quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ponto Sem Retorno


Partida

Aoshi se despediu do Rei Urlach, dos amigos e assim, sem mais nem menos, deixou a todos.

Tão logo saiu do castelo sentiu a brisa de chuva que se aproximava, se sentia livre. Livre das responsabilidades para com seus companheiros, não que não gostasse deles, gostava bastante da companhia de todos, até mesmo Balash, com quem tivera um ranço inicial.


Sentiria falta deles.

Mas agora era a hora de voltar a Janen, era hora de devolver a Pedro e a todos que o traíram, o favor.

No início da manhã, com o sol levantando no horizonte, Aoshi viu a imensa muralha, sentiu um frio na barriga, semelhante ao que sentira, décadas antes, quando pela primeira vez cruzou pelos portões.

- Desta vez será diferente. Aoshi tirou o livro vermelho de dentro da bolsa que carregava e caminhou até a sombra de uma árvore frondosa a beira da estrada. Sentou e continuou a leitura, de onde parara na noite anterior.

O sol já começava a baixar no horizonte quando Aoshi levantou, guardou o livro, sacudiu a poeira das roupas e voltou a estrada. Um mercador passava por ali.

- Com licença senhor, boa tarde.

- Boa tarde. Respondeu o receoso mercador. Não estava acostumado a gentilezas nas estradas.

- O senhor está indo para Janen, correto?

- Sim.

- Se importaria de me dar uma carona? Apenas até as plantações.

O homem cruzara diversos impérios em toda sua vida, e viu nessas viagens a maldade e a malícia inerente aos seres humanos, naquele homem, não via maldade.

- Sem problemas amigo, suba na carruagem.

- Obrigado, senhor.

Aoshi subiu na parte de trás da carruagem, deu duas batidas na madeira, sinal para que o mercador pudesse continuar, e balançando as pernas e assoviando ia em direção a fortaleza.

- E então amigo, primeira vez que vai a Janen? Perguntou o mercador, querendo saber mais sobre o homem que transportava. Sabia que logo mais teria que passar pelos portões da fortaleza, e não queria ter sua carga apreendida pela milícia. Algo que se tornara muito comum desde a troca de regentes, algumas semanas atrás.

- Não, já morei em Janen por alguns anos, e quando fiquei sabendo da troca de regente, fiquei curioso sobre como estaria minha terra nas mãos de outro que não Aoshi Kato. E você, mercador, já vendera suas mercadorias na minha terra?

- Ah sim, volta e meia passo por Janen, os prepotentes do terceiro círculo parecem não viver sem a tapeçaria que trago do sudeste.

Aoshi riu do comentário.

- Realmente, são deveras prepotentes.

- Sim, sim, mas, são ótimos clientes. E pelo que ouvi de outros mercadores, desde a troca de regentes, Janen voltou a ser um paraíso para os da nossa área.

- Como assim?

- O novo regente parece ser mais, flexível, com a alta sociedade.

- Maldito! Aoshi pensou. - Tudo o que fiz em três anos, esse moleque sem valor, desvirtuou em três semanas. Limitou-se a dizer.

- Bom para você, meu amigo. Fará fortuna em Janen.

- Se Aoshi não tivesse morrido, acredito que ficaria furioso em saber a cortesã que ele mais presava, hoje vive com o novo regente no castelo.

Aoshi lembrou de Liliana.

- Até era de se esperar, dizem que o jovem tenente dele já dormia com ela, enquanto Aoshi importunava todo o reino com suas imbecilidades.

Aoshi conseguia segurar a raiva toda dentro de si, para utilizar quando lhe fosse propício. E assim o fez. Mas tamanho era seu ódio, que não conseguiu conversar pelo resto do caminho.

Não demorou até que chegaram aos portões da cidade, e então Aoshi ouviu.

- Alto, quem é você? O que quer em Janen?

- Boa noite cavalheiro, sou o mercador Nigel, do sudeste. Aoshi tremeu.

- Maldição, como não reconhecera, Aoshi, em uma de suas ações de inibição da corrupção no terceiro círculo, ordenou que todos os comerciantes fossem impedidos de atravessar o segundo círculo, a periferia.

Sem poder vender suas cargas de altíssimo valor que levavam aos nobres do terceiro círculo, e ficando por mais de quarenta dias presos a periferia, a maioria dos mercadores teve que vender seus produtos a preço de cerveja, apenas para ter o que comer. 

Diversos mercadores saíram de Janen com grandes prejuízos, muitos deles sequer saíram, acabaram por se suicidar.

