terça-feira, 4 de setembro de 2012

Poder em Gaia

A lua já estava no topo do céu estrelado quando a primeira carga de artilharia cruzou os céus de Fergusson e aterrissou na torre leste da capital, Fergus. Não entendeu nada? Leia 4 Vidas em Gaia, Vidas em Gaia e então Poder em Gaia. Todo o material está na barra abaixo do título do blog. Espero que goste.

Inferno

A carga de artilharia explodiu contra a parede da enorme torre fortificada. Os danos estruturais do impacto foram mínimos, mas este não era o intuito.

A carga propriamente dita era um tipo de vaso de cerâmica contendo um gel inflamável que se espalhou pelos ares fazendo literalmente chover fogo.
Diversas destas foram arremessadas enquanto a lua se movia no céu.

Balash do topo do castelo, fitava o horizonte, em chamas. Nem um soldado ao alcance de uma flecha, ou mesmo carga de artilharia que ele dispusesse. O plano era queimar até o chão a fortaleza, e então invadir e matar quem ainda estivesse de pé.

- Balash, temos que fazer algo. Disse Vlad preocupado.

- A única coisa que podemos fazer é cavalgar até eles. Disse Belerofon. - Caso contrário, morreremos todos sem sequer tocar um inimigo.

Balash sabia que aquilo era verdade, os focos de incêndio se multiplicavam rapidamente, e sem saber quantas cargas de artilharia os inimigos dispunham, não havia como esperar.

O céu estrelado também não dava sinais de chuva, para aplacar a fúria dos incêndios. E Aoshi, segundo Belerofon, não daria as caras até o segundo dia de combate.

Então, Vlad teve uma ideia.

- Já sei. Deixe que eu cavalgue sozinho até eles. Eu tenho um plano. Vlad não tinha um plano, apenas não aguentava mais ficar ali, olhando para as chamas no horizonte, e as que se espalhavam por dentro da fortaleza.

- Que plano rapaz? Você está louco?

- Confiem em mim. Quando ver o sinal, ataquem.

Vlad, saindo pelo portão leste da fortaleza viu as forças infernais no horizonte e a colina de Ulag.

- Sigo pelo ponto mais afastado da colina e me aproximo em total silêncio. Deu uma risada. - Aí, veremos se sei mesmo improvisar.

Aoshi do topo do seu castelo, fitava os exércitos que cercavam os arredores de Janen, mal se podia ver a muralha externa, tamanha era a força inimiga que entrara pelos portões e por todos os lados da fortaleza.

As forças inimigas passaram sem qualquer dificuldade. O portão, foi derrubado em poucos ataques, e as torres, em ambos os lados da estrutura, também tombaram sem qualquer dificuldade, já que não havia ninguém as defendendo.

Estranhamente, Aoshi sorria. Um de seus mortos, um soldado ao seu lado questionou.

- Se me permite o questionamento, por que o sorriso milorde? Estamos completamente cercados e sem chance de evacuarmos nossas mulheres e crianças.

Aoshi olhou para o céu, respirou fundo e respondeu.

- Relaxe meu jovem, agora desça e diga a todos que se preparem para invadir a área das fazendas.

- Milorde, seremos massacrados.

- Confie em mim, garoto. Agora desça e peça que aguardem o meu comando.

O jovem saiu apressado.

Aoshi, olhando para os céus, iniciou o ritual.

- Interessado em almas, velho amigo? Venha a mim.

Aoshi e a criatura do abismo já tinham certa intimidade, por assim se dizer, diversas vezes Aoshi fora visitado pelo visitante misterioso. Como um banqueiro que cuida dos seus investimentos.

Quando Aoshi baixou a cabeça, viu o tradicional manto azul marinho alguns metros a sua frente, inclinado na direção do parapeito do castelo.

- Situação difícil a que você se encontra amigo. Disse a voz rouca, por debaixo do manto. - Prezo muito nossos acordos, mas acho que nem mesmo por todas as almas que mantém em seu poder, entraria em combate físico aqui.

Aoshi sorriu.

- Não se preocupe, não quero seus punhos em combate. Quero apenas uma intervenção... Aoshi procurava a palavra. - Natural.

A criatura virou na direção de Aoshi.

- Hum, fale mais.

A terra derretia sob os pés da criatura humanoide, enquanto caminhava pelo que antes eram as fazendas de Janen.

Cercada de outras criaturas em chamas, aquela era diferente, tinha até mesmo uma postura mais intimidadora, como se houvesse mais, ou menos intimidação entre criaturas em constante combustão.

