domingo, 12 de agosto de 2012

Poder em Gaia...

Ascensão

Balash arriscou seu pescoço para salvar o amigo de infância, Imoneph, da horda que cercava a poderosa cidade fortaleza de Fergus.

Na breve e intensa jornada ao centro da floresta de Shamrock, Balash encontrou um jovem mal educado, cuja habilidade com a espada viria a se tornar imprescindível para sua saída, com vida, daquele lugar.

Encontrara ainda, durante um período de transe, um valoroso e fiel guerreiro, cujo estilo de combate lembrava e muito o estilo utilizado pelos elfos.

E ainda um guerreiro bárbaro que não parecia levar nada a sério, mas tinha habilidades indescritíveis com o machado de guerra.

E neste grupo, os heróis viajavam ao encontro de Fergus, a grande fortaleza do norte.

Já caminhavam havia três ou quatro dias, quando chegaram ao topo da colina onde Balash, semanas antes encontrara a oriental que lhe entregou o amuleto que viria a salvar Fergus da completa aniquilação.

- Foi aqui. Disse ele parando.

- O que?

- Foi aqui que encontrei aquela que me deu o amuleto. O amuleto que destruiu a horda.

- Hum.

Os guerreiros pararam ali por alguns instantes, parecendo esperar que a linda jovem reaparecesse, para responder todas as suas perguntas.

Ela não apareceu.

Enquanto esperavam contemplavam a reconstrução da muralha de Fergus, uma das mais imponentes do continente, e que, nas diversas vezes em que foi sitiada, nunca havia sofrido tantos danos.

- Vamos até a fortaleza. Se meu amigo estiver vivo, talvez nos deixem entrar.

- E se estiver morto?

- Talvez usem flechas.

- Adoro a animosidade dos povos do norte. Disse Vlad com um largo sorriso no rosto.

Caminharam calmamente o caminho que os separava da muralha, ninguém gosta de se aproximar de algo que pode vir a ser seu fim. Ainda mais quando o fim é uma muralha que cobre boa parte do horizonte.

Quando chegaram a certa distância, viram os portões se abrindo e uma quantidade razoável de cavaleiros vindo ao seu encontro.

- Balash, quantos acha que estão vindo aí? Perguntou Aoshi.

- Quarenta, cinquenta cavaleiros. É um procedimento meio que padrão de defesa.

Não demorou os guerreiros foram cercados pelas lanças dos cavaleiros com armaduras pesadas, pesadas o suficiente para resistir a ataques de lanças.

- Qual é o assunto em Fergus?

- Vim falar com Imoneph.

- E o que o Gran Scheitz Imoneph pode querer com você?

"Em Fergusson, como na maioria dos reinos nórdicos, a cadeia de comando tem diferente nomenclatura do restante de Gaia."

"...O Gran Scheitz, por exemplo, equivale a algo como um Chanceler e Chefe em Armas. É o segundo no comando após o Rei, e responde diretamente a este."


"Um soldado chega ao posto de Gran Scheitz por seleção entre os Gran Tarkins e o conselho superior. O primeiro equivale ao alto comando militar e o segundo é auto-explicativo, um conselho formado apenas pelos de mais alta confiança do monarca."


Um Pouco do Norte - Capítulo 4 - A Cadeia Militar de Comando - Por Maximmus Dekatros

- Sou amigo de infância dele e salvei todos vocês da horda, semanas atrás.

Os cavaleiros ficaram em silêncio por alguns segundos, então soltaram uma sonora gargalhada.

- Acho que eles não acreditam em você Balash. Disse Vlad.

Riram por mais algum tempo até que um dos cavaleiros, mais sério, chamou a atenção do comandante.

- Senhor.

- O que foi Miguel?

O cavaleiro então se aproximou do pé do ouvido do comandante lhe disse algo. O sorriso logo desapareceu do rosto do comandante, o que aguçou a curiosidade dos heróis.

- Senhores, queiram nos acompanhar até a presença do Rei de Fergus.

O que teria Miguel, um simples cavaleiro, trazido ao comandante para que este mudasse subitamente de atitude?

Os heróis cruzaram os portões e foram levados ao hall de entrada do castelo. Uma espaço enorme que em muito lembrava as catedrais de Canópus, cidade reino mais ao sul cujo valor cultural era imensurável.

O castelo de Fergus era uma das mais impressionantes construções de Gaia. E uma das mais misteriosas.

Esculpido diretamente na pedra, estimasse que tenha levado mais de mil anos até chegar ao estado em que foi encontrado pelos fundadores do reino. Ninguém sabe exatamente quem foi que iniciou o trabalho.

