de La Jetée", algo como "Os Monstros do Cais", em um antigo idioma pirata.

O apelido se espalhou rapidamente já que os testes eram realizados na região do cais, que havia sofrido o maior dano, se algo desse errado, bastaria bombardear toda a região novamente.

Em pouco mais de cinco dias, Sygil ordenara que catapultas liberassem cargas incendiárias sobre a região litorânea da capital, em uma chuva de chamas. Imediatamente após a destruição, ordenou a primeira reunião do grupo de pesquisa.

Dois dias atrás, após descobrir a fonte do problema, ordenara que todo o pescado encontrado na costa fosse queimado, e que o acesso de barcos ao oceano fora impedido, bem como o consumo da carne de peixe de água salgada.

Sua popularidade entre o povo caía exponencialmente.

Depois da conversa que tivera com Ayros, no dia anterior, percebera que não era ele o único a sofrer pela morte de um ente querido naquelas ações. Percebera também que a ação era necessária, por isso nenhum dos homens o contestou quando a ordem foi dada.

Isso não tornava mais fácil aquela caminhada. Sygil sabia que se queria fechar aquela ferida, precisava abrí-la e limpá-la muito bem. Por isso optou por caminhar em um ponto da região que ainda não fora "limpo", precisava ver o que suas ordens causaram, precisava ver de perto.

As pilhas de corpos ainda fumegantes da fogueira acendida horas antes, os escombros de casas, mercearias, escolas e tendas espalhados pelo chão. Sinais do que a sua ordem havia causado. Mas aquilo ainda era muito pouco, na opinião do jovem Monarca.

Então chegou onde queria chegar, parou em frente aos escombros de uma casa e ficou imerso em seus pensamentos. Então ouviu.

- Por que se tortura, Alteza? Virou e viu, com a tradicional máscara demoníaca, Obudaga.

- Olá Senhor Obudaga, como vai?

A máscara parecia especialmente assustadora naquela noite, talvez pelo lugar onde estavam. Sygil conseguiu disfarçar, mas ficou completamente arrepiado ao ver a máscara.

- Vou bem, e o senhor?

- Bem, na medida do possível.

- Entendo. Limpando as feridas, jovem Rei?

- Tentando. Respondeu o jovem depois do longo suspiro.

- Vim lhe dar uma boa notícia. Imaginei que pudesse melhorar a sua noite.

- Então fale logo, amigo. Bem sabes que estou precisando de boas notícias.

- Encontrei uma maneira de tornar as regiões de pesca, novamente seguras para o seu povo.

Obudaga viu o semblante do jovem Rei mudar em fração de segundos, e com um imenso sorriso estampado no rosto, o Monarca disse.

- Mas essa é uma ótima notícia mesmo, senhor Obudaga.

- Bom saber que melhorei sua noite, Alteza. Posso começar o processo nas próximas horas.

- Não espere, amigo. Faça isso o quanto antes. Os deuses sabem como nosso povo precisa do sustento do mar.

- Entendo. Vim aqui, ao seu encontro para lhe dar essa notícia, para mostrar que as feridas se fecham, cicatrizam por conta. E o mais importante, que o senhor sempre pode contar com alguns de nós.

- Agradeço amigo. As feridas realmente já estão bem melhores que quando cheguei aqui. Disse o Monarca tornando a olhar os escombros da antiga casa, como que esperando por mais algum milagre.

Obudaga deu as costas e estava saindo, então, ouviu.


- Sabe, eu a amava. Era a voz de Sygil. - Eu realmente a amava.

Não precisava de uma explicação para essa declaração, ali estava o jovem Rei, a frente dos escombros de uma casa que ele próprio mandou destruir, no meio da noite.

- Imagino que sim, Alteza.

- E tive que matá-la. Disse o garoto a voz pesada.

- Não, Alteza. Não foi o senhor quem a matou, o senhor a livrou da miséria. Se quiser saber quem a matou, precisamos descobrir quem, ou o que mandou essa praga pra cá.

Sygil então perguntou.

- Mas quem poderia ter feito algo assim?

- É uma ótima pergunta, Alteza. Mantenha o foco nela, não no que já passou. Respondeu Obudaga dando as costas e saindo pela noite.

- Diabos. Como descobrir quem fez isso?


Enquanto caminhava pela estrada principal que levava a capital de Batang, Kitwe, Anúbis pensava em como faria para encontrar um espião aposentado. Pior que isso, um Monge de Janen aposentado.

Já podia ouvir, mesmo a dezenas de metros do pórtico da cidade, os gritos do mercado público. Sinos, animais e pessoas pareciam um coro do inferno. E pareciam especialmente empolgadas naquele cântico.

Quando atravessou o pórtico e sentiu o forte golpe nas narinas, quase deu as costas e correu. O fedor da carne em estado de putrefação sendo comercializada, o esgoto a céu aberto, uma ou outra carcaça de animal abandonada no meio da estrada.

E aquilo era a capital do reino. Também pudera, Batang estivera em guerra desde sempre.

"Historiadores de Gaia apontam que o grande número de tribos das mais diversas crenças na região é a principal causa da eterna guerra. A própria história dos Deuses se confunde com a história de Batang.

Na aurora das divindades de Gaia, Angorah e Inejh, um casal de deuses escondeu dos demais Deuses sua união.

Ao contrário do restante dos deuses que adotaram lugares de clima ameno, e repletos de civilização para ser cultuados e residir, Angorah e Inejh optaram por uma das regiões mais próximas ao inferno ardente do oeste, o Krak-Aanatoa.

Na época, uma região pantanosa, em eterno sofrimento devido às chuvas ácidas. O local era vazio, sem qualquer ser humano em quarenta ou cinquenta dias de viagem. E mesmo um casal apaixonado pode ficar entediado.

O casal então moldou Batang, utilizando-se de todos seus poderes, abriram o caminho do rio Lopori que cruza ainda o reino de Okawango. Na época ainda pertencia a Batang.

Demorou diversos séculos até que as chuvas ácidas pararam, e mais alguns até que a terra tornasse fértil.

Com campos verdejantes, árvores frutíferas e migrações de animais ano após ano. Um paraíso seguia em ascensão em um dos pontos mais isolados de Gaia.

O casal de divindades decidiu então criar vida inteligente, seu próprio modelo de humano. Para que pudessem compartilhar seu conhecimento e a boa vida naquele paraíso.

O primeiro modelo de humano criado por Angorah e Inejh, veio do barro, por isso o tom de pele mais escuro que no restante do reinado. O barro, na forma dos primeiros homens e mulheres recebeu então o dom da vida, de seus pais.

Felizes com o primeiro casal de filhos, Angorah e Inejh iniciaram uma produção contínua, que originou os mil  filhos de Angorah e Inejh. Como ficou conhecido o berço da civilização em Batang.

No recém criado reino de Batang, a vida era boa, as mulheres se dedicavam ao cuidado dos filhos e manutenção dos lares, enquanto os homens caçavam ou cuidavam do cultivo da terra.

Mas a paz não tardou a terminar

Bakula, Deus-irmão de Angorah que sempre tivera interesse amoroso por Inejh, descobriu que os dois Deuses estavam juntos, união proibida no panteão, com o intuito de evitar alianças divinais que pudessem exterminar os demais Deuses.