Criaturas de centenas de metros de altura se curvavam a este ser específico, enquanto ele atravessava as linhas de combate, em direção aos portões da segunda muralha de Janen.

Era claro que aquilo era um tipo de comandante entre as tropas.

Quando parou, a frente dos portões, os soldados que ali estavam tremiam. O comandante achou aquilo surpreendente, não sabia de nenhum feitiço que mantivesse a humanidade tão... "Acesa" dentro de mortos vivos.

Também não entendia a utilidade daquilo. Soldados mortos vivos eram eficazes justamente por não carregar qualquer sentimento para o combate. Por que diabos o necromante que levantou aquele exército, o fez desta forma.

- Devo conversar com este homem. Pensou a criatura.

Olhou por toda a imensidão da muralha e viu apenas poucos soldados a guardá-la. Então sua voz ecoou pela região.

- Quem é o responsável por esta fortaleza?

Aoshi surgiu de trás de um dos soldados, lhe disse algo no ouvido, então todos os soldados saíram do campo de visão das tropas infernais.

Aoshi então se inclinou sobre a murada e disse.

- Boa noite. A que devo a honra desta visita?

A criatura sorriu.

- Sabe por que viemos, humano.

- Tão rude. Respondeu Aoshi, sarcástico.

Uma das maiores criaturas largou um rugido tão poderoso que vibrou toda a estrutura da muralha. Foi imediatamente repreendido pelo ser humanoide.

- Silêncio.

Como um cão repreendido pelo dono, a criatura, que lembrava um imenso leão em chamas colocou o rabo entre as pernas e cabisbaixo deitou, em silêncio.

Aoshi pensou no poder daquela criatura, para comandar todo aquele exército, estremeceu por dentro, sem deixar transparecer.

- Perdoe meus subalternos, eles não tem modos. Antes de fazermos o que viemos aqui fazer, queria lhe perguntar algo humano. Por que levantou estes mortos com sentimentos?

Aoshi estava surpreso pela pergunta.

- A resposta é simples, não os levantei. Suguei suas almas, tão logo eles morreram, não puderam encontrar a paz, ficaram aqui, presos, sob o meu comando.

A criatura impressionada com a frieza do inimigo, então apontou.

- Raro ver um humano agindo desta forma. Apenas mais uma pergunta.

- Fale.

- E o que tem feito com as almas destes?

- Esse tipo de coisa.

Aoshi levantou ambas as mãos e bateu uma palma. Uma leve brisa começou a soprar, nuvens carregadas se fecharam sobre o céu e então uma fina garoa começou a cair.

Aoshi percebeu que os soldados menores do inimigo começavam a se contorcer em, o que  parecia ser, dor.

Então uma pesada chuva começou a cair, ferindo até mesmo as criaturas de maior porte.

Já o comandante fitava Aoshi com fúria nos olhos. Ao seu redor se formava uma nuvem de vapor. Devido a altíssima temperatura do seu corpo, as pesadas gotas de chuva sequer se aproximavam.

- Apenas isso? Sinto dizer mas tem desperdiçado almas.

Então Aoshi levantou novamente as mãos.

O comandante infernal ficou apreensivo, podia lidar com algumas gotas, mas o que viria desta vez?

Então a palma.

Todos ouviram um rugido monstruoso, até mesmo as maiores criaturas, que sequer haviam sofrido dano até então, tremeram. O comandante não tirava os olhos de Aoshi, que sorria tranquilamente.

Aoshi levantou tranquilamente o braço esquerdo e apontou para o portão de saída de Janen. O monstro virou e viu, a enorme torrente de água que atravessava o portão arrancando pedaços da estrutura, tal era a pressão.

Em poucos minutos a distância que separava a muralha externa da muralha interna ficaram cobertos de água gelada.

Enquanto o vapor advindo da água subia pelos céus, parecendo uma sauna de absurdas proporções, Aoshi chamou um dos comandantes das tropas.

O homem se aproximou e ouviu.

- Soldado, ordene que as tropas saltem de cima da muralha na água. Vamos combatê-los debaixo d'água.

- Mas senhor, como lutaremos debaixo d'água, como respiraremos.

Aoshi sabia que aquilo não seria um problema, mas não era o momento de contar aos seus homens que todos estavam mortos e que naturalmente não sentiriam muita falta do oxigênio.

- Podem ficar tranquilos, estão sob minha proteção mística, poderão respirar sob a água.

Sob a água, envolto por vapor, estava o comandante humanoide das forças infernais. Com os braços cruzados ele apenas observava o fluxo da água que destruía suas tropas.

- Maldito. Bradou ele, cercado por água.

