segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Memória

Não demorou até que Belerofon chegasse a origem do fogo, no centro de um vilarejo destruído, viu a fogueira a distância. Então se esgueirou até ficar próximo o suficiente para ver quem havia preparado aquela fogueira.

Nessa altura, já imaginava que não era Vlad. Vlad um guerreiro treinado pelos elfos, e experiente em todo tipo de técnica de guerra, fazendo uma enorme fogueira, no meio do dia. Erros grotescos, aos olhos de Belerofon.

Então, ao sair de trás de uma pilha de escombros viu.

O homem era realmente esguio como Vlad, mas, a fisionomia, tudo era, um pouco diferente.

Resolveu se aproximar de maneira inusitada.

- Olá. Disse, enquanto caminhava na direção da chama. Viu o homem levantar de súbito, e com os punhos cerrados, ficar em posição de combate.


- Acalme-se amigo. Disse, levantando os braços em sinal de paz. - Me chamo Belerofon, e estou procurando um amigo de longa data, Vlad, ou Vladislav, como era seu nome completo. Está desaparecido a mais de meio ano.

Belerofon jamais passaria tantas informações a um estranho, mas aquele homem lhe passava certa confiança.

- Já que foi tão franco comigo, não posso agir diferente, certo? Meu nome é Nathan, e eu estou procurando pelo meu passado.

- Pelo seu passado?

- Sim. Nathan então contou toda a história de como foi encontrado meses atrás, aos trapos em um campo aberto, feridas que lembravam uma poderosa explosão. Contou que fora, praticamente reconstruído do zero, com partes de metal.

- Mais um? Serei eu o único do grupo que morrerá como humano? Nathan não entendeu, percebendo isso, Belerofon levantou, deu uma volta e perguntou.

- Não está me reconhecendo, irmão?

Nathan sentiu aqueles flashes de memória e viu novamente o seu sonho com os quatro guerreiros, lembrou do que era ligeiramente maior que os outros, e então no sorriso de Belerofon, viu.

- Belerofon... Sussurrou.

- Sim, irmão. Tenho lhe procurado a tanto tempo.

Nathan levantou e abraçou Belerofon, lembrando aos poucos das memórias que tivera com o amigo.

- Vlad, meu amigo, por que diabos se proclama Nathan?

- Amigo, devido a explosão, acabei perdendo a memória, não lembrava sequer do meu nome, ainda não lembro de muita coisa, mas Vlad, esse era meu nome mesmo?

- Sim, irmão, não lembra?

- Não, não lembro. Aliás, não só não lembro, como não gosto. Acho que vou manter o nome que me foi dado por Claudio e Tânia, o casal que salvou minha vida. Esse é quem sou agora.

- Nathan? Se prefere assim, você que sabe meu amigo. Agora me diga, o que estava fazendo por aqui? No meio do nada.

Nathan começou a explicar tudo o que lhe acontecera no último meio ano, e então lhe contou que algo parecia ter-lhe sussurrado ao ouvido.

- Acampe aqui, faça uma fogueira. E embora soubesse da imbecilidade de fazer uma fogueira em campo aberto, algo continuava lhe dizendo para o fazer.

Belerofon sorriu, e olhando para cima disse.

- Valeu, meu deus. E então continuou. - O amigo pode até não acreditar, mas, minutos atrás orei a Subba que lhe encontrasse, pedi ajuda divina. E claramente houve intervenção dele. Que acha de voltarmos para casa, enquanto isso, vamos te colocando a par da sua antiga vida.

- Soa bem demais para mim. Pergunta, tenho alguém me esperando ao sul? Digo, família, mulheres, filhos?

- Família, dá pra se dizer que sim, meu amigo. Disse Belerofon se levantando. - Tem outros meio-irmãos, como eu, dois para ser mais exato. Mulher e filhos, não.

Nathan sabia que não poderia ter filhos, ainda estava aprendendo sobre o quão humano era, mas isso era algo que Claudio havia explicado.

- Não espere ter filhos, amigo. Se quiser alguns pequeninos, faça como Tânia e eu. Adote.