O que se sabe é que o reino de Fergusson, fundado mil anos antes, era um dos impérios mais tradicionais de Gaia e nasceu e cresceu no entorno daquela imponente construção de pedra.

Os heróis não tiveram de esperar muito até ouvir.

- Milordes, boa tarde. É um prazer enorme ter o senhor conosco, milorde Balash.

O homem que trajava as vestes de pele de urso cinzento, animal símbolo da casa de Urlach, os atuais regentes de Fergus, indicando que era realeza. Mas não fora isso que impressionara os heróis.

O homem usava uma venda espessa que cobria ambos os olhos.

Como o silêncio seguiu, o homem resolveu se apresentar.

- Ah sim. A venda, peço que ignorem este detalhe milordes. Meu nome é Heinz e serei seu guia até a visita ao rei.

O homem então levantou a cabeça e farejou o ambiente.

- Acredito que os senhores, por terem participado da jornada que participaram se beneficiarão de um bom banho quente com sais, óleos e a boa companhia.

Vlad inclinou levemente a cabeça em direção ao ombro direito... Sentiu o aroma e sussurrou.

- Ah sim.

- Queiram por favor me seguir então senhores.

Heinz usava a venda, mas não usava qualquer bengala, e não tinha nenhum serviçal para lhe ajudar. A capacidade cognitiva deste homem surpreendeu os heróis, mas foi quando ele subiu uma escada em esperial, sem sequer usar o corrimão que Belerofon não pode mais segurar.

- Que diabos é isso homem? Você é cego e sequer usa o corrimão em uma maldita escada em espiral. Como consegue?

Heinz sorria quando virou na direção dos heróis.

- Concentração, milorde Belerofon. Muita concentração.

Não demorou até que chegaram a um extenso corredor com quatro portas a determinadas distâncias.

- Senhores, em cada porta destas existe uma casa de banho já preparada e diversas serviçais para suprir qualquer necessidades que os senhores venham a ter. Conforme ordem do rei, qualquer assunto que tenham com ele pode esperar até o jantar, que será servido no cair da noite.

Belerofon tremia de felicidade.

- Podem aproveitar o resto do dia nas casas de banho, suas roupas, armaduras e armas serão reparadas e limpas. Serão devolvidas a noite, para que tenham o que usar na presença do rei.

Antes que o homem pudesse virar as costas, Belerofon soltou um grito de felicidade e correu para primeira porta das quatro. Logo todos ouviram o sorriso de mulheres e o barulho de água.

- Imaginei que o senhor Belerofon fosse aproveitar esta oportunidade. Sugiro que os senhores não percam tempo também.

Balash estava sozinho na casa de banho, dispensou "serviçais" uma vez que não conseguia pensar em outra mulher que não Mary.

Aoshi, por outro lado, dispensou quatorze, das quinze lindas mulheres que o aguardavam no aposento. A última lhe deu banho e ficou boa parte do dia.

Vlad tomou um bom banho quente na companhia das quinze mulheres, e então levantou e pelado abriu a porta, saiu do aposento, caminhou pelo corredor. Bateu na porta, abriu e vendo Belerofon fazendo festa gritou.

- Isso é incrível!

- Eu sei! Respondeu Belerofon com a mesma intensidade.

Vlad voltou para "sua" casa de banho e lá ficou até a noite, quando duas mulheres adentraram o aposento e deixaram um baú, aparentemente leve, em um canto.

- Senhor Vlad. neste baú estão suas armas, roupas e peças de armadura consertadas e limpas. O senhor Heinz, pediu que lhe avisasse que logo mais virá buscá-lo para o jantar, e pediu para o senhor já ir se vestindo. O mesmo aviso já foi repassado aos seus amigos.

Vlad suspirou fundo e disse.

- Bem, meninas. Acho que temos que terminar nossa festinha por aqui. Em coro as meninas suspiraram e deixaram escapar aquele gemido de manha.

- Ahhh.

Poucos minutos depois os heróis atravessavam a imensa sala de jantar real, em uma enorme mesa, com nem mesmo um quinto da capacidade utilizada por um homem que com ambos os cotovelos sobre a mesa, esperava.

- Aquele é o Rei de Fergus. O homem sentado ao lado dele é Imoneph, um grande amigo de infância meu.

- Balash. Disse o rei, levantando da mesa e vindo ao encontro do guerreiro.

Balash se curvou em referência, ao que o homem imediatamente respondeu.

- Balash, um herói como você não deve se curvar a um homem comum como eu. Só temos a agradecer a vocês quatro pelo que fizeram.