Então viu o primeiro morto vivo afundar na água.

- Mas que...

Então outro, e outro, e outro até que não mais conseguia ver as paredes da muralha.

- Maldição. Praguejou ele, mais uma vez.

Aoshi, do topo da muralha, observava o avanço das suas tropas, que tomavam passo a passo o terreno, sob a superfície. Então, uma explosão que jogou água para todos os lados, Aoshi, quando tornou a olhar na direção das tropas, viu o comandante infernal batendo asas, pouco acima d'água.

O comandante bateu asas usando de toda sua força. Girou os braços na frente do peito jogando lava na direção de Aoshi, que com um salto para esquerda viu o gel em chamas cobrir o espaço onde estava.

- Dano contínuo, talvez não escapasse com vida de uma dessas.

A gorda chuva que caía permitia que Aoshi se aproximasse do inimigo sem sentir maiores efeitos da constante chama emitida pela sua pele, mas mesmo assim, o vapor exalado poderia matar um humano normal. Um humano que não contasse com regeneração praticamente imediata de ferimentos.

Aoshi sacou a espada de sob a sua pele e golpeou furiosamente a criatura que se defendia usando os antebraços, então com um rápido movimento de contra, a criatura arremessou a espada de Aoshi longe.

Imediatamente, queimaduras começaram a surgir sobre a pele do guerreiro, e então um chute em seu peito que o jogou diversos metros para trás.

Com boa parte das costelas quebradas, um pulmão, provavelmente perfurado, sérias queimaduras na pele, Aoshi se contorcia no chão, enquanto isso a criatura se aproximava.

- O que foi, humano? Algum problema?

A criatura pegou a espada de Aoshi, olhou de perto, passou a mão pela lâmina. Apesar da altíssima temperatura da pele do comandante, a lâmina não parecia sofrer qualquer alteração em sua estrutura.

- Será feita de escama de dragão? Não. Pensou a criatura. - Como um verme como você, conseguiu tal arma? Perguntou o comandante, com a arma em punho.

Aoshi não conseguia responder, com muita dificuldade respirava, e gemia. Isso pareceu irritar ainda mais o comandante infernal.

- Criatura patética.

O monstro então, usando a espada negra de Aoshi, aplicou o golpe certeiro. A ponta da lâmina atravessou com facilidade as costelas, já esfaceladas pelo golpe anterior. Atravessou ainda o coração e penetrou fundo a rocha da muralha, ao sair pelas costas o guerreiro.

Vlad se aproximava sorrateiramente dos inimigos. Com muita dificuldade, conseguiu dar a volta nas forças inimigas e se aproximar em meio a um rochedo. Toda a vegetação próxima estava em chamas, deixando apenas pilhas de cinzas pelo seu caminho.

Vlad suava muito. A temperatura era altíssima, mesmo estando a uma distância considerável dos inimigos, como os próprios guerreiros inimigos estavam em chamas, tudo ao redor estava em chamas.

Vlad então viu, em meio a todas as criaturas, uma que se destacava.

Uma criatura lembrando um velho ogro das cavernas, barrigudo, e cheio de tumores em chamas pelo corpo. Estava de joelhos, com uma das mãos no chão e a outra tapando a bocarra.

Volta e meia tirava a mão da boca, apenas para preencher com seu vômito os enormes vasos de cerâmica que eram arremessados sobre Fergus.

- Que nojo. Disse Vlad, fazendo uma careta.

A criatura parecia convulsionar por todo o tempo. Vlad quase sentiu pena dela, o monstro "alimentava" a artilharia de um exército inteiro. Mas para isso sofria por todo o tempo. 

Seria isso o inferno? Sofrer pela eternidade e ser usado como máquina de combate do exército infernal.

Então lembrou do comentário de Balash, antes de sair do terraço do castelo.

- Não entendo bem como essas cargas incendiárias funcionam, mas parece que o impacto violento faz com que o conteúdo entre em combustão. Uma bela ideia.

Vlad, com seu arco em mãos, pensou.

- Se atingir aquele gordo coitado, e ele explodir, talvez não consiga matar a todos, talvez não consiga matar nenhum, mas pelo menos acabarei com essa chuva de artilharia que castiga nossas forças.

Vlad sacou uma de suas flechas, preparou o arco e apontou na direção da imensa criatura que preenchia as cargas incendiárias.

- Se alguém aí de cima, ou de baixo, estiver ouvindo. Sussurrou Vlad. - Faça com que essa seta acerte aquele bastardo, ok?