Mas ele ainda tinha esperança de que, talvez, no seu passado, uma mulher e filho o esperassem. Não era esse o caso, aparentemente.

Enquanto os dois se afastavam no horizonte, uma figura se aproximava da fogueira, já apagada.

- Vão em paz, rapazes, vão em paz. Era o bardo que Belerofon encontrara pouco tempo antes. Tocava a viola e cantarolava um antigo cântico do culto a Subba.

Por vinte dias os amigos caminharam na direção de Fergus, partilharam refeições, e informações.

Nathan, estupefato, ouvia das traquitanas que Belerofon e ele aprontavam nas tavernas de Fergus. Não conseguia se imaginar fazendo isso, talvez fosse a explosão que tenha destruído a parte "festeira" de seu cérebro, ou ao menos assim ele pensava.

Então, depois de vinte dias, os dois guerreiros chegaram a uma encruzilhada. Belerofon olhava para os dois lados da estrada. Uma placa, apontava para sua direita, dizendo "Janen", outra para sua esquerda com a escrita, "Fergus".

- Esqueceu o caminho de casa amigo?

Belerofon, como que saindo de um transe respondeu.

- Não, não. Apenas fiquei em dúvida sobre qual dos nossos amigos devíamos visitar primeiro, mas acho que você deve conhecer primeiro Balash.

- Então nossos amigos vivem em reinos separados?

- Sim, já há muito tempo. Então Belerofon explicou tudo o que aconteceu com Aoshi, e o reino de mortos que ele criou, e a tensão toda que ficou entre Aoshi e Balash depois disso.

Caminharam por mais algumas horas até ver ao horizonte os grandes muros de Fergus. Nathan sentiu um mais um flash de memória, e viu aquelas muralhas, e como ele, havia saído por outro acesso, que não aquele, meses antes. A última vez que havia saído.

Deu as costas e viu o exército infernal no horizonte, as chamas altas, então foi interrompido por Belerofon.

- Está lembrado?

- Ainda não, mas estou lembrando aos poucos. Continuaram caminhando até chegar aos portões.

- Milorde Belerofon, é bom vê-lo. Guardas, abram os portões. Disse o comandante, do topo do portão.

Nathan estava impressionado com o tamanho da fortaleza, e o contingente de soldados sob a muralha.

- Você se acostuma. Disse Belerofon notando o estupefato amigo. - E eles se acostumam com você. Continuou.

Quando chegaram ao castelo.

- Boa noite, Heinz.

- Boa noite, milorde Belerofon. E milorde Vlad, fico feliz pelo seu bem estar. Ambos quase caíram de costas.

- Heinz, como diabos sabe que este é Vlad? Heinz sorriu.

- Não é por que não vejo o mundo como você, que não vejo o mundo de forma alguma. Então virou para Nathan e continuou. - Prepare-se milorde, pois provavelmente outros cegos de Gaia poderão reconhecê-lo.

Nathan sorriu e disse.

- Sem qualquer problema Heinz, apenas peço que me chame de Nathan. Passei por algumas mudanças. Heinz estendeu a mão, e segurando a mão direita de Nathan disse.

- Sim, sim, posso ver que sim.

Nathan ficou constrangido, o que Heinz logo percebeu.

- Oh milorde, não fique constrangido. Já estou nesta função a várias estações, tendo a divagar enquanto lembro de tudo o que já passei por aqui. Acredito que queiram falar com o rei.

- Sim, sim. Respondeu Belerofon

- Podem subir então. Senhor Belerofon, acredito que não precise de um guia para chegar ao jardim superior, não é?

- Jardim superior?

- Oh sim. Você não conhece os jardins ainda, não é? Pouco tempo depois de ter deixado a capital, o rei, precisou de algo para ocupar a sua mente, então resolveu homenagear o homem que o ensinou a governar. Mas chega de conversa, vão ver com seus próprios olhos.

