terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sombra e Malícia

Ocupando uma área bastante razoável do castelo, os aposentos do falecido Imperador de Tsukaba figuravam entre os mais impressionantes de Gaia.

Um armário contendo os trajes reais. Uma cama de tamanho normal. Com travesseiros e cobertas de pena de ganso. Uma mesa de trabalho coberta de papiros, e atrás desta, uma grande prateleira coberta de livros, com alguns dos principais autores de Gaia. E um altar de oração.

A simplicidade do lugar desarmou Anúbis, que procurava pelo assassino do Imperador, caso contrário, de provas que se tratava de um simples ataque cardíaco.

Como imaginado, as autoridades de Tsukaba negaram a entrada de Anúbis nos aposentos reais. Então ele, contando com os recursos quase ilimitados de seu país de origem, tratou de financiar uma ação terrorista do clã Onaga, a mais poderosa família rival dos Yusuhara, que haviam tomado o poder, logo após a morte do Imperador.

Já haviam algumas horas que o distrito de Kumagane ardia em chamas, graças ao impulso dado por Anúbis.

O novo Imperador, Yusuhara Moto, precisava mostrar que podia manter o império sob controle. Não havia nem dois dias que havia assumido o trono e já enfrentava o primeiro desafio. Precisava acabar com essa rebelião subitamente, como no golpe de uma espada, para que não houvessem dúvidas sobre sua capacidade de manter o império unido.

Por isso acabou transferindo, naquela tarde, a central do governo para o distrito sob ataque. Acompanharam Yusuhara, toda a sua guarda de elite, e um grande contingente de arqueiros, cavaleiros e infantaria especializada. 

Sua esposa, Sakai Midori, estava grávida, seria o primeiro filho do casal, ela já com trinta anos ouviu a recomendação de obaba, uma espécie de sábia do castelo.

- Midori-sama, se quiser manter o pequeno Imperador vivo, não deve viajar. Deve descansar, não é mais uma menina.

Os cinco melhores guerreiros de Yusuhara, permaneceram ao lado de Midori, como guarda costas pessoais. Uma guarnição de quatrocentos homens, o suficiente para defender o castelo até que as forças retornassem do distrito, em caso de um ataque surpresa, também ficaram a postos no castelo.

Midori, como de costume, saía para meditar ao final da tarde, em um belo templo erguido por Yusuhara, anos antes, no bairro onde viviam, em Kyomaru. Sabendo que os cinco soldados especiais a acompanhariam neste passeio, Anúbis se infiltrou no castelo escondido sob as vestes do atual Tengu de Tsukaba.

"Um Tengu, na mitologia oriental é um demônio das florestas, tido como brincalhão e irresponsável. Se diverte escondendo pertences das pessoas e apagando trilhas no meio das florestas.

Em Tsukaba, Tengu é o nome dado àqueles que servirão como sacrifício, no ritual das cordas. O sombrio ritual em que, segundo a crença dos orientais, amarra o Oni no inferno, não permitindo que ele adentre o mundo dos vivos.

O Tengu não pode ter qualquer vínculo com o mundo dos vivos, por isso utiliza uma espécie de chapéu que lhe cobre todo o rosto deixando espaço visual apenas para o chão e não mais de dois palmos a frente dos seus pés. 

Por isso duas pessoas sempre acompanham o ou a Tengu, onde quer que vá, para lhe guiar.

Ao Tengu, só lhe é permitido retirar o chapéu, se estiver completamente sozinho, até mesmo sem seus acompanhantes...

... o ritual é extremamente violento, e demora diversas horas até acabar, com a pessoa viva durante todo o processo, não me foi permitido assistir ao ritual sob o risco de o mesmo não ter o efeito esperado, mas os gritos que ouvi naquela noite, de uma casa muito longe do local do ritual me gelaram minha espinha.

... por esse destino horrível, o Tengu tem acesso livre a qualquer região do império, sem qualquer restrição. Desde que respeite as regras que lhe são impostas"

Sacrifício em Gaia - Oni - Bandurag Kjjarl

Anúbis já havia lido esse livro, fazia parte do seu estudo antes de uma missão, ainda mais uma missão tão complicada quanto esta.

Adentrou os aposentos do atual Tengu, um dia antes do novo Imperador deixar o castelo. Ficou impressionado com a casa luxuosa onde o jovem residia, bem asseada, devia contar com diversos servos.

Havia um suave aroma no ar, provavelmente das árvores cobertas de flores ao redor da casa. Anúbis, escondido em um aposento escuro esperou enquanto o sol descia no horizonte.

O jovem entrou no aposento sozinho, já havia deixado seus calçados na ante-sala, algo muito comum nos reinos do oriente. Caminhou até a mesa no centro, retirou o chapéu revelando não ter mais de vinte anos. Deixou o chapéu sobre a mesa. 

Era um rapaz bem apessoado, tinha traços firmes e parecia perfeitamente saudável. Anúbis pensou se o sacrifício realmente seria levado a sério ali, como podiam matar um jovem em perfeito estado de saúde, se fosse para sacrificar algo, que fosse um velho em estado terminal.

O jovem caminhava pelo aposento central com um fósforo em mãos, acendendo diversos grupos de velas.

Anúbis, da escuridão de outro comodo, via que algo não estava certo. O jovem que parecia estar em torpor. Olhos sem vida, os movimentos cuidadosos, parecia uma alma velha em um corpo jovem.