- Mas... Como vossa santidade sabe? Perguntou Belerofon, Aoshi riu da referência utilizada pelo amigo.

- Ora essa, Fergus é um dos mais poderosos impérios de Gaia, não seríamos quem somos sem olhos e ouvidos em todo lugar. De qualquer forma, uma bela oriental nos trouxe uma esfera de cristal onde nos mostrou cada passo dado por vocês dentro do território maldito de Shamrock.

- Sim, sim. Essa Oriental, onde esta essa oriental agora meu rei? Perguntou Balash.

- Ela deixou o reino dois dias atrás avisando que em pouco tempo vocês chegariam aqui, que se valorizássemos nossa fortaleza e a vitória sobre a horda, só tínhamos quatro pessoas a quem agradecer. Os senhores.

O rei então deu as costas e voltou ao seu lugar a mesa. Tão logo sentou, disse.

- Acredito que você conheça meu amigo aqui, senhor Balash.

Era Imoneph.

Balash sorriu, e foi na direção do amigo que levantou com certa dificuldade. Vendo isso, Balash perguntou.

- Foi sério?

- Nada demais, uma carga de artilharia atingiu um prédio próximo, uma pedra meio grande caiu sobre a minha perna quebrando o fêmur. Voltarei a caminhar.

- Bom.

- Balash, sobre a Mary. Eu precisava sair de lá meu amigo, se ficasse mais um dia ia morrer.

Balash, com um sorriso cansado disse.

- Eu sei, meu amigo. Eu sei.

- Agora estimados, vamos comer.

Durante a refeição, regada a vinho e faisões, todos conversavam abertamente, nenhum vestígio da formalidade de se estar a mesa com um rei e seu alto conselho. Sentindo que havia abertura para entrar no assunto, Balash perguntou.

- Imoneph, ouvi dizer que agora lhe chamam de Gran Scheitz. Uma bela promoção.

- Um título pomposo para um trabalho que só um tolo podia querer.

O rei sorriu.

- Ignore-o Balash, seu amigo é um homem humilde, que não aceitou todo o pacote que se recebe ao ser condecorado como Gran Scheitz. Quis para si apenas as responsabilidades.

Imoneph fitava o rei.

- Urlach, você sabe que eu não queria o emprego. Só assumi por que aquele porco que ocupava essa cadeira era um incompetente.

- Eu sei disso, Imoneph. Jurgen Scandosky foi um dos maiores erros da minha vida. Um erro que foi apagado pela própria ignorância.

Seguiu-se um silêncio desconfortável de alguns minutos enquanto apenas se podia ouvir o barulho das mastigadas e um ou outro gole de vinho.

- Balash. Disse Imoneph, com tom muito sério, pondo a mão sobre o antebraço do amigo. - Fergus precisa de mais um dos seus milagres. Ainda continuou.

- Um dos que realizou na antiga guerra com McDollan, ou este último contra a horda. Completou o monarca.

- Claro, qualquer coisa.

Claro, qualquer coisa. Balash queria sair da monotonia do castelo o quanto antes. Não tinha o menor intuito de firmar acampamento em nenhum lugar do mundo depois do que aconteceu com Mary.

Desde que chegara ao castelo, durante o banho que tomou sozinho durante a tarde. Durante o crepúsculo, quando se preparava para o jantar. Via como se Mary estivesse do seu lado, a cada momento.

Precisava lutar contra algo, se concentrar em algo de vida ou morte, para que não se concentrasse apenas na morte de Mary.

- A oriental nos avisou de algo antes de sair. Disse Imoneph. - O comandante da horda não morreu.

Balash ouvia atentamente, ainda mais que o restante do grupo, pois já havia ouvido falar neste comandante quando Imoneph foi ao seu encontro, na noite em que Mary faleceu.

- Aparentemente ele ordenou que um terço da horda fosse atrás de você, para tentar impedir o ritual...

- Como ele ficou sabendo do ritual? Pra começar. Interrompeu Vlad.

- Não sabemos, de qualquer forma, ele pegou o restante das tropas e recuou ao extremo norte.

- Por que não o seguiram quando ele dividiu a horda? Seria o momento perfeito para acabar com a ameaça.

- Por que todas as nossas tropas restantes ou estavam ajudando a apagar incêndios, ou estava ferida ou, a muito custo, defendia a muralha. Milorde Aoshi, precisa entender que estivemos em desvantagem numérica de dez para um. Respondeu Imoneph.

- Sim, de qualquer forma, a mulher disse que foi cumprimos nosso papel deixando o comandante inimigo vivo. Ela disse que seria muito pior matá-lo. Completou o rei.

