quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Memória

Caminhando por um campo cheio de flores, o jovem sentia o vento frio, vindo das montanhas a sua esquerda, nada que o sol, imponente, tomando conta dos céus, não amenizasse.

Via um grupo de homens caminhando, não muito a sua frente. Conhecia aquelas fisionomias. Apressou o passo. Quatro homens. Quatro guerreiros.

Eles conversavam sobre tempos de paz, sobre musica, sobre comida. Não pareciam se preocupar com as mazelas do mundo.


O jovem abriu os olhos e viu o teto de madeira.

Virou para o lado direito, sentiu muita dor no pescoço e cabeça. Não lembrava de nada, não lembrava de quem era, a única coisa que lhe passou pela cabeça foi.

- O sol já está alto no céu. Constatação pela luz que passava pela janela.

Gemendo, virou para o outro lado, viu uma criança, sentada a alguns metros da cama. Antes que pudesse falar algo, ouviu.

- Oi.

Mesmo sentindo dores, não conteve o sorriso e respondeu.

- Olá.

A linda garotinha, sentada em uma cadeira alta, balançava os pés tranquilamente.

- Menina. Você sabe me dizer onde estou? Perguntou, sua própria voz ecoava pelo cérebro, como se fosse um grito em uma caverna. Se arrependeu de ter falado.

- Na casa dos meus pais.

- E onde fica isso?

- Alnitak.

- Alnitak, Alnitak... Sussurrava o jovem. - Não lembro de ter estado neste reino.

- É, nós o encontramos em Fergusson.

Nisso a porta se abriu e um garoto de não mais de quinze primaveras entrou.

- Annie. Já chega. A mãe tá te chamando.

A garotinha desceu da cadeira com certa dificuldade, o jovem deitado na cama não conseguiu manter a seriedade.

- Muito linda a sua irmã. Disse usando de todas as suas forças para sentar.

Percebeu então que a casa era muito simples, pela fresta da janela, viu algumas vacas no pasto e nada mais adiante.

- Estranho. Disse o garoto ao pé da porta, sério. - Não fui eu quem lhe trouxe, foi meu pai. Se dependesse de mim, você teria ficado agonizando naquele campo em Fergusson.

O jovem sorriu pela bravata do menino.

- Então agradeço aos deuses que não dependeu de você.

Ambos ouviram então a voz gentil da velha senhora que estava parada a porta.

- Já chega meninos. Tiago, deixe nosso convidado em paz.

O garoto virou para a velha senhora e respondeu.

- Sim, mãe. Então deu as costas e saiu.

- Irreverente o seu garoto, senhora. A velha sorriu mostrando a dentadura perfeita, algo para pessoas daquela idade, naquela época.

Com muita dificuldade, o jovem tirou as pernas de cima da cama e as colocou sobre a pele de ovelha que ficava ao chão, sentiu a maciez e sorriu. 

A senhora caminhava lentamente pelo quarto em direção a cadeira onde a menina estivera, pouco antes.

- Como é seu nome, meu jovem? Perguntou ela.

Pensou, olhou para o teto do lugar, depois para frente, depois de volta para a senhora e respondeu.

- Boa pergunta, senhora. Por alguma razão, não faço ideia.

A velhinha tornou o semblante sério, e disse.

- Encontramos você atirado num campo em Fergusson. Quase morto. Meu marido e eu estivemos no reino para o casamento de um dos nossos filhos. E quando voltávamos, vimos os abutres sobrevoando o seu corpo, quase sem vida.

O jovem ouvia, enquanto analisava seus ferimentos.

- Você tinha queimaduras seríssimas pelo corpo todo, nem mesmo seu rosto foi poupado, por sorte o encontramos.

Passou a mão pelo rosto então e sentiu que tudo parecia estar, de fato, no lugar.

- Não se preocupe, meu marido e eu somos uma espécie de curandeiros, lhe deixamos como novo, ou ao menos... O mais próximo do que costumava ser.