Deixou as sombras e cobriu o curto espaço que o separavam do Tengu. Ouviu o longo suspiro e então a pergunta.

- Está aqui para me matar? Perguntou a voz suave. 

Sem ouvir resposta, continuou.

- Não deixe que minha pergunta pare a sua lâmina. Disse o jovem levantando o pescoço, como que esperando o corte na garganta.

Anúbis fora desarmado pelo jovem que virava lentamente.

- Não é para isso que está aqui? Para me assassinar? Se for para isso, peço que o faça rápido e que não deixe meu corpo tombar sobre a madeira nua, os serviçais podem ouvir o barulho e vir checar se está tudo bem.

O jovem sorriu gentilmente e disse.

- Sabe, o seu rosto é o primeiro que vejo em toda minha vida. Recobrando os sentidos, Anúbis resolveu aprender um pouco mais, já que o jovem não seria ameaça alguma, ao contrário, parecia interessado em ajudá-lo, de certa forma.

- Não imaginei que o ritual fosse tão levado a sério. Imaginei que assim como na política oriental, também houvessem meios de evitar algo indesejável. Respondeu Anúbis enquanto o jovem seguia apagando as velas.

- Oh não, não. Existe sim muita corrupção em Tsukaba, mas o temor dos antigos por Dakuran é ainda maior.

- Dakuran?

- Sim, o intuito do ritual é aplacar a fúria, e negar passagem do Oni Dakuran ao nosso mundo.

- É de conhecimento popular em Gaia que o ritual é visa prender Oni, como em um único Oni.

- Oh sim, entendo o erro. O estudioso que escreveu o livro sobre sacrifícios em Gaia, centenas de anos atrás estava errado. Disse o jovem ajoelhando em uma parte central da sala, e apontando que Anúbis fizesse o mesmo. 

Anúbis sabia que não devia fazer isso, todavia, o fez.

- Pode ter sido um erro de tradução já que na época ainda eram realizados os primeiros contatos entre os povos do sul e os povos do oriente e a língua de Gaia ainda não havia sido estabelecida. Continuou o jovem.

- Faz sentido. E você? Acredita nisso tudo?

- Não. Me foi ensinado desde que nasci que eles existem, que são uma ameaça real ao nosso mundo, e que servos deles caminham entre nós até mesmo sob a luz do sol. Mas não, nunca acreditei de verdade.

- Por isso prefere que eu seja o seu executor? Aqui, hoje, e não em um ritual violento e desnecessário.

- Sim. Mas antes, preciso saber de algo.

- Pode perguntar.

- Qual é a verdadeira razão de você estar aqui? Tenho certeza de que não é apenas para impedir que o ritual seja realizado e libertar a fúria de Dakuran sobre Tsukaba.

- Está certo, vim para descobrir quem assassinou o Imperador.

- Interessante. A informação que ouvi é que fora um ataque cardíaco.

- Sim, esta é a informação divulgada em toda Gaia. Mas, meus empregadores gostariam de confirmar esta informação.

- Entendo.

Seguiu-se um silêncio desconfortável, então o jovem, após um longo suspiro, disse.

- Bem, o que havia para ser questionado, já o foi, o que havia a ser respondido, também. Então, não nos resta muito além de desempenharmos nossos papéis. Anúbis acenou positivamente com a cabeça.

Levantou, guardou a pequena adaga, e disse.

- Façamos do jeito do seu povo então. O jovem sorriu e inclinou a cabeça para frente.

- Foi um prazer ter esta conversa senhor...

- Anúbis, meu nome é Anúbis. Respondeu sacando a espada curta da bainha.

- Infelizmente não tenho um nome a lhe oferecer, fui chamado de Tengu, por toda minha vida.

- Lembrarei de você, rapaz, como Tengu mesmo.

- Obrigado. Respondeu o jovem.

Então se ouviu o barulho de algo massivo caindo e rolando sobre o tatame.

Anúbis lembrava de tudo isso enquanto caminhava pelo enorme aposento, buscando qualquer evidência que existisse sobre o falecimento do antigo Imperador, ou o paradeiro da sua família, excomungada de Tsukaba, logo após a morte do patriarca.

Sob a mesa de Yusuhara encontrou um caderno marrom com capa de couro, abriu e viu que era uma espécie de agenda-diário, ali haviam todos seus compromissos, e breves comentários após estes.

"Segundo dia de Yusuhara - Primeiro oitavo do dia - Encerrar o caso da família de Taguichi Tien."

- Tien, o antigo Imperador. Sussurrou Anúbis enquanto lia.

"Por mim teriam sido executados todos da casa Taguichi, mas Midori implorou por clemência, sei que não cabe a esposa opinar em assuntos do Império, mas não desejo lhe causar incômodos devido a gravidez. Talvez essa excomunhão seja realmente o melhor, talvez sirva para mostrar que tenho clemência, ao contrário dos Imperadores que vieram antes de mim."

- Hum, então a família foi realmente excomungada. Mas para onde? Continuou foleando as poucas páginas preenchidas do livro até que, na página relacionada ao terceiro quarto do mesmo dia, percebeu que a coloração da página era levemente diferente.