Nigel era um dos mais famosos comerciantes e ouviu a ordem da boca do próprio Aoshi, em uma tarde quente de verão.

- Milorde Aoshi, tenho certeza que podemos chegar a um acordo. Tenho diversas mercadorias em minha caravana esperando para entrar no terceiro círculo.

- Entendo isso, senhor, mas a minha ordem foi a de não permitir a passagem de qualquer mercador, e pretendo mantê-la.

- Então peço que nos deixe sair. Disse Nigel levantando a voz.

- Impressão minha ou ousa levantar a voz a minha pessoa? Nigel recuou, sabia que Aoshi tinha o costume de avisar uma ou duas vezes, antes de executar.

- N-não milorde, de forma alguma.

- Ah, ótimo, foi o que pensei. Aoshi ponderou sobre o pedido de deixar Janen por alguns segundos, até que.

- Nigel, preciso que cada pessoa que esteja em Janen, mesmo que de passagem, entenda o porque de meu reinado ser tão severo, o porque da contínua punição e diminuição dos direitos dos nobres. Com isso em mente, ordeno que fique trinta dias na periferia, para que entenda por que essas alterações que prego são tão necessárias.

Mas os trinta dias se transformaram em quarenta e a caravana de Nigel perdeu muito ouro. Como boa parte do que carregava vinha de fornecedores, que esperavam ser pagos, pelo talentoso comerciante, Nigel acabou falindo. E agora, com apenas uma carruagem, reiniciava seus negócios.

- Quem é aquele atrás da carruagem, perguntou um dos soldados.

Aoshi sequer se moveu, sabia que não importaria o que fizesse, acabaria morto. Os arqueiros do perímetro externo de Janen figuravam entre os mais talentosos de Gaia.

Aoshi quase vomitou de ansiedade enquanto esperava a resposta de Nigel.

- Ah, é apenas um carregador que contratei algumas semanas atrás para me ajudar.

- O que? Pensou Aoshi.

- Tudo bem, pode passar. Disse o soldado.

Aoshi continuava assoviando e balançando as pernas, disfarçando o nervosismo.

Quando a distância do portão aumentava e a lua no topo do céu estrelado iluminava as enormes plantações de arroz, Aoshi não aguentou mais e perguntou.

- Por que fez aquilo Nigel?

Nigel soltou uma sonora gargalhada.

- Três razões. Depois da sua ordem para ficar na periferia e quase ter que vender minha própria alma para me alimentar, anos atrás, realmente entendi que o que fazia era importante. Segunda, sou um homem de honra, não iria lhe trair, além do mais, o que ganharia com isso? Terceira, você ainda vai me fazer um homem muito rico, não vai?

Aoshi sorriu.

- Espero que não guarde rancor pelo que disse, sobre a meretriz.

- Rancor? De você? Não foi você quem me traiu, Nigel. Mas tenho que perguntar, aquilo que disse era verdade?

- Sim Aoshi, é verdade, pelos boatos que ouvi, ela já estaria até mesmo grávida.

Aoshi contorceu o rosto em ódio.

- Nigel, espere sua recompensa. Quando eu terminar minha limpeza, você será um dos homens mais ricos de Gaia. Aoshi saltou da carruagem e continuou.

- Nigel, vou ficar por aqui.

Nigel parou os cavalos e olhando para os lados, perguntou.

- Aqui? No meio do nada? Nigel não sabia, mas havia algo que Aoshi precisava testar, e as ferramentas necessárias estavam todas ali.

- Aqui mesmo. Quanto tempo pretende ficar em Janen, Nigel?

- Pretendo sair amanhã a tardinha. Por que?

- Amanhã a tardinha. Repetiu Aoshi pensando. - Perfeito, Nigel, sugiro que não fique até o anoitecer, pois coisas estranhas vão acontecer amanhã a noite.

Nigel parecia assustado. E com razão, Nigel sabia que Aoshi era um homem muito astuto, sabia também do que ele era capaz quando estava com raiva e principalmente, sabia que Aoshi devia ter muita raiva do atual regente de Janen.

- Não ousarei perguntar sobre isso. Mas e a minha recompensa?

Aoshi riu.

- Sete dias, meu amigo. Venha ao portão principal de Janen em sete dias e a sua recompensa estará lhe esperando. Apenas peço que nunca mais entre pelos portões de Janen. Entende?

- Novamente, não ouso sequer perguntar o que tem em mente. De qualquer forma, cumprirei minha parte do acordo, em sete dias, a contar de amanhã, estarei nos portões de Janen, esperando a minha recompensa.

