quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Memória

- Mano. A voz ecoava na cabeça de Nathan. 

Não era Tiago. 

De quem seria aquela voz? Como a voz podia ser tão familiar a um homem que não lembrava sequer do próprio nome?
Pela primeira vez, os quatro homens caminhando a sua frente, começavam a diminuir a velocidade, um deles, mais que os outros. Este, era o que lhe chamava de irmão. Ele olhava fundo nos olhos de Nathan enquanto caminhavam e dizia.

- Você precisa lembrar. Precisamos de você, antes que o resto de nós destrua Gaia.

Nathan virou para frente e viu uma enorme parede de fogo.

Deu alguns passos para trás e viu que ela era curva, esférica. Então algo aconteceu.

A enorme esfera de fogo começou a encolher, como que voltando para seu próprio centro. Quando ficou não maior que uma casa, se transformou em uma criatura bizarra, coberta de tumores e brilhando de forma doentia.

Então algo chamou a atenção de Nathan ao seu lado, um jovem guerreiro, não muito diferente dele, portando um arco.

Das costas da criatura a dezenas de metros dali, veio a flecha, ao contrário até ficar, em riste, no arco do jovem guerreiro.

Nathan sentiu a terra tremer, e então a voz que disse.

- Acorde meu filho. Abriu os olhos e viu Tânia, sentada na cama, ao seu lado.

- Como está, Nathan?

Nathan esfregou a cabeça.

- Com dor, ainda.

- Você nos assustou rapazinho. Claudio está agora mesmo na oficina, tentando encontrar o que aconteceu, o que fizemos errado.

- Não, dona Tânia, não acho que tenha sido obra de vocês.

- Por que diz isso?

- Por que acho que minhas memórias estão voltando. Meses atrás tive um sonho com quatro figuras que parecia conhecer a muito tempo, mas ontem, quando o Tiago me chamou de mano...

- Duas semanas. Interrompeu, Tânia.

- Hum?

- Não foi ontem, filho. Você dormiu por duas semanas, por isso ficamos tão preocupados.

- Entendo, mas de qualquer forma, acho que estou começando a lembrar. Um jovem me chamou de irmão, acho que por isso desmaiei quando Tiago me chamou de mano. Eu tenho um irmão de sangue.

A velha sabia o que isso significava, Claudio já havia lhe dito que Nathan tinha claro interesse em voltar para Fergusson, para descobrir mais sobre o seu passado.

- E o que pretende fazer a respeito? Perguntou, claramente sabendo a resposta.

- Voltar a Fergusson, e procurar pelas figuras que tenho visto em meus sonhos.

- Entendo. Mas você ainda está muito fraco, sugiro que fique conosco mais seis ou sete dias, para ver como se sai. Se não desmaiar nenhuma vez, parta.

Nathan queria partir logo, por mais que tivesse adotado aquela família como sua, se houvesse outra família, de sangue, esperando, ele tinha que saber. Tinha que resolver aquilo.

- Está certa. Não posso arriscar uma viagem longa como essa se estiver caindo pelos cantos. Se isso tivesse me acontecido no meio de uma floresta, quem sabe quanto tempo ia sobreviver.

Em outro lugar de Gaia...

Diversos meses se passaram desde que passara por aqueles portões com nada a não ser vingança em seu coração. Hoje, os fios brancos que apareciam entre os cabelos, demonstravam que aquele não era mais o jovem impulsivo que condenou toda uma população por algo tão medíocre quanto uma vingança.

O punho cerrado sob o queixo, a postura desleixada de alguém cansado. Esse, nem de longe lembrava o guerreiro que tomou Janen em uma noite, ou que manteve o controle mesmo sob a ameaça do exército do primeiro inferno.

O enorme salão onde fica trono fora bem iluminado, no passado, janelas para o terraço e grandes lustres com centenas de velas valorizavam a tapeçaria, armas e armaduras raríssimas, em demonstração pelas paredes.