- Não desfazendo a ajuda da senhora, e do seu marido mas, por que me trouxeram para tão longe? Por que não me deixar em um dos vilarejos do norte de Fergusson? Ou na capital, Fergus?

- Você estava bastante longe de Fergus quando o encontramos, muito ao norte, e os vilarejos ao norte ainda não foram repovoados. Por todas as vilas que passamos ainda haviam apenas escombros, restos da horda, alguns anos atrás.

- Entendo.

- Além do mais, se quiséssemos lhe salvar, precisaríamos de nossas ferramentas e ingredientes para uma cura permanente. Você chegou aqui com a nossa ajuda, é verdade, mas foi a base de remendos. E não estou brincando.

Nisso ambos ouviram a voz, vinda da porta.

- É verdade, seus intestinos foram colocados de volta para dentro e presos por uma cerca de metal que encontramos no caminho.

- Jovem, este é meu marido. Claudio.

- Muito prazer, meu senhor. Levantaria para cumprimentá-lo, mas acho que vou ficar devendo isso para um próximo momento.

- Faça isso, jovem. Repouse, todo este... O velho parecia procurar o termo mais adequado. - Conserto que fizemos em você ainda pode ser rejeitado, em caso de utilização massiva.

O jovem não entendeu muito o que o velho homem falava. Conserto, rejeitado, utilização massiva.

Então a velha senhora levantou e disse.

- Fique deitado, logo lhe trarei seu almoço.

Sentiu-se tonto, exausto, apenas por aqueles instantes onde ficara sentado. Agora sabia que aquelas pessoas eram boas, e cuidariam dele, podia dormir em paz, então deitou novamente.

- Que diabos significou o sonho? Quem eram aqueles homens? Por que lhe pareciam tão familiares? Qual era o significado disso tudo?

Sentia fortes dores nas pernas, e seu antebraço direito formigava. Como sobrevivera, a uma viagem tão longa quanto o trajeto entre Fergusson e Alnitak, estando quase morto? Aqueles dois deviam ser ótimos curandeiros.

Longe da recuperação completa, o jovem permaneceu em repouso por mais algumas semanas. Além das conversas com o casal que salvara sua vida, ele ainda recebia livros, a maioria deles sobre engenharia e alquimia, o que lhe ajudava a passar o tempo enquanto suas feridas cicatrizavam.

Enquanto seu corpo melhorava e sua mente se desenvolvia com a leitura, sua psique se recuperava pela convivência com as dezenas de crianças adotadas pelo casal de idosos. Mais de vinte, pelo que o jovem já havia visto.

Crianças de todas as raças, cores e civilizações de Gaia corriam pela casa todos os dias, e já tratavam o jovem como um membro antigo da família. Como ainda não lembrava do seu nome, as crianças logo encontraram um para ele.

- Magrelo, lê uma história pra gente?

O jovem riu, e adorou o apelido, que logo pegou.

De onde surgiram todas aquelas crianças? Seriam deixadas a porta de Claudio e Tânia? Impossível, eram mais de vinte crianças. O "Magrelo" achou aquilo tudo muito esquisito.

Embora seu corpo estivesse melhorando, algo continuava mal, pois seguidamente ele vomitava as refeições. Seria algo na comida? Alguma alergia? Como o magrelo não lembrava de nada, bem poderia ser.

Seria um ferimento interno, não cicatrizado? Impossível. Dois curandeiros que foram capazes de mantê-lo vivo em viagem, não errariam desta forma. Ou errariam?

De qualquer forma, não sentia fome, mesmo após vomitar toda a refeição pouco tempo depois de levantar da mesa, e mesmo assim as coisas pareciam melhorar rapidamente, tanto fisicamente, quanto no relacionamento com os membros da família. Até mesmo o jovem Tiago parecia aceitar a presença do Magrelo agora.

No dia que o Magrelo saiu da cama, todas as crianças estavam ao seu redor, e Tiago estava lá, feliz por sua recuperação.