Nigel seguiu pela estrada enquanto Aoshi iniciou a caminhada na direção de uma casa que ficava no meio de uma plantação de arroz.

Aoshi ainda guardava suas habilidades silenciosas de quando não tinha a força e a técnica adequada para combate aberto. Era tão silencioso que, já dentro da casa, nem mesmo o gato da família o viu entrando.

Caminhou por entre os aposentos, cortando as gargantas de cada um dos membros da família, enquanto dormiam. Então carregou os corpos até o aposento principal, onde havia uma lareira. Enfileirou eles, do maior, um velho de aproximadamente sessenta anos, ao menor, um garoto de não mais de seis anos.

Calmamente caminhou até a parte de fora da casa, pegou algumas toras de lenha e preparou  a lareira.

Pegou o livro vermelho dentro da bolsa, procurou a página correta. Deixou o livro aberto sobre a mesa, e como um padeiro que segue uma receita, começou a ler o livro enquanto esquartejava o corpo do pai de família, sempre assoviando.

"O livro vermelho. Desta maneira fora mencionado em diversas histórias ao longo da vida e morte em Gaia. Este é o livro de Abdul Al Sayej, o mago louco do deserto."

"O fato deste livro não ter nome algum em sua capa, foi algo fundamental em sua preservação ao longo das eras. Diversas cruzadas foram iniciadas apenas seguindo rumores do paradeiro deste."

"Servos de deuses de luz, buscavam o livro para destruí-lo e acabar com mal contido nele. Servos de deuses perversos buscavam o poder contido nele. E assim, por muitos anos não se ouviu falar neste livro."

"O último paradeiro foi as ruínas de Talloaks. Rumores apontam que servos de Zhang-Turaah se utilizaram de um ritual especialmente macabro para destruir completamente a cidade."

"Todavia, como não contavam com os poderes de Abdul, para controlar o feitiço, foram todos obliterados com o mal que libertaram sob a pequena cidade."

"Necromante poderosíssimo, Abdul dedicou sua vida, e morte, ao estudo das artes negras. Feitiços de ressurreição, pactos com demônios, e entidades mais antigas que o tempo, dentre outras coisas, tão perversas quanto estas."

"Pelos relatos históricos sobre a existência de Abdul, estima-se que ele tenha falecido com algo em torno de quatrocentos e noventa anos. Isso só se deu através de meios inaturais, como através da confecção de feitiços e poções que provavelmente custaram diversas outras vidas humanas."

"O livro de Abdul, um compêndio de feitiços poderosos, é por si só, muito traiçoeiro, e em diversas passagens pela história de Gaia acabou por trair seus mestres."

"Como o corpo de Abdul nunca foi encontrado, acredita-se que ele viva através do livro. Um feitiço que nenhum mago, alquimista ou feiticeiro moderno conhece. Isso pode nos dar uma ideia sobre o quão negra é a alma de Abdul e o livro em que supostamente habita."

Os Artefatos Malditos de Gaia - Capitulo 4 - O Livro de Abdul Al Sayej

No outro dia, próximo ao mesmo horário, um Aoshi coberto de sangue, visivelmente cansado, sentado a frente de uma mesa, com o olhar fixo em suas próprias mãos, ordenou.

- Vão. Cuidem da muralha externa primeiro, ninguém deve sair daqui. Vão!

Então ouviu-se uma gargalhada sombria e o vento gelado apagando as velas e até mesmo a lareira.


Inimigo Meu

O soldado que patrulhava a muralha mais ao extremo de Janen se sentia seguro, em diversos anos, a muralha nunca fora atacada.

- Também pudera. Pensou. - Somos os soldados mais bem equipados e a fortaleza mais desenvolvida da nossa era. Quem se atreveria a nos atacar. Então ouvindo um barulho semelhante a uma gargalhada vindo das suas costas, se virou, subitamente.

Não havia nada.

Com a espada empunhada, o soldado virava de um lado para o outro, procurando o que quer que tivesse largado aquela gargalhada demoníaca.

Não viu mais nada, pensou então.

- Diabos, deve ser minha imaginação. Guardou a espada na bainha, virou-se e continuou sua patrulha calmamente.

Mas a gargalhada não saía da sua mente, teimava em ficar na parte de trás da sua cabeça.

- A fogueira, o ensopado e a companhia dos amigos vai resolver isso. Disse ele em voz alta, tentando se convencer de que quando chegasse as torres dos portões, que já eram visíveis, tudo ficaria bem.