Quando os Deuses, na única decisão que tomaram juntos, decidiram que não podiam ficar juntos uns dos outros, Bakula pensou que finalmente teria sua chance com Inejh, e dedicou os anos seguintes a procurar pela Deusa.

Quando a encontrou com o irmão, tratou de formar alianças para eliminar ambos, apontando que os dois desejavam cruzar e criar um exército de aberrações. Filhos de Deuses que poderiam subjugar as demais divindades.

Subba foi o primeiro a ser procurado por Bakula, e foi o primeiro a negar apoio a qualquer lado. Mas Subba não foi o único a receber a proposta de Bakula.

Bakula, acompanhado de Mtawa e Tendaji, seus irmãos, iniciou o combate que durou diversos anos, onde a maioria do povo original de Batang havia morrido, bem como o Deus Tendaji.

Bakula e Mtawa, criaram um exército, se utilizando dos mesmos artifícios de Angorah e Inejh.

Os mil filhos de Angorah e Inejh foram criados com fins pacíficos, bondosos em sua essência. Os filhos de Bakula e Mtawa, ao contrário, foram criados como armas, eram deformados, tinham mandíbulas semelhantes às dos tubarões, viam no escuro, tinham tentáculos e tumores venenosos brotando constantemente no corpo. Eram verdadeiras aberrações.

Angorah e Inejh se recusaram a criar um exército de aberrações e por isso, viram todos seus filhos serem destruídos e o paraíso que criaram, acabar em chamas.


Devido às constantes batalhas contra os filhos de Mtawa e Bakula, os rios de Batang secarem, as chuvas ácidas retornarem a algumas áreas do reino e logo o lugar tornou ao que era. Um reino desolado.

Inejh, sofria dia a dia pela queda do paraíso que criara com seu amor, mas o que realmente acabou com suas forças foi ver a morte de todos seus filhos. 

Esvaindo-se em tristeza, fugiu do lado de Angorah para que o amado não a visse definhar. Sobreviveu apenas aquela estação, e morreu no topo de uma colina, ao norte do reino, na divisa com o que viria a ser Drunkirsh, o reino dos Anões.

A colina de Inejh ainda persiste ao tempo e às guerras, como um dos lugares sagrados de Gaia. No topo desta, existe uma árvore, única e sem espécie definida, de raízes fortes, e copa frondosa. Dizem que se um casal em amor verdadeiro provar do fruto desta, ambos viverão para sempre.

Bakula, em um acesso de fúria, ao saber da morte da mulher amada, destruiu todos os filhos criados com Mtawa e depois a matou, sem piedade. O lugar onde esse massacre ocorreu criou a região negra de Mbata-Dorath, cujo solo é infértil e os espíritos das aberrações ainda assombram.

Bakula então cruzou a passagem de Krak-Aanatoa para não voltar mais. Alguns acreditam que isso seja culpa, outros que Bakula procura uma forma de trazer Inejh de volta a vida, mas a maioria simplesmente esqueceu da existência desta divindade.

Angorah desapareceu. Completamente insano pela morte da sua amada, saiu sem rumo por Gaia.

Inejh já estava morta quando os poucos filhos que sobreviveram escondidos dos Deuses em guerra, iniciaram as primeiras tribos de Batang. Outros filhos de Inejh, tristes pela morte de seus pais, deixaram Batang para nunca mais voltar. Essa é a lenda de como os humanos de pele negra surgiram em Gaia.

Corrompidos pelos espíritos de Mtawa e suas aberrações, os filhos de Inejh que repovoaram Batang divididos em tantas tribos, não desfrutaram de uma estação de paz sequer, desde então.

Em toda a história de Gaia, nenhum reino teve um começo tão turbulento quando Batang."

Os povos e raças de Gaia - Capítulo 12 - Batang - Cliff Belnichuk

Anúbis leu esse livro, como sempre fazia antes de sair para uma missão, lia todo o material disponível onde quer que estivesse sobre o lugar onde agiria. Isso lhe dava vantagem sobre quaisquer inimigos que buscassem a sua cabeça ou mercenários que buscassem o seu objetivo. 

Mas não acreditava em deuses, demônios ou o que quer que fosse, então imaginou que a situação no reino fosse um problema social. Apenas mais um território em constante guerra civil, como a maioria dos Reinos do sul.

Estava errado.

Abriu a bolsa de viagem e tirou um pano negro, amarrou de forma que cobrisse do queixo às bolsas dos olhos.

- Bem melhor. Pensou enquanto tomava nova coragem para atravessar o pórtico.

Um açougueiro, cortando carne em um balcão cercado de uma nuvem de moscas, um cachorro se alimentando da carcaça de uma criança, uma mulher sendo levada a força, por quatro homens para dentro de uma casa. Anúbis nem sabia por onde começar.

Algo lhe dizia que suas técnicas de infiltração habituais não funcionariam ali.

Poucos passos adentro da cidade, viu a fisionomia conhecida. Ramon, o melhor agente de sua equipe de preparadores. Homens especializados em reunir informações e paradeiros sobre os objetivos para os agentes de Canópus.

Um homem de baixa estatura para os padrões Oshkiik, tinha o topo da cabeça na altura da boca de Anúbis. A parte da sua estatura, era mortal no combate com facas.

Hoje ele não parecia estar em sua melhor condição. Em passos acelerados, coberto de suor e com olhos arregalados ele abordou seu superior.

- Ele está aqui, o monge. Na única igreja, do outro lado da cidade.

- Obrigado, Ramon.

- Vou partir agora, sugiro que faça o mesmo antes do anoitecer. Ramon deu as costas e saía apressado quando sentiu a pesada mão de Anúbis, segurar seu braço.

- Espere. Anúbis sabia que algo não estava certo, nunca vira seu soldado mais confiável, tão assustado. - Que diabos aconteceu, Ramon?

- A noite, saia antes da noite. Disse Ramon desvencilhando-se do braço de Anúbis e logo sumindo por entre o território rochoso e sem vida de Batang.

- Mas que, diabos. Sussurrou Anúbis.

Iniciou a caminhada sob os olhos suspeitos dos nativos. Como se tratava da capital de um reino, não acreditava que encontraria quaisquer problemas em dia claro, mas o aviso de Ramon, fora bastante claro. - ...saia antes da noite. - Ele disse.

Os olhares dos nativos eram agressivos, violentos até. Aquele, definitivamente não era um lugar seguro. Anúbis apressou o passo.

Chegara na cidade no final da manhã, e viu o sol descer muito pelo céu azul até chegar a praça central. 

- Que diabos, se Ramon sabia que a cidade era tão grande, que demoraria tanto tempo para atravessá-la, e que o lugar era perigoso durante a noite, por que diabos não ficou para me  ajudar?

Desde que entrara na praça, mantinha os olhos na grande torre central que se erguia imponente pelo céu. 

Marco zero da construção de Batang, a torre central fora construída com pedras trazidas da região norte, do deserto das torres, e foi a primeira construção do reino. Construída de pedras ditas amaldiçoadas em uma região, dita amaldiçoada, foi uma espécie de afirmação do poder da razão sob o místico passado.

Conforme a luz do sol deixava de iluminar a base da torre Anúbis passava ao seu lado a passos largos e rápidos. Volta e meia olhando para baixo, percebia que as sombras se aproximavam cada vez mais.

