quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sombra e Malícia

O segundo livro.

Se você tem interesse em conhecer a história que será contada a seguir, leia na ordem seguinte...

4 Vidas em Gaia
Vidas em Gaia
Poder em Gaia
Ponto Sem Retorno
Memória

Sinta-se a vontade para deixar seu comentário e sugestão abaixo.



Sombra e Malícia...



Algumas estações já haviam se passado em Gaia desde que os quatro guerreiros de Janen e Fergusson salvaram o mundo, e Aoshi traiu a todos. Desde então, ninguém tinha notícias do traidor, mas todos se preocupavam com ele, ao menos todos os principais jogadores de Gaia.

A taverna estava vazia, apenas duas pessoas completamente surdas levavam os pratos até a grande mesa onde seis pessoas almoçavam, tranquilamente. Havia ainda um outro homem, de pé, em frente a porta de entrada, e saída, do estabelecimento.

De feições duras e rosto marcado pelo tempo, o homem cujos cabelos negros tocavam os ombros fitava firmemente a porta do local, como que esperando alguém tentar passar por ela.

- O povo do noroeste tem passado por maus bocados nas últimas estações, principalmente as regiões de Janen, Fergusson e MacDollan. Disse um dos homens, sentado à mesa.

- Sim, sim, tenho recebido relatórios frequentes da região.

Uma das criadas deixou a bandeja recheada de pedaços de cordeiro assado, sobre a mesa e saiu.

- Não julga importante apoiarmos algum dos poderes envolvidos? Já há muito tempo que não contamos com um posto avançado na região.

- Até então dois reinos, parecem ter se sobressaído nas adversidades que encontraram. As coisas parecem estar calmas desde o estranho incidente na praia de Ashram, ao extremo sul, e em Shamrock. 

- Os pensadores já obtiveram algo dos destroços?

- Não, ainda não. E dificilmente obterão algo. Tanto que, o líder deles já decidiu por enterrar os fragmentos encontrados em uma câmara segura, resfriada, para que no futuro, com mais condições, possam revisitá-los.

- Entendo. Anya, você que apenas tem ouvido a tudo, quieta. Sugere que entremos em contato com algum dos reinos, em específico?

- Agora? Não, seria inútil. O povo do norte reconhece a força, a honra. Se tivéssemos apoiado algum reino, durante suas dificuldades, talvez tivéssemos portas abertas para negociações, agora. Mas...

Do outro lado da mesa, um homem de pesadas feições nórdicas jogou os talheres na mesa, e com bochechas rubras bradou.

- E arriscarmos nossas forças em combate aberto com exércitos infernais, ou seres de poder imensurável? Realmente julga que esta seria a melhor opção, arriscarmos nossas forças por um, posto avançado? 

Anya sequer levantou os olhos do prato enquanto o homem falava.

- E então?

Anya suspirou, deixou os talheres ao lado do prato e respondeu calmamente.

- Uma aliança com um dos reinos militares de maior expressão em Gaia? Sim. Valeria cada saco preto.

- Acalmem os ânimos. O que já passou, não nos interessa mais. Desta vez o sino tocou, desta vez sabemos que nuvens pesadas se formam no horizonte. O que sugerem que façamos com essa nova ameaça que aponta no horizonte?

- Após a aniquilação de Janen, a ameaça desapareceu. E a única testemunha que temos jaz em um saco de estopa, sendo carregada de volta a Fergus. Não vejo como podemos nos preparar para uma ameaça que não conhecemos, e a qual não entendemos.

- Sugere que aguardemos o primeiro movimento das nuvens então, Arthur?

- Que outra escolha temos além de aguardar com os guarda chuvas abertos?

A diversas semanas de viagem dali, um Anão saía pelo acesso secreto de Drunkirsh, o reino dos Anões.

A visão do que restara na superfície de Drunkirsh abalou o Anão. 

Diversas estações antes, ele entrara em conflito direto com o conselho que rege o reino dos Anões. Lutava para que o poderoso reino enviasse emissários à MacDollan, Janen, Fergusson e mesmo aos reinos inimigos históricos como Batang, Mirach e Rothengar. Tudo isso com o intuito de evitar o que ele via agora, o nascimento de um deserto de cinzas e enxofre.

Rapidamente rasgou um pedaço da manga de sua camisa e improvisou uma máscara.

Por isso, passara os últimos anos em estadia nas Cavernas Prisionais de Drunkirsh, lendárias pelo "conforto" proporcionado aos seus internos. Hoje, pela primeira vez em tanto tempo, via o que tentara evitar com tanto fulgor a ponto de ir preso, anos antes.

- Maldição. Limitou-se a dizer por baixo da máscara.

Já caminhava por entre o mar de cinzas por diversas horas, sem conseguir ver o sol, não sabia que horas eram. A aparente neve que caía não passava de cinzas. Imaginava que haveriam ecos da passada das forças infernais pelo teto de Drunkirsh, mas não esperava algo tão horrível.

Por quanto tempo cairia aquela "neve", inutilizando os campos onde dezenas de milhares de Humanos viviam antes, com um verdadeiro celeiro voltado ao abastecimento das cozinhas de Drunkirsh?

Como o conselho podia não ver o aumento no valor dos alimentos do seu próprio povo? Como podiam dar as costas aos Humanos que os apoiaram durante tantas eras? Fornecendo comida, informando de ameaças no horizonte.

O que receberia por ter lutado pelo seu reino. Fora preso e agora, como pária, expulso, como sobreviveria em um deserto de cinzas.

Lembrou da Erakt. A catedral do conselho, onde repassavam suas decisões ao reino. Em forma de uma enorme arena com diversos milhares de assentos para as classes mais abastadas do reino subterrâneo e camarotes esculpidos na rocha com riqueza de detalhes inigualável para convidados de honra, caso houvessem.

- Já que ama tanto a superfície, Ulf, ao ponto de desafiar o conselho em sua decisão pelo seu povo. O conselho aqui reunido decidiu que será expulso do reino. Nunca mais entrará em Drunkirsh enquanto viver.

- Pária. Pensou Ulf. - Malditos.

A costa de Phobos, era uma das mais complicadas de se velejar de Gaia. A enorme quantidade de recifes de corais, bancos de areia e o mar turbulento não eram mar para traíras e peixes palhaços, como diziam os nativos.

Apenas os velhos tubarões navegavam ali. Não atoa era este era o principal símbolo no brasão do reino. Uma bocarra de turbarão, repleta de dentes.

Phobos nunca havia sofrido uma invasão por mar. Na única vez em que um reino tentou isso, os piratas de Taoken viram dezenas de seus barcos afundarem antes de sequer chegarem a costa.