Mas quanto mais próximo ficava, mais via que algo não estava certo, então ouviu o primeiro grito.

Correu, o mais rápido que podia, viu diversos de seus amigos estendidos pelo chão, sangrando, alguns até mesmo com os intestinos para fora. Um de seus maiores amigos, Lionell, lutava ferozmente contra duas criaturas.

Empunhavam armas como soldados, não usavam armaduras, e também não pareciam precisar, pois suas peles estavam putrefatas. Aqueles guerreiros estavam mortos.

- Que tipo de magia negra é essa? Perguntou o soldado a Lionell, enquanto aplicava um poderoso golpe de espada que entrou no ombro da criatura e foi quase até a sua cintura. Lionell aplicou um chute no peito da outra e um golpe de espada na barriga que a silenciou.

- Não sei, Carlos. Fomos atacados ainda há pouco. Então ambos ouviram os gritos a distância.

- Maldição, temos que ajudar os outros. Me ajudem a levantar. Era Leon, amigo de ambos. Estava deitado no chão, com um corte leve na barriga.

- Tem certeza Leon? Você está ferido.

- Claro, me levantem e vamos pra cima dessas criaturas. E aos poucos, mais e mais dos soldados conseguiam se levantar, Carlos se sentia orgulhoso de seus companheiros. A hora de provarem seu valor finalmente havia chego, e eles lutavam, mesmo com ferimentos graves.

Não demorou a ameaça foi contida, com a sobrevivência da maior parte dos soldados da guarda.

Então todos avistaram, vindo pela estrada em meio as fazendas, mais um grande grupo das criaturas.

- Diabos, eles estão vindo de dentro. Gritou Carl.

O comandante da guarda da muralha externa, um velho guerreiro de nome, Harold, disse.

- Ataquem eles. Destruam a força inimiga.

Então o rugido das forças de Janen ecoou pela noite. Aoshi ouvia a tudo que acontecia, cada grito desesperado, cada som de lâmina atravessando carne e osso. Nisso ouviu o ruído do vento e voz fantasmagórica que se seguiu.

- Qara soul, o portão está fechado.

Aoshi passou as mãos ensanguentadas pelo rosto para tirar os cabelos da face, então levantou a cabeça e disse.

- Libertem o restante do reino.

- Müsbət, Qara soul. Disse a criatura negra deixando o ambiente. Aoshi, com o rosto marcado pelo sangue que ainda estava em suas mãos, então levantou, pegou um pedaço de lenha ainda em chama, e jogou contra a cama de casal, onde dois dias atrás os pais dessa família dormiam.

Viu o fogo se espalhar rapidamente e tomar conta da casa. Abriu a porta e saiu caminhando, viu na estrada, poucos metros a frente o exército de mortos que sequer sabiam estar mortos correndo na direção da segunda muralha.

Então um deles parou e viu Aoshi, que sequer hesitou, continuou caminhando na direção da tropa.

- Vejam, é o milorde, Aoshi. Todos os demais guerreiros pararam.

Por incrível que parecesse, Aoshi compreendia os rugidos e murmúrios daqueles homens mortos.

- Homens, essa estupidez toda foi causada por Pedro e Liliana, que usurparam meu trono e trouxeram essas figuras mortas de volta a vida em um ritual aos deuses antigos. Mas não se preocupem, vamos até o castelo, e vamos fazer com que paguem.

Os soldados-mortos a frente de Aoshi urraram de forma incompreensível. Em suas próprias mentes, estavam saudando o homem que os liderara de forma exemplar até pouco tempo atrás.

Enquanto seus soldados corriam até a segunda muralha, Aoshi, já sabendo da garantia de vitória, caminhava, sozinho. Ainda havia remorso por tudo o que estava fazendo, por mais que tentasse enterrar esse sentimento em seu peito, falhava.

Pensava na condenação a que submetera cada ser vivo de Janen. Pensava se todos ali mereciam realmente morrer pelos pecados de dois. Liliana e Pedro.

- É tarde demais para recuar. Disse a si mesmo, tentando se convencer de que o que fazia não era errado.

Quando chegou ao segundo portão foi novamente ovacionado com urros bestiais de soldados mortos.

Passou caminhando como se carregasse o mundo todo em suas costas.

Viu então a periferia, casas em chamas, corpos de mulheres, velhos, crianças, todos atirados pelo chão. Sentiu o mundo diminuir. Anos antes era ele quem vivia ali, lutando diariamente pelo pão, por um pouco de batata.

Agora, até onde a vista alcançava, era dor, e morte.