Quando de pé, sozinho, pela primeira vez em semanas, sentiu-se pesado.

- Diabos, quanto peso terei ganho? Também pudera, fiquei sabe-se lá quanto tempo na cama, apenas comendo.

Deu seus primeiros passos pela casa, em direção a porta de entrada. Os braços, semi levantados, buscando o melhor equilíbrio para alguém que por muito tempo estava na horizontal.

Abriu a porta e se deparou com a incrível visão.

"Alnitak é um dos reinos mais impressionantes de Gaia. A vista das montanhas rochosas, e seus vales cobertos do verde das florestas. As pontes cilíndricas, que cruzam rochedo a rochedo, um verdadeiro desafio aos corajosos, e mais que isso, uma obra de engenharia inacreditável.

O povo de Alnitak, devido a essa característica geológica, teve certo benefício em sua evolução. São de longe os melhores escaladores de Gaia. Mesmo idosos surpreendem ao caminhar pelas pontes cilíndricas com destreza de adolescentes.


As pontes podem ser uma comodidade para os nativos de Alnitak, mas para os visitantes, são um grande desafio. Balançando acima das nuvens, sob os fortes ventos da região e o frio da elevada altitude, não são raros os casos de acidentes envolvendo mercadores que tentam caminhar por entre os rochedos e acabam vomitados e desesperados.


Mas, como em qualquer população, existem as exceções, Alnianos que não foram beneficiados pelos genes de cabras da montanha, animal símbolo do país, tiveram de encontrar uma maneira de sobreviver ao seu próprio reino.


Desta forma, nasceu a engenharia humana, em Gaia. - A criatividade é a mãe da necessidade. Já dizia Subba, Deus idolatrado em Alnitak. Os primeiros elevadores e bondes suspensos de Gaia foram criados em Alnitak, durante os anos de Burak, o 15º governante do reino rochoso.



A população de Alnitak não é das maiores, entre os reinos civilizados, acredito que esteja inclusive entre as menores, mas é um dos poucos impérios que jamais foi conquistado. 

Boa parte disto se deve por ninguém entender totalmente seu sistema de governo, cujos candidatos ao comando duelam com espadas enquanto balançam em cipós entre os rochedos. Bastante democrático, não?

O restante do ritual ainda é mais surpreendente, onde os quatro candidatos sobreviventes testam suas habilidades em um jogo de cartas conhecido como Tabuga, realmente impossível de entender completamente por que não é nativo.

O jogo parece consistir em formar sequencias de quinze a vinte símbolos. Utilizando-se de até trinta cartas em cada mão, o primeiro candidato que conseguir formar os símbolos em uma das mãos, a tem livre para aplicar tapas na face do outro candidato. Algo que, por incrível que pareça, parece estar dentro das regras.

Existe uma parte final a qual não consegui entender, pois apenas vi um candidato jogando porcos vivos no outro, enquanto este tentava capturá-los.


Dada essa situação, Alnitak permanece um mistério, já que ninguém conhece as técnicas de defesa deste, que apesar de ser um dos menores reinos, em população, de Gaia, permanece como um dos mais antigos"

Trecho de um Relatório sobre Alnitak - Serviço de inteligência de Canópus - Autor desconhecido.

Viu o céu azul, algo raro na região, e à distância as enormes formações rochosas que se alçavam aos céus. Então, entendeu.

- Diabos, será que estou em uma destas também?

Desceu com certa dificuldade as escadas até a grama verde e úmida. Deu a volta na casa. Estava cercado de um despenhadeiro de não menos de cem metros de altura.

- Ainda não, meu jovem. Disse o velho. - Se tentar agora, certamente vai ficar parecido com purê de batatas, lá embaixo.

Virou lentamente.

- Não pretendo tentar, não seria muito sábio da minha parte. 

Começava a achar aquilo tudo muito estranho, a falsa sensação de liberdade que tivera até então caiu por terra, quando descobriu que estava em uma "prisão" a mais de cem metros acima do solo.