A corda tensionada impulsionou a flecha pelos ares, o ruído característico, semelhante a um assovio que se seguiu, chamou a atenção dos soldados que carregavam as cargas de artilharia.

- Merda. Sussurrou Vlad, se jogando de volta para trás das rochas.

A flecha ainda cruzava os ares, quando quatro criaturas deixaram os potes no chão e começaram a caminhar na direção de Vlad, procurando de onde viera o ruído.


A lâmina atravessara o peito de Aoshi e teimava em sair dali, por mais que o comandante das forças infernais fizesse força. Para sua surpresa, a espada então começou a brilhar de maneira estranha.

- Mas que diabos? Pensou a criatura.

Sem mais nem menos, a espada explodiu, arremessando a criatura pelos ares.

Aoshi abriu os olhos, viu suas feridas aos poucos se fechando, e o enorme rombo que ainda há pouco havia em seu peito desaparecendo.

Aoshi viu que haviam centenas de estilhaços da sua espada ali, provavelmente haviam centenas mais pela sua corrente sanguínea.

- Melhor assim. Lembrando que ainda há pouco quase morrera, por estar separado da lâmina mágica.

Quando conseguiu levantar, olhou para o lado e viu o comandante das tropas infernais, tentando levantar.

Sem o braço esquerdo, a criatura jorrava lava pelos ferimentos. Seu tórax, com um grande buraco e seu rosto, dilacerado. A lava escorria até os pés de Aoshi, alguns respingos até mesmo o atingiam, sem causar maiores danos.

- Ótimo. Pensou Aoshi. Seu fator de cura voltara a funcionar, ainda melhor que antes.

Com muita dificuldade a criatura parou sobre as duas pernas.

- Maldito. Praguejou o comandante com a mão tentando tapar o ferimento no que restava do braço.

- Ainda nos encontraremos novamente rapaz, me aguarde. Disse a criatura iniciando o dificil bater de asas.

Aoshi podia alcançá-lo, podia terminar o serviço, mas preferiu deixar a criatura, humilhada, fugir. Apenas, antes que o monstro sumisse nas nuvens, gritou.

- Estarei esperando, bastardo. Aoshi então baixou a cabeça e começou a procurar o restante da espada. Tivesse sorte, poderia providenciar uma adaga ou algo parecido para substituir sua arma de longa data.

A antecipação era inebriante, e então a flecha disparada por Vlad, poucos metros de atingir a criatura, evaporou, devido a altíssima temperatura exalada pelas forças infernais. Apenas a ponta de metal derreteu e como cuspe, espalhou-se pelo ar.

- Merda. Sussurrou Vlad, enquanto dava a volta no rochedo, fugindo das criaturas que se aproximavam.

- Que diabos vou fazer agora? Lembrou então que ainda carregava duas flechas de Iridium. - Isso pode funcionar.

Então ouviu o som de algo nas rochas, era uma das criaturas que agora caminhava a poucos metros dele.

Abaixou-se entre duas rochas, certificou-se de que estava fora dos olhares dos monstros, então repousou o arco no chão, e sem fazer o menor ruído, o desarmou. Abriu sua bolsa, tirou o fio de aranha verde de dentro dela, e iniciou a instalação, então viu.

"A seda de aranha verde, uma das espécies mais venenosas do reino animal de Gaia, é também uma das fibras de maior elasticidade existentes na natureza.

Na verdade não é seda, mas a fibra é conhecida desta forma devido a resistência e o resultado obtido quando utilizado em costuras.

Os arcos tensionados por estas fibras tem características surpreendentes. Nas mãos de um arqueiro treinado, um arco de carvalho negro tensionado por seda de aranha verde é uma das armas mais mortais de Gaia"

A Arte da Arquearia - O Pincel - Mestre Swype Oaazaru

A criatura passava a não mais de três metros de Vlad, o calor exalado pelo monstro era tão grande, que o guerreiro temeu que a madeira do arco pegasse fogo em suas mãos.

Vlad quase desmaiava, tamanho era o calor, então, para sua sorte, a criatura continuou seu rumo, entre o rochedo.

Com o arco pronto, em mãos, saiu lentamente do seu esconderijo, caminhou até o lugar que ocupava, minutos atrás e se preparou.

- É agora ou nunca.

Saltou de trás da rocha com o arco em riste, quando se deparou com uma das criaturas que urrou bestialmente.

- Merda. Vlad baixou o arco e disparou a flecha que atravessou sem dificuldade a cabeça do monstro. Antes que o corpo da criatura caísse ao chão. - Funciona. Pensou Vlad, nos milissegundos que teve antes de sacar sua última flecha e disparar na direção da monstruosa criatura, a dezenas de metros dali.