Conforme caminhava, via estes mesmos corpos levantando, pesadamente, voltando a uma falsa vida. Então cada um dos mortos se dirigiu a Aoshi, como borboletas em direção a uma chama de vela.

Saudavam o poderoso guerreiro como o salvador de Janen que veio limpar, uma segunda vez, a corrupção do reino.

Aoshi limitou-se a dizer.

- Apaguem os incêndios em suas casas, meus filhos. Limpem as ruas. Ainda resta muito a ser feito antes que esta noite termine.

Organizadamente, como um grupo de pessoas normais, os mortos se organizaram em diferentes grupos, e enquanto alguns carregavam baldes do córrego que passava ali perto até os incêndios, outros tiravam os destroços de casas e barracos já completamente destruídos, do meio das ruas e vielas.

Depois de passar por toda a destruição da periferia, Aoshi atravessou os portões que levavam ao terceiro círculo.

Viu as ruas floridas cobertas de sangue, viu as pessoas levantando como as da periferia, agradecendo o retorno dele ao trono. Fazendo promessas que jamais o trairiam novamente, jamais o criticariam novamente. Promessas de amor eterno.

Aoshi então perguntou.

- Jamais trairão novamente? Como assim?

Um homem então se aproximou, um dos quatro poderosos que estivera com Aoshi, semanas antes e disse.

- Milorde, fomos nós do terceiro círculo quem orquestramos a sua morte. O jovem Pedro era ignorante o suficiente para ser manipulado, por isso era a escolha ideal para lhe levar até o paiól enquanto nosso agente lhe mandava pelos ares.

Aoshi, com os olhos arregalados, fitava o castelo, cuja lua servia como pano de fundo, descendo por de trás.

- Pedro, Liliana. Aoshi abriu caminho entre os mortos e começou a correr desesperadamente em direção ao castelo.

Mal viu quando passou pela área militar que milhares de soldados prestavam continência.

Quando chegou no pátio do castelo, viu as chamas pelas poucas janelas, a fumaça e começou a ouvir os gritos com mais frequência.

Passou correndo pelos guardas, mal percebeu que já haviam sido "convertidos" em seus soldados. Subiu as escadarias, depois as escadas do leste do castelo, então chegou nos aposentos reais, encontrou as enormes portas entreabertas.

Passou por elas e viu, quatro ou cinco de seus mortos, em chamas em um canto.

- Aoshi! Gritou Liliana. Pedro vendo Aoshi, a quem pensava ter morrido, apontou sua espada na direção e gritou.

- Que diabos significa isso Aoshi? Eu vi aquele paiól voar pelos ares. Eu chorei por você. E agora você traz um exército do inferno com você para tomar conta do reino?

Aoshi entendeu que, apesar da parte sobre o assassinato dele ser orquestrado por Pedro, ser mentira, Liliana realmente estava com Pedro, em seus aposentos.

- Pedro, não é o que parece. Aoshi estava realmente disposto a deixar Pedro sair dali com vida. Não precisava de mais um esqueleto no seu armário.

Pedro era um ótimo espadachim, lutava tão bem quanto Aoshi, senão melhor. Ao menos pensava assim. Então quando aplicou uma estocada, com sua espada, atingiu o estômago de Aoshi que, parecendo não acreditar, caiu ao chão de joelhos, e depois para o lado.

Com o pouco de força que lhe restava, jogou sua bolsa em um canto do aposento.

Pedro então virou, pegou o candelabro e ateou fogo no corpo de Aoshi, que devido a espada negra e suas propriedades curativas, já se recuperava.

O fogo queimava na mesma velocidade que a espada recuperava os ferimentos, então Aoshi ficava em meia vida, consciente e vendo tudo com lucidez, mas sem poder fazer nada.

Viu Pedro caminhar até Liliana, abraçá-la, beijá-la, e então acariciar a barriga dela.

- Não se preocupe meu anjo, nosso filho ficará bem.

- Um filho. Então é verdade, me fizeram de bobo durante todo esse tempo. E o sorriso malicioso de Pedro parecia indicar que ele não fora simplesmente um fantoche, na traição de Aoshi.

- Bastardo. Vai conhecer o inferno.

Liliana e Pedro cruzaram a porta dos aposentos reais, dobraram a esquerda e correram na direção da escadaria de acesso, quando viram que, dessa mesma escadaria começaram a subir soldados mortos, dezenas deles. Quando deram meia volta, viram Aoshi, saindo do quarto, em chamas.