"Uma das maiores maravilhas já construídas pela mão do homem em Gaia, os jardins de Ulrach, no topo do castelo de Fergus são um colírio para os amantes da natureza e da criatividade arquitetônica.

O castelo propriamente dito não recebe nenhum prêmio de estética, já que fora construído para resistir ao sítio de meses, e cargas de artilharia durante todo o tempo. Uma construção sólida. Feia, mas sólida como a rocha nua.

As complicações estéticas se acabam no último degrau do acesso aos jardins.

Os jardins, construídos pelo Rei Balash, são uma homenagem ao governante anterior Ulrach, o Justo. 

Emulando os principais biomas de Gaia, os jardins contam com árvores de Shamrock, árvores frutíferas de Canópus, cerejeiras de Tsukaba e parreirais de Alnitak. Cada área é separada das demais por cercas de madeira nobre.

Ao centro do jardim, jaz a tumba de Ulrach. Balash ordenou que o local de sepulcro do antigo Rei fosse alterado para aquele lugar, para que o mesmo pudesse ficar para sempre no lugar que mais gostava do castelo. O topo dele.

Tudo isso é mantido pelo próprio Balash que, apaixonado pela fauna e flora de Gaia é um grande entendedor do assunto e sempre encontra tempo para podar os arbustos e limpar as cercas e bancos."

A Arquitetura de Gaia - Lugares para ver antes de morrer - Helena Cyssa

Belerofon sorrindo, respondeu.

- Não, Heinz, obrigado. Ainda lembro do caminho.

Quando se afastaram um pouco, Belerofon sussurrou.

- Como diabos ele faz isso?

Quando atravessaram a porta que levava ao jardim, Nathan chegou a travar. 

Por mais que tivesse a vista incrível dos rochedos de Alnitak todas as manhãs, quando acordava, nada o havia preparado para aquela visão.

Belerofon ainda não tinha visto aquilo, então estava tão impressionado quanto Nathan, talvez mais, já que lembrava como aquilo tudo não passava de um pátio, pouco tempo atrás. Viu então, a beira de um lago artificial, Balash, deitado confortavelmente em um divã.

- Boa noite, Balash.

- Boa noite, velho amigo. Pensei que não o veria mais.

- Pois é, nem sempre está certo, não é?

- Nunca disse estar, quem é o garoto?

Belerofon sorriu e permaneceu em silêncio. Balash entendeu o sinal, sentou no divã e apertou os olhos.

- Vlad? É você?

Nathan sorriu, olhou para Belerofon e tornando a olhar Balash nos olhos respondeu.

- Sim, Balash, sou eu.

Balash levantou, caminhou até Nathan e deu um forte abraço.

- Achei que você tinha morrido, moleque.

- E eu morri. Balash espantado deu um passo para trás.

- Como assim?

- É uma longa história. E então Nathan explicou tudo o que havia lhe acontecido, como havia sido salvo por Claudio e Tânia, mas que nenhum dos dois pudera recuperar seu cérebro a totalidade.

Explicou como fora encontrado por Belerofon em circunstâncias suspeitas demais para ser coincidência. Balash, quando o amigo terminou de falar, iniciou.

- Aoshi esteve aqui, outro dia.

- Aoshi? Perguntou Belerofon.

- Sim, trouxe péssimas notícias, para dizer o mínimo. Então Balash contou tudo o que o amigo havia lhe dito, noites atrás. Que tinham algo em torno de dois meses antes do retorno da criatura ancestral, e que nada podia ser feito para pará-la.

- Quer dizer que foi para isso que voltei a vida? Para morrer em poucos meses, no fim do mundo? Perguntou Nathan.

- Calma, calma. Tudo se dá um jeito. Disse Belerofon.

- Ah é? Perguntou Balash. - E como pretende parar uma criatura imensurável? Me diga.

- Do mesmo jeito que encontrei Vlad, ou Nathan, com persistência. Não vou sentar aqui com você e ficar pensando no que fiz ou o que não fiz. Nem vou fazer como Aoshi, sair atrás de vingança, numa hora dessas.

- Concordo, Belerofon. Disse Nathan.