- Além do que, você não é nativo, vai morrer se tentar, de qualquer forma. Temos um outro meio para os visitantes. Quando estiver melhor, lhe acompanho até o solo.

Sentiu frio, então voltou rapidamente para dentro de casa, analisando o exterior, como poderia fugir dali, rápida e silenciosamente, caso precisasse.

Olhou novamente para algumas nuvens que se formavam muito abaixo de onde estava, e orou aos deuses para que não precisasse de uma fuga desesperada.

Alguns meses antes, a diversas semanas de viagem dali.


- O que foi que disse sobre Aoshi sacrificar uma cidade? Que cidade? Desde quando Aoshi entende de necromancia? Belerofon, que caminhava ao lado de Balash, respondeu.

- Janen, o reino de Janen. Aoshi nunca nos contou, mas ele foi regente de Janen por poucos anos, então foi traído, por isso caiu em Shamrock, quando nos encontramos pela primeira vez. Em busca de vingança ele condenou todas as almas de Janen, e agora tem um exército de mortos vivos, como você pode ver.

Balash ouvia atônito. Nunca imaginara Aoshi como santo, em parte, justamente pelo guerreiro sempre esconder seu passado, mas também não esperava que se tornasse uma ameaça.

- Um exército de mortos vivos. A nossa porta. Sussurrou ele.

- Sim. Isso pode se tornar um problema.

- Sim.

A essa altura os dois guerreiros atravessavam os portões de Fergus, pessoas corriam por todos os lados, ainda dando conta de focos de incêndio da batalha travada na noite passada.

- Quanto tempo até Fergus estar recuperada? Perguntou Belerofon.

- Ainda é cedo para dizer mas, a primeira vista, sabemos que as fazendas e áreas férteis ao redor da fortaleza viraram cinzas. Perdemos poucos soldados, ao menos quando comparado a estimativa que eu havia feito. Os danos estruturais foram mínimos. Sim, casas e alguns estabelecimentos foram pegos nos incêndios, mas ainda assim, mínima coisa, quando comparado ao que poderia ter acontecido se a chuva de fogo não tivesse terminado.

Belerofon parou de caminhar e bateu com a mão na testa.

- Vlad!

Balash virou.

- Maldição, como esquecemos dele?

- Balash, mande um destacamento do exército procurar por ele na cratera e arredores, vou a cavalo na frente.

Ao noroeste dali.

- Estranho. Disse o ferreiro.

Aoshi, com os braços cruzados, ao lado dele, perguntou.

- O que é estranho, ferreiro?

- A consistência deste material. A resistência mecânica é semelhante ao carvão, quebra com facilidade. Por outro lado, a resistência a impactos é semelhante ao aço.

- Hum. Ferreiro, não se preocupe com recursos, leve este espécime para sua oficina, e estude-o. Quero saber se podemos usar isso em combate. E se podemos suprir essa fraqueza quanto a resistência mecânica.

Aoshi então saiu, seguido de perto por um soldado.

- Estou indo para torre, não quero ser incomodado. Aoshi parou.

Os soldados esperaram por algum comando que acabou não vindo. Aoshi voltou até a criatura, que era analisada pelo ferreiro, arrancou com as próprias mãos, um braço do inimigo morto e saiu.

- Dever de casa. E iniciou a caminhada na direção da torre.

O jovem, já quase que completamente recuperado, caminhava ao lado de Claudio, ao redor da casa. Sob os dois, uma fina garoa caía.

Esta manhã, novamente havia vomitado parte da sua refeição e finalmente encontrou a coragem para falar algo a respeito.

- Vem cá, vocês estão tentando me envenenar, ou algo do tipo? Por que essa história de vomitar todos os dias já me encheu o saco a tempo.

Tão logo falou isso a mesa, sentiu que não devia ter perdido o controle. Três dos filhos mais jovens do casal fecharam a cara na hora. Annie desatou a chorar.