- Pedro, me responda uma coisa. Você sabia do que estavam planejando para mim?

Pedro hesitou, olhou para os soldados que bloqueavam sua passagem, tornou a olhar para Aoshi, e então para Liliana.

- Sim, eu sabia. Aqueles homens ameaçaram Liliana, e disseram que você não se importava com ela, nem com... Antes que pudesse continuar, levou um tapa de Liliana. 

Impressionado, fez menção de que explicaria algo, levou outro tapa.

- Bastardo, você me enganou. Disse que faria de tudo para descobrir o assassino de Aoshi. Liliana então se afastou, e antes que Pedro pudesse fazer algo virou e viu Aoshi correndo na sua direção.

Tentou aplicar um golpe vertical de sua lâmina, errou. Aoshi o abraçou, em chamas, e disse, em meio aos gritos desesperados de dor de Pedro.

- Agradeça a minha compaixão, Pedro, pois você será um dos poucos mortos que ficarão mortos, em Janen.

Pouco tempo depois, Aoshi largou o corpo em chamas e virou na direção de Liliana.

- E você. Vagabunda.

- O filho é seu. Disse Liliana, temendo a impulsividade de Aoshi.

O aposento ficou em silêncio enquanto Aoshi, dava dois passos para trás.

- Maldita, como tem coragem? Não me deito com você a meses.

- Exatamente, Aoshi. Três meses.

Aoshi pensou por um momento, lembrou de que isso era, de fato, verdade, e olhando para barriga saliente de Liliana, disse.

- Levem-na ao terraço. Será executada lá, quando o primeiro raio de sol banhar Janen.

Liliana enlouqueceu, começou a gritar desesperada enquanto era carregada pelos guardas. Enquanto isso, Aoshi caminhou de volta aos aposentos reais, se enrolou nas pesadas cobertas para apagar suas chamas e foi até a bolsa.

Abriu, pegou seu livro e foi em direção as escadarias que levavam ao terraço lendo um trecho.

Quando lá chegou, disse aos soldados.

- Tragam lenha, vamos queimar essa bruxa. Os soldados ficaram em êxtase com a declaração.

Não demorou, Liliana estava amarrada a um mastro, rodeada de toras de madeira. Um dos soldados trazia óleo de lamparina para acelerar a combustão, Aoshi então sussurrou.

- Não. Quero que ela queime lentamente. O soldado sorriu, enquanto Aoshi continuava. 
- Agora me deixem, quero apreciar o momento em que essa meretriz queima. 

Sem qualquer protesto, os soldados desceram pela escadaria.

- Então este filho é meu, meretriz?

- Sim, Aoshi, é seu filho. Por favor, me tira daqui. Só estive com Pedro por que ele poderia dar a vida que... Aoshi a interrompeu.

- Era o que eu precisava saber. Aoshi pegou uma das tochas que iluminava o lugar e jogou na pilha de madeira.

Ao contrário das crenças populares, uma fogueira não pega fogo como um caldeirão do inferno tão logo o objeto flamejante a toque. E enquanto a madeira estalava, Aoshi iniciava o cântico maldito. Outro ritual, descrito no livro vermelho.

- Köhnə Tanrıların və yeni. Mən sizin səlahiyyətləri lazımdır, bu həyat olmalıdır, mən saxlanılır, bu bətnində həyat yaşayan lazımdır. Mən onun daxilində yaşayır ki, həyat üçün onun həyat vermək lazımdır.

Aoshi pressentiu que algo se aproximava, virou para sua esquerda e viu a estranha criatura, uma figura humanoide. Apontar como humano, parecia errado a Aoshi. A figura usava uma máscara e trajava um longo manto azul escuro.

- Interessante. Disse a criatura. - Conhece o primeiro idioma inteligente deste mundinho. Onde aprendeu?

- Não sei como, simplesmente sei.

- Entendo. Disse a criatura caminhando na direção da fogueira. - Então é a prole dentro desta fêmea que deseja salvar.

- Sim.

- Não se importa com a vida desta fêmea?

- Não. Liliana gritava desesperada, então, silêncio.

Quando a criatura virou, segurava um bebê saudável, com período normal de gestação nos braços. Liliana tinha as entranhas expostas e um grande corte transversal no ventre.

- Feito. Disse a criatura entregando o bebê a Aoshi.

Aoshi então percebeu que a criatura tinha grossas escamas nos braços, espessas como armaduras. Entre os dedos haviam membranas.

- Agora, vamos aos negócios. Continuou a criatura. - O que estava prometendo me dar em troca? Por mais que conheça as palavras, a sua frase ficou esquisita demais.