Sem conhecimento daqueles mares, não conseguiam manobrar para recuar o que acabou resultando no maior massacre naval da história de Gaia.

Por isso, sempre que olhavam para o mar, os cidadãos de Phobos, ou Phordes, sentiam a segurança de que, só podia ser um dos seus.

E o enorme galeão de velas esverdeadas que cortava o mar com facilidade era conduzido, certamente, por um tubarão muito antigo, já que seguia um caminho próprio, diferente do normalmente adotado para os atracam no cais de Phobos, a capital que mantém o mesmo nome do reino.

Cruzava ferozmente as ilhas que já haviam afundando tantas outras naus por pura imprudência de seus capitães. As pessoas que passavam pelo cais, já paravam para observar a habilidade do capitão. Todos queriam ver quem era o homem que criara um caminho próprio pela enseada da morte, que já guardava milhares de corpos do passado.

Algo não estava certo.

A embarcação parecia não reduzir a velocidade, conforme se aproximava do porto. Teria o capitão sofrido um mal súbito, ou algo do tipo? Nenhum dos pescadores que estava no pier esperou para ver, todos corriam para a área mais alta do cais, que seguia em um aclive.

Dado o conhecimento geral da população, nenhum deles pareceu se surpreender quando o enorme galeão se despedaçou contra a muralha que protegia a cidade da eventual fúria do mar.

Como animais selvagens que se aproximam pela primeira vez da civilização, os pesqueiros foram os primeiros a se aproximar dos destroços, alguns, mais gananciosos, logo saltaram na água para tentar encontrar algo valioso entre os destroços.

Conforme o tempo passava, as pessoas se preocupavam, mais e mais com os primeiros mergulhadores, que contando apenas com o fôlego próprio, não voltavam a superfície.

Que diabos teria acontecido ali?

O comandante da guarda real fora alertado quando este navio passou pela entrada da enseada. O brasão na vela principal, um rinoceronte, um leão e uma águia, não era nenhum brasão conhecido.

Cruzava a cavalo as largas ruas de acesso ao cais com mais dez homens da guarda real, outros foram alertados, de pontos mais próximos ao distrito comercial, aqueles dez homens eram apenas uma precaução.

Quando chegaram ao topo da colina que levava ao cais, viram algo que não esperavam.

Tudo dentro do normal. Os gritos de homens que descarregavam especiarias de uma embarcação, o pescado que descia por uma placa de metal até os carros de boi que levavam tudo ao mercado central, poucos minutos dali.

- Mas, que diabos?

Então um miliciano se aproximou.

- Comandante.

- Soldado, onde está a embarcação que atravessou a enseada minutos atrás?

- No fundo do mar, comandante. Bateu contra o muro de contenção do mar, e afundou. Mas estamos tirando os restos do fundo do mar neste exato momento.

- E a tripulação?

- Não havia ninguém.

O comandante apenas suspirava. Havia algo de muito errado ali. Embarcações contando com  experientes capitães afundavam todos os anos devido a periculosidade daquela costa, e um barco sem tripulação consegue passar apenas para se destruir contra a costa?

Ulf, já há muito tempo caminhando, não contava mais com as rações que lhes foram dadas por sua irmã, durante sua despedida. Se fosse pega lhe entregando isso, certamente teria  o mesmo destino dele.

Não que Helga fosse contrária a isso. Até havia se oferecido para ir a superfície com o irmão, ela dizia que o tempo dos Anões sob a terra já havia acabado, que o mundo deles mudaria.

Helga, mais tranquila que o irmão, sabia que não devia levar isto ao conselho, sob a possibilidade de ser taxada como bruxa. Mas Helga não era bruxa, era algo muito mais poderoso.

A lenda dizia que uma vez por era, nasce um oráculo em um reino de Gaia. Os dois últimos oráculos haviam previsto o fim dos dragões, e o primeiro levante da horda, sob a bandeira de Ultor-Rez, o cavaleiro negro.

Pelo código de regência de Drunkirsh, o conselho do clero, formado pelos principais líderes da seita de Drun, o fundador do de Drunkirsh, deveriam deixar o controle do reino tão logo os primeiros sinais do retorno do oráculo ao submundo aparecessem.

Mas podres, como são os homens do clero em diversos pontos de Gaia, nenhum dos membros do conselho fez menção de entregar seu acento no conselho. Ao primeiro sinal da profecia se realizar, a maioria das Anãs em gestação começou a desaparecer.

A profecia dizia que o oráculo, pela primeira vez na história de Gaia, seria uma fêmea. E essa  nasceria do sangue de inocentes.

A milícia do reino até iniciou o processo de investigação, mas estranhamente, não encontrou nenhum corpo, nenhuma prova, nenhuma testemunha. Tudo muito estranho.

Helga só escapou pelo sacrifício de sua mãe, que decidiu fugir antes que os guardas a encontrassem para dar a luz em um ponto mais afastado do reino, mesmo sabendo dos perigos que habitam o que há abaixo de Drunkirsh.

Ulf negou, pediu que a irmã ficasse em Drunkirsh. Prometeu voltar por ela, e então limpar o trono ocupado pelo conselho, para que a justiça voltasse a imperar pelos salões do reino do irídio.

Ulf lembrou de cada momento que passara com a sua irmã nos últimos vinte anos, praticamente a infância de um Anão, enquanto comia a última ração entregue por ela.

- Malditos. Nunca mais pisarei em Drunkirsh então? Aguardem.

A sala onde estavam era particularmente estranha aos olhos de Belerofon, nunca estivera na sala de investigações de Balash. Aquele lugar, mantido como um templo, só era adentrado pelo Rei Balash, Imoneph e Urlach, antes de ser assassinado.

A mesa fria de metal onde jazia o corpo de Nathan brilhava tal qual os frascos de vidro nas paredes de pedra escura. Diversas tochas e apenas uma janela coberta por um largo pedaço de vidro, no topo do aposento o mantinham iluminado. Mas sem qualquer ventilação.

O conjunto de odores desconhecidos nauseava Belerofon, percebendo isso, Balash questionou.

- Quer esperar lá fora, Belerofon?

- Imagine, já enfrentei situações muito piores. Balash respondeu com um sorriso, então pediu.

- Me ajude a virar o corpo dele, a lesão foi na parte de trás do pescoço. Belerofon ajudou e ambos viraram o corpo do amigo.