Anúbis já corria quando, percebeu que as sombras já o haviam ultrapassado a tempo.

Parou subitamente e olhando para os lados percebeu, estava sozinho nas ruas.

Não podia ouvir um ruído além do vento, e então, com os olhos na torre, viu que o topo da mesma caiu nas sombras. A lua, que levantava a sua frente começava a dar o tom azul escuro no céu.

Então Anúbis ouviu, vindo do outro lado da praça, caminho que cruzara pouco tempo antes, os rugidos aterrorizantes e o barulho de madeira quebrando.

- Diabos. Disse ele.

Correu na direção de uma casa, cuja porta destrancada não ofereceu qualquer dificuldade. Verificou o único aposento da casa com cautela e pegando uma cadeira, deixou contra a porta.

Abaixado em um canto, olhando por uma fresta de madeira, certificado de que não podia ser visto, mantinha os olhos arregalados olhando para fora, tentando entender que diabos acontecia ali. Por que Ramon fugiu tão apavorado.

Não haviam mais vestígios de luz no céu, além da luz da lua, quando Anúbis viu o primeiro vulto passando pela fresta a sua frente.

Caminhava lentamente, como um lobo que fareja a presa. Tinha pêlos cobrindo o corpo inteiro e garras nas mãos e pés que pareciam foices de aço negro. Com postura semelhante a um humano levemente curvo para frente e caminhando sob a ponta dos pés, a criatura parecia ser bem mais alta que Anúbis.

"Os Lobisomens em Gaia foram criados, como boa parte dos mistos entre humanos e raças de animais, por Subba, em uma de suas animadas festas.

Normalmente, se um humano copula com um animal, ele apenas pode pegar uma doença. No caso de Subba, um Deus, não existe qualquer explicação para que o animal engravide e dê cria a uma anomalia. Todavia, isso acontece.

Foi assim que nasceram os Minotauros, Centauros, Homens-Leão, estes últimos das savanas do sul.

A maior parte destas raças ditas mistas, permanecem em sua forma bestial todo o tempo. Não se sabe ao certo qual a razão dos Lobisomens se transformarem apenas a noite."

O Guia dos Indesejáveis - Capitulo 4 - Lobisomens e outros mistos - Por Olaf Haggenjarl

A criatura então parou, Anúbis viu que ela farejava algo, diabos, era ele.

Sacou a faca da bainha e esperou, na escuridão da casa, que a criatura entrasse. Não viria de onde o golpe veio. - Pulguento estúpido. Pensou ele.

Então Anúbis ouviu passos sob a terra batida, e tornando a olhar para o centro da praça, viu a centena de monstros como aquele, que se aproximava.

Sorriu. Que mais podia fazer?

Então tornou a olhar o que parecia ser o líder, um monstro maior que os outros, de pelo negro. Estava no centro da estrada próxima à entrada da casa. Mas ele já não estava parado, e sim se aproximando, parecendo seguir as pegadas de Anúbis.

- Diabos, seguindo pegadas a noite? De hoje não passo. Pensou.

Então ouviu o rugido bestial e a investida dos monstros casa adentro. O primeiro atravessou a janela como se fosse apenas uma cortina. A madeira espessa da porta foi fatiada como manteiga quando o rastreador entrou de súbito.

Anúbis, que havia deixado a casa pouco antes do ataque, agora estava na casa ao lado, e apenas ouvia as investidas dos monstros.

Então ouviu a voz.

- Corra!

O sentido de urgência na voz misteriosa foi o suficiente para que Anúbis simplesmente se levantasse e se pusesse a correr.

Mal havia deixado o canto onde estava, e uma garra negra atravessou a parede. Não tivesse ouvido a estranha voz, veria suas tripas se espalhando pelo chão de terra batida.

Atravessou uma janela e com muita agilidade subiu no telhado da próxima casa. Enquanto corria, olhou para trás e viu que estava sendo seguido pelos monstros que se aproximavam mais e mais.

Podia ouvir apenas o feroz batimento de seu coração enquanto pulava de telhado em telhado. Viu então à distância, a igreja, provavelmente a igreja que Ramon havia falado.

- Jamais vou alcançar aquela merda. Pensou.

Os monstros já podiam sentir o cheiro do medo, a presa não estava muito longe agora. Era bastante rápido para um humano, mas nada, perto deles. Estava cansando, podiam sentir.

Então o líder parou num telhado a frente e fez sinal para que parassem também.

Um dos filhos saltou até o telhado onde o pai estava e viu o que ele observava. Entre duas casas havia um poço, a tampa deste, destruída.

Anúbis não pensou quando se jogou poço adentro para escapar dos monstros, pagou por isso batendo a cabeça diversas vezes no caminho até a água. Ainda estava meio tonto quando olhou para cima e viu, muito longe, os olhos vermelhos no rosto magro que parecia sorrir. E então, a escuridão.

- Malditos, taparam a saída.

Anúbis colocou os pés em um lado da parede e as costas no outro procurou em seus bolsos por algo, quando encontrou, sorriu.

Pôs entre as mãos e esfregou ambas, parecendo secar o item, logo, uma luz pareceu nascer entre as suas mãos.

- As coisas que as servas da luz conseguem.

Pôs o item sob a água com muito cuidado, precisava saber se realmente funcionaria sob a água.

A pequena luz sequer cintilou.

- Perfeito. Pensou.

Tomou tanto ar quanto pode e mergulhou.

Vlad, sentado na cadeira, olhava para o horizonte, sem qualquer expressão. À distância, Balash e Belerofon fitavam o amigo que estivera naquele estado desde que acordou, duas luas antes.

- Precisamos fazer com que Aoshi pague. Disse Belerofon, rangendo os dentes.

- Como vamos prendê-lo, Belerofon. Aoshi já era um poderoso guerreiro quando estava do nosso lado, depois comandou um exército de mortos, e agora desapareceu em sua vingança. Respondeu Balash.

Ambos estavam do lado de fora do quarto de Vlad, que sentado, imóvel, como nas últimas semanas, ficava a frente da janela.

- Prendê-lo? Eu quero trucidá-lo. Então Belerofon pareceu estranhar algo. - Espere, como você sabe que ele está focado em vingança?

- Certa vez, ele me contou que sua mãe havia sido estuprada e assassinada, e que faria com que os três homens que fizeram isso pagassem. Nessa vida ou na próxima. Outro dia, veio a Fergus um Monge de Janen, sabendo que queríamos o pescoço de Aoshi, e que havia ouvido rumores sobre a sua terra natal.

- Rumores? Como diabos um espião não sabe o que ocorre em sua terra natal?

- É a lei para os Monges, ou assim ele me explicou. Para que não sejam distraídos do seu trabalho, deixavam todo o contato com a terra natal para trás. Acontece que um destes quebrou a corrente, tentou contato com sua terra natal através de um mensageiro. Pode imaginar quais foram os relatos do mensageiro, não?

- Uma terra de mortos vivos.

- Exato. Este Monge, Nathaniel, quer a cabeça de Aoshi em uma bandeia. Por isso veio a mim, coisa de quatro ou cinco dias atrás, para contar as últimas ações de Aoshi, e seus objetivos. Acontece que Nathaniel tem algo que Aoshi quer, o paradeiro do homem que enfiou a espada em sua mãe, aquele que quase o matou, quando ainda era apenas uma criança.