Como os outros monstros haviam ouvido o rugido de um dos seus, Vlad disparou a flecha, deu as costas e saiu em disparada, correndo por entre as rochas. Dezenas de criaturas no seu encalço.

Saltou do rochedo, continuou correndo por entre as cinzas que restavam do grande vale florido que ocupava grande parte do oeste de Fergusson, antes da vinda do exército do inferno.

Desceu por uma colina correndo o máximo que podia, corria tão rápido que tropeçou e caiu, rolando pelas cinzas.

Coberto de cinzas, olhou para o topo da colina e viu que não estava sendo seguido.

- Mas que diabos.

Então sentiu a terra tremer, o clarão e o som da explosão. A colina a sua frente se desfez em farelos que voaram pelos ares.

Aoshi não encontrou qualquer vestígio da sua arma, teria o restante dela realmente virado pó?

Sem qualquer pista do que teria acontecido, caminhou até a beirada da muralha e acompanhou o restante do combate aquático, que continuava intenso.

Enquanto criaturas de centenas de metros se debatiam, sofrendo, por estarem em um elemento totalmente prejudicial a seus organismos, os soldados mortos combatiam como podiam.

Era questão de tempo.

Conforme a lua baixava nos céus, a água baixava também e os inimigos que antes boiavam, agora ocupavam a terra de Janen. Não demorou até que o topo da cabeça do primeiro soldado morto de Aoshi aparecesse sobre a superfície.

Restavam apenas poucas poças d'água em meio aos corpos das forças infernais, tudo era iluminado pelo tímido sol que nascia no horizonte. Aoshi no mesmo lugar, desde que se recuperara do combate contra o comandante infernal, então gritou.

- Parabéns pela vitória homens. Aoshi então chamou um de seus comandantes.

- Separe nossos melhores guerreiros e comande-os até Fergus. Eles também estão sendo atacados por estes inimigos e precisarão de ajuda. Ordene que o restante inicie a limpeza das carcaças inimigas.

- Sim, milorde. Respondeu o soldado se afastando e urrando ordens.

- Parabéns pela vitória, milorde. Era a criatura de manto azul escuro.

- Aoshi, me chame de Aoshi.

- Muito prazer, Aoshi. Meu nome é impronunciável pelos da sua espécie, mas pode me chamar de Eusakrates.

- Prazer, Eusakrates. Essa vitória também é sua, mesmo que não tenha interesse, mesmo que não tenha passado de um negócio.

- Ora Aoshi, não venha com humildade deslocada. O mérito é todo seu, a chuva era uma ideia óbvia, mas qualquer governante na sua posição teria buscado meu apoio físico no combate, além de chuviscos. Não um desvio nos Cachos de Léia.

- Por mais que a ideia de lhe ver em combate me atraia, precisava poupar meu exército, meu povo.

- Acho formidável sua consideração para com estes que condenou.

- Questão de ponto de vista amigo. Eles foram condenados aos seus olhos, pelos olhos deles, ainda vivem suas vidas com suas famílias, suas preocupações mundanas e terão todo o tempo de Gaia para aproveitarem isso.

- Realmente, pena que nem você mesmo compartilhe desta visão. Vejo o que há no seu coração. Toda essa culpa. Mas enfim, queria lhe informar antes de partir, que a outra parte do nosso acordo já foi cumprida também.

- Ótimo. Respondeu Aoshi, com o semblante tranquilo.

Do topo do castelo de Fergus, Balash e Belerofon observavam o horizonte, aguardando algo de Vlad, um sinal, ou qualquer coisa, para que iniciassem o ataque.

- Maldição. Terão capturado Vlad? Perguntou Balash. Antes que Belerofon pudesse responder, ouviram o estampido. No horizonte, puderam ver a onda de choque que ganhava forma se espalhando por entre as forças inimigas e apagando as chamas.

- Mas que... Belerofon estava espantado demais para entender o que estava acontecendo.

Enquanto isso as chamas continuavam a se apagar.

- Mas é claro. O oxigênio. A explosão fora tão forte que apagara as chamas deles próprios. Constatou Balash.

Balash chamou o soldado que daria o sinal para o ataque.

- Sinalize.

O jovem ateou fogo em uma flecha e disparou em direção aos céus, logo em seguida gritos podiam ser ouvidos por toda Fergus. Eram as forças militares se movendo, se organizando.

E logo atravessaram os portões da fortaleza, em marcha pelos campos.