Estranhamente, nem Claudio, nem Tânia, a velha senhora, pareceram se importunar com o rompante de fúria. Apenas Claudio, levantou e disse.

- Vamos dar uma volta.

Por um momento o jovem pensou que seria arremessado do despenhadeiro. Ainda se sentia muito fraco, o semblante calmo do velho,  o trabalho que Tânia teria em acalmar a criançada novamente.

- Nathan... Este fora o nome provisório que o casal decidiu dar ao jovem, enquanto não descobrissem sua real identidade. - Não existe um jeito fácil de dizer isso, mas...

Nathan, tenso, apenas ouvia. Será que iria morrer? A cura não era permanente? Diabos, agora que estava acostumado a vida nas montanhas, até mesmo tendo idéias sobre filhos.

- Eu vou morrer? Interrompeu Nathan.

- Não, não. Respondeu o velho sorrindo. - Não é nada disso.

Nathan mais tranquilo, suspirou.

- É justamente o contrário.

- Oi? Perguntou Nathan, confuso.

- Quando lhe encontramos, seus intestinos estavam espalhados pela grama, seu antebraço direito havia desaparecido, e por mais que Tiago tivesse procurado, não conseguira encontrar em lugar algum.

Nathan olhou seu antebraço, perfeito, e pensou.

- Mas de que diabos esse velho está falando?

- Ambas as suas pernas estavam completamente dilaceradas. Estava cego de ambos os olhos, a parte inferior do seu maxilar também havia desaparecido e por aí vai.

- Não entendo, Tânia e o senhor disseram que me encontraram quase morto. Essa sua descrição, é de alguém completamente morto.

- Pois é amigo, essa descrição é de alguém completamente morto, sim. Mas você teimava em sobreviver. Parecia um corpo sem vida, jogado no chão, espalhado pelo chão. Mas o seu olho direito, completamente cego, ainda se movia, talvez fossem movimentos involuntários, nunca saberemos. Mas o que importa é que você está vivo, e que fizemos tudo. O velho deu bastante ênfase a palavra "tudo". - Realmente tudo ao nosso alcance para te colocar de pé.

- Espere aí. Vocês não me transformaram em um morto vivo, ou algo do tipo, não?

- Não, não. Não somos necromantes, nem nada do tipo. Mas, para um ser natural você já não serve mais, Nathan.

- Mas que?

- Lembra que Tânia lhe falou que ela é curandeira e eu alquimista? Nathan acentiu. - Depois do que leu sobre alquimia, lhe parece algo maligno?

- Não, acredito que não.

- Exatamente, usei todo o meu conhecimento para lhe... como dizer? Reconstruir. Tânia, usou todo o conhecimento dela para manter sua consciência, sua mente, neste novo corpo.

- Mas então, esse corpo não é o meu?

- Olha... Disse o velho virando olhando para o corpo de Nathan. - Acho que um sétimo dele é, o restante é máquina, química e mágica. Nathan caiu sentado.

- E você vinha vomitando a comida, por que agora seu corpo não precisa mais de carne ou batatas, precisa de minério. Eu vinha colocando pó de ferro na sua comida, isso que acelerou sua recuperação. Mas também não podia simplesmente lhe dar um candelabro e dizer pra comer, não é?

- Eh, o senhor podia me deixar sozinho por um tempo.

Claudio apenas concordou, deu um tapinha no ombro de Nathan e o deixou, envolto em seus pensamentos.


Já fazia horas que Nathan estava sentado na grama úmida, olhando para os rochedos vizinhos, enquanto pensava na vida, e tentava assimilar o fato de que seu corpo não era mais seu. Onde acabava  Nathan, e onde começava a máquina? Ele se perguntava.

Da porta da frente da casa, Claudio e Tânia observavam.

- O pior é que não existe outro meio de contar, não é? Disse o velho.

- Infelizmente não. Só lhe resta entender.

- Você não acha que ele vai pular, não é?