- A página relacionada ao terceiro quarto foi substituída. Fechou o caderno deixando-o na exata posição em que estava antes e lembrou que o comandante da guarda, chefe em armas do Império e amigo de infância de Yusuhara, Oda Daisuke, com certeza saberia para onde a família Taguichi teria sido levada.

Já era noite quando deixou os aposentos reais, trajando o disfarce completo de Tengu agora era acompanhado pelos dois servos, que o aguardaram o dia todo do lado de fora do quarto.

Ouviu os sinos tocando a distância, e então a movimentação de soldados, gritos e a balbúrdia que se seguiu.

- Merda, encontraram o corpo. Pensou. Sacou a espada e com dois movimentos rápidos, executou os idosos que o acompanhavam.

Entrou em um aposento e começou a se despir, revelando suas roupas negras.

Os soldados cobriram a distância da escadaria que levava ao acesso aos aposentos reais em questão de segundos, então encontraram os corpos retalhados. Eram os servos do Tengu.

- Rápido, vasculhem os quartos, separem-se em grupos de cinco homens e tomem cuidado. Vão, vão, vão.

Enquanto isso, Anúbis cerrava silenciosamente a janela de madeira por onde saíra.

Jahn cobria rapidamente o caminho do mercado até a sua casa. Caminhava pesadamente, já que, manco da perna direita ainda carregava um grande saco de estopa repleto de belos legumes e verduras. 

De estatura não muito alta, e com bastante dor nos quadris, devido ao problema na perna, o homem ainda conseguia estampar um sincero sorriso no rosto.

Conforme passava, ouvia pessoas lhe cumprimentando, parecia alguém respeitável, um bom homem, que já havia passado sua cota de trabalho na vida. Pensava, ele.

- Estes rabanetes estão ótimos, Nadayla vai adorar. Referia-se a sua esposa, que grávida pela primeira vez, pedira para que fosse ao mercado buscar legumes e vegetais.

Quando abriu a porta da casa, sentiu seu coração apertar de súbito e a sala enegrecer.

A sala coberta de vermelho vivo, tinha ao centro um corpo feminino, empalado, sem cabeça. Era Nadayla, mesmo sem o rosto, Jahn sabia, aquela mulher era a sua mulher.

O homem, caído de joelhos, sem conseguir desviar os olhos da escultura de horror a sua frente, nem percebeu o homem que surgiu as suas costas. Fechou os olhos e deixou a cabeça pender para frente.

Sentiu o forte agarrão no braço esquerdo que o tirou do transe, e então o estalo de osso quebrando. Largou um grito desesperado, então o outro braço. Desmaiou de dor.

Acordou, sentia dores fortes em ambos os braços, estava de pé, amarrado em uma viga da sala. Estava apenas a poucos metros do corpo de sua esposa, assassinada, com vista privilegiada.

Viu o homem saindo de trás do corpo sem vida, carregava uma faca na mão direita.

- Me mate. Sussurrou. O assassino parou.

- Por, favor, me mate.

O assassino sorriu enquanto se aproximava, agarrou Jahn pelos cabelos, enfiou um pedaço de pano na boca e passou um tecido nas costas da cabeça, amarrando apertado. Então, pegou com dois dedos a pálpebra direita, e a cortou fora, fez o mesmo com a outra pálpebra.

O pano impedia o homem de gritar, deixando apenas grunhidos saindo.

O assassino então passou uma corda no pescoço do homem e na sua testa, deixando preso contra a viga.

Afastou-se dois passos para o lado, e tornando a olhar para o cadáver empalado, disse.

- Perfeito. Não queremos que você deixe de olhar para a sua bela esposa nem por um momento. Ahn, quase esqueço. Disse o assassino indo na direção da cozinha.

Jahn sabia que não havia mais nada que aquele homem pudesse fazer para quebrá-lo. 

Estava enganado.

- Olha o que eu achei. Disse o assassino trazendo a cabeça de Nadayla pelos cabelos.

Levou a cabeça, perfeitamente limpa, com os olhos arregalados e a expressão de pavor, amarrou pelos cabelos junto própria mão da mulher, certificando-se muito bem de que o olhar dela fitasse o corpo de Jahn.

- Agora sim. Disse o homem analisando a posição da cabeça e o ângulo de visão de Jahn. - Está perfeita. Ainda continuou.

Chegou lentamente ao lado de Jahn e sussurrou ao seu ouvido.

- Lembra da mãe de um garoto, que você, seu comandante e um outro merdinha estupraram e mataram, anos atrás? Lembra que vocês quase mataram aquele garoto? Deviam ter matado.

As lágrimas corriam pelo rosto de Jahn, Aoshi não sabia se aquilo era arrependimento, ou a visão da sua esposa, naquele estado. Não importava, agora, faltava apenas um homem na sua lista, e os monges de Janen já o haviam localizado.

Saíra pela rede de esgotos do castelo, poucas horas atrás. Rastejando por mais de trezentos metros de fezes ele caiu no córrego que, diversos quilômetros dali, desovava no grande rio Oshio.

Caminhou pelo córrego, enquanto ouvia os gritos vindos do castelo, e o barulho de cães.

- Boa sorte tentando encontrar meu rastro, pulguentos.

Seguiu pelo córrego por cerca de meia hora, até ver uma enorme jabuticabeira. Com a agilidade de um macaco escalou a árvore de galho em galho até que, próximo ao topo, encontrou sua mochila, bem onde havia deixado.