As forças militares de Fergusson estacionadas em Fergus não se tratavam de quantidade, mas sim qualidade. Os "Brutos" de Fergus figuravam entre os melhores guerreiros de armas de balanço de toda Gaia.


"Os Brutos, guerreiros existentes desde a fundação de Fergusson, centenas de anos atrás, são dos mais perigosos guerreiros do norte.

Portando enormes machados de combate, duas machadinhas de arremesso e um machado duplo para combate rápido, o guerreiro de elite de Fergusson abre mão das pesadas armaduras em troca de poder de fogo.

Engana-se quem os compara com simples bárbaros das regiões geladas de fronteira. Verdadeiros gênios do combate, os Brutos tem sua própria arte marcial, composta de combate apenas com armas de balanço.

Os machados são as armas mais comumente utilizadas no campo de batalha, mas existem exceções como manguais e outras armas de arremesso."

O Combate em Gaia - As Forças de Elite: Os Brutos - Olag Tsa'kuul.


- Uma pergunta, Aoshi. Os seus amigos, os que ajudou com a outra parte do nosso acordo. Eles valem as dez mil almas extra que me deu?

Aoshi sorriu.

- Cada uma delas.

- Bom, muito bom. Deixarei você com sua vitória, tenho que retornar ao meu reino.

- Onde fica, aliás? Eusakrates virou.

- Hum?

- De onde você vem, Eusakrates? Aoshi percebeu que a criatura havia ouvido da primeira vez, apenas buscou mais tempo para dar uma resposta convincente.

- Do abismo. Pensei que soubesse. Respondeu abruptamente.

- Entendo, e onde fica isso?

- Nos mares do sul, venha nos visitar uma hora dessas.

- A água não é o meu habitat natural, amigo. Prefiro que você venha me ver, vez que outra.

Eusakrates riu.

- Fique em paz, amigo. E lembre-se, sempre que precisar de um acordo, me chame.

Enquanto Eusakrates desaparecia, como de costume, na frente dos olhos de Aoshi, um soldado gritava do meio do campo.

- Imperador.

Aoshi desceu pelas escadarias pensando na nomenclatura.

- Imperador? Teve que rir. Atravessou os portões e caminhou até o soldado.

- Sim.

- Veja a pele destes monstros, Imperador, enquanto lutávamos sob a água, elas ainda estavam quentes, mesmo cercadas de água. Nossas espadas ainda perfuravam a grossa casca que havia, mas quando a água as esfriou completamente. O soldado deu um passo para trás, e sacou a espada e golpeou furiosamente a criatura.

A espada se partiu em diversos pedaços, enquanto faíscas voavam pelos ares.

Aoshi, com os olhos arregalados, passou a mão sob o queixo e então, sorrindo maliciosamente disse.

- Tragam-me um ferreiro.

Enquanto a poeira baixava no horizonte, uma leve brisa de chuva começava a soprar no topo do castelo de Fergus. Belerofon já havia descido, e em sua montaria, cavalgava furiosamente em direção ao exército inimigo.

Já havia alguns minutos que cavalgava sobre a terra negra, principal indício de que as forças infernais estiveram ali. Isto e a presença de pequenas rochas. A terra negra, corrompida, queimada. E restos da lava que escorria dos corpos monstruosos dos infernais, e agora, resfriados, tomavam forma de rochas negras.

O cenário de destruição, uma das coisas que preocupava Balash, do topo do castelo, quanto a motivação das tropas, causou o efeito contrário. Ao invés de espantar os soldados, deu outro ânimo, já que viram pessoalmente o que restaria de seus lares e familiares se falhassem em combate.

Não demorou até que Belerofon se juntasse ao restante das forças de Fergus, e com o exército sentiu as primeiras gotas da pesada chuva que começava a cair. Chuva esta que baixou a poeira e evitou que exército inteiro caísse em uma enorme cratera.

- A explosão. Pensou Belerofon.

A cratera era imensa, e haviam restos das forças infernais por todos os lados.

- Diabos. Disse Belerofon em voz alta, descendo do cavalo e lhe ordenando que voltasse ao castelo. 

Com o som das gotas nos elmos e armaduras, as forças de Fergus viam seus inimigos levantar, um a um, ao redor da enorme cratera, muitos deles seriamente feridos.

Belerofon correu até a linha de frente, composta pelos Brutos.

- Ataquem. Gritou Belerofon aos quatro ventos. Como se os guerreiros mais ferozes do oeste precisassem desta ordem.

Não demorou até que a primeira machadinha de arremesso penetrasse a espessa crosta de rocha que protegia o que quer que mantivesse as criaturas infernais se movendo. Belerofon, apenas com seu machado de combate partia, a cada golpe um inimigo no meio. 