- Ela chegou a explicar o porque disso?

- Não, e quando perguntamos, se negou a responder.

Belerofon suspirou.

- De onde venho, um comandante inimigo morto, é um comandante inimigo a menos. Deviam ter matado essa criatura.

Aoshi pela primeira vez se pronuncionou.

- Não sei não Belerofon. Se uma mulher que, com apenas um ritual foi capaz de eliminar um terço da horda, lhe dá um conselho, acho prudente aceitar.

Belerofon levantou a sobrancelha em sinal de afirmação. Aoshi continuou.

- A única duvida que permanece é o porque dela haver indicado isso.

Todos foram para seus aposentos após acertarem que pela manhã sairiam no rastro da horda. A missão era muito simples, localizar a horda e a rota que ela seguia, voltar e informar o rei.

Vlad e Belerofon se recusaram a ficar nos aposentos do castelo por mais uma noite.

- Por mais macia que for a cama do castelo, nada se compara a maciez das cochas grossas de uma bela mulher.

Foram passar a noite no puteiro.

Balash, por outro lado, já queria sair durante a noite mesmo. Vlad se utilizou de toda sua sagacidade para convencer o amigo a esperar até o raiar do sol do novo dia.

- Balash. Disse ele. - É uma escolha óbvia meu amigo. Quer seguir rastros no meio da mata, se for necessário durante a noite? Ou sofrer uma emboscada dos malditos goblins. Esquece que eles veem na completa escuridão?

- Está bem, está bem. Disse Balash. - Vocês venceram. Passamos esta noite aqui.

Belerofon deu um beijo no ombro de Balash e uma sonora gargalhada.

- Sabia que o amigo não me decepcionaria. Vlad.

Vlad virou para o amigo.

- Vamos para o puteiro.

Balash, sem conseguir dormir, começou a ouvir ruídos vindos do quarto ao lado.

- Aoshi. Pensou.

- O que diabos o bastardo está fazendo? Embora soubesse que Aoshi não nutria nenhuma paixão por ele, e que o risco de ter que sair em duelo de espadas era grande, Balash resolveu ir até o quarto do companheiro de viagem.

Levantou trajando apenas os pijamas fornecidos aos convidados do castelo. Pegou a espada e saiu do quarto, sem fazer qualquer ruído. Caminhou até a frente da porta de Aoshi e encostou o ouvido na madeira.

Podia ouvir a voz, muito baixa, por trás da porta.

Se abaixou para ver pela fresta, pelo pouco que conseguiu ver, Aoshi, ajoelhado no chão falava em um idioma que Balash jamais havia ouvido falar.

- Orando? Por que Aoshi está orando? Para qual deus, ou deuses?

Do outro lado da porta, Aoshi repetia o ritual que nunca deixara de fazer. Todas as noites, desde que fora jogado nos Cachos de Léia, Aoshi orava pela alma de sua mãe, nas primeiras vezes para que ela fizesse a passagem de forma mais tranquila que quando morreu.

Depois passou a orar em memória dela. E pelos três homens que a assassinaram. Que nada acontecesse a eles, e que ele pudesse encontrar o homem de nariz torto mais uma vez. O comandante que o humiliou e quase o matou, anos atrás.

Terminando sua oração, Aoshi levantou, caminhou até a porta, abriu e viu Balash ajoelhado na sua frente.

- Boa noite companheiro. Se quisesse orar comigo, podiamos ter combinado algo durante o jantar.

Balash subitamente pareceu esquecer todas as palavras que aprendeu durante seus anos de vida. Um dos poderes mágicos que a vergonha tem.

- O que deseja?

- O-ouvi um ruido, fiquei preocupado. Então quando ouvi sua voz cadenciada, e tranquila, fiquei curioso. Peço perdão, Aoshi, pela intromissão. Foi muito rude da minha parte.

- Foi sim, Balash. Mas não foi nada demais também. Quer entrar? Se está cuidando da minha vida a essas horas, sabendo que sairemos cedo pela manhã, é por que não está com sono algum. Confesso que não durmo muito, então pode entrar sem problemas.

- Aceito, Aoshi.

Os quartos da fortaleza de Fergus tinham uma pequena cozinha, para os hóspedes que gostassem de cozinhar suas próprias refeições.

"O leitor que não vive no norte de Gaia não consegue imaginar a capacidade dos nortenhos de tratar bem seus hóspedes. Sob hipótese alguma você será convidado para ficar na casa de alguém, mesmo o mais pobre camponês, caso este não tenha as condições de lhe proporcionar uma estadia agradável."