Pouco tempo depois de reassumir o controle sob o reino, as janelas foram fechadas e os lustres destruídos. As armaduras, tapeçaria e armas deram lugar a paredes e pisos de mármore negro. Sentia que a sua alma era assim, então resolveu simplesmente se esconder do mundo.

A única coisa que ousava iluminar o ambiente era uma, das quatro enormes lareiras que haviam ali.

Entre um ou outro estalo da madeira, suspirava.

- Meio ano, não mais de meio ano. Pensou ele. 

Levantou pesadamente e caminhou até a lareira.

Então a constatação.

- Tenho um exército sob meu poder já há meio ano, e o que fiz para encontrar os assassinos de minha mãe? Nada.

Nisso o guerreiro ouviu a respiração diferente da sua, até então, pensava estar sozinho ali, ao menos fora o que ordenou aos vassalos.

- Quem está aí. Bradou com black blood, sua espada, feita do braço do mais poderoso inimigo do exército infernal, o comandante.

- Você realmente mudou muito nestes meses, velho amigo. Disse a criatura saindo da escuridão.

- Eusakrates. Quanto tempo, velho amigo? Respondeu Aoshi estendendo a mão para cumprimentar o ser que se aproximava.

Eusakrates lhe cumprimentou com um sorriso no rosto.

- Menos pior que você, velho amigo.

Aoshi sorriu.

- Menos pior? Algo lhe aflige?

- Estou em uma situação complicada, velho amigo. Mas nada que possa me ajudar, então, deixe estar.

- De maneira nenhuma, apenas espere, um minuto. Aoshi caminhou até a porta da sala do trono e chamou um de seus guardas de elite.

- Por favor, chame o comandante.

Voltou caminhando a Eusakrates e continuou.

- Agora sim, me fale sobre o seu problema.

- Cometi um erro amigo, um grande erro.

- Ah sim, este é um assunto que entendo.

- Não, amigo. O seu erro é facilmente contornável, o meu pode condenar toda a vida em Gaia.

Nisso o comandante apareceu na porta.

- Sim, Imperador.

- Comandante, prepare os monges, tenho três alvos que preciso saber o paradeiro, e quero que eles descubram. Assim que encerrar a conversa com meu amigo aqui, encontrarei eles no hall do castelo.

"Os monges de Janen, de santos não tem nada. Figurando entre os guerreiros mais perigosos do mundo, são mestres em disfarces, e técnicas sorrateiras de assassinato, em muito se assemelhando as guildas de assassinos do oriente.

Diferentemente dos guerreiros sombrios do oriente. Os monges de Janen, não atuam meramente como ponta de lança, alguns deles estão infiltrados em famílias poderosas ou mesmo cortes reais de Gaia.


Para que você reconheça a diferença entre um monge comum, de um monastério qualquer, e um monge de Janen, será necessário lutar com ele, se você vencer, é por que ele não era de Janen."


Trecho de um relatório sobre Janen - Serviço de inteligência de Canópus - Autor desconhecido.

- Sim comandante.

Aoshi tornou a Eusakrates e perguntou.

- Onde estávamos, ah sim, condenar Gaia. Como diabos fez isso, criatura?

- Tem certeza disso, mano? Perguntou Tiago com a voz chorosa. - Por que não fica? Gosto de ter um irmão mais velho.

Nathan ria entre as lágrimas.

- Eu sei maninho, também gosto de ter irmãos mais novos, aliás, adoro todos vocês, tanto que isso não é uma despedida, é no máximo um até logo.

A criançada ao redor de Nathan chorava desesperada, Tânia, ao pé da porta, segurava as lágrimas, então Claudio surgiu de trás dela.

- Achei. Gritou ele com um papel nas mãos.

- O que? Perguntou Nathan.