- Acho que não, mas sugiro que você vá lá conversar com ele antes que essa ideia lhe passe pela cabeça.

Claudio acentiu e tomou a frente, ainda estava longe quando ouviu.

- Surpreendente trabalho nos meus ouvidos, velho.

Disse Nathan olhando para o horizonte, sentado na grama úmida. Claudio sorriu.

- Não são apenas os ouvidos, não é?

- Sim. Sinto o bater de asas de uma abelha nas flores, atrás da casa. Sinto o aroma delas também.

- Nossa, o trabalho então ficou melhor que o esperado.

- Obrigado.

Claudio permaneceu em silêncio, enquanto Nathan se levantava.

- Obrigado, Claudio. Disse ele virando na direção de Claudio e se aproximando. - O senhor e a senhora Tânia salvaram minha vida. Posso ter soado mal agradecido antes, e não quero que pense isso de mim. Apenas foi uma notícia meio forte.

- Sem problemas, Nathan. Respondeu Claudio, levando a mão ao ombro de Nathan. - Logo, logo, nem lembrará que isso aconteceu.

- Ah, mas eu quero lembrar.

- Como assim?

- Quero voltar a Fergusson. Tão logo esteja recuperado. Quero descobrir quem fui, por que quase fui destruído, e por que em Fergus.

- Nathan, não posso lhe negar esse direito, mas talvez não devesse procurar sobre um passado que não lhe pertence mais.

Nathan, olhando para o horizonte, respondeu.

- Eu sei que não sou mais o mesmo. Já entendi isso, mas e se tiver alguém me esperando? Semanas atrás, sonhei com figuras familiares. Não lembrei do nome de ninguém, mas as figuras eram estranhamente familiares, preciso encontrar essas pessoas.

- Estranho, você lembrar de algo tão específico quanto uma memória, e não lembrar do próprio nome. Estas pessoas devem ser, realmente, muito importantes na sua vida.

- A propósito, tinha algo que já queria lhe perguntar a tempo, mas sempre acabava esquecendo.

- Fale.

- Por que me recolheram? Como sabiam que não era algum tipo de criminoso perigoso?

- Apenas sabíamos. Tânia é uma ótima julgadora de caráter.

- Então foi um palpite?

- Sim, basicamente.

- Vocês tem vinte e poucas crianças em um ponto isolado do reino. Ambos são idosos. Trouxeram alguém que, claramente foi assassinado, para dentro da sua casa, e lhe deram um novo corpo. Isso tudo não soa meio arriscado para ser decidido apenas em um palpite?

- Sob essa ótica, com certeza. Mas sabemos nos defender.

Nisso os dois ouviram os passos apressados.

- Magrelo, magrelo. Era a pequena Annie.

Por mais que Claudio e Tânia tivessem dado um nome sério ao jovem desconhecido, os pequeninos da casa ainda utilizavam o apelido carinhoso, dado por um deles, semanas atrás.

- A mãe tá te chamando pro café da tarde. Nathan pegou a garota colocou nos ombros e disse.

- Então vamos logo. E correu na direção da casa, com a menina que gargalhava gostosamente aos seus ombros.

Sentado a mesa, pela primeira vez, se deparando com a realidade, Nathan olhava para o prato a sua frente, cheio de pregos, parafusos e pó de ferro. Quando conseguiu tirar os olhos do prato horrível, percebeu que a maioria dos pratos na mesa tinham o mesmo conteúdo, exceto por um ou outro, que tinha pão e fatias de salame.

- Ah sim. Você ainda não havia percebido isso também, não é? Perguntou Tânia.

- Todos eles... Começou Nathan.

- Sim, alguns deles tem o sistema digestivo humano ainda. Mas a maioria não teve a mesma sorte. Ou teve, já que, é muito mais fácil tirar um prego de uma porta, ou comer uma maçaneta em uma cidade, que receber um prato de comida de um estranho. Respondeu Claudio, Tânia, então continuou.

