sexta-feira, 27 de abril de 2012

4 vidas em Gaia

O clima na região de Fergusson nesta época do ano costuma ser rigoroso, todas as fazendas estão cobertas de neve e apenas as casas, os celeiros, e silos de proteção dos grãos se destacam na paisagem. Por ser uma região de pradarias, o vento gelado parece cortar a pele, e a forte nevasca de três dias atrás em nada ajudou na sensação térmica.


Com passos cadenciados, e puxando um pequeno carro cheio de lenha vinha um homem pelo campo em direção a casa no topo de um aclive. Já estava perto, quase podia sentir o calor da lareira e o cheiro da comida.


Ouviu em meio ao assovio do vento os som de cascos, virou para o leste, viu um cavaleiro em alta velocidade vindo em sua direção, parou, tirou o colete que usava para puxar o carro com lenha, abriu calmamente a enorme veste de lã de carneiro e pôs a mão no cabo da espada.


De dentro da casa não se podia ouvir nada, apenas o barulho das panelas, e a madeira estalando na lareira e no fogão. Isso graças ao trabalho de reforma durante todo Outono para deixar a casa com o mínimo de entradas de ar o possível. Um inverno onde as temperaturas tendam a ficar entre 10 e 15 graus negativos durante semanas não é qualquer coisa.


Os bisões que viviam nas pradarias estavam mais que acostumados, os próprios cavalos também eram preparados para lidar com tal clima, mas os humanos, nem tanto.


Quando viu o peitoral da armadura com o escudo tradicional da casa de Fergus, Balash deixou a espada, fechou o agasalho e com os braços cruzados esperou. Aquilo só podia ser um mal agouro, qual cavaleiro sairia num clima daqueles se não fosse muito importante.


- Balash.


- Imoneph? É você? O homem desceu do cavalo, removeu a cobertura do rosto, era realmente Imoneph, companheiro de batalha de Balash durante a guerra civil que separou Fergusson de MacDollan três anos atrás. Balash um jovem e promissor guerreiro, muito hábil no combate com espadas longas, Imoneph, um guerreiro mais experiente, era um mestre na cimitarra.


Os dois amigos se abraçaram.


- Bom lhe ver, velho amigo. Veio para o jantar?


- Amigo, não temos muito tempo. Preciso que você e Mary peguem os cavalos e venham comigo para o sul.


- Do que está falando?


- Orcs, milhares deles, atacaram a cidade de Barrow algumas horas atrás.


- Barrow fica a cem quilômetros daqui, Imoneph, não tem jeito destes animais cobrirem tanto terreno em um dia inteiro, quem dirá em uma noite. Sem falar que o exército de Fergusson é  mais que capaz de lidar com alguns batalhões de Orcs desorganizados.


- Normalmente, amigo, concordaria. Mas algo não cheira bem. Se você quer uma explicação para sair daqui, vamos entrar e lhe explico melhor.


Os dois amigos estavam sentados ao lado da lareira, Balash fumava um cachimbo enquanto  Mary cuidava da louça, e Imoneph falava mais sobre a situação.


- Algo está diferente. Este não é mais um ataque impensado onde milhares de Orcs se lançam pra morte, algo me diz que eles tem um comandante.


- Por que pensa assim?


- A cidade de Barrow foi a última a ser atacada, mas não foi a primeira. Perdemos comunicação com outros quatro vilarejos ao norte e um de nossos melhores rastreadores...


- Nikholey?


- Sim, Nikholey se aproximou de Sandokhai e disse ter visto milhares de Orcs acampados ao redor do vilarejo e uma grande tenda de couro de bisão albino no centro.


- Sim, a tenda do comandante da horda.


- Sim, mas as tendas sempre foram de couro normal, sem falar que bisão branco só encontrado no extremo norte do continente, e nem mesmo a pele grossa dos Orcs suporta o frio extremo daquelas regiões.


- Entendo, mas o que você acha que pode estar comandando a horda... E por que nosso exército ainda não fez nada a respeito.


- É simples amigo, nos últimos anos, cada vez menos pessoas tem ficado no extremo norte do país, você e Mary mesmo, vocês são uma das últimas três famílias que separam a horda da capital.


Balash ouviu quieto, realmente depois da guerra que separou o leste, Fergusson, do oeste, MacDollan, pouquíssimas famílias quiseram arriscar ficar tão perto da fronteira com o branco infinito, como era conhecido o extremo norte nas antigas tribos que habitavam a área.


- Nosso exército ainda está reunindo forças, não podíamos arriscar lançar um ataque para defender mil, mil e quinhentas pessoas e acabar perdendo a capital por um erro estratégico. Ao menos foi isso que o Conselheiro Chefe em Armas, Scandosky me disse quando lhe perguntei a mesma coisa.


- Lixo, nunca entendi como você pode continuar nas forças depois da guerra.


- Não me julgue, se não fosse por mim você receberia essas notícias pelos Orcs, durante o café da manhã.


- Hum, dos males o menor. E quanto ao líder da horda. Alguma pista?


- Não, como conhecemos tão pouco sobre o extremo norte, como tão poucas explorações do território gelado tiveram sucesso existem apenas especulações...


