quarta-feira, 18 de julho de 2012

4 vidas em Gaia...

Aoshi chorava feito um bebê recostado em uma árvore, lembrava de sua mãe, dos sujeitos que a mataram brutalmente, e de seu embate, falho, contra eles. Para saber o que aconteceu até aqui... Clique ali no botão "4 vidas em Gaia" na barra abaixo do título do blog...


Ao fundo do poço, e ao topo da torre


Soluçava e pensava no que faria agora, sozinho no mundo. Não podia voltar para casa, pois os criminosos sabiam onde ele morava, e podiam usar a casa como refúgio. Já havia perdido o rastro deles, então não havia nada que pudesse fazer para reencontrá-los, e mesmo que fizesse, já viu que não os venceria de forma alguma.

Eventualmente, Aoshi parou de chorar, em parte por que sua barriga roncava alto demais, de fome, para que pudesse se concentrar em suas mazelas. Em parte por que já havia cansado de tudo aquilo. Decidiu que faria como sua mãe pediu, decidiu que não mais procuraria pelos monstros... Se eles o encontrassem no futuro, se arrependeriam de tudo e muito mais.


A estrada a sua frente não tinha transito ininterrupto de caravanas, uma passava, algumas horas depois, outra passava, e desta forma a grama e o mato nunca cresciam por ali. E isso que a definia como uma estrada.


E tão logo Aoshi viu a última carroça de uma caravana, se preparou. Entraria pela parte de trás, tentaria encontrar algo para comer, algo de valor e iria para cidade mais próxima, Janen, que estava em reconstrução depois de um incidente sombrio do qual ninguém parecia falar.


Todos que viviam na cidade, até mesmo os cinco mil soldados que viviam ali foram trucidados, e esta era a exata palavra utilizada pelos que pouco sabiam sobre o incidente, trucidar. A maior parte das construções também foram derrubadas, com exceção das enormes muralhas e o castelo, que sofreram apenas alguns "arranhões".


Aoshi se jogou da carroça e correu mata adentro, não conseguia acreditar na sorte que tivera... Encontrou uma bolsa com 3 moedas de ouro, 20 de prata, e uma pequena quantia de carne seca, pequena, mas o suficiente para saciar sua fome.


Olhou para o céu, sentiu um pouco de vergonha e disse.


- Mãe, é um caso de necessidade, eu necessito disso mais que aquele homem. Sem falar que não é como se eu fosse fazer isso todos os dias, né?


Mas Aoshi fez isso sim, todos os dias. O dinheiro vinha fácil, tão fácil quanto a vergonha diminuía. A cada dia as habilidades de Aoshi iludir e enganar aumentavam, da mesma forma o dinheiro e a fama do jovem ladrão cresciam.


Na mente de Aoshi, ele não era um criminoso, era uma vítima dos que eram mais fortes que ele, isso motivou que ele buscasse se tornar o mais poderoso dentre todos. Desta forma podia evitar que a sua história se repetisse.


Não demorou até que Aoshi trouxesse outros órfãos de rua para debaixo de suas asas, e a cada dia essas asas cresciam mais e mais.


Aos dez anos, ninguém ousava desafiá-lo no bairro oriental da periferia de Janen, fosse em um duelo de espadas, fosse em influência no submundo.


O novo Rei de Janen, Nigel Santussen, tinha um fraco por bebidas e mulheres, nascido 25 anos antes, em um vilarejo próximo a Janen, não passava de um fantoche. Posto no poder pelo império de Akatosh, pouco se importava com a crescente liderança entre as massas. 


Akatosh precisava de recursos naturais, comida e peles. Haviam outros interesses, mas estes dois eram os principais, e como Janen, antes do desastre de anos atrás era o celeiro de Gaia, uma ocupação amistosa da enorme carcaça era mais que prevista.


A única questão era quem chegaria primeiro, e Akatosh venceu a corrida.


Enquanto isso, Aoshi se afastava do trabalho manual e entrava para os negócios, a população da periferia pagava cinco moedas de cobre ao governo de Janen apenas para ali viver, e pagava quinze moedas de cobre a Aoshi por curandeiros e segurança nas ruas.


Os assassinatos começaram a diminuir, bem como o tráfico de Nether, uma droga trazida do sul, e inserida nas regiões periféricas justamente por ordem do consórcio de Akatosh, os verdadeiros governantes de Janen.


A inserção desta droga nas regiões de maior vulnerabilidade foi planejada com o intuito de manter a população sob controle, pagando os tributos sem jamais reclamar das péssimas condições do reino.


Aoshi tinha dezesseis anos quando estabeleceu o tratado da "Seda e do Ouro", sua real virada na vida. O tratado garantiu a união da guilda de ladrões e a guilda do comércio. Isto foi um grande mistério para toda população de Janen, como alguém tão jovem conseguira colocar os lobos e as ovelhas sob um mesmo teto, sem que ambos se matassem.


E ainda mais surpreendente, conseguindo agradar ambos os lados com um acordo onde viveriam em harmonia e lucrariam com isso. O conteúdo deste tratado poucos homens de Janen conhecem. 


Todos estes são fiéis a Aoshi.


Mesmo assim o regente de Janen parecia não se importar com a acensão meteórica de Aoshi ao poder do submundo.


Cada órfão recrutado por Aoshi no início de sua escalada ao poder era seu tenente hoje, cada um destes controlava um bairro de Janen, e uma milícia. Ao todo, mil homens respondiam a Aoshi.


Quando Aoshi completou vinte anos, foi notado pela primeira vez. Ironicamente, por um descuido.