- Tenho almas, centenas para lhe dar.

A criatura movia a cabeça de um lado para o outro como se tivesse olhando algo, mas como não haviam olhos naquela máscara, Aoshi não sabia o que era.

- Sim, eu vejo as suas almas. Aprisionadas, sem poder fazer a passagem ao seu mundo dos espíritos. Está disposto a destruir estas almas em benefício próprio.

- Sim. Qualquer coisa pelo meu filho.

- Quantas delas me oferece?

Aoshi não esperava barganhar com uma criatura ancestral, vinda do abismo. Então ofereceu um preço que julgou justo, no momento.

"Graças ao pacto que fiz com o deus Gorgorath, centenas de anos antes, me tornei imortal, e meu corpo indestrutível. Imune a qualquer doença, sem necessidade de me alimentar ou respirar."

"Qual era a coisa mais lógica a fazer quando você simplesmente não pode morrer?"

"Ir ao inferno, e voltar para contar o que realmente acontece por lá."

"Como não gosto de calor, e realmente não velejava a muito tempo, decidi ir aos cinco últimos infernos, e deixar os infernos do oeste para uma próxima viagem."

"O abismo é uma dimensão de frio e escuridão eterna. Além do sul continental de Gaia, exatamente ao meio da distância entre o continente e o mar congelado, fica o abismo."

"Se o inferno de chamas ao oeste da área continental de Gaia compreende os cinco primeiro infernos, os próximos cinco existem sob o mar."

"Diferente do que se pensa, o mar não segue as regras dos demais oceanos de Gaia nesta região. Krakens das mais diversas formas e tamanhos infestam essas águas."

"Como se as criaturas colossais que atacam tudo o que se move na superfície ainda fossem pouco. Quanto mais se desce abismo adentro, mais certeza se tem de que aquilo não é uma mera parte do oceano, mas uma outra forma do inferno."

"Por alguma razão que desconheço, as gigantescas criaturas não me atacaram. Talvez estivessem surpresas com um simples humaninho nadando em águas tão perigosas. De qualquer forma, foi algo surpreendente nadar entre criaturas do tamanho de montanhas de Gaia."

"Após diversas horas de submersão continua, cheguei a um ponto que as criaturas que lá vivem chamam de O Hall, isso se dá por ainda haver colunas de luz (vindas dos raios das eternas tempestades que se abatem na superfície do mar) que tentam se aventurar no mundo de trevas que ali existe."

"O Hall é uma região onde seres humanoides, que se autodenominam Wan-Shuu vivem, eles se denominam, arautos dos deuses antigos que vivem abaixo desta área. Os Wan-Shuu me receberam como se eu fosse um diplomata de um reino distante. Disseram respeitar-me por ter chego até ali, me deram diversas informações sobre o que havia adiante, mas negaram minha passagem mar adentro."

"Imaginem minha surpresa quando tais criaturas, com milhões de anos de existência falaram comigo, telepaticamente, de forma que eu entendesse, e ainda com boas maneiras. Não pude acreditar, em um primeiro momento."

"Foi assim que a minha viagem ao coração das trevas acabou, logo no início. Com polidez inesperada por parte dos seus guardiões."

No Coração das Trevas - Capitulo 8 - No Abismo - Alves "O Indestrutível" Morgan

- Nunca havia barganhado em almas antes, então se meu preço lhe ofender, peço perdão. Disse Aoshi.

- Hum, polidez, traço cada vez mais raro nos da sua raça. Entendo sua dúvida. Faça sua oferta, sem medo.

- Quinhentas almas, lhe ofereço quinhentas almas.

- Hum, sim, vejo que você dispõe de um número muito maior que este. De qualquer forma, acho seu preço justo pelo que fiz. Então aceitarei seu pacote de almas por esta troca.

A criatura deu as costas, fazendo menção de que estava de saída. Então virou a cabeça e disse.

- Ah, e sempre que tiver mais um acordo destes. Entre em contato. Sabe como me chamar. De onde venho, suas almas sempre tem valor.

Aproximadamente uma semana depois, Nigel, o mercador, se aproximava dos portões de Janen.

Já havia percebido que algo estava muito errado pois há diversos dias não encontrara ninguém nas estradas que levavam ao glorioso reino das castas. Algo deveras estranho, para um reino da população de Janen.

Com olhos apertados, viu ao lado dos enormes portões uma larga carroça coberta por um grosso couro branco.