- Por que diabos não me disse? Vamos ao encontro de Aoshi agora. Exclamou Belerofon, levantando a voz.

- Exatamente por isso que não te contei. Pretende fazer o que, se encontrar Aoshi? Golpeá-lo com seu machado? Já vi ele se recuperar de um poço de órgãos, naquela vez em que caiu no meio de Shamrock. Além do mais, julguei que quanto menos gente soubesse, melhor, afinal de contas, Aoshi está no rastro de Nathaniel, e qualquer brisa pode atrair a atenção dele.

Belerofon suspirou. Lembrava que Aoshi era um guerreiro formidável, mas não lembrou do fator de cura.

- Não lembrava que ele se curava tão rápido. E está certo também quanto a questão de manter a informação junto ao peito.

- Então, antes de fazermos nosso movimento, precisamos descobrir como matá-lo.

- Sim, mas não temos todo o tempo do mundo. Aoshi eventualmente vai encontrar Nathaniel. Falando nisso, onde está esse Monge?

- Batang. O enviei a Batang com um homem de confiança de Heinz.

- Por que Batang?

- Distante do centro do reinado, aparentemente amaldiçoado, e sugestão de Heinz.

- Espere, Heinz sabia?

- Pedi o aconselhamento dele nessa questão de levar o Monge a um lugar seguro. Belerofon rosnou algo e virou na direção de Vlad.

- Ele vai ficar assim para sempre? Perguntou, tentando desviar a mente de que o amigo escondera informação sobre o paradeiro de Aoshi, mas conversara com Heinz, um estranho, sobre o tema.

- Não temos como saber, Belerofon. Respondeu Balash, terminando a frase com um longo suspiro.

- Olhe para ele, Balash. Ele sequer pisca. Temos que dar um jeito nisso.

Continuaram por mais um minuto olhando para o amigo até que então ambos viram os olhos de Vlad virando na direção deles.

- Espere, que diabos é isso? Disse Belerofon se aproximando.

Quando chegou ao lado do amigo, viu ele sorrir, mesmo que apenas uma fração do que era seu sorriso, um enorme progresso depois das últimas luas.

Vlad ainda demoraria diversos dias até recuperar a fala, seu corpo se regenerava em uma velocidade surpreendente, mas mesmo assim, havia um limite.

Vlad teve a coluna esfacelada, medula partida e diversos danos cerebrais com os dois golpes de Aoshi, uma pessoa comum teria morrido na hora. Mas Vlad não era uma pessoa comum.

Seus amigos não sabiam, mas com o corpo nu e a fratura exposta sobre a mesa de metal, não demorou até que o metal da mesa fosse absorvido, substituindo a parte orgânica destruída além de qualquer recuperação.

Mas a partir do momento em que o metal tratou de fechar a fratura exposta nas costas, não havia outra entrada de metal no organismo de Vlad. O metal não podia ser absorvido através da pele. 

Seus amigos podiam acelerar o processo de cura lhe alimentando de pó de ferro, ou até mesmo pregos. Mas como iam saber que o amigo agora comia pregos?

Por isso, até que conseguisse falar, e explicar como seu corpo "funcionava", a recuperação de Vlad seria lenta.

Balash entendia um pouco do que estava acontecendo. Viu que a incisão nas costas de Vlad, que ele mesmo abrira para averiguar o dano causado pelo traidor, havia se fechado completamente, e mesmo a parte superior do tronco não parecia mais tão "mole".

Teria isso algo a ver com o enorme rombo na mesa de perícia?

Vlad estava diferente, isso era certo, quando abriu as costas do amigo, viu diversas barras de metal, até mesmo metade da coluna de Vlad era metálica. Quem diabos conseguiu fazer aquelas próteses tão perfeitas. Mais importante, como conseguiu que o paciente sobrevivesse à tantas mudanças?

Então o estalo.

- Eu sei como matar Aoshi! Exclamou, para o espanto de Belerofon.

Carregando uma tocha, caminhava um homem esguio trajando roupas brancas como a neve pelos corredores apertados e escuros.

De trás dele, vinha outro homem, não era muito maior, mas tinha aparência definitivamente ameaçadora. Ambos passaram por duas estátuas de divindades e então adentraram em um enorme hall.

- Por ali, senhor Sandaros. Disse o homem que ia a frente, apontando para um área próxima a uma piscina.

A construção ficava muito abaixo da terra, mas havia tanta vegetação e iluminação feita por diversos espelhos que havia a nítida impressão de que as paredes fossem na superfície. 

O ar, ao contrário de outras construções subterrâneas, era puro e fresco.

- Como puderam construir isso? Sandaros, perguntava-se.

Não era a primeira vez que estivera nos aposentos reais, mas era algo que se perguntava toda vez que estivera ali. Em sua contemplação da engenharia, foi interrompido pela voz distante.

- Sandaros, aproxime-se.

Era ele, o regente deus, como os outros monarcas de Gaia conheciam o regente de Mirach. Ali, ele era conhecido apenas como Deus. E hoje, estava mergulhado até a cintura em um líquido dourado, que parecia ouro derretido.

- Bom dia, vossa divindade. Cumprimentou respeitosamente, Sandaros.

- Bom dia, Sandaros. Respondeu o regente, levantando da piscina com o líquido dourado escorrendo pelo corpo nu. Isto poderia constranger a maioria dos povos de Gaia, mas em Mirach o costume era diferente.

Estando na presença de um Deus, qualquer vislumbre do seu corpo nu seria visto como uma honra. Honra esta que apenas os servos mais fiéis teriam.

- Sandaros, meu jovem. Continuou o Deus, enquanto caminhava a um criado que lhe estendia o roupão. - Preciso de sua intervenção, em um assunto da maior importância.

- O que desejar, divindade.

- Me acompanhe. Disse o Deus que tomava a frente em direção a uma mesa repleta de frutas.

Passou a mão pela mesa de ouro maciço até pegar uma maçã, verde e suculenta.

- Um servo de outro, que não nosso amado reino, me trouxe um alarmante anúncio outro dia. Desejam impedir a minha vontade divinal. Clamou a divindade.

- E o que posso eu, seu humilde servo fazer para que a sua vontade seja cumprida? Perguntou Sandaros, genuinamente preocupado.

- Preciso que um homem seja assassinado, que o alvo deste seja salvo e que este seja encontrado por um terceiro. Disse a divindade, de forma misteriosa.

- Perfeitamente, vossa divindade. Temos mais informações sobre estes homens?

- Sim, Anúbis deve morrer, Nathaniel deve ser salvo e encontrado por Aoshi. Nathaniel está em Batang, mais precisamente em Kitwe. Anúbis está indo para lá, e Aoshi vai receber a informação de outro servo de Mirach, nas próximas semanas.

- Estou partindo ainda hoje para Batang, vossa divindade.

- Perfeito. Respondeu o homem-Deus com um largo sorriso nos lábios.

Então estendeu a mão, que Sandaros beijou. Outra honraria cedida apenas aos servos mais dedicados.

Sandaros já havia saído quando o Deus sentou a mesa e suspirando disse.