A "lesão" como fora chamada por Balash, consistia em uma marca muito escura na metade da altura entre o meio dos ombros e a união da espinha com o crânio. Balash, com uma pequena lâmina afiada o suficiente para cortar a pele de um Deus, se necessário, iniciou o corte na pele.

- Belerofon, tem um balde onde você pode vomitar, ali. Disse sem desviar a atenção do corte que abria. Logo ouviu o barulho e sentiu o cheiro de vomito com um sorriso no rosto.

Sem pele ou músculos sobre a estrutura óssea, Balash constatou.

- Como imaginávamos, um golpe para desacordar. Um segundo, para eliminar. Belerofon, que tentava tirar a cabeça de dentro do balde, questionou.

- Mas como alguém teve a chance de atacar Nathan pelas costas. O garoto era rápido, muito mais rápido que nós.

- Confiança.

- Hum?

- Os rastreadores encontraram ao lado do corpo de Nathan, traços da presença de mais uma pessoa. Conhece alguém em Janen que tivesse uma janela de oportunidade como essa para com Nathan?

Ambos suspeitavam que Aoshi tivesse envolvido no assassinato de Nathan, mas ainda não haviam provas, então podiam se dar ao luxo de não acusar o amigo, de traição. Até agora.

- Aquele maldito. Urrou Belerofon levantando de súbito.

- Acalme-se Belerofon. De nada adianta surtarmos agora. Temos que descobrir o paradeiro de Aoshi, algo que não será fácil, se ele não quiser ser encontrado. Agora me ajude a virar ele novamente.

Belerofon, ao ajudar a virar o corpo sem vida do maior amigo que tivera, lembrou de quando ouviu de Heinz, ao cruzar os portões que levavam ao pátio do castelo.

- Vossa alteza, milorde Belerofon, embora tenham obtido vitória em suas batalhas, temo que devo ser eu o mensageiro das más notícias. Milorde Nathan foi assassinado. Lembrou de que não conseguia sequer esboçar uma reação, enquanto Balash ao seu lado, cabisbaixo, apenas suspirava, ambos em choque.

- Tão logo percebi que notícias demoravam demais a chegar de Janen, enquanto já sabia da vitória dos senhores ao sul e leste, ordenei que três dos nossos melhores rastreadores fossem ao reino vizinho para trazer notícias. Eles voltaram com o corpo de Milorde Nathan.

- Maldito Aoshi. Maldito. Como pudera traí-los daquela forma? Ele pagará. Pagará muito caro. Pensava Belerofon enquando rangia os dentes, em puro ódio.

No interior da maior favela de Canópila, muito além dos olhos da realeza, uma figura caminhava, em justas roupas negras e capuz. Na cintura, a bainha com uma espada curta.

Pouco tempo atrás essa pessoa recebera a notícia de um dos Monges de Janen de que ali podia encontrar alguém de seu interesse e quando chegou a frente do barraco, percebeu que o monge estava certo, pois pode identificar a figura que caminhava tranquilamente pelos aposentos.

- Você. Sussurrou a pessoa com voz fantasmagórica.

A porta se desfez pelo ar ao mesmo tempo em que o homem de dentro do barraco saltou para a cozinha e com uma enorme faca em punho gritasse.

- Quem?

A pessoa que surgiu de trás da porta apenas limitou a responder.

- Aquele que nunca esquece.

Em um rápido movimento cobriu a distância que o separava do homem e lhe cortou ambas as pernas em apenas um golpe.

Os gritos seguiram tarde e noite adentro, quando um incêndio de grandes proporções iniciou na região levando mais de duzentas pessoas a morte.

Dois dias já haviam se passado desde a misteriosa destruição do barco não tripulado na costa de Phobos. O comandante, caminhando pelos escuros e apertados corredores da fortaleza do Rei, carregava um saco de estopa parecido com um saco de batatas a frente do corpo.

- O que é isso que carrega, comandante Ayros?

O cheiro de peixe era insuportável. Peixe e sangue.

- Posso lhe assegurar que não são batatas, sacerdote. O Rei se encontra?

- Passou meio mal durante a noite, mas já se sente melhor. Deseja falar-lhe?

- Sim, mas não precisa informar minha chegada.

Ayros atravessou a enorme porta de aço da sala do trono. Até mesmo a sala de trono em Phobos era de construção humilde.

" ...ao contrário dos grandes salões luxuosos onde os Reis e Rainhas de Gaia ficam. Em Phobos, assim como o restante do castelo, a arquitetura é bastante simples, lembrando em muito uma torre de vigília."

"A pedra nua, a mobília de madeira de lei e a grande lareira são os únicos luxos na sala do trono... "

Phobos: O Império dos Mares - Mathew Seadog

- Meu rei, trago notícias perturbadoras.

Phobos fora agraciada anos antes com a morte de seu Rei e a aclamação de seu filho, um garoto de doze anos, para dar continuidade ao reinado do pai.

Sygil Waterbringer, o jovem monarca, não era um garoto comum de Gaia. Já tinha experiência no mar, desde bebê, estivera junto de seu pai, na sala do trono e nas reuniões estratégicas, talvez fosse pelo contato, talvez fosse por capacidade intrínseca. Mas o pequeno Sygil sabia como governar.

Neste exato momento, o jovem monarca atendia as reivindicações do povo.

Vendo que o comandante da guarda e seu mentor em combate havia entrado o recinto, o jovem, entusiasmado se moveu na cadeira. Um dos aldeões ainda falava da sua mazela, a dificuldade em pagar seus tributos, então o jovem tratou de aquietar no trono, e continuar ouvindo.

- ... devido aos longos períodos de estiagem, perdi toda minha safra de batatas. A área de plantio já era pequena, e mal me restaram batatas para passar pelo próximo inverno, como poderei pagar o tributo?

Seu mentor intelectual e primo distante, Syeth Waterbringer, sentado mais abaixo, ao lado do trono, inclinou-se na direção do jovem e disse, em voz baixa.

- Meu Rei, aconselho a não abrir mão do tributo, se o fizer, estará sob o risco de abrir precedentes aqueles que não queiram pagar o módico tributo. Sygil parecia não acreditar no conselho que acabara de ouvir. Tornou a atenção ao humilde homem de joelhos a sua frente e disse.

- Meu bom homem, entendo que a estiagem tenha castigado a maior parte das famílias do nosso reino. O mesmo tem acontecido com o sul de Canópus. Tenho tido sonhos perturbadores, onde o deserto de Alrach devorava nosso reino e boa parte dos reinos do norte, então talvez tenhamos que mudar nossas culturas de cultivo. Mas antes de direcionarmos o reino por sonhos, precisamos decidir o que fazer com a sua família.