Conforme chegava mais perto, percebia que não haviam soldados na muralha, ou em qualquer lugar. O enorme portão estava fechado e apenas se via as revoadas de corvos sobre as fazendas.

Janen sempre fora conhecida, principalmente as áreas internas das plantações, como uma das áreas mais férteis ao plantio em Gaia.

- Estranho um número tão grande de corvos por aqui. Os agricultores já foram mais cuidadosos, acredito.
 Então o cheiro de morte lhe pegou pelas narinas.

- Mas que diabos.

Nigel, em seus muitos anos de estrada já havia visto muitas coisas, cadáveres não eram uma novidade para ele. Já havia cruzado até mesmo campos de batalha, ofertando material médico, e alimentos, aos sobreviventes.

Mas nunca havia sentido tamanho fedor de morte.

Quanto mais se aproximava dos portões, mais tenso ficava. Sabia que tinha algo muito errado ali, fora inteligente em não questionar Aoshi em nada sobre seu plano de vingança. Agora começava a pensar que não fora tão inteligente em voltar ali.

Quando chegou ao portão, olhou para dentro, haviam marcas de sangue pela estrada. Muitas marcas de sangue.

Mas nenhum sinal dos guardas do portão, ou mesmo dos agricultores trabalhando nas plantações. Nigel gritou.

- Olá.

O grito ecoou, mas não houve resposta.

Nigel deu três passos para trás, e então tornou sua atenção a carruagem coberta.

Caminhou lentamente a curta distância que o separava dela, tinha medo que fosse uma armadilha de Aoshi, para apagar qualquer rastro do que havia feito com Janen.

Então, quando já estava ao alcance de uma mão, agarrou uma das pontas do pedaço de couro que tapava o conteúdo da carroça e viu uma quantidade surpreendente de ouro.

Boquiaberto, mal conseguia respirar, então ouviu a voz familiar.

- Olá Nigel. Pontual, você.

Era Aoshi. Trajava uma imponente armadura de placas, com o emblema de um dragão no peito. Tinha duas marcas vermelhas no rosto, que Nigel com certeza teria reparado.

As marcas pareciam começar sob os olhos, nas maçãs do rosto, passava pelos olhos, têmporas e seguia pelos cabelos, dando uma tonalidade avermelhada até o fim dos longos cabelos.

 Aoshi ainda segurava um trapo de pano entre os braços.

- Senhor Aoshi, is-isso tudo é... Nigel mal conseguia falar.

- Sim, Nigel. Essa é a sua recompensa, mais ouro que obteria em toda a sua vida.

Nigel soltou uma sonora gargalhada e deu um pulo, tamanha era a felicidade.
-Aoshi caminhou lentamente na direção de Nigel, que ainda estava em êxtase, devido a enorme quantidade de ouro que acabara de receber.

- Nigel, preciso de mais um favor. Sei que a nossa dívida já foi selada, já lhe tornei um homem rico, enquanto você me ajudou a entrar em Janen, dias atrás. Mas...

Antes que Aoshi pudesse continuar, foi interrompido por Nigel.

- É uma criança que você tem aí, não é? Aoshi assentiu.

- Com essa sua, contribuição para minha empresa, me tornei um homem rico, senhor Aoshi. Um homem rico, e sem família. Se este seu último pedido, espero que seja o último, não? For ficar com esta criança, eu aceito. Disse Nigel com um sincero sorriso no rosto, para surpresa de Aoshi.

- Ora essa. Isso foi mais fácil que pensei. Crie essa criança como se fosse sua, Nigel. Disse Aoshi se aproximando, e entregando o bebê ao mercador.

Nigel então viu, a criança tinha olhos e cabelos negros, como os de Aoshi. Um filho, Aoshi tivera um filho?

Nigel levantou a cabeça com esse questionamento em mente, e não viu qualquer rastro de Aoshi nas proximidades. Tornou a olhar o bebê em seus braços.

- E aí garoto, você tem um nome? Então algo lhe chamou a atenção, o garoto tinha uma cicatriz no peito, nada maior que a ponta de um dedo.

Nigel pensou no que seria aquilo, então disse.

- Já sei, Scar. Seu nome será Scar.

O garoto não esboçou qualquer reação.

- É, eu sei que é meio óbvio, mas é um nome imponente.

Nigel então foi até a sua carruagem, encontrou um lugar confortável ao pequeno, e iniciou o processo de reboque de todo aquele ouro.

Aoshi, do topo da torre do portão observava tudo.

- Que os deuses o protejam, meu pequeno. E que você nunca siga o meu caminho.

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