"A fortaleza da Fergus, capaz de resistir a sítio por diversos meses, oferece uma estrutura surpreendentemente confortável aos hóspedes do rei."


" Quartos de hóspedes, mesmo que não da realeza, dispõem de cozinha e banheiros próprios. Algo inaceitável para os nobres do sul ou leste, acostumados a pompa e a tratar como porcos seus serviçais. E depois os povos do norte que são conhecidos como bárbaros."


Um Pouco do Norte - Capítulo 7 - Hospitalidade e costumes para com estrangeiros - Por Maximmus Dekatros

Aoshi servia o chá em silêncio, então Balash perguntou.

- Por que rezava Aoshi? Um pouco do chá caiu fora da cumbuca. Balash percebeu imediatamente que havia colocado o dedo em uma ferida muito antiga e profunda.

- Pela alma da minha mãe. E pelos três homens que a mataram. Balash sentiu um aperto no peito, aquele homem compartilhava da dor de perder, um ente querido.

- Sinto muito, Aoshi.

- Não sinta, não foi você quem a matou.

- Você tem os nomes dos homens? Alguma informação, paradeiro?

- Não. Durante diversos anos procurei eles por toda Gaia. 

- Entendo a tua dor.

- Mesmo nos anos em que vivia na periferia de Janen, bebendo água da chuva e comendo carne de rato, só pensava em obter muito dinheiro para pagar o maior número de homens especializados em rastrear pessoas para encontrar meus algozes.

- Não quero que pense que, quando digo que entendo a tua dor, que esteja falando apenas por pena. Perdi minha esposa algum tempo atrás.

- É o tipo de ferida que nunca fecha. Não é? Perguntou Aoshi.

- Aquele momento onde você se sente a pessoa mais inútil do mundo. Incapaz de salvar até mesmo a pessoa mais importante da sua vida.

- Sim.

Os dois então, como amigos, terminaram o chá, Balash foi para o seu quarto, Aoshi apagou as velas do seu e ambos dormiram como há tempos não dormiam. Talvez fosse ônus de revelar suas feridas a alguém de confiança.

Longe da li, nas montanhas de fogo de Krak-Aanatoa, uma poderosa erupção iniciava. Muito diferente das que ocorriam diariamente pelas ultimas centenas de anos.

Dos poucos livros que descreviam a principal montanha, Ungorah, o Umbigo de Gaia, poucos descreviam a desolada paisagem com a perfeição que Amanhyac Selaief o fez em A Última Canção de Fogo, o último capítulo de seu livro sobre suas aventuras em busca da imortalidade.

"Se algum dos cinco infernos do submundo se aproximar da visão de Krak-Aanatoa, vendo minha alma aos deuses antigos."

Iniciava ele.

"As cinzas da enorme cadeia de vulcões que cerca o Ungorah não permite que um homem veja muito mais longe que o alcance de seus próprios braços, algo que torna muito complicado caminhar por um rochedo que flutua sobre lava vulcânica."

"Essas cinzas são tão venenosas que poucos homens sobreviveram depois de meio dia de caminhada após a passagem de Jurag."


"A passagem de Jurag é uma enorme fenda na cadeia de montanhas que cerca Krak-Aanatoa, de forma muito semelhante as muralhas externas de uma enorme fortaleza. Tão logo se faça a passagem pela fenda, se sente o aperto no peito, depois são as tossidas, as cusparadas de sangue, as cusparadas de sangue negro e então, menos de meio dia de caminhada, a morte."


"Na minha última expedição a Krak-Aanatoa, saímos em uma caravana de pesquisadores e exploradores de três reinos, o intuito? Mapear o reino de fogo. Mais de três mil homens saíram de Canópus. Dois carregadores e eu voltamos, e isso por que nos recusamos a seguir viagem depois de começarmos a tossir sangue. Nossos amigos não tiveram a mesma sorte."


"Mas isso é apenas a borda do fosso do inferno. O pouco que podíamos ver pela grossa cortina de cinzas eram sinistros chafarizes de chamas e lava voando acima das nuvens negras e criaturas gigantescas."

"Ao contrário do que o leitor pode imaginar, não eram dragões, ao menos não nas formas convencionais. Uma das criaturas que vi lembrava uma centopeia, mas devia ter o comprimento da muralha que cerca Fergus."

A Última Canção de Fogo - 20º Capítulo - Amanhyac Selaief

De dentro do Ungorah, durante a explosão de lava, uma estranha figura emergiu. De tamanho descomunal, e banhada em lava vulcânica, a criatura desceu pela montanha e fitou por algum tempo a fenda que separava o reino de fogo, dos povos civilizados de Gaia.

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