O homem apenas ouvia, atônito pela linguagem do jovem Rei, que com apenas doze anos já tinha a sapiência para estudar o que acontecia em outros reinos vizinhos, e até mesmo os sinais enviados pelos deuses.

- O tributo é a fonte de renda que temos para ajudar o nosso próprio povo. Em Phobos, nós não temos tronos de ouro maciço ou adornos com pedras preciosas. O senhor entende que, não pagando seus tributos, toda a população perde, certo?

O homem esperava uma repreensão e uma espécie de "te vira" do monarca, não esperava uma argumentação válida e consciente, todavia, retrucou.

- Alteza, não peço que isente os tributos por capricho... Antes que pudesse continuar, foi interrompido pelo Rei.

- Era o que eu queria ouvir, levante. Disse o jovem levantando.

Era um garoto alto, e de boa estrutura física. Cabelos curtos e negros, bem como os olhos que, penetrantes, fitavam o aldeão a sua frente.

- Estará isento de seus tributos até a próxima colheita. Viu o sorriso no rosto do homem, e ouviu o início do protesto de Syeth, ao seu lado.

- Silêncio. Tem algum outro ofício homem, além da agricultura?

- Sim, alteza. Trabalhei por diversos anos fazendo reparos nas embarcações militares, sob o comando do vosso pai...

Sygil lembrou do pai, Syleth, o Imperador de Phobos, o único a ter recebido o título de Imperador. Aquele homem duro, severo, um guerreiro voraz, e político habilidoso. 

Não havia muito tempo, era um dos homens mais temidos de Gaia, justamente por ser um dos regentes mais pacíficos. Ninguém nunca sabia de qual lado o Rei de Phobos estaria. 
Teimava em dizer, "- Estou do lado do meu povo. Ninguém mais.".

Após a vitória na guerra dos trinta anos, onde, se uniu com Oshkiik e Canópus na marcha até Mirach, dizia que sua alma havia sido partida no dia em que aceitou essa aliança. Sabia que a causa de Mirach, Akatosh e Alrach era justa, mas precisou se unir com os reinos do norte, e sul, para poupar seu povo de maiores casualidades.

Mirach e Akatosh lutavam contra Canópus pela libertação do status de colônia deste. Alrach lutava contra Oshkiik pela mesma razão. Syleth entendia a causa dos rebeldes.

Havia passado por coisa parecida, quando em batalha, destruiu as forças de Rothengar estacionadas em Phobos, que era colônia na época, e ainda repeliu diversas tentativas de retomada do acesso ao mar, do reino inimigo.

Sygil sentia falta de seu pai, e a visão do comandante da guarda, que agira muito mais como tutor que seu próprio primo, desde o falecimento do Imperador, acalentava seu coração e deturpava seu raciocínio de tal forma que o jovem sequer ouviu o restante do que o aldeão falava.

- ... e minha filha mais jovem é uma ótima cozinheira. Disse o homem parecendo encerrar um longo monólogo.

Sygil, parecendo sair de um transe, disse.

- Como disse antes, o tributo é a forma de desenvolvimento do nosso glorioso reino, mas entendo sua dificuldade. Então, lhe sugiro que a sua família preste serviços ao castelo, de forma que neste regime de servitude manterá seu pagamento a coroa, até a próxima colheita. Que tal lhe soa?

Sygil via por sobre o homem, próximo a entrada da sala do reino, Ayros sorrindo, em aprovação.

Já o pobre aldeão segurava as lágrimas de felicidade, entrara naquela sala orando pelo deus do mar para não ser executado, embora conhecesse a fama de jovem monarca, conhecia também a peste que era seu primo e conselheiro, e saíra com um acordo mais que beneficioso ofertado pelo Rei.

- Meu Rei, não imagina o quanto isto significa pra mim, e para minha família. Podemos manter a nossa honra e orgulho.

Sygil sorria de forma verdadeira, mas agora que o assunto fora resolvido, queria apenas que o homem se retirasse, para que pudesse conversar com Ayros.

- Ayros, o que lhe trás aqui? Disse o jovem sorridente.

A pedido do comandante da guarda, estavam sozinhos. Até mesmo Syeth saiu, sob protestos do aposento.

- Meu Rei, aparentemente só venho a sua presença para lhe trazer más notícias. Disse o homem se apoiando em apenas um joelho enquanto repousava o saco de estopa no chão.

- Que trazes aí que emana esse odor fétido.

Aryos lentamente punha a mão dentro do saco de estopa e puxava a estranha criatura escamosa. Sygil deu dois passos para trás, percebendo, Ayros disse.

- Não tenha medo, meu Rei. Está morta.

A criatura tinha longos braços

- Que diabos é isso, Ayros?

- Não sei, nunca vi um destes, até hoje cedo, enquanto cavalgava com mais dois soldados pela área do mercado. Fui atacado e derrubado da minha montaria por um homem, um homem qualquer. Consegui levantar rapidamente apenas para ver um dos companheiros sendo trespassado por arpões, pelas mãos dos nossos próprios pescadores. O outro cavaleiro deu meia volta e veio na minha direção, golpeei o homem que me derrubou antes abrindo um enorme rasgo em seu peito, e então isto saiu de dentro. Disse Ayros.

- Está me dizendo que isto estava dentro de um pescador? É impossível, pelo tamanho desta criatura, o homem não deveria ter nenhum dos órgãos internos.

- E não o tinha.

- Diabos. Sussurrou o jovem suspirando.

- Tão logo abri o peito do homem, a criatura pareceu morrer, peguei ela, coloquei em um saco, e junto do cavaleiro restante, vim diretamente para cá. Imagino que todos os homens que tentaram me atacar estavam com estas coisas dentro do peito, dada a agressividade e força fora do normal.

- Entendo. Disse o jovem, passando ambas as mãos pela face.

- Sygil. Teremos sérios problemas se mais pessoas estiverem com isto dentro delas.

Ulf já caminhava a diversos dias, a pouca comida dada por Helga em sua partida já acabara há algum tempo. Haviam algumas gotas de água, mas seu corpo já começava a sentir os efeitos de caminhar por tanto tempo sem a quantidade adequada de alimento, água e o respirando o ar repleto de cinzas.

Pelos poucos lampejos do céu que teve em uma noite, teve uma breve noção de onde estava, e o que devia fazer para sair daquele deserto de morte antes de se tornar parte dele.

Pelas diversas formações rochosas encontradas no caminho, Ulf estava certo. O ar também parecia mudar gradativamente, ele já podia sentir o gosto de sal na boca, e quanto chegou ao paredão de rocha, sabia que estava próximo.