- Meu antigo mapa. Vai precisar dele, já que nunca esteve por estas bandas. Quer dizer, não sabe se nunca esteve. O sorriso sereno no rosto de Claudio amenizava a tristeza do momento, Nathan chegara a pensar em sequer ir. Sabia que aquilo partiria o coração da pequena Annie e dos demais pequeninos que insistiam em chamá-lo de Magrelo para cima e para baixo.

Recebendo o mapa das mãos de Claudio, Nathan ouviu.

- Vou contigo até a fronteira de Alnitak. Preciso repassar algumas informações importantes.

Nathan caminhou até a porta da casa que havia sido seu lar pelos últimos meses, e abraçou a senhora Tânia.

- Muito obrigado, dona Tânia. Nunca vou esquecer o que a senhora e o senhor Claudio fizeram por mim.

- Ora essa moleque, me chame apenas de Tânia, e acho bom você vir nos visitar heim?

Nathan sorriu, secou as lágrimas e correu na direção das crianças. Abraçou cada uma delas, como se fosse a última vez, e então se jogou do rochedo, como semanas antes havia feito, durante o teste.

- Nathan, o funcionamento das suas próteses são alimentados por magia e sua energia vital. Então você precisa continuar se alimentando, como um humano normal, três refeições completas por dia, nos horários normais. Apenas o cardápio que muda.

Os dois corriam pela floresta, mais rápido que um Guepardo, mas conversavam como se estivessem tomando chá, em frente a uma lareira.

- Sim, sim, metais em geral.

- Na verdade, não. Você pode comer ferro, aço, chumbo, só não pode comer ouro.

- Ouro? Por que não posso comer ouro?

- Por que vicia. É uma maldita delícia, e terá sérios problemas se ficar viciado em ouro.

- Hum, entendo, entendo.

- Outra coisa importante. Ferimentos. Quando tiver um ferimento exposto, seja um corte, um osso exposto. Cubra o ferimento com pó de safira, esmeralda, ou rubi.

- Pedras?

- Não, pedras simples não farão efeito algum. Safira, esmeralda ou rubi. 

- Nossa, essa cura pode sair cara.

- Com certeza, então cuide para não se machucar demais.

- Diabos.

- Deixe-me ver se me lembro de algo mais. Ah, você nunca mais ficará doente, não precisa mais dormir, não sentirá mais o gosto de qualquer comida ou bebida humana.

- Sem problemas, nem lembro do gosto da comida ou bebida normais.

- Perfeito. Ah, lembrei, mantenha distância de Oshkiik, ao sudeste de Gaia. Na região costeira deste reino, vive uma espécie muito rara de besouro que come metal. Por mais que o metal em você tenha propriedades mágicas, tenho certeza quase absoluta que atrairá a atenção destes besouros.

- Ok, ficar longe de Oshkiik.

Claudio então disse.

- Vou ficar por aqui. Os dois pararam.

- Nathan, sei que é livre para seguir o caminho que quiser seguir, mas sugiro que vá pela estrada e áreas próximas a cidades, assim encontrará bicos, de trabalho que lhe sustentarão durante a viagem.

- Entendo.

- Tente não correr do jeito que corremos até aqui, isso consumirá muito da sua energia, o que vai demandar que coma bem mais que o normal. Além de gastar mais dinheiro que ganhará nos bicos, ainda vai acabar chamar a atenção de pessoas mal intencionadas.

- Sim, pode deixar.

Claudio deu um passo na direção de Nathan e o abraçou.

- Cuide-se garoto. Sentiremos tua falta.

- Não se preocupe, meu velho. Venho visitá-los tão logo tenha resolvido a minha vida.

Claudio deu as costas e deixando Nathan, a beira de uma estrada, voltou para casa.

- Bem, vejamos onde estou. Disse Nathan abrindo o mapa que lhe foi dado.

A sua frente estava a estrada da fronteira de Alnitak e Alnilam. Estivera ali antes, com Claudio, quando testaram suas capacidades, algumas semanas antes.