Balash suspirou.

- Ok, e vocês tem alguma ideia de onde devemos começar? Belerofon arregalou os olhos.

- Achei que ia ser mais difícil de te convencer.

- Eh, na verdade estive me remoendo desde que você saiu atrás de Vlad, aliás, Nathan. Não quero ir para baixo da terra com remorso, quero ir lutando. Só não comecei a me mover antes por falta de suporte mesmo. Mas enfim, onde acham que devíamos começar.

Nathan deu um passo a frente e disse.

- Balash, você, como governante de Fergusson. Onde fica a maior biblioteca do reino?

- Aqui na capital mesmo, próximo a taverna do Beholder Escabelado.

- Ótimo, eu vou para lá então, mande um dos seus comandantes comigo, para que autorizem a minha entrada a essa hora. Quem é o sábio mais velho daqui?

- O velho louco que está sempre nos arredores da fonte, no centro. Respondeu Belerofon.

- Mas aquele homem é louco, Belerofon, não sábio.

- É de longe o homem mais velho de Fergus, e vai saber, daqui há pouco é um sábio louco.

- Concordo com Belerofon, Balash. Sugiro que vá falar com ele, Belerofon, tente encontrar algo na história. Alguém deve ter ouvido falar nessa criatura.

- Sim, sim, olhando por essa ótica, talvez o velho saiba de algo.

- E você, Balash. Não sei o que podia fazer.

- Tenho certeza que pensarei em algo.

Belerofon caminhava apressadamente pelas vielas. Para acabar ainda mais com o movimento na área do mercado, uma chuva fria e gorda caía o dia todo. Conforme passava pelas marquises, via os comerciantes cerrando as portas e janelas.

Via também os moradores de rua, tentando se ajeitar no curto espaço que sobrava entre os já estreitos caminhos entre as construções. Viu vários deles sob a grande ponte sob a fonte d'água. Algumas crianças buscavam comida no lixo abaixo da taverna do Beholder Escabelado. Todos encolhidos pela chuva fria.

Mais além, havia um único homem, sentado na chuva.

Passando a frente da taverna, sob a forte chuva, Nathan viu a placa, olhou para os lados. Atravessou a rua, e entrou na grande construção, de estilo arquitetônico muito antigo, provavelmente datava do mesmo período do castelo da cidade.

- Boa noite, senhor. Peço perdão por vir aqui a esta hora, mas preciso acessar a biblioteca, é um caso de extrema urgência.

O velho senhor, como muitos invernos marcados em sua pele, respondeu.

- Oh, sim, sim. O capitão da guarda real já passou por aqui, alertando da sua vinda. Vamos entrando.

- Com licença, meu nome é Belerofon. O velho sentado ao chão, fazendo rabiscos no barro com um graveto sequer se moveu.

- Queria conversar um pouco com o senhor. Sobre o passado. O velho levantou o rosto, cansado, cheio de marcas do tempo.

- Quer saber sobre o fim dos tempos, não? Belerofon, perdeu a fala.

- Como imaginei. Está com medo da chuva salgada que se aproxima do sul.

- Como o senhor sabe?

- Sabe alguma razão para que alguém não tenha medo do que vem por aí? Belerofon levantou as sobrancelhas, concordando.

- Não é isso, apenas é que essa informação não é exatamente, de conhecimento geral.

- Sim, sim, meu filho, eu sei. Mas estou a muito mais tempo que você ou qualquer um dos seus amigos, mesmo aquele que senta em nosso trono.

- Balash?

- Sim, sim. Esse mesmo.

- Voltando a ameaça, como paramos? Como derrotamos o que não pode ser derrotado?

- Você sabia que Gaia não é apenas a nossa terra? Ela é nossa mãe. Mãe de toda a vida aqui. Temos dois pais, mas ela, ela é a nossa única mãe. Embora cinco divindades venerem Gaia, apenas uma entra em contato direto com ela, Subba. O deus louco. A sua divindade.

Belerofon atônito, apenas ouvia.