As rochas se estendiam por algumas dezenas de metros, brincadeira de criança para alguém de Alnitak, nenhum desafio épico para um humano comum, mas um sério problema para um Anão, raça conhecida por não serem exímios escaladores.

Ulf ainda estava faminto, e sedento, precisava de uma refeição, um bom banho e uma cama macia, mas antes de tudo isso, precisava de ar puro. A tosse aumentara consideravelmente no último dia.

Mesmo utilizando a máscara improvisada, Ulf precisava de ar puro. Seus pulmões não aguentariam muito mais daquilo. Embora um Anão tenha toda sua anatomia direcionada ao ar impuro das cavernas, nada podia prepará-los para um deserto de cinza e enxofre.

Ulf sabia que não tinha como dar a volta naquela enorme parede. Era uma extensão da divisa com o reino de fogo ao oeste de Drunkirsh e seguia adentro de Batang, o reino tribal ao leste. E Ulf tinha consciência de que suas chances eram muito maiores com aquele rochedo, que em Batang.

Os primeiros cinco metros foram o inferno para Ulf, que avançou lentamente escorregando vez e outra, voltando ao início da escalada. O alcance de seus braços não era o ideal para a escalada. Depois disso a rocha pareceu menos íngreme a medida que avançava.

Demorou cerca de duas horas até chegar a altura das nuvens de fuligem. Neste ponto, avançava apenas pelo tato, sem conseguir ver um palmo a frente dos olhos, que mantinha fechado. Quem sabia o que podia acontecer aos olhos caso fossem expostos a toda aquela sujeira.

Foi quando sentiu o vento frio na mão esquerda, que avançava, que abriu os olhos, pode ver o sol, no topo de um belíssimo céu azul e apenas alguns metros acima, o topo do rochedo.

Quando chegou ao topo do rochedo, deitou de costas olhando para o céu. Lembrava exatamente do céu azul, da pureza do ar e do calor gostoso proporcionado pelo sol, coisas que muito poucos dos que viviam no subsolo conheciam. Sorriu, gargalhou por alguns momentos.

Levantou tranquilamente, sacudiu a poeira e sujeira da sua roupa, se aproximou da beirada do rochedo e vendo o mar de nuvens cinzas que se estendia pelo horizonte, disse.

- Não passamos de insetos mesmo. Brigando por migalhas enquanto a mãe apenas assiste, em sua magnitude. Sorriu.

Então virou para o outro lado do rochedo e viu, a enorme floresta tropical que se estendia a sua frente, tão acolhedora, quando comparada ao inferno que enfrentara até então. Até mesmo a descida do rochedo, a sua frente era amena, tranquila. Mais adiante, podia ver o oceano. 

Não podia ver dali, mas sabia que entre o oceano e esta floresta, encontraria ajuda. Pouco antes das forças infernais caminharem sobre Drunkirsh estivera ali, na grande cidade de pescadores humanos. 

O preço com certeza seria alto, mas sobreviveria. Iniciou a decida, lembrando que já atravessara aquela floresta, ali haviam árvores frutíferas e uma fonte de água potável. Não haviam  sequer animais peçonhentos ali, algo muito comum nas florestas que rodeiam praias em Gaia.

- Quantos Anões teriam o conhecimento dele sobre o mundo de cima. Nunca havia se perguntado isso, mas a pergunta era pertinente. Pensou.

A maioria dos Anões ignorava o que acontecia na superfície, uma pequena parte demonstrava interesse comercial e o restante visitava a "parte de cima" com certa frequência.

A cultura Anã prega que Ojarak, a sua versão de Gaia, oferece conforto e proteção junto ao seu ventre. Negar essa oferta além de estupidez é considerado desrespeito para com Ojarak. 

Essa mensagem era constantemente revitalizada na mente dos cidadãos de Drunkirsh por Undorak, Sacerdote Mestre do culto a Ojarak e presidente do conselho de Drunkirsh. 

O homem que prendeu e depois expulsou Ulf de Drunkirsh.

Viu poucos metros abaixo o gramado que se estendia até a entrada da floresta de grandes árvores com folhas do tamanho dele. Saltou a distância entre a pedra e o gramado, e em um rápido movimento, quando sentiu a grama sob seus pés, absorveu o impacto dando uma cambalhota para frente.

Já de pé, viu a floresta a sua frente e hesitou. Por mais que conhecesse e tivesse experiência no mundo de cima, Ulf sabia que as florestas não eram lugar para um Anão. E aquela, embora muito mais inofensiva que a maioria, não fugia a regra.

Atento, cuidava de si mesmo um passo de cada vez, procurando nos seus arredores por uma árvore frutífera. Cuidava ainda a trilha, já fazia alguns anos que não estivera ali, e se agora houvessem cobras por aquele chão úmido não queria arriscar a pisar em uma. Tudo bem que Anões tinham boa resistência contra venenos, mas por que arriscar.

Enquanto caminhava pela trilha, um brilho rosado no meio da floresta lhe chamou a atenção e sem diminuir o passo, reparou por entre as árvores uma orquídea, iluminada pelo sol que penetrava entre as grandes folhas das árvores.

Então sentiu o baque ao bater em uma rocha e rolou pela curta distância na terra até o descampado.

Soltou um gemido e uma praga ao vento, pôs uma das mãos no chão e levantou. Viu que o descampado não era obra de Ojarak, mas sim por serras. Ao centro do lugar uma estátua.

- Mas que diabos? Se perguntou Ulf, aproximando-se.

A escultura, lembrava um crustáceo, com uma espessa armadura natural e uma enorme formação de corais nas costas. A construção era realmente grandiosa, Ulf pensou em como não vira tal coisa do topo do rochedo, pouco tempo atrás.

Estariam os pescadores idolatrando aquela coisa? Se perguntava. Mesmo com certo receio, deu as costas a estátua e continuou seu caminho pela floresta.

Não demorou até que encontrou o mamoeiro repleto de belos mamões. Sentiu a saliva escorrendo no canto da boca.

Enquanto se deliciava com o mamão, lembrava que os Anões detestavam as frutas da superfície. Diziam que eram doces por demasia. Realmente, eram poucos os anões que apreciavam frutas, legumes ou verduras, as carnes eram o prato favorito.

Acostumados a se alimentar da carne de gado, trazida da superfície por comerciantes humanos, como os nobres Anões estariam lidando com a escassez desta depois do incêndio na superfície.

Lembrou de Helga. Como estaria sua irmã, o que estaria fazendo? Como poderia voltar a vê-la? Não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas.