Com a mochila em mãos, cobriu o restante da distância até o lago de Shoya, onde tratou de tomar um banho e lavar suas roupas. Dentro da mochila haviam roupas limpas, mas não podia chegar de volta a estalagem com sua mochila fedendo a estrume.

Seguiu então ao sul, até a cidade. Quando chegou, já haviam guardas imperiais caminhando pelas ruas, abordando pessoas desconhecidas, e até mesmo proprietários de estabelecimentos comerciais.

- Ei, você. Disse um deles, Anúbis sabia que era com ele, mesmo sem precisar virar. Pensou que se corresse, ali, no centro da capital de Tsukaba, não teria muitas chances de despistar a guarda imperial. Virou calmamente e respondeu.

- Sim.

- O que está fazendo em Tsukaba? Disse o jovem e afobado guarda em armadura imperial. Tinha no máximo dezesseis invernos, provavelmente era seu primeiro ano de serviço para o império.

- Pintando.

- Como?

- Com pincel.

- Não se faça de engraçado, rapaz.

Anúbis riu do termo utilizado já que ele próprio tinha idade para ser pai daquele moleque.

- Perdão, oficial. Deixe-me explicar. Sou pintor, pinto paisagens para aqueles de bom gosto e disponham do recurso para comprar meu talento.

- Assumo que tens pincéis e delas aí nessa mochila, então.

- Não, senhor oficial, meu material de trabalho está na estalagem onde estou, sinta-se a vontade para me acompanhar até lá.

- Está bem, vá na frente. Anúbis não esperava que o rapaz concordasse, foi um blefe.

- Tem certeza, oficial. Minha estalagem fica a diversos blocos daqui.

- Sim, vá na frente. Disse o jovem, com menos paciência que da primeira vez.

- Como quiser. Respondeu Anúbis com um sorriso.

Caminharam por cerca de vinte minutos até que Anúbis parou em frente a uma modesta construção de dois pisos.

- É aqui, oficial.

- Vamos entrar então, abra a porta.

- Garoto maldito. Pensou. - Está realmente determinado a ver meu material de trabalho.

Passou pela porta, cumprimentou a simpática senhora de trás do balcão e subiu as escadas, com o jovem oficial às suas costas.

Abriu a porta do seu quarto e dando o lado para que o oficial entrasse, disse.

- Fique a vontade, oficial.

O jovem guarda, desconfiou do homem pelo caminho inteiro, e agora, com aquele sorriso estampado no rosto e diversas telas com figuras dos principais pontos de Tsukaba, viu que desconfiara injustamente.

Se aproximou de uma das telas e viu que a tinta era nova, aplicada no dia anterior, quando muito.

- Também trabalho com retratos, oficial. Se tiveres interesse, me faça uma visita amanhã e posso pintá-lo, sem cobrar nada. Tens uma fisionomia muito boa, tenho certeza que dará um ótimo modelo. O jovem oficial, lisonjeado, respondeu.

- Será difícil, estamos na busca por esse criminoso que invadiu o palácio.

- Invadiram o palácio? Mas como? Quantos homens cuidam da fortaleza? Questionava Anúbis, fingindo estar impressionado com a audácia do que ele mesmo fez, horas atrás.

- Algumas centenas de homens, o que torna este criminoso ainda mais perigoso, sugiro que nos próximos dias, o senhor evite pintar pelas regiões mais remotas da capital.

- Certamente, oficial. Disse Anúbis, cumprimentando o jovem guarda que deixava o aposento. - Tenha uma boa noite, oficial. Ainda disse.

Sygil, sentado no trono, olhava pela janela, por entre as colunas de fumaça negra, via o mar, quebrando na costa de Phobos. Enquanto Syeth conversava com dois servos. 

- Não, não, isso está errado. Dizia Syeth. - Precisamos de construções mais modernas, precisamos de um mestre de obras de Canópus, primo. Disse ele virando para Sygil.

Sygil andava com os nervos a flor da pele desde que, apenas três dias antes, ordenara a drástica medida para a região litorânea da capital de Phobos. Em uma chuva de fogo, iniciada por dezenas de catapultas, centenas de pessoas foram dizimadas em apenas algumas horas, pessoas do seu povo. A menina que ele amava.

Tudo isso era um sacrifício necessário, não havia uma maneira de identificar os infectados, ou mesmo como a epidemia se alastrava. O método de resolução do problema fora sugerido por Obudaga, e o único com garantia de sucesso.

A voz de Syeth particularmente, o tirava do sério quase a ponto de mandar executá-lo.

- Idiota. Pensou ele.

Como os conselhos dados por seu primo eram usualmente estúpidos, e desprovidos de qualquer consciência, Sygil passou a simplesmente ignorá-lo, tratando-o como um bobo da corte.

Mas desde o ataque a costa, sua paciência havia simplesmente desaparecido, então, para dar alguma ocupação a Syeth, na esperança de que o deixasse em paz, Sygil o encarregou da reconstrução da área do cais e do mercado. Dessa forma não seria "obrigado" a executá-lo por estupidez.

Um grande erro.

Nos últimos dias além de gastar dinheiro dos tributos pagos pela população em trivialidades, Syeth ainda o importunara mais que o normal, pedindo opiniões em assuntos de relevância duvidosa, como a cor das casas de determinado bairro, ou a construção de uma fonte de mármore.