- Te conheço, velho amigo... Você tem um teoria própria. Me fale.


- Na lua passada, enquanto investigava a movimentação da horda, estive em Barrow, e lá fiquei sabendo de uma velha bruxa, cujos poderes eram inegáveis. Ao menos era o que dizia a população local. Pensei em visitá-la, se soubesse de algo, seria ótimo, senão, iria presa por heresia.


- Sim.


- Ela me falou sobre o nascimento do primogênito de uma nova raça, um tipo de cruzamento profano entre dragões e gigantes de gelo.


- Isso é impossível, os dragões já estão extintos há décadas.


- Eu também achava isso. Então, a velha pôs a mão na minha cabeça e não sei como ela fez isso, me mostrou a aberração. Você conhece as gárgulas que estão na catedral da capital, sim?


- Claro, lembro delas sim.


- Pense em uma daquelas com cinco metros de altura.


- A bruxa só pode ter lhe enfeitiçado. Caso contrário ela própria já teria sumido de Barrow.


- Foi o que ela fez Balash, ela sumiu, nunca mais a encontrei, e até perdermos contato com Barrow, o Rei não via motivos sérios para mobilizar as forças armadas, apenas mandou reforçar a milicia da cidade com mais dois mil homens.


- O que não é absolutamente nada contra a horda.


- Exato. E eles estão avançando em linha de combate, engolindo tudo o que está no caminho. Por isso, amigo, vim te avisar. Você e Mary tem que sair daqui agora.


Balash continuou em silêncio enquanto olhava para o fogo.


- Eles avançam em linha contínua de combate, você disse?


- Sim.


Balash levantou, caminhou até a janela, então apertou os olhos, virou de súbito e gritou.


- Mary! Se agasalhe.


Imoneph se aproximou da janela, pegou seu agasalho e disse.


- Vou esperar por vocês lá fora, peguem apenas o necessário. E saiu.


Não demorou muito até que os mais de cinquenta Orcs cercassem a casa, nessa altura, os três cavalos já estava muito longe, o suficiente para sequer serem notados pelos monstros.


O primeiro Orc arrombou a porta e entrou na casa, o restante viu a parte superior de seu tronco voltar voando pelo mesmo lugar, ao mesmo tempo em que ouviram o rugido animalesco vindo de dentro da casa. Então ouviram em uma voz quase animal.


- Venham! Seguido de um urro assustador. Orcs não sentiam medo, isso vinha em boa parte de não aprenderem qualquer coisa sobre o sentimento, medo. Nesta noite eles aprenderam, por mais que fossem quarenta e nove deles contra um, pareciam não conseguir a coragem necessária para entrar no aposento. Nisso, chegaram mais cinquenta Orcs que vinham ao leste desta tropa, e cinquenta do oeste.


Coragem através do número... Isso valia entre os covardes... E então começou a invasão, a situação não parecia mais favorável que com o primeiro que entrou, pois só se via membros decepados e sangue jorrando pelas frestas que se abriam nas paredes, então uma explosão e silêncio, exceto pelos quinze Orcs que, em chamas saíram gritando de dentro da casa.


Sem dar trégua, os Orcs começaram a atacar novamente, mas conforme a fumaça dissipava, podiam ver, a casa completamente estava completamente vazia, até que ouviram o barulho que lembrava o chocalho de uma cascavel. Por baixo da terra, em um túnel cavado justamente para uma emergência, Balash corria como louco, subiu pela escada e por uma das frestas do galpão ficou olhando.


- Seis meses para construir... Três anos morando... Era um ótimo lar... Então a enorme explosão. O que poucos sabiam era que Balash, além de exímio espadachim era um dos melhores estudiosos de alquimia do reino. E o que ninguém sabia é que com toda segurança do mundo, Balash forrou toda base de sustentação da sua casa com pólvora, e boa parte do terreno ao redor da casa também.


Balash abriu calmamente a porta do galpão e viu todos os corpos espalhados ao redor da enorme fogueira onde antes ficava sua casa, voltou até seu cavalo, montou e saiu cavalgando pela noite para encontrar sua mulher e seu amigo.


Não demorou muito encontrou os três cavalos, e um rastro de sangue na neve... Saltou do cavalo e entrou correndo na casa abandonada, viu a lareira acesa e Mary deitada próxima a ela. Antes que Balash pudesse se aproximar, Imoneph o interrompeu dizendo.


- Não, ela está descansando.


- O que aconteceu?


- Saímos em disparada tão logo você fez o sinal, mas algum dos Orcs deve ter nos visto e usando uma balestra, acertou Mary... Não sei como ela sobreviveu até chegarmos aqui... Mas o ferimento parece só piorar, a seta devia estar envenenada.


- Merda.


- Acho que não temos muito o que fazer amigo. Só orar.


- Alquimia me tirou debaixo de cento e cinquenta espadas nesta noite... Não deuses...


Mary pereceu durante essa noite, a flecha realmente estava envenenada, e Balash nunca se perdoou por ver sua amada morrer nas suas mãos, sem poder fazer absolutamente nada. Decidiu ali que buscaria por toda sua vida, se necessária, por uma cura para o maior mal que aflige a humanidade. A morte.

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