Levantou e reiniciou a caminhada, sem fome, nem sede.

Já era quase noite quando sentiu a areia sob seus pés. Já há algum tempo ouvia o som das ondas quebrando na praia, mas ainda não via a saída da floresta, o que lhe deixava apreensivo. Por mais amistosa que fosse aquela mata, não queria arriscar a passar a noite ali.

- Boa noite, pequenino. Ulf virou na direção da voz e viu o homem sair de trás de uma árvore. Mais atrás dele, a grande cidade móvel de Unbata.

"Unbata é uma das cidades mais surpreendentes de Gaia. A cidade é na verdade uma frota, composta por dezenas de galeões, trirremes, juncos, caravelas e tantos outros tipos de embarcações quanto é possível existir. 

Quando atracados em alguma costa de Gaia, descarregam suas cargas e passageiros para formar uma cidade nova, pelo tempo que lhes aprouver. Os capitães locais que decidirem se juntar a frota são bem vindos, depois de provarem que são lobos do mar, e confiáveis

Unbata esteve por seis anos estacionada na costa de Oshkiik, durante a guerra dos Trinta Anos. Comercializava armas, pólvora e especiarias, espólios de viagens pelo Noriente, a região que compreende os reinos Tsukaba, Yoshikawa, Obukan e Fukyo. Armas e pólvora estas que nos ajudaram a vencer a guerra.

Mas não podemos contar com eles como aliados, são comerciantes e piratas. Não conhecem honra e não se importam com o que acontece em Gaia, desde que não criem turbulência nos mares."

A História de Unbata: A Cidade Naval - Por Gerald Seacrest

Já ocupavam essa praia de Drunkirsh há cinco anos. Estabeleceram ali, sua capital, moviam agora apenas uma fração da frota. Sabiam que não corriam qualquer risco de ser banidos dali, os Anões pouco se importavam com a superfície. 

Sabiam ainda que havia enorme risco em se manter toda a frota constantemente no mar, ainda mais quando, anos antes perderam metade da sua população durante o incidente na praia de Ashram.

- Parece ter passado pelo inferno para chegar aqui. Disse o homem.

Ulf baixou a cabeça e olhando para suas vestes, percebeu que o que não estava coberto de cinzas, estava coberto de terra. Levantou um dos braços e sentindo o odor desagradável, tratou de baixar logo.

- De certa forma. Respondeu, e então, com a voz cansada, continuou. - Como vai, Torres?

- Melhor que você, não resta dúvida. Venha, vamos lhe dar um banho.

Ulf sequer importou-se em ser tratado como um animal de uma nobre gorda do reinado, que estava sendo levado por um criado qualquer. A ideia de um banho realmente lhe apetecia. Talvez, se ainda houvesse alguma estima daquele povo para com ele, receberia um jantar.

- Um peixe. Sonhou ele, como aqueles que apenas os pescadores sabem fazer. Depois viria a execução. - Seria bom um peixe. Continuou pensando.

Belerofon e Balash limpavam as mãos no pano branco que havia sobre a mesa onde repousava o corpo de Nathan e então, em silêncio saíram. Não haviam dado sequer dez passos depois da porta, ouviram o estrondo.

- Que foi isso? Perguntou Belerofon, visivelmente assustado e com a voz anasalada.

Balash conhecia aquela voz, era o som do terror de Belerofon por fantasmas. Sabia que o amigo simplesmente dava as costas e disparava na direção contrária a de um espírito, e neste momento, esperava justamente que o amigo fizesse isso.

Mas Belerofon, com as pernas bambas, tratou de se recompor, firmou ambas as pernas e começou a caminhar na direção de onde vieram.

Balash surpreso apenas observava.

Belerofon então pegou a maçaneta da porta do laboratório onde jazia o corpo de Nathan e lentamente a girou, abrindo a porta.

Balash então viu o sorriso, de orelha a orelha de Belerofon.

A sala de guerra de Phobos, um pequeno aposento, diversos andares abaixo do castelo era iluminada pelas centenas de velas em diversos candelabros. O acesso a esta sala era restrito, apenas o rei e seu conselho mais próximo adentravam aquele local onde normalmente eram criados planos de defesa marítima contra forças inimigas.

Hoje, o grupo presente trabalhava sob uma realidade diferente. Ao invés do mapa marinho da costa, havia sobre a mesa o mapa territorial da capital. E em torno deste, estavam Ayros, Sygil e Syeth. Os três fitavam atentamente o homem de cabelos brancos repassava a situação.

- Meu Rei, as regiões do cais e do mercado encontram-se inacessíveis. O que começou com uma ofensiva desorganizada de ataques aleatórios agora parece utilizar de táticas de guerrilha, atacando ponto a ponto da cidade. O homem suspirou, colocou ambos os punhos sobre a mesa e continuou. - Estamos perdendo o combate, alteza.


Ayros suspirou. Estivera presente durante o primeiro ataque, descobriu a estranha ofensiva, e seus soldados, mas ainda não conseguia entender quem estava por trás daquilo, e quais seriam as razões envolvidas.

- Temos que fortalecer o fronte, buscar o apoio de Canópus se for possível. Sugeriu Ayros.

- Não. Respondeu Sygil, bruscamente. - Não podemos fazer isso, não podemos arriscar a entregar mais dos nossos homens a essa coisa que os possuiu. Tenho estudado, em segredo, uma alternativa nos últimos dias. Então todos ouviram três batidas na espessa porta de madeira. - E acredito que ela esteja chegando.

A porta se abriu lentamente, um dos homens de confiança do Rei estava do lado de fora.

- Meu Rei, Obudaga está aqui.

- Ótimo, mande entrar.

- Obugaga, aquele louco que tem uma barraquinha de porcarias na área do mercado? Sussurrou um dos generais ao lado de Ayros.

- O nome é Obudaga, e não é por que o senhor não acredita na veracidade dos meus itens, que eles sejam porcarias. Disse o xamã entrando na sala.

A simples visão de Obudaga já era motivo para risada em boa parte do reinado. Trajava uma tanga de couro de lebre que mal tapava sua região escrotal, uma máscara tribal da região de litoral de Okawango e um colar com diversas presas de animais.

O homem caminhava curvo para frente, manco da perna direita, apoiado em uma lança. Tinha um forte odor de creolina. A visão era a de um selvagem, mas o vocabulário parecia de alguém completamente diferente.

- Vossa alteza, que honra estar na sua presença. Disse o homem curvando-se ainda mais.

- Por favor, senhor Obudaga, levante. Precisamos da sua ajuda.