- Ouviu, primo? Precisaremos de um mestre de obras de Canópus.

Suspirou profundamente.

- Canópus é a tua bunda, guardas, para a guilhotina com este boçal. Pensou, sem dizer.

Fora desejo de seu pai, o grande Imperador de Phobos, que Syeth, filho mimado de Narada, sua irmã, atuasse como conselheiro de Sygil, durante seu reinado.

- É sempre bom ter alguém da família ao seu lado.

Ele dizia isso por que não conhecia o idiota que a sua irmã havia criado, pensou Sygil.

Então seus pensamentos foram interrompidos pela voz do servo.

- Meu Rei, se aproxima o lorde Ayros, Comandante da Guarda real. Sygil sequer virou na direção do homem.

Com passos pesados, Ayros cruzava a sala do trono. Podia sentir a melancolia no ar, quase palpável. Quando já estava bastante próximo, usou de todas as suas forças para dar um sorriso e dizer.

- Bom dia, meu Rei.

Sygil, cuja mão cobria parte do rosto, virou e disse.

- Bom dia, Ayros. 

- Trago notícias da costa.

- Algum sobrevivente? Ayros viu o breve brilho no olho do jovem, o que tornou ainda mais difícil dar a resposta.

- Felizmente, não, Alteza. Encontramos apenas corpos carbonizados.

- Felizmente?

- Sim, felizmente. Prefiro encontrar centenas de corpos nossos que arriscar um novo levante desses inimigos.

- Claramente não perdeu ninguém nesse "levante, como bem disse.

- Vossa Alteza não ouse pensar que foi o único que perdeu alguém importante durante a nossa ação de purificação da costa.

Sygil ficou surpreso com o tom de Ayros. Nunca, ninguém havia falado com ele daquela forma, a não ser seu pai, o Imperador. Ficou ainda mais surpreso quando, mesmo ao perceber da forma que se dirigiu ao seu monarca, Ayros não pediu desculpas. Sequer fez menção.

- Peço desculpas Ayros, às vezes esqueço que haviam pais, mães, irmãos e irmãs, tios e tias naquela região.

- Esposas e filhos, Alteza. Também haviam esposas e filhos. Sygil sentiu onde a ferida foi aberta, sentiu a necessidade de se desculpar novamente, mas viu a janela fechar a sua frente, quando Ayros continuou. 

De qualquer forma, não se preocupe, entendo que ainda lhe falta fios de barba para entender certas coisas em toda sua magnitude.

Aquilo desceu seco pelos ouvidos do Rei, mas ele sabia que Ayros estava certo. Ainda lhe faltava tato, paciência, e tantas outras virtudes que só o tempo lhe daria.

- E então, alguma novidade no que causou essa epidemia?

- Talvez, encontramos, nos porões de algumas construções que não foram completamente destruídas, cargas e mais cargas de pescado, coberto por uma espécie de semente.

- Sal, para conservar o peixe?

- Não, sementes que lembram as de tabaco. Nossos alquimistas já estão efetuando testes em algumas amostras que trouxemos, o restante, empilhamos e queimamos. O mais estranho foi que, quando ateamos fogo na pilha, as pequenas sementes começaram a eclodir e soltar uma fumaça esverdeada.

- Será que pode ser o peixe, o causador dessa epidemia?

- Ainda precisamos de provas, mas acredito que sim, Alteza.

- Então devemos fazer um pronunciamento, para que a população deixe de consumir o pescado. Vou providenciar isso agora, ordene que os soldados convoquem a população para a praça da Lua Cheia, farei o pronunciamento lá. E depois me traga Obudaga, vamos ver o que ele sabe sobre essas "sementes".

- Perfeitamente, Alteza. Com a sua licença. Disse Ayros dando as costas. Enquanto saía, ouviu a voz de Syeth.

- Sygil, ainda estou esperando a sua resposta. Posso ordenar a busca por um mestre de obras de Canópus?

- Cale-se Syeth. Vais contratar um dos nossos mestres de obras. Ayros riu, e sem parar de caminhar, continuou ouvindo. - Você vai onerar o mínimo o possível dos cofres públicos, nosso povo não paga os tributos para você gastar levianamente. E tem mais, a partir de agora vai me chamar de Rei, ou Alteza, como qualquer outra pessoa do Reino. Estou de saco cheio das suas futilidades e conselhos inúteis...

Ayros, rindo abertamente, cruzou a porta de entrada da sala do trono, não ouvindo mais nada do que era dito. Um dos guardas imperiais veio a lhe contar depois que o desabafo do Rei ainda durou mais alguns minutos.

Lembrando que poucas horas antes fora tratado como um animal, sendo levado para o banho por um serviçal qualquer, Ulf ria, agora se portanto como um animal sem qualquer receio. Estava agarrado com ambas as mãos em um espeto de madeira que atravessava o peixe assado na grelha. 

Recheado de pimentões, cebolas e alho, constantemente encharcado de suco de manga, era exatamente como Ulf lembrava. Uma orgia gastronômica.

A última vez que havia comido aquele peixe, tinha a pele queimada do sol, a barba raspada e o cabelo curto. Andava de bermuda e chinelos, e não tinha qualquer problema com o que se preocupar.