- Pronto. O tabuleiro está novamente em movimento. De trás dele um vulto negro surgiu.

- Perfeito. Assim que Aoshi cumprir seu objetivo, você terá um exército a sua altura, divindade. E Alrach será sua, mais uma vez. Disse, com a voz rouca e sombria. Então desapareceu novamente nas trevas.

O Rei Deus, então ficou só. Ele e o sorriso nervoso no canto da boca.

Ulf, de barba feita e os cabelos negros amarrados e caídos nos ombros, sentou a frente de Morgana, Torres, sentado ao seu lado.

Apesar da ótima aparência, comparado aos dias anteriores, Ulf estava de cara amarrada. Sobrancelhas quase em formato de "V" sobre os olhos.

- Preciso que um pacote seja entregue em Obukan. Você, vai entregar esse pacote pra mim Ulf. Disse Morgana, iniciando a conversa.

O Anão buscou em sua mente a memória de Obukan.

- Onde raios fica isso, Morgana? Morgana não gostou da forma rude de Ulf e rispidamente respondeu.

- Nordeste de Gaia.

- O que estou carregando?

- Uma caixa de madeira, pouco maior que você.

- Maior que eu? Como vou carregar?

- Não vai. O navio onde você passou a noite vai levar vocês até lá.

- Como assim? Perguntou o Anão, novamente, ríspido. Morgana suspirou, estava perdendo a paciência.

- Não vai por terra, vai por mar. Em Oshkiik vai deixar a sua embarcação e pegar outra, que um contato meu vai providenciar. Então vai pelo Rio que corta Phobos, passando próximo a capital do reino até Daejeon, onde deixará a caixa, em um galpão.

- Quer que eu vá em um barco até o outro lado do mundo? Mande um de seus subalternos? Morgana perdeu a paciência de vez. Com as bochechas rubras se pôs de pé e bradou.

- Fora daqui, todos vocês. Ulf fez menção de que sairia.

- Você não, Anão.

A porta mal se fechou por trás de Ulf e o rugido veio.

- Que merda é essa, Ulf? Está querendo uma adaga na jugular?

O Anão sequer conseguiu responder.

- Se veio aqui para me desautorizar na frente dos meus comandados, terei prazer em juntar uma equipe para lhe levar de volta à imensidão morta que é a superfície de Drunkirsh hoje.

- Desculpe. Interrompeu o Anão. - Desculpe, Morgana. Passou ambas as mãos ao lado do rosto e puxando os cabelos para trás continuou. - Não era minha intenção lhe distratar.

- Desta vez passa, mas pense melhor nas suas palavras no futuro.

Ulf jamais entregaria suas reais intenções naquela manhã, quando chegou à nau capitã. Decidiu que o melhor seria engolir o que sentia por Morgana e ao menos reconquistar sua confiança.

Mas quando se pôs sentado, ao lado de Torres, e olhou nos olhos dela, só conseguia ver os dois se agarrando, corpos nus e sorrisos. Queria era matar ambos.

- Então, este pacote. Do que se trata?

- É algo que preciso que seja entregue, em segurança, em Obukan. Não posso dizer mais nada, e preciso saber se você vai criar um problema com isso.

- De forma alguma, se você me diz que precisa disso, eu faço.

Morgana desarmou a fisionomia e ensaiou um sorriso de leve.

- Estamos acertados então. Torres vai te acompanhar, ele vai escolher nossos melhores homens e um capitão habilidoso o suficiente para navegar em mar aberto e rios.

- Torres?

- Sim, Torres. Por que?

- Por nada. Disse Ulf, desviando o olhar.

Anúbis sentiu a água ficar cada vez mais fria, conforme mergulhava na escuridão. A luz do seu pequeno adereço não chegava mais as paredes do poço, então Anúbis sentiu.

- Diabos. Pensou.

Era uma corrente de água mais fria que a da superfície do poço, se deixou levar por mais alguns segundos até que submergiu para respirar.

Haviam rachaduras no topo daquela caverna submarina. Lugares onde Anúbis podia espremer o rosto na busca de ar.

Tornou a mergulhar e então viu, a distância algo se movendo, pensou que seus olhos pudessem estar enganados, de qualquer forma, apertou com mais força o adereço de luz que tinha na mão esquerda. Fora assim que a velha Mãe de Luz lhe ensinara.

- Aqueça o olho de Lauriana para que a luz acenda. Pressione para que a intensidade de luz aumente. Você está levando uma grande benção de Lauriana, meu jovem. Não perca isso em uma taverna qualquer.

Anúbis fora salvo pelas servas da luz durante uma missão em Rothengar. A missão havia sido um fracasso total por que Anúbis não fora capaz de assassinar o jovem herdeiro do reino e ainda foi pego, com a adaga na mão, à poucos metros da cama do garoto.

Anúbis não entregou qualquer informação sobre sua missão, ou sobre seu reino de origem, o que aumentou ainda mais a raiva dos interrogadores de Rothengar.

Depois de duas estações na prisão de Brananthur, na capital do reino, sendo torturado diariamente, Anúbis foi dado como morto, um dia. Sem jamais ter dito nada.

Seu corpo, como de todos os "inquilinos" de Brananthur, fora arremessado na vala comum, e deixado para os corvos.

Um grupo de servas da luz que iam todos os dias dar os ritos de passagem aos pobres torturados de Brananthur, acabaram por ouvir que Anúbis ainda estava vivo. Tiraram ele da fossa e o levaram para tratamento.

Por duas estações inteiras, Anúbis passou em uma cama, sendo alimentado e carregado para o banheiro por servas de um deus que ele não acreditava existir.

- Jovem teimoso. Dizia a Mãe de Luz, serva da luz mais antiga de uma região que coordena todos os trabalhos da ordem em determinada área. - Tem na sua sobrevivência a maior prova de um milagre da nossa Deusa, e ainda é capaz de negar sua existência.

Sempre que lembrava das mulheres que o salvaram, sorria. 

Apesar de estar na água gelada, debaixo de uma cidade de Lobisomens e estar tentando encontrar um homem procurado pelo maior genocida de Gaia, ainda conseguiu sorrir genuinamente.

Logo a luz se tornou tão forte que Anúbis podia ver como se estivesse na superfície, em um dia de sol. 

Viu então que algumas centenas de metros a frente, havia uma fonte de luz natural, uma saída talvez. Mas também sentiu algo se movendo abaixo de seus pés. Ao olhar para baixo, levou um susto tão grande que sentiu o coração parar por um segundo.

Tratou de nadar até a fonte de luz o mais rápido que pode.

Percorreu boa parte da distância até a possível saída sem sequer parar para respirar, e quando o fez, encheu os pulmões e continuou.

Quando chegou a fonte de luz, percebeu que era a luz da lua, que do topo do céu, iluminava a caverna. Subiu o mais rápido que pode sob uma pedra e já buscou um lugar mais alto ainda. Enquanto escalava a pedra úmida, olhava ao redor.

Era uma imensa caverna com pilhas e mais pilhas de rochas, e apenas um buraco pequeno ao centro, no teto, e outro, aproximadamente do mesmo tamanho, no fundo.

- Será o ninho daquilo?

Então chegou a última pilha de rochas, ao alcançar a escada de metal que seguia a superfície  ouviu o estranho ruído.