- Claro, alteza. Em que posso servi-lo?

- Chegou aos meus ouvidos que o senhor conhece essas criaturas que nos atacam. Que já lutou contra elas, isso é verdade?

- Sim, alteza. De onde vim, chamávamos estas criaturas de Parosa, ou Esporos, na língua de Gaia. Estas criaturas atacaram a nossa cidade da mesma forma que atacaram aqui, um barco pesqueiro com a nossa bandeira se destruiu contra os rochedos da costa e os primeiros que chegaram ao local do naufrágio, foram os primeiros convertidos.

Todos ouviam em silêncio.

- Não demorou até que mais e mais pessoas fossem convertidas, e quando percebemos, estávamos em guerra entre nós mesmos.

- Se sabia de tanto, por que não veio ao nosso encontro. Por que não repassou estas informações?

- Por que a solução que utilizamos talvez não se aplique a nossa grande capital, senhor general.

O Rei, curioso, perguntou.

- Por que não, Obudaga? Recorreram a alguma espécie de arma que não possuímos?

- Não, alteza. Queimamos cidade inteira, e qualquer suspeito de estar possuído. Incendiamos a cidade atrás das nossas linhas de defesa e bombardeamos com catapultas e cargas incendiárias todo a parte litorânea da cidade.

- Como diabos puderam fazer isso com seu próprio povo? Perguntou Ayros.

- Não nos julgue senhor comandante. Quero ver se encontram outro meio de resolver essa crise, que não através de uma chuva de fogo. Alteza, se já lhe ajudei quanto aos questionamentos, gostaria de me retirar.

- Claro, claro. Respondeu o Rei, ainda impressionado pela naturalidade de Obudaga enquanto falava de como queimara seu povo. 

Não era um conceito comum em Phobos, nem mesmo no restante do reinado, sacrificar dez, para salvar cem.

- Não sei se temos outra alternativa além desta de Obudaga, amigos. Disse o Rei, para espanto de todos os que ali estavam.

"A Torre de Drozia, construída centenas de anos antes da formação de Rothengar como reino, foi erguida com o intuito de avistar exércitos inimigos a grandes distâncias e informar as tribos locais, que na época se uniam sob a bandeira do clã Roth, para que se preparassem.
Lembrando muito um castelo, a torre é composta de três construções.


A murada externa, que mais lembra uma muralha, devido às suas dimensões. A construção central, onde existem cozinha, depósito e dormitórios. Acomodações o suficiente para manter quinhentos guardas a postos.

E a torre propriamente dita. Com aproximadamente quatrocentos metros de altura, este colosso de engenharia foi erguido sob o comando de Unda-Hor Dokan, um dos maiores construtores da história de Gaia, e alguns diziam, discípulo de Subba, durante o período que este construiu as cidades vivas.

Já há diversos anos a torre fora evacuada sob comando de Barak-Hor Dothrall, o Rei de Rothengar, e todas as tropas estacionadas ali, dispersadas entre os quartéis de Rothengar. 

Rothengar faz divisa com Janen, Fergusson e Alrach, três dos reinos mais instáveis de Gaia. As tropas estacionadas em Drozia certamente teriam mais utilidade em uma destas fronteiras.

Hoje, com boa parte das muradas cobertas de neve, a Torre de Drozia se mantém vigilante, solitária, alçando-se aos céus de Rothengar."

As Maiores Obras de Engenharia de Gaia - Mandorall Skujj

- Andrius, por que nos convocou para uma reunião na sede? Não havia sido apontado que jamais haveriam reuniões aqui?

Os espessos vitrais que cobriam as enormes janelas no aposento deixavam entrar a iluminação natural do sol, dando ar divinal ao ambiente. O braseiro de grandes dimensões, ao centro do aposento mantinha a temperatura suportável, enquanto do lado de fora, a temperatura era baixa o suficiente para congelar a pele de um ogro das neves.

Cinco pessoas sentadas em grandes poltronas cobertas com lã de ovelha ao redor do braseiro, conversavam com certa tranquilidade. Já haviam trinta dias que aquelas pessoas não sentavam todas juntas, sob um mesmo teto.

- E onde está Taguichi? Perguntou um deles.

- Está morto. Respondeu um dos homens, levantando da poltrona e se aproximando do braseiro. - Foi encontrado em seus aposentos ontem pela manhã. Pegou um estivador e começou a trabalhar na madeira que ardia sob o enorme braseiro.

- Imaginei. Disse Darudzia, uma mulher de idade mais avançada. - Convocar outra reunião. Em um período tão curto de tempo. Coisa boa não devia ser.

- Quem o assassinou? Perguntou Anya.

- Ainda não sabemos, mas mandei um homem da minha inteira confiança para investigar o caso. Respondeu Andrius.

- Me pergunto se ele realmente foi assassinado ou se estamos ficando paranoicos? Disse um senhor de idade mais avançada que, através de um vitral observava a bela paisagem. -  Não restam dúvidas que Tsukaba é um reino instável. Acho que a única dúvida que resta aqui, depende do que o seu agente descobrir, Andrius.

- Undor-Gahl, fique tranquilo, velho amigo. Meu espião é de total confiança. Teremos a resposta em cinco ou seis dias. Se quiserem me visitar depois deste prazo, serão bem vindos.

As pessoas já levantavam, imaginando que a reunião havia acabado, quando Andrius disse.

- Amigos, embora a morte de um dos nossos mais antigos membros seja algo importante e que não deva ser levada de forma leviana. Não foi apenas por isso que convoquei esta reunião.

Em silêncio, todos esperaram pelo que viria a seguir.

- Aoshi reapareceu. Todos em silêncio se entreolharam.

- Como assim? Perguntou Anya. - Como sabe?

- O incêndio em Canópila. Interrompeu, Darudzia.

- Exatamente, Darudzia. Um guarda de Canópila que trabalhou no combate ao incêndio, descreveu o principal suspeito, um homem caminhando tranquilamente por entre as chamas. Trajava roupas negras, carregava uma espada curta, e tinha feições orientais.

- As nuvens vieram mais rápido que esperávamos. O que vamos fazer a respeito?

- Por que Aoshi atacaria um homem em uma das cidades mais populosas de Gaia? Por que, depois de ter destruído uma ameaça como o Mestre, assassinar um de seus antigos aliados e desaparecer, ele arriscaria a agir em uma cidade de grande porte?


Phobos a jóia litorânea do reino de mesmo nome também era conhecida como mar de ébano, ou ainda dunas infinitas. A partir de hoje seria lembrada como mar em chamas.