Naquela noite, também a beira da fogueira, ele ria e brincava com seus companheiros da aldeia, e namorava a bela líder daquele povo. Helga estava em segurança, era uma linda garota prometida a um anão de alta estirpe. Tudo estava bem.

Todos viram quando o navio atracou em Unbata, um navio já bastante castigado. A tripulação descia lentamente, não demorou até que um deles viesse até a fogueira.

- Sente-se amigo, pegue um peixe. Ofertou Ulf ao homem.

O homem sentou e disse.

- Mestre Anão, acredito que já saiba o que está para acontecer nas suas terras. Ulf ficou sério, assim como Morgana, sentada ao seu lado.

- Do que está falando homem? Minha terra é aqui. Replicou Ulf.

- Bom, então a marcha do inferno do oeste em direção ao leste não vai lhe causar qualquer transtorno. Ulf lembrava exatamente da cara que fez ao ouvir essa frase. - Por que Drunkirsh vai queimar.

Aquele homem navegava com um pequeno barco mercantil pelas águas doces de rio Orlethas, que atravessava a maior parte de Gaia, e por pouco não fora destruído pelas forças infernais.

Em seu caminho até a parte litorânea de Drunkirsh, usou de toda sua coragem para atracar em cada porto do caminho avisando a população da tempestade de fogo que se aproximava no horizonte. 

Ninguém acreditara nele, nenhuma pessoa. E agora o que restaria de Drunkirsh?

Ulf sabia o que havia restado.

Jogou o resto do peixe na fogueira, levantou e pediu.

- Por favor, me leve até Morgana.

Por alguns minutos ambos caminharam, passaram pela rampa do pier, caminharam por mais algum tempo até o navio atracado mais longe da costa.

"Em Unbata, o ordem de atracagem dos navios é por importância, a nau mais próxima da costa é a última a chegar, da mesma forma, a nau mais longe da costa, é a do regente do reino.

Normalmente circundada de embarcações militares, a embarcação do regente fica mais adentro do mar o possível, para que em caso de um ataque do reino, ou qualquer outro problema em terra, ela seja a primeira a se afastar no horizonte.

Muitos são os segredos conhecidos por um regente de Unbata, que antes de ser uma enorme cidade viva, era uma enorme frota pirata, sob o comandar de Mandorthal, o Vermelho. Pirata sagaz e impiedoso que espalhou a fortuna de saques por diversas ilhas desertas de Gaia.

O segredo de Mandorthal é repassado apenas aos regentes de Unbata, e os tesouros escondidos, só devem se utilizados em caso de necessidade extrema dos seus tripulantes, sob o custo do retorno de Mandorthal das profundezas para amaldiçoar aquele que o roubou.

Naturalmente que isso é apenas uma lenda, e se algum dia já houve algum tesouro, ele já foi saqueado por algum dos regentes de Unbata."

Piratas, Saqueadores e Outras Facções Criminosas de Gaia - Livro Aberto - Diversos Autores

Chegaram então, a rampa de acesso a nau capitã. O barco de Morgana.

- Entre. Disse a voz por de trás da porta.

O homem que acompanhava Ulf pareceu hesitar, e então passou pela porta.

- Senhora. Disse ele. - Lhe trouxe o senhor Ulf. Ao ouvir o nome de Ulf, a pele de Morgana arrepiou.

- Mande ele entrar, deixe-nos a sós. O homem deu as costas e saiu, logo em seguida, cruzou à porta o Anão.

- Olá. Disse Morgana sem sequer levantar a cabeça. Estava sentada de trás de uma mesa, imersa em um grande livro.

- Me dê um minuto, sente aí. Disse ela apontando para uma cadeira.

Cerca de vinte minutos depois de anotações e leitura naquele livro, Morgana o fechou, abriu uma gaveta e o jogou dentro. Olhou nos olhos de Ulf e perguntou.

- O que o traz a Unbata?

- Fome, sede e desesperança.

A voz era rouca, o rosto magro, o cabelo e a barba desgrenhados. Aquele não era o Anão por quem Morgana se apaixonara, anos antes.

- Desesperança? Perguntou ela, tentando esconder a preocupação com o estado atual de Ulf.

- Na certa, nestes últimos dois anos, já ordenou que algum dos seus homens fosse ao topo do rochedo, depois da floresta, para ver o estado de Drunkirsh. Sabe do que estou falando.

- Sobre as cinzas então? É sobre isso que está falando?

- Sim.

- Sim, sei do que está falando. Quando vi as enormes torres de fumaça negra que se levantavam naquela direção, imaginei que havia falhado na sua missão.

Ulf sentiu o peso da cabeça sobre os ombros e então se viu obrigado a olhar para o chão, em vergonha, e arrependimento. Ainda acreditava que podia ter feito mais, se culparia por cada morte na superfície de Drunkirsh pelo resto da sua vida.

- De fato, meu aviso foi recebido em tom de chacota e passei os últimos dois anos em uma cela, no fundo de Drunkirsh. Vi minha irmã Helga apenas duas vezes, quando cheguei a capital e quando fui excomungado, alguns dias atrás.

- Entendo, e o meu povo? Os humanos da superfície. O que aconteceu com eles?

Ulf engoliu a seco a pergunta.

- Não sei lhe dizer. Devem ter queimado, uma vez que lhes foi negada a entrada na capital até o momento do ataque na superfície.