Depois de muito tempo no submundo, entendeu que sua suave escalada ao poder, um dia ou outro, passaria pelo crivo dos ricos e poderosos do terceiro círculo de Janen. Para entender isso, precisamos entender como Janen funciona, e poucos entenderam o antigo reino como Antoine Blu, famoso escritor que viveu em cada um dos círculos durante sua vida.


Abaixo segue trecho de seu livro "Muros", um tratado sobre Janen.


"Janen, desde os tempos remotos foi criada com divisão entre castas, no círculo externo da enorme fortaleza, o maior, representava o celeiro do reino, com enormes áreas de terras destinadas ao plantio e criação de animais.


Mais pacífica e segura, essa região era tida como um verdadeiro paraíso para os que chegavam ao reino, e mesmo para os que viviam no próximo círculo.


O segundo círculo era conhecido como A Periferia e abrigava toda massa de trabalho manual de Janen. Mineiros, comerciantes, estalajadeiros, taverneiros, ferreiros, todos estes ofícios considerados, "de segunda", viviam no segundo círculo, e sua passagem aos círculos internos só se dava com uma autorização por escrita que era entregue por um miliciano na "casa" da pessoa.


O fornecimento de água é feito através de uma extensa rede de tuneis, a água, suja e completamente imprópria para consumo, é distribuída por uma rede muito próxima da rede de dejetos e frequentemente está contaminada.


O resultado é óbvio. O segundo círculo é um verdadeiro caos, o Nether, apesar da redução, está sempre presente, o álcool em excesso e a população em constante epidemia de pragas e pestes é um verdadeiro desastre anunciado. Diferente do círculo interno.


 O terceiro círculo existe para membros da alta sociedade de Janen. Poetas e artistas renomados, alquimistas, estudiosos, filósofos, e comerciantes de sucesso de Akatosh que migraram a nova terra buscando oportunidades de ampliar suas fortunas.


Ruas limpas, repletas pessoas bem vestidas e saudáveis, a milícia presente em cada esquina.


O fornecimento de água deste grupo vinha de um aqueduto que passava acima dos maiores prédios de Janen. Fora construído antes mesmo do próprio castelo ser reconstruído, anos antes. Completamente financiado pelos comerciantes mais ricos de Akatosh.


É irônico que a população mais carente, da periferia, veja a água mais pura passando sobre suas cabeças, enquanto tem de saciar a sede com a água podre que vem debaixo da terra.


Mas a "área nobre" de Janen não existe simplesmente assim, livre de problemas, o Nether, incontrolável como qualquer outra droga passou a fazer parte das suntuosas festas com faisão e vinhos caros.


Volta e meia é encontrado o corpo de um herdeiro de uma família tradicional, devido aos excessos. Obviamente que o caso é abafado e qualquer miliciano que abra a boca, pode acabar com ela cheia de terra."


Já que decidiu caminhar pelas ruas limpas, com lindas árvores frutíferas e tranquilidade, decidiu que ele mesmo escolheria o dia do teste. Não demorou, obteve um convite para uma festa de público seleto no círculo interno de Janen.


Nesta noite, nesta festa específica, Aoshi foi reconhecido por um dos que não simpatizavam com Nigel, o fantoche de Akatosh. Logo foi exaltados por outros de mesma opinião, e com seu nome na boca dos abastados, Aoshi teve que sair pela cozinha, quando um de seus contatos lhe informou que uma pequena guarnição o esperava a frente da mansão.


Nigel não gostara nada de saber que um homem "do povo" passava a frequentar as festas do império, gostava menos ainda que este homem levantasse como uma possível liderança a assumir o trono.


No outro dia foi posto um prêmio por informações sobre o paradeiro de Aoshi, criminoso do estado.


Aoshi até ficou magoado por um tempo, decidiu então que sua tomada deveria ser algo súbito, sem amenidades. Desapareceu nas sombras pelos anos seguintes, atuando secretamente através dos seus tenentes.


Cinco anos se passaram.


O exército de Akatosh alocado em Janen tinha um efetivo de dois mil homens. Destes, mil eram nativos de Janen, e estavam sob direta influência de Aoshi, ou um de seus tenentes.


Dos doze primeiros orfãos que Aoshi reuniu sob sua asa, dez ainda estavam vivos e agiam como tenentes do submundo, cada um controlando um esquema da cidade, o esquema de jogos, o esquema de proteção, e assim por diante.


Cada um destes tenentes tinha aproximadamente quatrocentos homens sob seu comando, homens treinados, bem alimentados e equipados.


Aoshi tinha mais de quatro mil "soldados", e mil simpatizantes dentro do próprio exército de Janen.


A coroa ainda não havia passado de mão, mas todos sabiam que era apenas uma questão de tempo. Pouco tempo.


Na aurora desta troca, em um movimento desesperado, os mil homens fiéis a Nigel, foram relocados do quarto círculo, a área militar para o círculo central, onde ficava o castelo e centro de governo de Janen.


Em uma noite de verão, um homem corria por entre as enormes pilastras, subiu a escadaria de mármore repleta de estátuas, passou por sobre a macia tapeçaria trazida de Akatosh até que viu ao fundo de um longo corredor a enorme porta dupla de madeira de lei.


Empurrou as portas com força e bradou.


- Milorde, estamos sendo atacados.


Viu então a luz da lua entrando pela enorme janela aberta, viu também a espada negra, e a mão que a segurava. Sangue corria pela lâmina e pingava no chão.

O vulto se virou na direção do serviçal, e caminhou na direção da luz, passando por sobre o corpo sem vida de Nigel.


O serviçal, com um sorriso no rosto, limitou-se a dizer.


- Boa noite meu rei, já vou providenciar para que o lixo seja retirado.


Aoshi sorriu.

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