- Então deixa eu ver, quero ir até Fergusson. Posso pegar a estrada da fronteira que vai direto ao sul, próxima a floresta de Shamrock. O caminho mais rápido. Ou...

Olhou mais adiante e viu a pequena estrada que seguia para o oeste.

- Posso ir a oeste até o centro de Fergusson e descer me alimentando dos restos dos vilarejos destroçados pela horda... Hum.

Fechou o mapa, colocou no bolso das calças e cruzando a estrada da fronteira, seguiu a oeste.

- Aoshi, todos os acordos que realizamos, todas as almas que me deu, todas aquelas almas foram entregues ao meu mestre. Para ajudar na ressurreição dele.

- Mestre? Imaginei que você não estava sozinho no mundo, mas um mestre?

- Sim. No oceano, mais ao sul de Gaia, lá repousa o meu mestre. Eu, e os da minha espécie, viemos dele, e por isso, somos seus súditos. Servimos como agentes dele, buscando almas e outras formas de energia que possam ressuscitá-lo.

Aoshi ouvia atentamente.

- Com as últimas milhares de almas que negociamos, consegui reviver boa parte do corpo físico da criatura, e encontrar as partes restantes, espalhadas pelos oceanos. E então percebi o erro que cometi. Aquela criatura vai destruir toda vida sapiente de Gaia.

- Como percebeu isso apenas agora, depois de milhares de anos de servitude.

- Não sei como, Aoshi. Apenas vi no olho da criatura.

- Entendo. E como podemos pará-lo?

- Não podemos. Ninguém em Gaia tem tanto poder.

Aoshi passou a mão sobre o queixo, refletindo sobre a informação. O fim do mundo estava próximo. E não havia nada que ele pudesse fazer a respeito.


Belerofon, enquanto caminhava pela floresta, sorria, lembrando da batalha contra a horda, contra as forças infernais. A vez em que Vlad e ele destruíram uma taverna, no dia em que se conheceram.

Sentia saudade do amigo, por isso não havia deixado de procurá-lo, duas ou três estações depois do seu desaparecimento.

- Belerofon, eu detesto dizer isso, mas Vlad, deve ter virado pó. Sequer encontramos uma parte de seu corpo. E há de convir que aquela explosão era demais para qualquer um de nós.

Ainda podia ouvir Balash lhe implorando para desistir da jornada ao norte. Mas ele não podia fazer isso, não. Enquanto não encontrasse um corpo, não desistiria.

Caminhava agora pelo Bosque de Tyr, na região centro-norte de Fergusson, já havia passado por cada cidade, vilarejo ou mesmo acampamento destruído no caminho e não encontrara qualquer vestígio do amigo.

Então a oeste, por entre as árvores, viu a pilha de escombros.

- Hum. Não lembro deste vilarejo. Disse sussurrando.

Iniciou a caminhada até a fronteira do bosque, atravessou o descampado e viu de perto.

- Vinte, trinta pessoas viviam aqui. Constatou.

Caminhando por entre os escombros, como se procurasse por algo, sorriu, ao encontrar uma pesada porta de madeira.

- Ótimo. Disse.

Largou a pesada mochila que carregava, e começou a cavar um pequeno buraco. Caminhou até a porta e, usando uma faca de caça, começou a entalhar uma mensagem.

"Vlad, se ler isso, saiba que não desisti de você, meu amigo. Se você souber o paradeiro de um homem de cabelos negros, estatura média, que atenda por Vlad Tapirsh. Vá a Fergus. Existe recompensa.

Ass. Belerofon"

Cravou a porta no chão, deixando-a de pé, tapou o buraco com as mãos, e então seguiu ao norte, procurando pelo próximo vilarejo.

O céu estrelado, a lua cheia no topo dele e a brisa suave que soprava do norte davam o tom perfeito para noite de Balash que, apoiado no parapeito da sacada do castelo, seus súditos caminhando pela cidade.