- E o que você fez para ajudá-los?

- Além de avisar o que estava para acontecer? Tentei intervir junto ao conselho regente do reino para lhes permitir a entrada, acabei preso nas Cavernas Prisionais, fazendo duas refeições por semana, com água que escorria pela rocha nua. Não foi minha melhor estadia.

- Hum. Vou te confessar Ulf, quando entrou aqui, estava pronta a atirar essa faca. Disse Morgana largando a faca de arremesso sobre a mesa. - No meio da sua cara gorda.

- Não lhe culparia.

- Mas, você realmente parece apenas um fiapo do homem que era. Sem falar que pelo que me disseram, conseguiram apenas tirar metade da sujeira acumulada em sua barba.

- Sim, há de convir que dois anos em uma caverna e então, semanas debaixo de uma constante chuva de cinzas, deixam qualquer um abaixo do seu melhor, não é?

- Então, não posso matar um homem que sequer está limpo, sem falar que, de qualquer forma, você fez o que pode, entendo isso. Venha comigo. Disse Morgana levantando.

Deu a volta na mesa, atravessou a porta e seguiu pelo convés, Ulf vinha logo atrás.

- Há um ano atrás, o mar recuou diversos metros adentro. Imagino que não sabia disso, já que ficou debaixo da terra por todo o período.

- Não, não havia ouvido falar. O que aconteceu?

- Na época, atracou em Unbata um galeão. Embarcação essa cuja tripulação tinha conhecimento sobre um incidente envolvendo uma espécie de divindade marinha de tamanho descomunal que fora obliterada pelos deuses. Ulf surpreso perguntou.

- Divindade descomunal? Não lembro de nenhuma divindade do tipo.

Da mesma forma que nós ouvimos isso, eles também alegaram ter ouvido de outra embarcação. Então ninguém sabe a verdade. Enfim, como deve imaginar, Unbata ficou em caos. Três embarcações mais próximas a terra ficaram presas à costa e as demais só conseguiram se afastar por habilidade de seus capitães e tripulações.

Conforme caminhavam, Ulf começou a ouvir música alta e sons de vozes empolgadas vindas da praia.

- Resolvi comprar as três embarcações e dar um presente a Unbata. Disse Morgana parando a frente de três galeões, que unidos por diversas cordas e madeiras, formavam uma enorme estrutura.

- É daí que vem o som. Pensou Ulf.

- Venha. Disse Morgana subindo a rampa de acesso.

Quando embarcaram no navio principal, que ficava ao centro, puderam ver a enorme quantidade de carnes assadas. Peixes, javalis e diversas outras espécies da mata. Vinho, uísque, rum e qualquer outra bebida alcoólica que existisse em Gaia, devia estar naquelas mesas.

Havia um grande palco junto próximo a popa da embarcação, sobre este tocavam, um violinista, um contrabaixista, dois flautistas, um homem em um bumbo, um bardo com sua viola e um bêbado que dançava alegremente às canções anãs, humanas e piratas.

Ulf sorriu à visão de tudo aquilo, esperava uma guilhotina, aparentemente entraria em uma festa. Morgana apenas fitava o anão, cujo olhar começava a voltar a brilhar.

Morgana, apenas ao ver seu antigo affair, soube que ele havia passado o inferno nos últimos dois anos. A regente de Unbata era conhecida por ser bruta, violenta, mas também por ser justa.

- Aproveite a festa, Ulf. Os deuses sabem que você precisa.

- Não vai ficar? Perguntou Ulf, perdendo o sorriso que estampava o rosto.

- Não. Tenho muito ainda o que fazer, e além do mais, isso não é um perdão. É apenas uma cortesia pelo ótimo tempo que passamos juntos, e por tudo o que fez para tentar salvar meu povo. Ulf, cabisbaixo respondeu.

- Espero que possa me perdoar um dia.

- Espero que você possa se perdoar um dia. Enfim, almoce comigo amanhã, tenho uma proposta de trabalho para você. Mas por hoje, aproveite a festa. Disse Morgana dando as costas e saindo.

Ulf, sem conhecer ninguém, suspirou e esticando o pescoço, procurou pelo bar.

- Está procurando o bar, não é? Disse a voz de trás de Ulf. - Venha comigo. Era Torres, o homem que o encontrou na saída da floresta.

Caminharam por entre as longas mesas fartas de comida, bebida e gargalhos, saíram da área coberta e atravessaram, através de uma tábua, não muito firme, para o barco mais distante da entrada do pier.

- Aqui são servidas as bebidas mais caras, e também é um ambiente mais tranquilo. Especial para aqueles que não procuram a felicidade. Ulf sorriu ao comentário de Torres.

- Bonito dizer, Torres. Vejo que tem lido nos últimos anos.

- Tenho passado tempo em boa companhia. Fiquei sabendo do seu tempo nas Cavernas Prisionais do seu reino. Já passei tempo em prisão, mas pelo que ouvi falar, as Cavernas não são exatamente uma prisão.

Chegaram ao balcão onde alguns rapazes e moças serviam bebidas.

- Duas doses de rum, com um limão, batido. Pediu Torres.

- Um suco de laranja. Pediu Ulf. Ao ouvir isso, Torres virou e perguntou.

- Você está bem?

- Para ser sincero, não. Fazem dois anos que não bebo nada além de água, para ser bem franco, não sinto mais falta. E não estou no clima de encher a cara.