- Em Alnitak, se você não nasceu para a escalada, não serve para viver. É um costume muito antigo, adotado por menos Alnianos a cada ano, mas ainda praticado em algumas regiões. Esses "deficientes", se tiverem sorte, são abandonados, ainda bebês no nível do solo, de Alnitak.

- E se não tiverem tanta sorte? Ousou perguntar, Nathan.

- São simplesmente arremessados do topo de um rochedo. Respondeu Claudio.

Nathan não sabia exatamente o porque, mas sentia sua empatia por aquele povo aumentar exponencialmente. Teria a sua história sido semelhante. Uma tragédia na infância?

Vendo que aquelas crianças se deliciarem mascando pregos, não pode deixar de rir ao colocar um na boca.

Nathan e Claudio a beira do penhasco de centenas de metros, aproveitavam um dia como poucos, em Alnitak. O sol, subia ao topo do céu, iluminando os vales e os rochedos por igual. E mesmo o vento, costumeiramente gelado, vindo do norte, soprava gentilmente.

- Como lhe disse anteriormente, temos uma forma mais amena de descida dos rochedos, mas como já vive conosco a meses, praticamente um nativo, vai descer do modo mais difícil. Escalando.

Nathan, se jogou da beirada do rochedo.

Usando da mão direita, se agarrou na rocha nua. Olhou para baixo, encontrou outra parte que o suportaria, e se soltou novamente, por uns vinte ou trinta metros. Usando as poderosas adaptações que Claudio e Tânia lhe deram, continuou a fazer isso.

- Malditos jovens. Disse Claudio, também se jogando do despenhadeiro.

Ainda a distância do solo, Nathan ouviu algo lhe passar em queda livre, zunindo de tão veloz. Então o barulho de madeira quebrando.

Quando chegou ao solo, pode ver Claudio, saindo do meio dos restos de uma enorme árvore, envolto em poeira e folhas de árvores vizinhas que cobriam o ar.

- Pergunta. Teria eu sobrevivido a uma queda como essa?

- Não. Ao menos não sem algumas avarias. Tudo que lhe dei, foi nos limites de segurança da sua consciência. Se tivesse próteses como as minhas, dificilmente conseguiria manter sua mente, passível de recobrar a memória. Foi algo que Tânia e eu tivemos que optar.
.
- Como assim?

- Complicado demais para você entender agora, meu amigo. Continue lendo sobre alquimia, comece a estudar magia, talvez um dia entenda. Agora, vamos fazer uns testes, velocidade e resistência. Me acompanhe.

Nathan riu, como que pensando. - Como se você fosse capaz de me acompanhar, velho. Ele ainda não havia aprendido que os olhos não significavam nada, ao menos não ali. 

Quando Claudio começou a correr, Nathan viu, por muito tempo, as costas do velho, até que conseguiu ficar lado a lado.

O sol já deitava no horizonte quando retornaram dos testes, e já havia se posto, quando chegaram ao topo do rochedo. Nathan entrara de súbito, com um largo sorriso estampado no rosto.

- Pelos deuses, como foi divertido.

A senhora Tânia então gritou da cozinha.

- Pelo jeito, gostou do teste?

A essa altura as crianças já haviam cercado Nathan e queriam ouvir tudo.

- Magrelo, Magrelo, como foi?

- Magrelo, você conseguiu alcançar o papai?

Nathan meio tonto ria.

- Sim, sim, corri lado a lado com o senhor Claudio. Foi muito divertido. Tiago, do outro lado da sala, perguntou.

- E então mano, onde foram?

Nathan sentiu uma forte dor de cabeça, lhe vieram novamente a fisionomia dos quatro guerreiros com quem sonhara, meses antes. Então desmaiou.

2 comentários:

  1. bah, mas ta ficando cada vez mais interessante. Mais uma vez parabéns pela criatividade!

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    1. Valeu Trep... E agora estou quase no fim do primeiro livro.

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