Já havia duas luas que Belerofon havia deixado o reino, antes disso, muito tempo antes que Vlad desaparecesse, quando o falecido Rei Ulrach ainda governava Fergusson, Aoshi havia deixado o reino.

Desde então, o amigo tem se tornado uma preocupação, uma dor de cabeça, até. Aoshi tinha dentro das muralhas de Janen um contingente absurdo de soldados mortos vivos, bem treinados, imunes a doenças, fome e outras mazelas que podiam se abater a qualquer momento em Fergus.

Balash se sentia a mercê de um louco. Não gostava disso, mas não tinha escolha, ainda se recuperava do baque das forças infernais, o que lhe deixou em débito com Aoshi, lhe custou Vlad, e Belerofon, que pouco tempo depois deixou o reino em busca do amigo. Além é claro de simplesmente exaurir as capacidades de alimentar o povo durante o inverno seguinte. Quem dirá entrar em guerra?

- Balash, tem um minuto? Balash reconhecia aquela voz, já havia muito tempo que não a ouvia, mas jamais esqueceria.

- Aoshi. Disse, antes mesmo de virar. - Bom ouvir a sua voz, amigo.

Viu a porta um Aoshi praticamente irreconhecível. Pálido, cabelos curtos, fios brancos no topo da cabeça, e na barba. Mais magro que de costume, e utilizando uma armadura cerimonial, Aoshi caminhava na direção de Balash.

Estendeu a mão, esperando o cumprimento.

- Digo o mesmo. Aoshi sabia o que preocupava Balash, o amigo era justo, um ótimo guerreiro, e pelo que Aoshi vira até então, um excelente governante. Mas tinha medo. Medo do amigo louco com um exército de mortos, à sua porta.

Balash retribuiu a cordialidade. Não seria ele que iniciaria a briga.

- A que devo a honra? Depois de tanto tempo.

- Lembrei que nunca me agradeceu pela ajuda de algum tempo atrás, então vim fazer uma visita de gratidão eu mesmo. Balash sorriu.

- Ei, sabe que não sou mal agradecido. Precisa de algo?

Aoshi caminhou até o lado de Balash e olhando para o horizonte, explicou.

- Recebi notícias perturbadoras meu amigo. Lembra do que encontramos debaixo de Shamrock.

O flash de memória relacionado a criatura ameaçadora que habitava as profundezas de Shamrock passou pela cabeça de Balash, fazendo com que desse um passo para trás.

- Pelo jeito, lembra. Respondeu Aoshi, rindo.

- Existe algo parecido com aquilo, só que no mar, e está prestes a acordar. Ambos caíram em Gaia durante uma briga. Balash, da ultima vez que esses dois brigaram, não existia nada vivo em Gaia, temo que quando um deles acordar novamente, voltaremos a "nada vivo em Gaia".

- Entendo, quem foi que lhe passou essa informação?

- Um conhecido, fonte confiável.

- E o que podemos fazer a respeito?

- Essas forças tem poder o suficiente para destruir toda vida de Gaia. O que podemos fazer a respeito? Nada.

- Hum. Por que veio a mim então? Se não era para nos unirmos contra isso.

- Em primeiro lugar, achei que você devia saber, o que vem no horizonte. Segundo meu contato, temos uns dois ou três meses ainda antes que a criatura levante do mar. Em segundo lugar, imaginei que o amigo tivesse algumas contas a acertar, antes do fim. Eu mesmo estarei muito longe do meu trono pelas próximas semanas, tenho que encontrar os monstros que me criaram.

Balash lembrou dos assassinos da mãe de Aoshi, sentiu um aperto no peito, lembrou pela primeira vez que o seu amigo, era um humano afinal.

- Entendo. Agradeço pela consideração Aoshi, do fundo do meu coração. Mas vou fazer algo diferente com o pouco tempo que me resta. Vou tentar encontrar um jeito de impedir este retorno. Aoshi sorriu.