- O que te aflige? Já está livre. Ao contrário do que pensava, Morgana não quer a sua cabeça numa bandeja, quer você trabalhando para ela. De onde vejo, até que você está muito bem.

- É?

- Sim, ah, e tem mais um detalhe, ela pediu para que eu pagasse a sua conta hoje e ainda te levasse para um pequeno pesqueiro, onde vai morar, se aceitar a proposta dela, de amanhã.

- Falando nisso, no que ela pretende me enfiar?

- Não posso dizer, Ulf. Mas acho que não é tão horrível quanto imagina. Agora peça um drinque decente.

Ulf sorriu, olhou para a estante coberta de bebidas detrás da bela atendente que preparava o drinque de Torres e pediu.

- Uma dose de rum.

- Assim que se faz, meu garoto. Disse Torres estendendo o braço e pegando o seu drinque. - Ulf, tenho que resolver umas coisas agora, o seu barco é o 14C, aqui estão as chaves. Deixou um molho de chaves sob o balcão. Ulf pegou o copo com a dose de rum e brindando com Torres disse.

- Amanhã continuamos nossa conversa sobre a sua estadia no estabelecimento mais aconchegante do reino Anão, até amanhã então.

Enquanto Torres se afastava, Ulf chamou a atendente.

- Por favor, coloque essa dose de volta na garrafa e me consiga um suco de laranja.

A atendente sem entender, pegou o copo de volta e fez como pedido.

Enquanto caminhava tranquilamente pelo enorme pier de Unbata, Ulf olhava as estrelas e aproveitava a brisa marinha. Sentira falta daquilo, mais que podia imaginar, sentira mais falta ainda de Morgana, quando a viu, horas antes, quase não se conteve, estava a ponto de pular sobre ela, cobrí-la de beijos e implorar por perdão.

Foi bom que não o fez, aparentemente ela também estava a ponto de pular sobre ele, e não com o mesmo intuito.

Mas ela não o odiava. Não, aquilo era rancor, e ele podia apagar aquele rancor, podia dar a volta por cima, podia ter Morgana novamente.

Foi interrompido em seus devaneios pela placa na beira do cais com a inscrição 14C, então, passando por um enorme galeão, se deparou com a imponente embarcação.

Ulf não era um entendedor de embarcações, então não fazia ideia de que barco era aquele. Tinha corpo esguio, dois mastros e espaço para remos, parecia veloz. Subiu pela rampa e lembrou do desconforto que sentia em alto mar.

- Acho que sobrevivo a uma noite. Disse enquanto caminhava em direção as acomodações.

Depois de alguns minutos, estava na cabine principal da embarcação, haviam lençóis limpos sob a cama macia, equipamento de barbearia e até mesmo uma banheira.

Ulf caminhou até um armário de portas duplas e viu diversas peças de roupa do seu tamanho. Aquelas roupas eram suas, de quando deixara Unbata, anos atrás.

- Ela, ainda tinha minhas roupas. Sussurrou o Anão sorrindo.

Depois de fazer a barba e cortar o próprio cabelo, Ulf foi até a banheira e aproveitou um relaxante.

- Amanhã, limpo, bem arrumado e mostrando disposição para reatar, terei minha chance. Como um crocodilo, baixou sob a superfície da água deixando apenas os olhos de fora, então pensou.

- Sim, ainda tenho chances, boas chances. Então mergulhou.

O sol dava seus primeiros sinais de um belo dia em Gaia, quando Ulf desceu a rampa da embarcação onde passara a noite. Não dormira quase nada, mesmo com o barco ancorado no pier, passou toda a noite sonhando com tubarões, krakens, tempestades, e todo tipo de perigo marinho.

Lembrou que não gostava do mar.

- Na verdade não é o mar. Sentiu a necessidade de se explicar, mesmo estando sozinho. - Não gosto de estar no mar, adoro mariscos e pescados. Também sou apaixonado por essa brisa. Levantou o nariz, e com os olhos fechados deu um longo suspiro. - Tão melhor que o ar carregado de Drunkirsh.

Não entendia como seus compatriotas podiam defender com unhas e dentes a vida sob o solo. Ar sujo, uma vida em crepúsculo, insetos peçonhentos por todos os lados e sem falar no eterno fedor de suor.

Lembrou de Helga, a única coisa que ainda amava em Drunkirsh. Pensou em como faria para tê-la de volta, tirá-la de Drunkirsh. Não seria fácil.

Já podia ver a embarcação de Morgana, ao final do pier.

Morgana, ela era a chave para tudo isso, daria forças a Ulf. Quando estava perto de Morgana, Ulf se sentia imbatível. Ela ainda poderia proporcionar uma pequena força de três ou quatro homens para invadir Drunkirsh e resgatar Helga sem que o Conselho sequer soubesse.

Enquanto subia a rampa de acesso à nau capitã, embarcação de Morgana, não conseguiu focar em mais nada. Estava novamente ao alcance de uma mão da sua amada. Na noite passada decidiu que passaria tanto tempo quanto fosse possível ao lado dela. A lembraria de como eram ótimos juntos e, se pudesse, não sairia mais do seu lado.

Decisão que tornou ainda mais difícil a visão de Torres saindo da cabine de Morgana, lhe dando um beijo de despedida.

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