Enquanto subia, viu a imensa criatura se jogando para fora d'água. Claramente não era seu habitat natural, já que se movimentava desajeitadamente, mas com um golpe da cauda, derrubou a enorme pilha de rochas onde Anúbis estava.

Anúbis, ainda se esforçava para escalar os primeiros degraus da escada de metal quando o chão ruiu, pouco abaixo dos seus pés. Em meio a rosnados ensurdecedores e uma nuvem de poeira viu a figura esguia se debatendo, e destruindo o lugar.

Anúbis logo saiu do buraco e se viu bastante próximo a igreja, seu destino. Quanto mais se aproximava, mais percebia que o termo "igreja" não estava correto. Aquela construção era uma imensa catedral, possivelmente entre as maiores de Gaia. Mas o que faria uma catedral daquele porte, em uma região como Batang, que fora esquecida pelos deuses?

Correu o mais rápido que pode a distância que lhe separava de seu objetivo e então, se jogou contra a porta dupla, não se preocupando com o barulho.

Caiu de costas sem sequer fazer a madeira das portas rangerem. O baque foi tão forte que Anúbis sentiu o ombro deslocar.

- Diabos. Reclamou.

Então ouviu uma porta destrancar e lentamente se abrir.

- Só falta isso ser uma armadilha. Sussurrou enquanto levantava.

Caminhou até a porta, com dificuldade, abriu apenas o suficiente para passar e então viu por que sua tentativa de arrombar a porta havia falhado. De madeira maciça, com mais de um palmo de espessura, aquelas portas deviam pesar dez vezes o peso de Anúbis, no mínimo. Aguentariam baques como aquele durante dias, se necessário.

- Senhor Anúbis, boa noite. Anúbis não conseguiu encontrar a origem da voz, e ficou procurando.

- Monge? Perguntou Anúbis, não sabia o nome do Monge, aliás, ninguém parecia saber. Ouviu uma risada.

- Por favor Anúbis, me chame de Nathaniel.

- Perfeito, Nathaniel, poderia se revelar? Me sinto meio desconfortável conversando com as paredes.

Nathaniel passou ao lado de Anúbis, estava nas suas costas o tempo todo.

- Melhor, assim? Anúbis levou um susto, saltou para o lado em posição de combate.

- Senhor Anúbis, por favor, não há necessidade para agressividade. Venha comigo, estou passando um café. Anúbis estava completamente desarmado pela tranquilidade de um homem que estava sendo procurado pelo maior genocida de Gaia, e morava próximo ao centro de uma cidade de monstros.

Enquanto caminhava com Nathaniel pelos corredores da imensa catedral, tentava decorar o caminho por entre o labirinto de mármore cinza-escuro. Caso precisasse fugir.

- Assumo que o senhor não vai me dizer seu nome verdadeiro, não é? Senhor Anúbis. Anúbis sorriu e se fez de desentendido.

- Como assim, meu nome verdadeiro? Anúbis é meu nome verdadeiro.

- Sem problemas, se prefere, posso chamá-lo de Anúbis então.

Quando chegaram a uma grande sala com móveis e uma cozinha, Nathaniel disse.

- Sinta-se a vontade, senhor Anúbis.

- Obrigado. Respondeu Anúbis. Entendeu que não havia razões para ser incordial com aquele homem.

- Entendo que deva ter sido difícil me encontrar aqui, não? Perguntou o homem, caminhando até um fogão a lenha.

- Tenho que admitir, Nathaniel, você sabe escolher um esconderijo. Nathaniel riu.

Virou e vinha com duas canecas de alumínio, qual fosse o conteúdo, era quente, pois podia ver o vapor saindo pelo topo.

- Prove, é café, um fruto maravilhoso que sempre tento carregar comigo desde a minha última viagem ao extremo leste.

Anúbis pegou a caneca pela alça e levou ao nariz.

- Aroma agradável.

- Beba com calma, pois está quente. Respondeu o misterioso Monge, claramente esperando uma avaliação.

Anúbis sorveu um gole pequeno no conteúdo da caneca, manteve por um tempo na boca, como se fosse um vinho e então engoliu. Deu então, outro gole, repetindo o tempo de apreciação.

- E então? Perguntou Nathaniel.

- É um pouco amargo para meu paladar, Nathaniel, tenho que admitir.

Nathaniel sorriu.

- Não se preocupe, amigo. É um hábito que se firma com o tempo.

Nathaniel caminhou até uma poltrona próxima e perguntou.

- Então senhor Anúbis, o que posso fazer pelo senhor?

- Poderia começar dizendo como sabe sobre o meu nome.

- Ora Anúbis, o negócio dos Monges de Janen, no meu caso ex, é obter informação confidencial. Que tipo de Monge seria eu se não conhecesse um dos agentes mais condecorados de Canópus?

- Hum. Limitou-se a responder Anúbis. - Ele está desmerecendo meu trabalho? Se pegou pensando, já que também era um espião e não fazia ideia de quem era Nathaniel.

Bebeu mais um gole de café.

- Com certeza sabes que Aoshi Kato está no seu rastro, não?

- Sim, sei disso sim.

- O que você sabe? Por que o maior monstro de Gaia está no seu encalço?

- Não sei se devo lhe contar, Anúbis. Quanto menos gente souber deste segredo, menor a possibilidade de Aoshi cumprir seu objetivo.

- Por que você deseja que Aoshi não cumpra seu objetivo?

- Para chamá-lo de genocida, você deve saber o que ele fez com Janen, não sabe?

- Sim, sei sim.

- Quer um homem destes no poder de Gaia?

- Como assim?

- A informação que vou lhe revelar agora é sabida apenas por cinco ou seis pessoas, contando Aoshi, então por favor, não leve a público.

- Claro Nathaniel, pode falar.

- Aoshi pretende matar Gaia.

Anúbis engoliu a seco a informação.

- Todo o mundo?

- Não, a Deusa mesmo.

- Como assim?

- Aoshi encontrou anos atrás, pouco antes de tomar Janen, um grimório. Material antigo, poderoso, contém feitiços pesados de magia negra. Levante de mortos, roubo de energia vital, conjuração de demônios e espíritos malignos, o que você quiser, tem naquele livro. Foi assim que Aoshi causou dano na massiva criatura que levantou do mar. Gaia, a Deusa mãe, terminou o serviço, mas foi Aoshi quem deu o primeiro golpe.

Nathaniel bebeu um longo gole de café antes de continuar.

- Não entendo bem os detalhes do ritual e a magia propriamente dita, mas pelo que ouvi, ela foi concebida com o intuito de matar a Deusa mãe, milênios atrás, por uma raça já extinta de dragões-orc.

Anúbis, boquiaberto ainda tentava assimilar toda aquela informação. O objetivo de Aoshi era matar Gaia então.

- Então você sabe algo sobre como parar Aoshi? Por isso que ele está atrás de você?

- Não, não faço ideia de como pará-lo.

- Então?

- Acontece que Aoshi pôs esse objetivo em segundo plano. Nos últimos meses ele esteve focado em sua vingança contra os assassinos de sua mãe.

- Depois de tanto tempo? Anúbis conhecia a história de Aoshi, buscou tantas informações quanto pode na época em que Janen foi dizimada. Sabia que a mãe havia sido assassinada, e que Aoshi quase enfrentara o mesmo destino nas mãos de três homens. - Por que voltar a isso só agora?