- Um otimista incorrigível, bem como lembrava. Vlad, e Belerofon, onde estão aqueles dois? No puteiro?

- Não, Vlad desapareceu depois do ataque das forças do inferno meio ano atrás, quando cancelei as buscas pelo corpo, Belerofon deu as costas e saiu pelo portão da muralha. Acho que já fazem uns dois meses que não o vejo.

- Continuam inseparáveis, pelo jeito.

- De certa forma. Seguiu-se um tempo de silêncio desconfortável, que foi quebrado por Aoshi.

- Acho que vou voltar a Janen, tenho mais algumas coisas para resolver, afinal de contas, o tempo urge.

- Entendo. Sinta-se livre pra me visitar, Aoshi, sempre que quiser. Ainda somos amigos, certo?

- No que depender de mim, sempre. Balash sentiu a alfinetada de Aoshi, mas decidiu não retrucar.

- Cuide-se, meu amigo. Disse estendendo a mão a Aoshi.

- Você também. Respondeu, saindo.

Belerofon caminhava tranquilamente, pelas pradarias, em direção ao norte, com o vento frio que parecia aumentar exponencialmente. Nada com o que ele já não estivesse acostumado.

Belerofon se criou sozinho, ao extremo norte de Fergusson, próximo a fronteira com o Branco Infinito, nas montanhas geladas de Urak-Tuu. Então a brisa que causaria queimaduras na maioria dos cidadãos de Gaia, apenas arrepiava os pelos dos braços do guerreiro.

A proximidade do lugar de seu crescimento, de forja na arma em que se tornou quando adulto o deixava cada vez mais apreensivo. Já faziam diversas estações desde a última vez que pisara naquele solo úmido, frio e infértil.

Apesar de ser criado às imediações do continente gelado, não era como os demais. Algo lhe dizia que a verdade absoluta não estava nas palavras do profeta de Shanauka, Deusa do Gelo Eterno, a principal divindade cultuada nos reinos do norte.

Algo lhe dizia que o deus do leste, da fornicação e da balbúrdia era o mais adequado, e pelas regras de Subba, ele viveu, desde sempre.

- Quanto tenho vontade de beber, bebo. Quando tenho vontade de trepar, trepo. Com quem ou o com o que quiser... Diabos, se quiser trepar com aquele candelabro, só peço um pouco de vaselina. Dizia o bonachão, gargalhando até tossir, normalmente caindo de bêbado, não costumava ser tão desbocado, a não ser que estivesse caindo de bêbado.

E era mais ou menos isso que o culto a Subba pregava, diabos, era isso o que o próprio Subba fazia.

Os minotauros, centauros, pégasus, grifos, chimeras, os homens-macaco que infestam o sul de Shamrock, os homens-sapo das regiões pantanosas de Cynder, e tantas outras criaturas mistas de Gaia... Tudo "obra" de Subba...

Amante da boa comida e da bebida alcoólica, nunca abandonou vício algum após a ascensão ao status de divindade, por isso era tido como o Deus da Verdade, da Inteligência e do Instinto.

Então Belerofon viveu desta forma, toda sua vida... De forma mais controlada que a maioria dos devotos de Subba, mas ainda assim, bastante fora dos padrões de Gaia.

Do nada, simplesmente sentiu vontade de orar, ao seu deus, algo que a vários anos não o fazia. Não por vergonha da sua divindade, que apesar de ser a divindade soberana em Alnilan, Alnitak e Mintaka, não era exatamente bem aceita no restante dos reinos ditos, civilizados de Gaia.

Belerofon se ajoelhou e iniciou.

- Olá Subba, bastante tempo que seu amigo aqui não lhe fala, certo? Quando foi a última vez? Nem lembro. Queria pedir perdão por isso. Não é que tivesse vergonha de orar, ou mesmo que tenha esquecido. Simplesmente nunca fui de orar sem sentir a necessidade, mas agora, agora que perdi um grande amigo, queria contar com a sua ajuda. Para lhe mostrar o caminho certo ao outro mundo, que cuide dele como cuidou de mim durante toda a minha vida.