- Subba é o único deus que caminha com Gaia.

- Como você sabe de tudo isso, velho?

- Como já lhe disse, estou aqui há muito tempo, e em todo este tempo, ouvi muita coisa.

- E como posso confiar nas palavras que um velho louco ouviu?

- A escolha é sua, jovem. E francamente, não me importa o que você escolherá. Se o mundo acabar, voltarei a minha deusa, senão acabar, continuarei aqui, sentado, neste mesmo lugar, vendo e ouvindo tudo o que acontece em Fergus. Como já faço há algumas estações.

Sentado a diversas horas na biblioteca, Nathan examinava os livros e pergaminhos que falavam especialmente sobre as divindades de Gaia. Não haviam respostas, apenas mais e mais perguntas.

Até que.

- O que é isso? Disse Nathan tirando um pergaminho debaixo de uma grande pilha de livros.

Começou a ler, e então, com a mão na testa disse.

- Diabos, preciso mostrar isso ao Belerofon.

Belerofon cruzou os portões do castelo apressado, então ouviu a serena voz.

- Senhor Belerofon, o senhor Balash pediu que lhe desse um recado. Era Heinz.

- Então diga.

- Ele pediu que lhe agradecesse por acordá-lo.

Belerofon entendeu o recado, o amigo estava inerte a ameaça, e graças ao puxão de orelha, Resolveu entrar na briga.

- Sim, sim. Algo mais?

- Ele partiu para Janen, disse que precisava fazer as pazes com um amigo, e que lutaria nessa batalha em outra frente.

- Excelente, Aoshi com certeza deve saber mais que contou. Sem falar que essa lenga lenga deles já havia me dado nos nervos.

- Concordo.

Belerofon sorriu.

- Por que não estou surpreso que você saiba exatamente do que estou falando, velho amigo?

Heinz, retribuindo o sorriso replicou.

- Este foi o recado que me foi repassado pelo rei Balash. Ele me pareceu bastante otimista quanto a batalha contra essa nova ameaça.

- Agradeço Heinz, infelizmente perdi um pouco do otimismo ao bater em uma rua sem saída.

- Ora milorde, não desanime. Apegue-se a sua religiosidade, em um momento difícil como esse. Sugiro que ore ao seu Deus.

Aoshi caminhava com Eusakrates pelos campos de Janen, em direção a muralha. O tempo seco fazia com que pequenas nuvens de poeira cobrissem o ar.

- Sou um apaixonado pelo mundo de fora. Disse Eusakrates, se referindo ao mundo fora dos oceanos. - Mas detesto quando o clima resolve ficar tão seco.

- Eu também amigo. E pelo que me diz, a tendência é que o clima fique um pouco mais seco que isso, nas próximas semanas.

- Sim, sim, infelizmente. Sentirei falta das melancias. Comentou Eusakrates.

- Melancias? Sério?

- Sim, sim, para mim é a fruta perfeita. Macia, suculenta, doce, uma verdadeira delícia.

- Verdade, em dias como estes, uma melancia é uma ótima pedida.

- Veja só. Aqui estamos, a margem do fim do mundo, conversando sobre melancias. Disse Eusakrates, gargalhando. Aoshi o acompanhou.

O comandante corria na direção dos dois.

- Imperador, imperador.

- Acalme-se homem. O que aconteceu.

- Um senhor, está aos portões, e pede uma audiência com vossa alteza imperial.

- Acho que nunca vou me acostumar com esse tratamento. Sussurrou Aoshi ao ouvido de Eusakrates, que sorriu. - Estou indo ao encontro dele, peça que aguarde.

Como já estavam próximos, não demorou para que Aoshi reconhecesse a figura ao portão.

- Balash?

- Balash, aquele seu amigo governante de Fergusson?

- Sim, é ele.

Balash a essa altura descia da montaria e acenava. Aoshi estava feliz, uma visita do amigo mais conservador ao seu maior pecado, a enorme ferida aberta em Gaia. Seria essa visita uma absolvição?

- Olá Aoshi, senhor. Disse Balash cumprimentando ambos.