- As razões para a demora nessa vingança, só os Deuses sabem. A ordem para iniciar as buscas aos três homens, foi dada há pouco mais de um ano. Dois deles já foram encontrados, você deve saber o resultado.

- Sim, um incêndio em Canópila e um verdadeiro circo dos horrores em Rothengar. 

- Não foi confirmado em lugar algum que o segundo ataque foi obra de Aoshi, mas fomos nós que repassamos o nome de Jahn, a vítima.

- Esses dois participaram da morte da mãe de Aoshi então?

- Exato. E apenas eu sei onde está o terceiro homem. Inclusive, tratei de informá-lo que Aoshi estava no seu encalço.

- Será suficiente? Digo, para que Aoshi não encontre seu rastro?

- Não, de forma alguma. Por isso tratei de ajudá-lo eu mesmo. Homenzinho detestável aquele, normalmente não me importaria de Aoshi dar cabo na vida dele, mas dadas as circunstâncias, tive de protegê-lo.

- Onde o escondeu?

- No único lugar que sequer Aoshi se atreveria a voltar. Disse Nathaniel, com ar misterioso. - E então me escondi aqui, no meio de uma cidade de Lobisomens, o lugar mais seguro contra um inimigo tão poderoso quanto Aoshi.

Então ambos ouviram o som da enorme porta da catedral se abrindo.

Nathaniel que olhava para o teto perguntou em sussurros.

- Você trouxe mais alguém?

- Não. Respondeu Anúbis. - Será que um dos Lobisomens me seguiu?

- Impossível. Tenho um amuleto que lhes causa asco. Sequer conseguem se aproximar de mim. Só por isso ainda estou vivo.

Ouviram então os passos pelo assoalho de madeira sob suas cabeças, e então pela escada de madeira. Anúbis correu até a porta de entrada do aposento onde estavam e quando ela começou a abrir, se arremessou com os dois pés contra, ouvindo o baque, como se alguém fosse jogado para trás pelo impacto.

Levantou rapidamente e ficou a frente da porta, esperando uma reação. Ouviu uma risada abafada vinda do outro lado da porta e então viu a porta voar em pedaços pelo ar ao mesmo tempo em que ouviu o grito.

- Cuidado! A voz não era de Nathaniel, tampouco do homem que surgia entre os destroços da porta.

Vinha em alta velocidade, um homem grande, de pele queimada, provavelmente vindo das regiões desérticas do sul de Gaia, mas Anúbis não teve tempo de continuar sua primeira análise, fora surpreendido pelo poderoso golpe de esquerda que o arremessou pelo ar.

Nathaniel, de trás de Anúbis, disparou com uma balestra contra o inimigo que, em um rápido movimento se jogou para a direita e atirou uma cadeira na direção de Nathaniel.

Anúbis, que levantava, sentiu o forte golpe nas costelas que o tirou do chão. Então sentiu seu braço sendo puxado para a direita e o pescoço preso entre o forte antebraço do inimigo.

- Por favor, não recarregue a balestra. Disse o homem com Anúbis imobilizado. - Não desejo seu mal.

Nathaniel, surpreso, largou a balestra no chão e pediu.

- Então deixe este homem livre.

- Você sabe que ele está aqui para lhe assassinar, não sabe? Nathaniel olhou nos olhos de Anúbis e então sorriu.

- Senhor, se este homem quisesse me assassinar, eu já teria morrido ao menos doze vezes. Respondeu lembrando de todas as vezes que dera as costas a Anúbis. - Por favor, vamos conversar civilizadamente.

O homem lentamente soltou o pescoço e braço de Anúbis e deu dois passos para trás.

- Como desejar.

Anúbis, segurando o braço torcido pelo misterioso homem, perguntou.

- Quem é você? O que faz aqui?

- Vim impedi-lo de assassinar o senhor Nathaniel.

- Está redondamente enganado, não vim aqui para assassinar Nathaniel. Vim aqui para descobrir o paradeiro de Aoshi e seus objetivos.

- Exatamente isso que meu líder quer evitar.

- Espere, você não pode estar falando sério. Existe um reino que apóia as ações de Aoshi? Perguntou Nathaniel, incrédulo.

- Você sabe o Aoshi está tramando? Tem ideia de quais interesses está defendendo? Perguntou Anúbis, elevando o tom de voz.

- Senhor Anúbis, senhor Nathaniel, não sei o que Aoshi planeja, e não estou aqui para descobrir. Não cabe a mim julgar as ações dele.

- Qual é o seu nome? Perguntou Nathaniel. - Nada mais justo que, se você sabe os nossos nomes, possamos saber o seu.

O homem acenou positivamente.

- Certo, meu nome é Sandaros.

- Sandaros, agradeço a preocupação, mas acredito que esteja equivocado. Aoshi deseja a morte de Gaia, a nossa Deusa mãe, é por isso que o senhor Anúbis está aqui, para evitar que isso aconteça.

- E eu estou aqui para garantir que isso aconteça.

- Você tem ideia do que está em jogo aqui, Sandaros? Perguntou Anúbis. - Nós estamos falando da morte da mãe de toda a vida em nosso mundo. Não estamos falando da morte daquele charlatão que vocês clamam aos quatro ventos como Deus, em Mirach. Sandaros levantou e bradou.

- Anúbis, não vim aqui para discutir teologia com você. A testa tramada em puro ódio, mas antes que pudesse fazer algo, todos ouviram a explosão, sentiram então o tremor de terra e a poeira caindo do teto.

- Diabos, é Aoshi. Disse Anúbis olhando para Nathaniel. - Precisamos te tirar daqui. Sentiu então o forte golpe no pescoço, seguido de um agarrão e o forte arremesso contra a parede.

Antes que Sandaros pudesse virar para Nathaniel, sentiu o golpe pelas costas, abaixo das costelas.

- Desculpe Sandaros, mas não posso deixar que Aoshi triunfe. Não ao custo da Deusa mãe, e especialmente não ao custo de toda a vida do nosso mundo.

Sandaros com a barra de ferro lhe atravessando o corpo, caiu sentado e ali ficou, em silêncio. Agonizando, enquanto via Anúbis ser carregado por Nathaniel pelas escadas.

- Deus, falhei com o senhor. Sussurrou enquanto baixava a cabeça.

Ouviu então os passos cadenciados no andar superior, então pela escada e pararam, poucos metros a sua frente.

Estava fraco demais, quase não conseguiu abrir os olhos.

- Você não é quem eu estava esperando. Disse a voz rouca.

Usando de todas as suas forças, Sandaros levantou a cabeça e viu o homem de traços asiáticos, com duas marcas vermelhas que atravessavam o rosto, parecendo pintura de guerra.

- Onde está o monge?

- Fugiu. Disse Sandaros cuspindo sangue, em meio a sussurros. - Tentei impedí-lo. Ainda continuou antes que Aoshi o interrompesse.

- Não fale. Disse com a voz suave enquanto se aproximava.

De cócoras a frente do homem, Aoshi parecia se deliciar com o homem agonizando. O sangue escorrendo pelo cano e pingando na, já grande, poça de vermelha no chão, os olhos quase sem vida.