Nisso ouviu passos e se virou subitamente. Um homem em vestes de bardo se aproximava, tirando música de uma viola.

Acalmou-se e acompanhou com os olhos o homem que passava ao seu lado, fazendo música e caminhando, com os olhos cerrados.

- Hum, curioso. Pensou. E então falou.

- Olá. O homem pareceu levar um susto, baixou a viola e perguntou com a voz tremula.

- Você não vai me assaltar, não é? Três assaltos num mesmo dia. Já estou ficando sem lugares para esconder o pouco dinheiro que carrego.

Belerofon sorriu.

- Não, não, de forma nenhuma.

- Menos mal, como é o nome do senhor?

- Belerofon, e o seu, meu rapaz?

- Ah, meu nome é muito extenso e praticamente impronunciável para a maioria dos humanos. Belerofon questionou, apreensivo.

- Você, ou a sua mãe não são humanos?

- Ei amigo, acabamos de nos conhecer e você já quer saber da minha mãe? De qualquer forma, sim, sou humano sim. Por que? Você não o é?

Belerofon lembrou de Aoshi, um necromante meio morto, meio vivo... Lembrou então de Balash, um morto que não sabia estar morto e respondeu.

- Acho que ainda sou um dos poucos humanos puro-sangue que caminham por Fergusson nesses dias.

- Uma dádiva isso, meu amigo. Uma verdadeira dádiva. E os humanos dão suas almas ou qualquer coisa que possam fazê-lo para ganhar poder, para deixarem de ser humanos. Por que isso? Meu amigo, nunca o entendi.

- É da nossa natureza amigo, somos seres auto-destrutivos. Oro por Subba, acredito que essa fosse a principal mensagem dele.

- Interessante, fale mais. Disse o homem deitando a viola no chão e sentando na grama.

Belerofon sentou também.

- Bebida, mulheres, mulheres, bebida, bebida, comida, animais... Todos os dias, todas as noites, o tempo todo. Isso é o mote de Subba, parece simplesmente um fornicador alcoólatra a primeira vista, certo?

- Aham.

- Errado. O que ele pregou, a todos com quem teve contato foi a paz, e a tranquilidade, o alimentar dos instintos e da alma. Mas nunca a violência. Era um deus pacífico. E por isso oro por ele, por que a minha alma é suja, é alma de um Berserker. Cheia de ódio. Por isso eu bebo quando tenho sede, e fornico, não sei se a palavra existe, mas você entende, não é?

- Ah sim, com certeza.

O bardo levantou, com a viola na mão e disse.

- Sabe, isso é uma ótima oração ao seu deus, poucas vezes vi alguém tão devoto dele. Talvez seja o dia para você pedir algo a ele, heim?

Caminhou até Belerofon, lhe estendeu a mão cumprimentando-o, deu as costas e então saiu, seguindo o seu caminho, tocando a sua canção.

- Sabe que o bardo está certo, Subba. Você bem que podia me ajudar a encontrar Vlad, não? Sei que não tenho uma daquelas grandes piras que costumam te oferecer mais ao leste, mas eh... Tenho minhas boas intenções. Acho que isso tem que contar, ao menos um pouco. E soltou uma sonora gargalhada.

Não sabia muito bem como aquilo tudo funcionava, e agora, será que receberia um sinal, ou Vlad cairia no seu colo? Esperou mais um pouco e pelo silêncio todo que continuou a imperar, levantou e largou um grito.

- Tá bom, não precisa ajudar então.

Então viu a oeste, uma torrente de fumaça.

- Um sinal?

Soltou um risinho e falou em sussurros.

- Obrigado. Enquanto seguia na direção da fumaça.

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