- Muito prazer senhor Balash, é uma honra finalmente conhecê-lo. Respondeu Eusakrates se curvando.

- Balash, bom lhe ver, velho amigo. Vejo que aceitou meu convite para uma visita.

- Sim, precisamos conversar sobre a informação que me passou semanas atrás.

- Homens, abram os portões. Claro, velho amigo, entre, vamos ao castelo.

Belerofon, no topo do castelo, imaginou que aquele fosse o melhor lugar para orar à Subba, já que o deus bonachão também era um gênio da engenharia e um apaixonado pelas artes, de joelhos, olhando para o céu, orava.

- Deus e amigo, para quem não orava já há anos, até que tenho entrado em contato mais seguido, não é? Soltou uma risada. - Preciso da sua ajuda. Todos os humanos e demais seres de Gaia precisam da sua ajuda. Por favor, venha a mim, meu deus, vamos conversar.

- Olhando para o céu, velho amigo? Sabe que eu caminho entre vocês. Sabe também que a sua oração anterior foi melhor. Disse o mesmo bardo com quem Belerofon conversara diversas semanas antes, ao norte de Fergusson, pouco tempo antes de encontrar Nathan.

- Você? Perguntou Belerofon genuinamente surpreso.

- Por que a surpresa rapaz? Você citou meu mote com precisão musical, e quando lhe apareço como bardo, não acredita nos olhos?

- Não, não, vossa divindade, longe de mim discordar, apenas esperava que fosse algo mais suntuoso.

- Não sou como meus irmãos, Belerofon. Muito ao contrário aliás, por isso resolvi vir até aqui. Agora me diga, o que quer?

- Sei que você é o único que pode parar a ameaça que surge no horizonte. Uma criatura semelhante a que lhe transformou em Deus. E precisamos que nos ajude, caso contrário, toda Gaia será obliterada.

- Gaia, obliterada? Filho, você não faz ideia do quanto nossa mãe já passou. Ser obliterada? Acho que não. Respondeu o bardo, sentando em um dos bancos do lugar. - E levante daí, está parecendo uma freira. Disse sorrindo.

- Sim, sim, a mãe continuará existindo, mas seus filhos não. Disse Belerofon levantando. - E eu gostaria muito de ter filhos meus, um dia.

- Filhos de Gaia? A humanidade? Vocês humanos, sabem ser arrogantes, não é mesmo? Mas é arrogância nascida da ignorância, e vocês, tão frágeis, com vida física de tão poucas décadas. Não posso culpá-los. Não tivesse tocado a essência de Mahdoton milênios atrás, provavelmente seria assim também.

- Subba, eu apelo, olhe ao seu redor. Disse Belerofon. - Veja as pradarias, veja o verde da grama, lembre do gosto dos morangos, da carne de gado, do gosto da cerveja, ou vinho, como preferir. Do calor de uma mulher, ou seja lá a raça da sua fêmea favorita. Tudo isso, vai acabar. 

- Sabe Belerofon, Gaia sempre me criticou por não conseguir deixar uma injustiça acontecer. Ela sempre disse que isso ainda ia custar a minha existência, e mais, que nós não deveríamos interferir na história dos mortais.

Belerofon ouvia atento.

- Ela disse que o tempo da humanidade viria. Ela disse que ele passaria. Assim como o tempo dos dragões que milênios atrás povoavam essa terra, passou. De qualquer forma, eu amo um bom vinho, ainda tenho meus parreirais em Alnitak. Sou um amante da boa comida, também. E também zelo pelas minhas companheiras, cada uma delas. Detestaria perder tudo isso.

Subba passou por Belerofon, e olhando para o horizonte, perguntou.

- A criatura está surgindo no mar do sul, correto?

- Sim.

Subba suspirou e então depois do silêncio que se seguiu, disse.

- Então venha aqui, me dê sua mão. Belerofon se aproximou e ouviu. - Moleque, te odeio por me envolver nisso. Então os dois desapareceram sem deixar qualquer rastro.

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