A alma, quase palpável, deixando o corpo.

Então Aoshi segurou com uma das mãos o cano, e levantou, deixando Sandaros de pé também. Sandaros soltou um grito com o resto das suas forças, grito tão forte que até mesmo Nathaniel e Anúbis ouviram, já longe dali.

- Que diabos foi isso? Pensou Nathaniel, sem diminuir o passo.

Anúbis, ainda desacordado, sonhava. Podia ver a sua frente o jovem Tengu, que assassinou em Tsukaba, semanas atrás. O jovem parecia envolto em névoa, e tinha uma cicatriz no pescoço.

- Olá Anúbis. Quanto tempo, heim?

- Tengu? O que está fazendo aqui? Espere. Onde é aqui?

- Como assim? Eu morri, posso ir para onde quiser. Por que não ir para o subconsciente do homem que me assassinou?

- E você pode fazer isso?

- Sabe que eu também não sabia disso? Mas aparentemente posso sim. Naquela noite, depois de me assassinar, vaguei por alguns minutos no meu antigo quarto, até que tive essa ideia. Por que não lhe seguir em suas aventuras por Gaia? Com certeza seria um pós vida melhor que se tivesse que passar pelo ritual das cordas.

- Não posso negar, foi uma ideia interessante. Mas e então, o que fez.

- Quando vi os guardas entrando subitamente no quarto, imaginei que estava em problemas, então os segui até os aposentos do imperador e só eu vi quando você saiu pela janela. Então cheguei ao chão, do lado de fora do castelo, fiquei lhe esperando. Você tocou o chão, tratei de encontrar meu espaço.

- Mas que interessante. Desde então você tem estado comigo? O que tem achado da viagem? Tengu sorriu.

- A viagem tem sido ótima, mas você se joga ao perigo como se não se importasse com o risco que corre. Deve tomar mais cuidado, não quero morrer novamente. Ao menos não tão cedo.

- Desculpe Tengu, se tenho sido uma má carruagem, mas não estou acostumado a ser meio de transporte. Respondeu Anúbis, rindo. - E também tenho minhas ordens.

- Pois é, e por isso está desacordado no ombro de um desconhecido muito próximo das garras de Aoshi.

Anúbis engoliu aquela a seco.

- Não me leve a mal, amigo. Estou apenas avisando que deve tomar mais cuidado, pois existem destinos muito piores que a morte, Sandaros, aquele pobre homem que encontraram ainda há pouco, deve estar descobrindo isso agora. Tenho certeza que mesmo nesse estado, você ouviu o grito.

- Sim, ouvi. Imaginei que fosse um sonho.

- Você está num sonho. Ele está num pesadelo.

- Espere aí. Disse Anúbis, intrigado. - Por acaso foi você que me alertou contra o ataque do monstro, na casa, no início dessa noite?

- Sim.

- E tentou me alertar também quando Sandaros irrompeu pela porta, abaixo da catedral, correto?

- Sim. Mas me agradeça depois, agora você precisa acordar. Nathaniel está cansando.

Anúbis abriu lentamente os olhos, estava nos ombros de Nathaniel. O homem a quem ele devia proteger, e que agora corria para salvar sua vida.

Percebendo a movimentação de Anúbis, Nathaniel parou e o colocou no chão.

- Ei, você está bem? Consegue correr? Não falta muito até a fronteira da cidade, onde tenho duas montarias prontas pra fuga.

Anúbis olhava para os lados, como que tentando se livrar da tontura. Percebeu então que em cada sombra ao redor havia uma dezena daqueles monstros. Provavelmente afastados pelo artefato que Nathaniel carregava.

- Me ajude a levantar. Pediu Anúbis.

O golpe de Sandaros atingiu em cheio o pescoço de Anúbis. Pela força do golpe, Nathaniel esperava algum tipo de lesão na coluna de Anúbis, mas não fora o caso, apenas um desmaio pela intensidade do golpe.

Em meio a gemidos e rosnados, Anúbis conseguiu ficar de pé. Sentiu que tinha força o suficiente para correr, talvez não na velocidade de sempre, mas o suficiente para deixar aquele lugar.

Então ambos ouviram o grunhido e o estalo de um osso quebrando, viraram e viram a figura assustadora, segurando uma das criaturas pelo pescoço, todas as demais corriam para longe.

- Vim de muito longe para encontrá-lo, monge. Seria muito rude da sua parte sair sem falar comigo. Disse o homem.

Era oriental, tinha longo cabelo negro e liso, estava amarrado firmemente atrás da cabeça. Duas marcas vermelhas que corriam pelas bochechas até o topo da cabeça, entrando nos cabelos. E usava um manto negro que cobria todo o corpo.

- Aoshi. Sussurrou o monge. Anúbis arregalou os olhos e repetiu, como que se questionando.

- Aoshi?

- Sim. O pobre rapaz de Mirach me contou que estava aqui para salvar este monge. Disse Aoshi olhando no fundo da alma de Anúbis. - Ao que parece, minhas capacidades de persuasão ficam melhores a cada minuto. Mas, posso saber o porque?

Anúbis sentiu a saliva descer pela garganta como se fosse areia, lenta e dolorosamente. Se encheu de coragem e respondeu.

- Sabemos qual é o seu plano, Aoshi. E vamos impedi-lo de concretizá-lo. Aoshi fingiu preocupar-se e perguntou.

- Vão mesmo? Então sorrindo, replicou. - E como pretendem fazer isso, se demoraram quase um ano até me localizar? E só me localizaram por que em minhas ações, não fui nada cuidadoso. Como pretendem me localizar quando eu executar o último verme que me feriu de verdade, e iniciar os preparativos para meu grande ataque?

Anúbis baixou a cabeça, não sabia o que responder.

- Foi o que pensei, pequenino. Rapaz. Disse Aoshi agora olhando para Nathaniel. - Onde está o último?

Nathaniel hesitou.

- Não me faça te matar, rapaz. Diga onde ele está, e lhe deixo com sua vidinha miserável. Ah, não tente me enganar, eu tenho a incrível habilidade de saber quando estão mentindo para mim.

Nathaniel virou para Anúbis e disse.

- Anúbis, lembre do que falei. Não vai demorar até que ele descubra, você tem que chegar ao lugar onde o terceiro homem está antes de Aoshi.

Anúbis entendera qual era o plano do monge, então não ficou surpreso quando Nathaniel sacou uma adaga da bainha e aplicou na própria garganta, parando apenas no osso da espinha.

- Não! Gritou Aoshi, partindo na direção de Nathaniel, então sentiu o poderoso golpe no lado direito. Caminhando lentamente na sua direção vinha o lobisomem negro, que o jogou contra a parede de uma casa.

Dezenas de outros monstros seguiam aquele que parecia ser o líder, enquando o sangue de Nathaniel cobria o chão de terra batida. Anúbis ao seu lado, segurava a mão do monge durante a passagem para o outro mundo.

- Vá em paz, guerreiro.

Anúbis pegou o amuleto ensanguentado, no pescoço de Nathaniel, e correu na direção que iam, antes de ser abordados por Aoshi. Não demorou até que encontrou os cavalos que o monge havia mencionado.

Sumiu na noite enquanto Aoshi ainda tentava se levantar sob o ataque cerrado de centenas de Lobisomens.

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