- Ayros, ordene que os homens cessem o bombardeio. Disse o Rei, autoritário, fazendo o possível para não deixar transparecer seu temor, ante a visão da cidade que seu pai tanto lutara para proteger no passado, perdendo em chamas, por sua ordem.

- Cessar fogo. Gritou Ayros. Os homens que carregavam as cargas de óleo até as catapultas, largaram as cargas e em posição de continência, esperaram o próximo comando.

Então pela primeira vez os soldados ouviram os gritos vindos entre as chamas, alguns daqueles soldados tinham família além das linhas de defesa, em meio as chamas. Embora a racionalidade lhe dissesse que aqueles não eram seus familiares, não se tratava de racionalidade.

Um homem, em seus cinqüenta anos, rosto marcado pelo tempo e por diversas batalhas. Um verdadeiro lobo do mar. Deixou a espada cair da cintura e gritou um nome em direção as chamas. Então correu na direção do fogo.

Foi impedido de saltar por entre a barreira de fogo no ultimo instante, quando sentiu o forte golpe no peito. Um jovem de não mais de vinte cinco anos estava a sua frente, de pé, altivo.

- Vai morrer a toa, velho. Quem quer que esteja lá não é mais a sua família.

O velho, aos prantos, dizia entre soluços.

- Me deixa ir. Você não sabe como é minha filha mora na região do mercado. Então levantou e tentou correr novamente, novamente foi parado pelo forte jovem a sua frente.

- Eu sei sim, velho! Minha família inteira está do lado de lá. Todos nós sabemos todos temos família lá.

O homem então caiu sentado, sem forças. Vendo isso, o Rei disse.

-  Já vi o suficiente Ayros. Cuide para que estas chamas se mantenham até amanhã pela manhã, custe quantas construções precise custar. E cuide pessoalmente para que não tenhamos nenhum sacrifício desnecessário.

O Rei soou frio, aos ouvidos de Ayros, algo muito incomum ao jovem Sygil. Quanto teria custado ao garoto dar aquela ordem? Pensou Ayros.

Enquanto cavalgada de volta ao castelo, Sygil apenas lembrava do sorriso da menina que lhe encantara, diversas semanas antes na região dos mercados.

Vinha se encontrando secretamente com está menina na área da masmorra do castelo. Local desativado durante o reinado de seu pai, e que Sygil conhecia como a palma de suas mãos, já que brincara ali quando apenas um moleque.

Dizia que ia casar com ela, dizia isso do fundo do coração. Pensava nisso todas as noite quando deitava nós aposentos reais, sozinho. Ia casar com ela, e aí não precisaria esconder seu amor. Phobos, pela primeira vez em muitos anos, teria uma rainha.

- É isso, vou contar a Ayros amanhã. E então ela virá morar comigo. Teremos uma centena de filhos. Riu sozinho e sonhou a noite toda com aqueles olhos e cabelos negros.

Na manhã seguinte Ayros interrompeu o atendimento a população carregando um sacos de batatas com odor insuportável.

Quando lembrou disso odiou o velho amigo e mentor. Sabia que ele não apenas não tinha culpa, como ainda fora um dos salvador do reino, tendo descoberto a ameaça.

Sygil ordenou diversas missões com soldados infiltrações para tentar encontrar a jovem na região do mercado, sem qualquer sucesso.

- Alteza.

Ouviu a voz chamando lhe chamando e puxou as rédeas com força contra o peito magro. Viu Obudaga saindo por uma porta

- Vossa Alteza gostaria de uma xícara de chá? Enquanto chegava as lágrimas, Sygil sacudiu a cabeça negativamente.

- Por favor Alteza, nada como uma bebida quente para acalentar o coração.

Sygil nem queria negar na primeira vez, negou apenas por queira o esperado. Agradeceu aos deuses quando Obudaga insistiu. Ordenou que sua guarda pessoal o deixasse e descendo da sua montaria, entrou no pequeno barraco de barro.

O aroma forte invadiu as narinas do pobre Rei, quase o derrubando em lágrimas novamente.

- Cuidado Alteza, os chás de Okawango tendem a ser um pouco forte demais para o paladar do restante do reinado.

Obudaga estava errado, o chá estava ótimo. Mas Sygil não tinha forças para discutir isso agora, limitou-se a dizer.

- Está ótimo. Com um sorriso visivelmente forçado, sentiu isso, mas também não podia oferecer nada melhor que isso.

- Em Okawango temos uma filosofia de como lidar com danos e perdas.

Sygil ficava atentamente o homem a sua frente.

- Quando estiver em uma situação onde pesem vidas de pessoas, coloque as opções como pesos em uma balança. O lado que demandar menos mortes para salvar mais vidas será sempre o correto.

- Vidas humanas como pesos em uma balança? Conceito estranho, senhor Obudaga.

- Estranho ao restante do reinado. O que o senhor fez hoje foi algo muito além do que os regentes de Gaia estariam dispostos a fazer por seus povos, Alteza. Poucos estariam dispostos a sacrificar alguém importante, ou mesmo um determinado número de pessoas pelo bem maior.

Olhando para o conteúdo do caneco, Sygil sussurrou.

- Terá válido a pena.

Obudaga retirou a máscara e pôs sobre a mesa. Aquilo impressionou Sygil.

- Vossa Alteza sabe que nós, sacerdotes de Odara, não retiramos nossas máscaras na frente de qualquer homem. Sabe que temos livre caminho para andamos com nossas máscaras até mesmo na presença de reis e monarcas.

A face marcada pelo tempo e por uma enorme cicatriz de batalha circundava o olhar simples e sincero.

- Você salvou seu povo de uma grande ameaça não colocando apenas as perdas da população na balança, mas sim algo pessoal também. E isso Alteza, tem peso o suficiente para quebrar uma alma.

Sygil sentiu uma ponta de orgulho em seu peito, por que alguém parecia valorizar sua escolha.

- Seu pai era mestre nisso, por isso era conhecido como Imperador. Foi exatamente o que fez na Guerra dos Trinta Anos, quando se aliou a Canopus e Oshkiik, anos atrás. E você meu Rei, precisa aprender isso também.

Sygil tomou o restante do chá em um gole, levantou e estendendo a mão a Obudaga disse.

- Obrigado senhor. Muito obrigado. Foi muito bom ter parado aqui.

- Que bom que pensa assim, meu Rei. Foi um prazer recebê-lo na minha humilde residência.

Sygil saiu do barraco, montou em seu cavalo e cavalgou rapidamente por entre as vielas, até avistar o castelo ao longe.

Parou. Suspirou.

Retomou a cavalgada.

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