Sua absurda força não encontrava páreo no campo de combate até que, sentiu a lâmina prender em algo. Virou na direção e viu a lâmina, presa, aproximadamente um metro adentro da criatura.

O monstro infernal, em suas formas, lembrava uma iguana comum. E nada mais traria a palavra "comum" a descrição desta anomalia da natureza.

Com a altura de quatro ou cinco homens, e vinte de comprimento, a criatura mal sentiu o golpe de Belerofon, enquanto se alimentava de dois soldados humanos.

- Ah é? Gritou Belerofon, usando toda sua força para tirar o machado de dentro da "carne" do inimigo. - Deixa eu tentar de novo.

Sentiu as pernas formigarem de tanta força que usou no salto, arqueou o corpo no ar e com um urro bestial acertou o golpe no mesmo lugar em que acertara o primeiro, desta vez arrancando o rabo da criatura.

O monstro cuspiu os restos da refeição e se contorceu em dor. O sangue quente da criatura jorrava pelo campo, queimando o que quer que atingisse.

Belerofon percebendo que a criatura, se ficasse, mesmo que ferida, ali, seria um problema, correu na direção dela, ambos os braços esticados para frente, pôs as duas mãos na barriga da criatura e com um forte empurrão a jogou para dentro da cratera.

A chuva aumentou e muito, nos minutos que se seguiram, mal se podia ver a frente dos olhos, no campo de batalha ninguém percebia que o sol começava a nascer no horizonte. Balash, do topo do castelo, percebeu.

Percebeu também que aquela nuvem, sobre o campo de batalha, não era natural. Algo de estranho havia em uma nuvem que se formava apenas sobre um exército que entraria em desvantagem com a presença de água no combate.

Viu ainda que a nuvem se mantinha sobre o campo de batalha, e isoladamente sobre a maioridade das forças infernais.

- Aoshi... Sussurrou Balash.

Então viu a nuvem de poeira, a direita do combate, que se movia em direção a chuva.

- Que diabos será isso, agora?

No campo de batalha, Belerofon, girava o machado, de um lado para o outro, arremessando pedaços de inimigos na terra negra, o sangue quente voando pelos ares causava queimaduras na sua pele, mas tamanho era o ódio e a adrenalina nas suas veias que ele sequer sentia isso.

Uma das coisas mais impressionantes no campo de batalha é o barulho. Os gritos de dor, de fúria, o barulho do metal das espadas atravessando o metal das armaduras, ossos quebrando, a lâmina que atravessa um membro. O soldado desesperado, se debatendo de dor, sem uma perna.

A violência não é apenas visual. Muitos guerreiros, após longas campanhas com seus exércitos não conseguem mais voltar ao normal, não conseguem retornar as suas vidas civis. Enlouquecem, acabam por matar familiares, ou encontram uma causa qualquer, que os permitam entrar em combate seguidamente. 

Um forma de manter as vozes da batalha mais serenas.

Quando o silêncio toma conta do campo de batalha, é por que algo não está certo. Belerofon sabia disso, e quando sentiu o silêncio tomar conta do campo de batalha, logo pensou.

- E agora? O que falta. Virou para o norte e viu, a distância, a cavalaria humanoide que atropelava e pisoteava as forças inimigas sem dó.

Espadas girando pelo ar, lanças sendo arremessadas e mais e mais inimigos caindo. Com apenas uma carga, a cavalaria eliminou a ameaça, já enfraquecida pela chuva, e pelo ataque das forças de Fergus. E na borda da cratera, houve o encontro entre os Brutos de Fergus e a Cavalaria Morta de Janen.

A tensão invadiu o campo, tão logo as criaturas infernais foram derrotadas. Sem entender nada, os soldados de Fergus fitavam os cavaleiros em estado de putrefação que sorriam para eles. Um dos cavaleiros se aproximou de Belerofon e começou a murmurar algo ininteligível.

Belerofon sabia que as forças eram aliadas, mas ele não falava a língua dos mortos, não sabia como se comunicar, por mais que tivesse passado algumas semanas, no castelo cheio de mortos vivos de Aoshi, tudo o que o morto dizia não passava de murmúrios e rosnados.

- Soldados, retornem ao castelo.

Os guerreiros de Fergus não eram covardes, longe disso. Eram supersticiosos, e um exército de mortos vivos, armado e organizado lhes impressionara ainda mais que um exército em chamas. Dessa forma, nenhum deles relutou em sair dali, quando Belerofon deu a ordem.

Tornando a olhar para os mortos, Belerofon lembrou.

- E me tragam o rei Balash. Digam que preciso dele aqui.


Não demorou e Balash podia ser avistado, menos tempo ainda demorou para que chegasse a frente de Belerofon.

- Maldição, sempre esqueço como esse seu cavalo é rápido.

Balash desceu da montaria.

- Balash, conheça a cavalaria de Aoshi.

Boquiaberto, Balash passava os olhos pelos soldados. Então, ao fitar exclusivamente o comandante deles, ouviu.

- Amigo, você nos entende?

Balash respondeu, sem qualquer dificuldade.

- Sim.

- Ótimo, seu amigo ou está surdo, ou não fala o nosso idioma.

Balash sorriu.

- Ele não é muito esperto, apenas isso.

Os soldados todos sorriram. Belerofon riu junto, mesmo sem entender nada.

- Você é o atual rei de Fergusson?

- Sim. Respondeu Balash.

- O Imperador Aoshi pediu que viéssemos ajudar contra as forças infernais. Disse que precisariam de ajuda.

- E a ajuda foi bem vinda, amigo.

O morto então passou os olhos pelo campo de batalha e constatou.

- Apesar de que suas forças foram muito bem. E parece que contaram com uma ajudinha dos céus, como nós, em Janen.

- Está dizendo que a chuva localizada também atingiu as forças infernais em Janen?

- Sim. O Imperador Aoshi que fez isso.

- Como?

- Não é importante. O Imperador cuida de nós. Nós não o questionamos.

- Hum, entendo.

- Bom, já que o problema aqui já foi resolvido, vamos retornar a Janen.

- Perfeitamente, agradeçam ao Imperador pelo seu apoio.

O morto sorriu e virou, só então pareceu lembrar de algo.

- Ah, antes que esqueça. Se importaria se levássemos as carcaças dos soldados menores?

- Para que?

- Pesquisas. O Imperador tem interesse acadêmico quanto a biologia destas criaturas.

Balash não pode deixar de pensar.

- Acadêmico? Aoshi?

Todavia respondeu.

- Claro, sem problemas. Peço apenas que deixem as carcaças maiores para que meu povo também as estudem.

- Perfeitamente, milorde. Até uma próxima vez. Disse o cavaleiro saindo, enquanto os demais amarravam as carcaças menores as suas montarias, ou as colocavam em carruagens.

- O que eles vão fazer com isso? Perguntou Belerofon.

- Estudar. Aoshi quer estudar esse inimigo. Desde quando Aoshi estuda os inimigos?

- Desde quando ele resolveu sacrificar uma cidade inteira para punir alguns. Balash, o Aoshi que conhecemos, morreu. Vamos voltar ao castelo, preciso lhe contar algumas coisas.

A criatura descia pela superfície em velocidade surpreendente. Passava próximo o suficiente para colocar a mão nos tentáculos de centenas de metros de um kraken que se alimentava de uma baleia azul.

Então viu-se a distância, com a iluminação de um raio que atravessou violentamente a superfície da água, enormes bolhas que emergiam do fundo, e então rochedos, do tamanho das maiores montanhas de Gaia.

Então, a escuridão. O silêncio.

- Mestre. Disse a criatura em um idioma mais antigo que o tempo.

A quantidade de bolhas vindas da parte mais profunda aumentou consideravelmente e o ruído ecoou por toda a região. A criatura então tirou o capuz que lhe tapava o rosto, era Eusakrates.

- Sim mestre, estão comigo. O corpo de Eusakrates começou a brilhar intensamente em uma cor azul clara, quase branca.

A distância de quilômetros foi iluminada pela torre de energia que descia ao fundo do mar.

Então Eusakrates sentiu a vibração na água, seus sentidos, aguçados por estar em seu habitat natural, lhe mostravam os desmoronamentos nos rochedos que o cercavam.

A área era tão imensa que os reinos de Janen e Fergusson caberiam inteiros ali.

Então silêncio.

- Mestre? Perguntou Eusakrates, temeroso.

Então a luz amarelada, vinda das profundezas iluminou toda a região, era o brilho de um gigantesco globo ocular.


No meio de um vale, um homem levantava, com muita dificuldade. Pôs a mão na cabeça e deixou escapar um gemido.

Então viu uma carruagem se aproximando, tentou se levantar, não conseguiu, a última coisa que viu foi quando o casal de idosos se aproximou e perguntou.

- Você está bem, meu jovem? Como é seu nome?

Mas Vlad não lembrava de seu nome, nem de onde estava, nem de absolutamente nada... Então, desmaiou.

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